Duendes - Catar.se

Opa! Fui selecionado com outros para a antologia de fantasia sombria Duendes - Contos Sombrios de Reinos Invisíveis, organizado por Ana Lúcia Merege. O livro estava em financiamento coletivo, seguindo este link, e já encerrou. Obrigado a todos que participaram!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A Estrada (por Victor Barone)

A resenha desta obra pós-apocalíptica pode ser encontrada no blog do meu prezadíssimo Barone, o Escrevinhamentos.

Ela recebeu uma adaptação em tempos recentes, com Viggo "Aragorn" Mortensen.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A Sorte dos Girinos


A Sorte dos Girinos
(Quartet, 1999), de Carlos Eugênio Baptista - o meu prezadíssimo Patati - é seu romance de estréia. Patati é mais conhecido por ser roteirista de história em quadrinhos, e profundo conhecedor do campo, como podemos ver em seu blog.

O livro tem uma estrutura epistolar, baseando-se em cartas e diários para apresentar personagens e enredo, terminado em diários da personagem central, conforme a história finalmente alcança o tempo presente. Em 12 capítulos, os 10 primeiros são cartas de resposta a Janete, que procura por um certo Tadeu, entrando em contato com diversas pessoas para tal. Nas cartas, diversas pistas do que na verdade ocorre vão sendo apresentadas, enquanto muita nostalgia por parte dos remetentes é apresentada, envolvendo conhecidos em comum e alegres fatos de uma época, mesmo de uma cidade, que apesar de poucos anos antes, menos e menos se torna conhecida por seus habitantes. Nostalgia pura a princípio, é importante ressaltar que as cartas soam como se fossem realmente de pessoas diferentes, mudando o estilo a cada capítulo. Alguns mais formais, outros casuais, e pelo menos um em uma espécie de dialeto próximo, ou preferência pessoal. Ao longo de cada um, Tadeu vai sendo revelado, de mais um garoto, no meio da turma, que chegou meio que por último, até alguém único, inesquecível, adorado por todos, com uma ou outra excentricidade, que marcou as vidas de quem o conheceu.

O livro se passa em um Rio de Janeiro de 2040, onde enormes torres são construídas, descaracterizando velhos bairros e vizinhanças, e sendo habitadas apenas por estrangeiros vindos do hemisfério norte, como se nada fosse. Do garoto do passado curtido a esta inevitável mudança, intriga, tecnologia ilegal, ação e tiroteio, tribos urbanas e cultos esotéricos - o Rio 2040o. de Patati é ainda uma cidade de beleza e do caos, cyberpunk cuja ambientação apenas lamentamos ver pistas e descrições indiretas (apenas os bairros da Ilha do Governador e de Fátima chegam a realmente participar, com menções ou passagens rápidas por alguns outros, de a quantas anda seus estados), janelas de um lá fora que ocorre apenas quando evocado, ao invés de uma explanação mais direta - melhor assim, por outro lado, pois sempre nos convida a preencher certas lacunas.

Apesar de tudo, é um livro com uma batida leve. A nostalgia, o carinho perdido, tudo isto ainda está conosco quando chega o clímax, as terríveis revelações e tudo o mais. E o estilo da narrativa, apesar de já àquela altura ser o de apenas da protagonista, ele próprio se transforma, mergulhando na poesia, apenas pelo apreciar da paisagem, reforça esta idéia - apesar de suspeitas minhas que a sanidade mental de Janete esteja por trás desta escolha. ;-)

Mas ao contrário do que pode se esperar de uma obra cyberpunk, como já foi dito, tudo termina com uma aposta na esperança, no dever cumprido a recompensa, e que de alguma forma, assim como o Rio continua lindo, o Rio continua sendo, sempre haverá um amanhã bem-vindo, sempre um amor para continuar vivendo.

A Sorte dos Girinos. Bela estréia, meu velho.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Eu Sou a Lenda

Eu Sou o Smith? Não, creiam: é muito melhor!

Prosseguindo no meu périplo sanguíneo, li Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson, que recebeu três adaptações cinematográficas: uma de 1964, com Vincent Price, outra de 1971, com Charlton Heston, e uma mais recente, com Will Smith. Não assisti a primeira, mas a impressão que se colhe é que há uma ordem decrescente em termos de qualidade do texto desde a primeira adaptação. Havendo visto as outras duas, posso concordar que estes dois pontos formam uma reta.

Matheson é um escritor e roteirista que escreve até hoje, desde os tempos do Além da Imaginação original. É seu o que talvez seja o mais famoso episódio, Nightmare at 20000 feet, refilmado no longametragem do cinema de 1986, e mesmo parodiado nos Simpsons. Para a série original de Jornada nas Estrelas, escreveu The Enemy Within, uma ótima história sobre a necessidade do equilíbrio entre o Bem e o Mal em um ser humano. Os ótimos contos que acompanham no livro a história-título dão uma boa idéia de seu talento como roteirista, é fácil vê-los como algum episódio de Além da Imaginação, The Alfred Hitchcock Hour, ou congêneres.

A edição é da Novo Século, 296 páginas, e traz a história-título do livro, e ainda mais dez contos de Matheson. Para quem não conhecia nada, é uma oportunidade ótima de conhecer a obra do autor.

O livro abre com a própria, e é uma história fascinante de loucura, dor e desespero. Em resumo, Robert Nelville é o último Homo sapiens da Terra, após uma epidemia ter se alastrado pelo planeta e transformado, quem não morreu (de vez), em criaturas movidas pelo desejo de sangue. Ele se aquartela, noite após noite, em sua casa, fortificada contra ataques daqueles que, toda a noite, surgem para tentar pegá-lo. De dia, faz a manutenção dos estragos externos da noite anterior, procura novos víveres, e sai à procura de vampiros, dormindo, para liquidá-los. A sanidade de Nelville é corroída dia após dia, entrando em uma espiral auto-destrutiva envolvendo álcool e ataques de fúria, uma vez que parte de si se questiona, continuar para quê?

Talvez essa exploração do comportamento de Nelville seja o ponto alto do livro. Ele se torna alguém que qualquer um temeria, só de se deparar - conquistar a confiança de alguém como ele (e verdade seja dita, em um mundo como aquele), só se um pouco de força física estiver envolvido - leiam, e entenderão: como em Frankenstein, monstro quer afeto.

Por monstro, percebam: nem a civilização que ele se faz cercar - sua casa é o último baluarte disto, com luz elétrica, carro, música clássica à noite entre outros confortos e necessidades - o impede de se brutalizar. Era, afinal, alguém sozinho, que mesmo na ameaça noturna cotidiana, liderada por um conhecido quando vivo, podia encontrar o conforto da familiaridade.

Essa inversão de papéis progride até um final surpreendente, com questionamentos a respeito de normalidade.

Meus únicos poréns cercam a respeito de uma certa lógica interna - que não vou explicar para não estragar ainda mais - assim como um andamento entre a parte 3 e parte 4 da história: pareceu-me que há um salto no tempo indevido. Mas não é nada que desfigure essa grande história.

Para quem não conhece Matheson, o livro ainda traz dez contos, como disse acima:

Talentos Enterrados é simplesmente estranho, uma estranheza que desafia gêneros pré-estabelecidos.

O Quase Defunto e O Funeral são as histórias mais bem-humoradas - e se passam em funerárias.

Dança dos Mortos conta, em um futuro pós-apocalíptico, uma perturbadora história de mortos-vivos e um quê de "juventude transviada". Recebeu uma adaptação para a tela pequena alguns anos atrás.

Casa Louca se aproxima da história-título, ao enfocar um protagonista viciado em seu mau-temperamento, ao ponto de se infligir machucados inconscientes ou quase - fora como ele influencia o ambiente ao redor. Aproxima-se bastante da história-título, no aspecto da fúria autodestrutiva.

Dos Lugares Sombrios contrasta o que há de mais primitivo com o que há de mais civilizado, interna ou externamente. Sexo e magia negra do bom.

De Pessoa para Pessoa encerra o livro, com outra história que facilmente podemos visualizar em preto e branco, como em um episódio de uma série antiga. Loucura, vozes na cabeça, e um toque de humor negro.

São estes histórias que giram em torno de desespero, angústia, fúria, dor física e sangue. A prosa é rápida, como convém a um roteirista.

Uma última ressalva é que o livro merecia ser melhor cuidado. A edição da Novo Século derrapa com a tradução ("Fácil como uma torta!") e a revisão ("Begone, Van Helsing e Mina e Johnathan e os olhos injetados do Conde Drácula!") aqui e ali.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Editora Aleph pede sugestões

Moçada, a Aleph está pedindo sugestões de livros que eles possam publicar. Pitaqueiem à vontade. :)

terça-feira, 4 de maio de 2010

Anno Dracula


Havendo finalmente lido o romance de Bram Stoker, logo na entrada abaixo, peguei para ler o livro que me motivou a comprá-lo, um excelente lançamento da Editora Aleph.

A Aleph, para quem não lembra ou conheceu, anda fazendo as vezes da finada Editora Hemus, que nos anos 60 publicou muito material de ficção-científica, além até do feijão com arroz Asimov-Clarke de sempre. Mas infelizmente fechou, e é cada vez mais raro encontrar seus livros nos sebos da vida. É, para o fã, um serviço de utilidade pública!

Então, vamos lá: Anno Dracula (1992), por Kim Newman, é o que é chamado Ficção Alternativa: sobre a obra de outra pessoa, você cria a sua, com personagens de outros em novas situações propostas pelo novo autor. O caso mais conhecido é o da Liga Extraordinária, péssima adaptação cinematográfica de A Liga dos Cavalheiros Extraordinários, em que diversos personagens criados no Século XIX por diferentes autores são reunidos por suas experiências e capacidades únicas para lutar contra um grande perigo à Coroa e ao Império Britânico. Enquanto o filme pode se sustentar, se você não conhecer a história original, como algo maluquete-divertidinho que você esquece em cinco minutos; a HQ original é estupenda, figurando personagens como Alan Quartermain, Mina Harker, Capitão Nemo, etc.; usando como base seus contextos originais, mas que isto não atrapalhe o novo que é criado.

Anno Dracula parte de um princípio semelhante, pegando a história original de Bram Stoker e partindo do pressuposto de que, no confronto no hospício em Carfax, em que ele é pego sugando o sangue de Mina Harker, ele não foge, mas enfrenta e varre o chão com os heróis, morrendo Quincey Morris e Johnathan Harker no processo. Daí para fora, temos a ascensão social do Príncipe da Valáquia até se casar com a Rainha Vitória - e o Império Britânico agora está sob nova direção: os empalamentos públicos estão ai para mostrar isto.

Para montar seu novo governo, Drácula nomeia diversos vampiros para lugares-chave e cargos de comando; e começa o desfile de nomes conhecidos (ou nem tanto): o primeiro-ministro da Inglaterra, por exemplo, é o personagem de John William Polidori em seu romance de 1816 The Vampyr, um dos primeiros vampiros literários em língua inglesa, bem antes do romance de Bram Stoker. Para sua terrível Guarda Carpatiana, quatro outros vampiros são resgatados de obras diferentes e, munidos de brutalidade, presas, espadas e armaduras, são re-introduzidos nesta obra como sendo velhos soldados a comando de Drácula, ainda contra os otomanos.

A edição brasileira, aliás, conta com um compêndio onde cada personagem é identificado com sua obra e autores originais, e os personagens históricos recebem uma breve biografia. Como O. Aragão aponta em seu ótimo pósfácio, Newman não se prende à literatura somente, mas lançando mão de personagens ainda de televisão e cinema.

Não conhecer estes personagens, ou totalmente desconhecer literatura vitoriana, entretanto, não diminui o prazer da leitura. Na verdade, Newman põe em primeiro plano seus próprios personagens, utilizados antes e depois em outros de seus livros, especialmente Charles Beauregard e Mademoiselle Geneviéve Dieudonné (esta, recorrente em obras do autor).

Aliás... talvez esteja o único problema a mais que vi no livro: assim como Quentin Tarantino faz em seus filmes, o excesso de referências parece antes servir a um desfile de cultura da área focalizada antes que realmente sirva ao desenrolar ou ao ambientar da história em si. Como já me definiram, é a situação-piscadinha que o autor faz ao leitor/espectador: "Olha, sacaram quem é esse cara? Hein, hein? É daquele livro, naquela hora! *piscadinha, piscadinha*"

Creio que a tentação seja grande demais, às vezes, para um autor que tanto se apaixona sobre o que tanto pesquisa resistir. Mas isso não compromete a fluência da leitura, em hipótese alguma -- aliás, talvez seja esse o principal ponto de diferença de literatura vitoriana: ritmo.

Newman não poupa esforços em mostrar uma nova sociedade londrina de fim de Século XIX. Em algum dado momento não especificado desde os três anos que separam Drácula de Anno Dracula, a existência de vampiros é dada como factual, apenas outro fenômeno natural, por mais estranho e peculiar que seja: ao mesmo tempo em que, rapidamente, os vampiros vão se tornando a classe superior, ainda há vampiros em todas as situações financeiras e sociais, e a vida eterna não exatamente mudou para melhor as condições destas pessoas. O ato de morder e sugar o sangue virou mais uma ferramenta de prazeres, incluída na prática da prostituição. Não há exatamente o glamour que certas obras ou visões podem dar do fenômeno do vampirismo.

É uma Londres que não se apóia, para seus conflitos, apenas na dualidade vampiros x quentes, mas também é a Londres dos anarquistas, socialistas, republicanos de modo geral, descontentes e, consequentemente, perseguidos do novo regime. Recorte deste mundo, e para onde a ação vira e mexe corre, é o Toynbee Hall, o que talvez em termos de Brasil de hoje em dia fosse um centro voltado para questões de cidadania: ao mesmo tempo que tem uma ala médica - é uma cidade tão doente que mesmo seus vampiros são doentes -, há salas para aulas populares e palestras. Nele encontramos o primeiro personagem do romance original, o sobrevivente Dr. John Seward, pretendente de Lucy Westenra e diretor do hospício onde Renfield estava internado. É agora o diretor do Toynbee Hall.

A repaginação dos personagens originais de Bram Stoker que aparecem, é... excelente, no caso de Seward, nada elogiosa, no caso do bom Arthur Holmwood, um pouco decepcionante, no caso de Mina e... surpreendente, no caso de Lucy. ;-) Leiam, e entenderão.

Do formato epistolar do livro original, aliás, temos apenas um único diário, justamente o de Seward, onde vamos nos dando conta de sua loucura gradativa, e de todos os fantasmas do passado que ele não consegue se livrar. As passagens de seu diário acabaram se tornando das minhas favoritas, em um livro só com grandes passagens... e ainda: é também um livro, como no romance original, sobre o homem que não está lá. Sua influência distante, desta vez, é brutalmente evidente.

Assim como no romance original, Anno Dracula nos dá diversos enfoques do problema do vampirismo: embora os diários e cartas dos personagens de Drácula todos representassem facetas de um mesmo problema, em Anno Dracula temos esta sociedade, acima descrita, vista por diversos homens e mulheres, quentes ou frios, em qualquer posição de poder, minando a idéia de que o vampirismo em si é somente um, senão O, problema.

Ao mesmo tempo, a atenção desta sociedade tão caótica, com tantos pareceres, se vê circulando ao redor de um único evento: o assassinato em série de prostitutas vampiras - sim, Jack o Estripador é um caçador de vampiros. Isto é apresentado logo de cara no primeiro capítulo, disponível aqui. Sensacional. E seus crimes vão agitando cada vez mais uma Londres prestes a explodir, devido às suas implicações políticas que nem o criminoso tem consciência.

Os vampiros aqui são tratados de forma "acessível", digamos. Não são seres sobrenaturais, há a possibilidade de entendê-los sob a luz da ciência (embora a questão dos espelhos seja uma pergunta embaraçosa). Nas divagações de Seward, constantemente ele se queixa da teimosia de Van Helsing em se apegar aos mitos folclóricos de outrora. É um desdobramento interessante, na minha opinião, exatamente da aproximação cientificista do problema sobrenatural, que até pus na resenha abaixo. Bom ver que Newman não ignorou isto.

Além do espectro mais amplo, o político e o social, o vampirismo está como agente de transformação o tempo todo, e não somente dos efeitos especiais do estado dos mortos-vivos ou licantropia: mas transformar-se em de quem se absorve o sangue, por exemplo. Ou de quem se convive, de quem se mira como exemplo... não de maneira geral ou literal, mas como força transformadora de uma personalidade, embora nem todos percebam. Isso foi um toque genial por parte do autor.

Anno Dracula tem ainda três continuações, The Bloody Red Baron (I Guerra Mundial), Dracula Cha Cha Cha (em 1959) e Johnny Alucard, fazendo parte de seu próprio conjunto de obra. Espero que algum dia saia no Brasil.

domingo, 25 de abril de 2010

Drácula


L&PM Editora
Finalmente li.

Havia comprado Anno Dracula, pela Aleph, quando havia me dado conta de que eu nunca lera o romance original. Procurando por alguma edição em pocket, deparei-me com a da L&PM e me pus a ler antes do livro de Kim Newman, para ter uma idéia mais precisa do personagem: não dá para acreditar em tudo o que se vê em cinema, afinal.

Corroborando isto, de saída uma surpresa: diferente do filme de 92, nada de romances seculares, reencarnações de vidas e dramas passados, nada de personagens trágicos... Drácula é um vilão. Ponto. Sua única característica redentora é você amar odiá-lo!

O livro é epistolar, ou seja, baseado em cartas, diários pessoais e reportagens noticiosas. Não sei se por causa da tradução, não notei maiores diferenças entre os diários pessoais dos envolvidos, salvo pelo gênero: o estilo dos diários de Mina e Lucy era um pouco mais afetado, contrastando com a sobriedade dos de Johnathan e o Dr. Seward, mas só isto. Não me pareceu que, individualmente, houvesse um estilo próprio, vindo de uma personalidade convincente por trás dos escritos. Se foi a tradução ou uma limitação do autor, não saberia dizer.

Por ter este formato, o que mais me atraiu neste livro foi (salvo pela primeira parte, onde é narrado o infortúnio de Johnathan Harker em seu diário no Castelo Drácula, e algumas partes mais para o final) que tudo gira em torno do homem que não está lá: o noivo que não dá notícias, a escuna que surge com todos os tripulantes mortos em uma noite tempestuosa, o lobo que foge do zoológico, a donzela que vem sucumbindo de estranhos sonhos e uma misteriosa doença com sintomas bizarros.

Característica da literatura de época, o romance se perde em inúmeras elucubrações sobre emoções e sentimentos, registrados em cartas e diários. Isto pode ser um pouco maçante, confesso, a quem está acostumado a uma leitura mais leve ou ágil, especialmente nos dias de hoje. Outro aspecto que pode estar datado – eu acredito que isto sempre esteja depois do gosto do leitor – é a construção dos personagens: outra diferença do filme referido, os personagens tendem a ser idealizados, pois todos são gentis e virtuosos demais, sempre a concordarem uns com os outros, e de uma polidez à toda prova. Da mesma forma que Drácula é *mau*.

Se um texto prolixo e maniqueísmo podem afastar um leitor dos dias que passam, ficam as virtudes de certos andamentos do livro: a primeira parte, com Johnathan Harker no Castelo Drácula é muito boa, a angústia crescente do personagem é muito bem tratada, assim como o adoecer de Lucy Westenra - e sua posterior caçada, já transformada em vampira. O estado mental dos caçadores também é posto em dúvida aqui e ali, como no momento em que Seward nota que cavalheiros e índole e estirpe pulam o muro do cemitério à noite com certa indevida naturalidade...

Um aspecto que achei interessantíssimo foi, quando dei conta, de que a perseguição ao valáquio tomou contornos científicos: os personagens divisam um método, ao assentarem cada impressão e fato testemunhado ou ocorrido no papel e em um gravador de época, ao trocarem sempre informações entre si e fazerem questão de que todos estejam atualizados, ao fazerem uso de lanternas elétricas em suas investidas noturnas, sessões de hipnose, transfusão de sangue... há uma pesquisa experimental surgindo ai, que ainda inclui, nessas informações, as velhas superstições: se pôr uma rosa branca sobre a tampa de um caixão para que o vampiro dentro não consiga sair funciona, tá valendo. O uso de armas de fogo, modernas, é totalmente secundário: a impressão é que se derrota um monstro vindo das superstições do passado com uma mentalidade científica.

Contemporâneo a este romance, cabe lembrar que Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, é o pai da CSI moderna, ao descrever nos livros do detetive, e mais tarde mostrar o truque para a Scotland Yard, métodos de investigação de cenas de crime ao analisar amostras de solo deixadas, por exemplo, em pegadas ao lado de uma vítima.

Fecho Drácula com uma sensação de saldo positivo, sem dúvida... e louco para revê-lo e outros personagens em Anno Dracula. Reinvenções podem ser tão interessantes, senão mais, do que o original: recentemente soube que a reanimação do Monstro por Victor von Frankenstein por eletricidade captada de uma tempestade é invenção do cinema, por exemplo. Ainda tenho que conferir, decerto... mas isso fica pra próxima.

P. S. - link para esta resenha na Rede RPG.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Os Substitutos

Assisti somente em vídeo... er, dvd, há pouco tempo atrás. Lamentei não ter visto no cinema.

Não por qualquer razão visual em si, nem todo filme é Avatar: mas porque realmente é um filme muito bom, com uma história muito legal!

Baseado em uma História em Quadrinhos de mesmo nome (lançada pela Devir no Brasil), Os Substitutos se passa em um futuro próximo, onde próteses cibernéticas se aprimoraram a tal ponto que andróides completos guiados por telepresença substituem seus controladores no dia a dia em qualquer aspecto: do local de trabalho à uma rapidinha depois da boate.

E, como toda a boa história onde há um mundo perfeito, há um descontente.

Bruce Willys é um agente do FBI, passando por algumas crises de meia-idade: ao mesmo tempo em que sequer vê sua esposa em carne e osso sabe-se desde quando, sempre interagindo com ela através de seus substitutos, ele se questiona no que a sociedade se tornou: afinal de contas, as pessoas não têm mais que se arriscar, seus substitutos tomam todos os riscos, enquanto elas confortavelmente ficam em casa. É como se a vida via Internet – encontros virtuais, trabalho online, visitar outros países e lugares, etc. – ganhasse a rua: você não necessariamente é o que aparenta ser, e realmente ninguém está tão preocupado assim com isso. O filme tem grandes sacadas nesse ponto, e na minha opinião é onde realmente brilha. Como seria uma sociedade onde ninguém teria que se arriscar no dia a dia, com um grau de conforto material relativo e, como em um MMO – o mais autêntico Second Life? –, em caso de morte, com a ressurreição logo ali, adquirível na loja da esquina?

Devido ao conforto e à segurança, o filme parte do princípio em que a maioria dos crimes desce de maneira vertiginosa: até que um assassinato ocorre, e de maneira impensável, com a destruição de um substituto matando a quilômetros dali o seu piloto. E assim começa a história. Temos a investigação, que vai levar a uma grande conspiração, um mcguffin, um clímax... a coisa vai bem nos conformes. O clímax é interessante, envolvendo um “despertar planetário” – voltarei a isso mais abaixo.

Há uma cultura de descontentes, que vêem nos substitutos algo fundamentalmente errado, e ganham na justiça o direito de viver em “reservas”, como se fossem indígenas, livre da presença dos andróides. Não dá para simpatizar com eles: suas áreas são sujas, eles são feios (demais), tudo dá uma impressão de desorganização e desleixo – e violência e ignorância. Os modernos selvagens nada têm de nobre, mas de ignorantes e truculentos; acho que a idéia era mostrar algo entre o sobrevivencialista e o white trash típico americano. Curiosamente, veio à lembrança a reserva de Malpais em Admirável Mundo Novo, onde se viva fora do paraíso em condições semelhantes: não necessariamente há uma falta material que explique o desleixo.

Se o selvagem nada tem de nobre, entretanto, o ‘civilzado’ tampouco: termos pejorativos de intenções racistas são ditos aos que saem à rua sem seus substitutos, ao ponto em que ‘humano’ é dito como se fosse uma desvantagem. Casando com isto, há uma cena de Willys, tentando sair na rua já sem seu substituto, apenas para ser tomado por um princípio de pânico, com tanto espaço aberto e ao mesmo tempo tantos substitutos passando rapidamente por ele, esbarrando o tempo todo: se podemos pensar que isto seria uma falta de sintonia fina da movimentação das máquinas, há o grande contraste de um Bruce Willys cambaleante e inseguro, ferido, velho, sendo atropelado por uma beleza e perfeição que marcha e não se detém por ninguém. Não sei se era a intenção, mas achei uma ótima metáfora para a seleção natural. :)

Acima, falei do ‘despertar planetário’ do clímax do filme, ou seja, um evento onde, presumivelmente, toda a população humana passa por uma mesma situação, uma mesma experiência transformadora, independente da latitude ou da longitude em que se encontram: há algo parecido na série e no livro Flashforward, ou do estágio final de O Fim da Infância, de Arthur C. Clarke. Isto tem a ver com a decisão, ao final do filme, que Willys dá ao destino do mundo, logo após derrotar o vilão, que queria o fim dos substitutos para libertar a raça Humana, ao custo da vida de milhões de usuários. Willys, entretanto, tem o meio de poupar vidas, mas não o maquinário, e ele escolhe isto como sua visão de um mundo melhor: umas das cenas finais mostra pessoas de roupão, ou pijama, saindo de suas casas, inseguras, olhando para a rua do lado de fora com seus próprios olhos pela primeira vez em anos. Wall-E, alguém?

Embora capte perfeitamente a mensagem do filme, eu não sei se concordo plenamente com essa decisão: pessoas decidiram por conta própria viverem assim, afinal de contas. Por que alguém acha que pode julgar melhor a vida de milhões de pessoas? Claro que uma vida de conforto material excessivo estraga o ser humano como pessoa, disto eu entendo plenamente, e a tecnologia é apresentada como uma armadilha que docemente se fecha sobre a raça humana. Se não me engano, há textos de religiões orientais que falam da natureza ilusória do que se apresenta como realidade, o que escraviza o Homem. Este assunto foi abordado de forma mais literal pela trilogia The Matrix, por exemplo, o que deixa Os Substitutos com um certo grau de parentesco aqui. Entendo também que certas coisas, quanto mais se discute, menos se age, conclui ou principalmente renova... o descontente passa a ser o salvador de todos, embora muitos possam até se perguntar, “mas do que, mesmo?” :-)

Pelo menos, na onda de “Escolhidos Por Uma Força Maior”, Tom Greer é apenas um mero mortal, com a força de caráter de ir até o fundo de um crime, contra tudo e contra todos, homens e máquinas.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Pandorum

Resenha minha deste filme no site da RedeRPG.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Podespecular.

Fim de semana passado participei de um podcast sobre Literatura Especulativa, o Podespecular. Divertido. Na pauta, dois livros com toda a pinta de servir de base ao filme Avatar: The Word for World is Forest, de Ursula K. LeGuin e Call me Joe, de Poul Anderson.

Foi hospedado por Paulo Elache, desenvolvedor da idéia, e com a participação ainda de Edgar Coelho. Muitas considerações sobre ambos os livros, o filme, o que se quis dizer com aquilo tudo, querendo ou não os autores... :) ... nerdalhada da boa. Quando sair, eu apito.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O Fim da Infância, de Arthur C. Clarke...

... ganhando nova edição pela Aleph. O primeiro capítulo pode ser acessado aqui.

É um dos (vários) grandes livros do mesmo co-autor de 2001 - Uma Odisséia no Espaço. Merecia, de fato, uma nova edição por aqui.

Previsão para Fevereiro.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Avatar


Assisti no último fim de semana.

A história é manjadinha, nada que Pocahontas ou Dança com os Lobos já não tenham contado (aliás, chega a roçar até em Distrito 9): é o processo de transformação de um invasor que entra em contato com povo local, deixa-se levar por seus modos e costumes, ao ponto que chega a se indispor contra a sua cultura original, quando o inevitável conflito ocorre.

Manjadinha, como já disse. Mas se não renova, também não compromete.

O que interessa em Avatar, também, convenhamos, não é a história. E o que nele interessa, papagaio. To say the very least.

Não foi apenas criar uma raça alienígena. Foi criar um ecossistema inteiro. Eu levei algum tempo até perceber - porque me chamaram a atenção - que eu estava de boca aberta.

Ooooh, parte 15.

Chapei por duas horas e tanto. O filme é absurdamente bonito. Ainda por cima assisti em uma sala 3D, experiência que me deixa os olhos ardendo, o que acabei tendo que me lembrar tarde demais. Mas não interessa. Desde que meus globos oculares não caiam ou minha retina não descole, valeu cada minuto.

Bom rever Sigourney Weaver, cuja primeira cena foi saindo de um 'tubo'. Tive que rir. É uma espécie de habitat natural dela, cada vez que faz ficção-científica, especialmente a série Alien. Ela estava em Aliens - o Resgate, do mesmo James Cameron de agora, foi bom ver isto, e imaginar como foram as relações de velhos conhecidos nos bastidores. Do James Cameron, que é um dos diretores que parece mais à vontade filmando hardware do que gente de carne e osso - bem, digamos que ele chegou a um meio-termo. :) Achei um Cameron bastante disneyano, se compararmos justamente com seu outro filme pesado em militaria e alienígenas. Ok, a intenção não era e nunca foi fazer uma variante do filme de 86.

Thundercats, hooo!

A intenção era embasbacar.

Isso, eles conseguiram. Efeitos digitais pela Weta, a mesma de King Kong e O Senhor dos Anéis, e talvez uma liberdade criativa no campo visual como desde a segunda trilogia de Guerra nas Estrelas.

Como ficção-científica, a coisa mais interessante do ecossistema de Pandora é que boa parte das criaturas parecem vir com seu próprio cabo USB: isso torna a conexão/conectividade dos nativos com o que têm por sua divindade algo real e químico, aliás o jogo de 'depende' da natureza nesse mundo tem uma consistência mais física, direta, do que a física e observada, o que deixa o mundo como uma espécie de Grande Rede. E indo ainda além do fato biológico em si, o imaginário dos nativos - com elementos vistos aqui na Terra de povos indígenas, tais como o contato com os ancestrais e o respeito à presa abatida - tem um respaldo material e de causa-e-consequência mesuráveis.

Fico pensando, ainda, se já não estamos mais falando de um filme como, por exemplo, Cidade de Deus, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa ou mesmo Caçadores da Arca Perdida. Há filmes dentro do razoável, e há circos como Avatar, O Senhor dos Anéis, a trilogia de Matrix, o novo Guerra nas Estrelas... grandiloquências onde orquestrar o orçamento e as milhares de pessoas - dá a impressão que seriam suficientes para povoar uma pequena cidade - envolvidas para um único propósito coerente me parece algo diferente demais para ser confundido, meramente por passar em um filme e na tela grande.

Para não dizer, como fica a experiência de interpretar, tendo que imaginar o que ocorre ao seu redor, convencer-se disto para convencer a audiência.

Enfim, sensacional. Um dia, faço fé, acertam na história.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Os 20 melhores livros da década...

... com todas as ressalvas, é claro. Aqui. Desta lista, conheço de muito boa fama o universo da Cultura, do Ian M. Banks e tenho Perdido Street Station, mas nunca consegui ler.

Slingers



Promo para uma produção inglesa que, se emplacar, será filmada em 2010. Gostei muito do material. Visual anos 60 nos anos 2.260.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Misfits

Peguem Heroes, adicionem Skin e ta-dááá: Misfits.

Sério, ouvi essa definição duas vezes, já. E concordo.

Explicando: Heroes é a série de tv badaladérrima sobre como um bando de pessoas normais de diversas origens passam, em um mundo normal, a ganhar super-poderes. Já é manjada, teve algumas degringolações, eu gostava muito, mas larguei, sem paciência para a próxima grandiloquência. A primeira temporada foi muito interessante, mas da segunda em diante a coisa ficou simplesmente entre o esquisito, o enrolado e o ruim.

Misfits é uma série nova, menos de meia-dúzia de eps até agora, sobre... bem, um bando de pessoas normais de diversas origens passam, em um mundo normal, a ganhar super-poderes. :) Mas as semelhanças param imediatamente ai (ou depois de ambas apostarem em 'transmidiação', nome bonitinho para dizer que veiculam a mesma estória, ou pedaços dela, em diferentes mídias, como nesta hq online, e se você não ler se bobear vai perder parte da graça, o que eu acho uma sacanagem, pessoalmente). Ao contrário de Heroes, temos pessoas realmente normais, jovens de 20 e poucos, na Londres atual, prestando serviço comunitário obrigatório como pena por pequenos delitos (lembrei direto de O Clube dos Cinco, mas em uma versão mais radical).

Skin, série inglesa sobre jovens nessa faixa etária e seu mundo e expectativas (ou falta de), é muito lembrada. E ao contrário de Heroes, não há bom-mocismos ou vilanias exacerbadas. O que há são um bando de garotos realmente desajustados - o 'Misfits' do título - de difícil convivência e assustados com o que passam. Não há, e espero que nem haja, conspirações ulteriores que revelem toda uma trama por trás.

Assim como Heroes, pessoas normais ganham poderes após um evento singular: ao invés de um eclipse global :-P , temos uma estranhérrima tempestade de grandes blocos de granizo que, com um relâmpago, confere poderes aos garotos. Já contaram que o autor pouco se importa em explicar a tal tempestade, ele quer mais é ver as consequências de, em um ambiente de 'a vida como ela é', o que acontece quando pessoas comuns ganham habilidades especiais.

E por 'a vida como ela é', entenda-se personagens com real vida sexual, consumo de álcool e drogas, palavrões a granel e tudo aquilo que dificilmente veríamos em um correlato americano. Ah, sim, e um ótimo texto, não nos esqueçamos.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Quem será o nosso Campbell?

... eu nem sabia que a Record havia lançado uma coletânea de FCB (Futuro Presente), até ler as resenhas de Octávio Aragão e a de Antônio Luiz Costa

Eu não posso senão ter a pior das impressões ao ler sobre os contos selecionados. Aparentemente, temos 400 páginas de pastiches de americanos como nem eles mais fazem, preconceitos raciais e de outros sabores, vieses políticos, "common-sense" - e as aspas não estão ai por ser um termo em língua estrangeira - e, impensável para o gênero: a mais pura desinformação científica. Não aquela que se resolve ignorar em prol de uma estória, de uma idéia, a la Bradbury: mas a da plena ignorância. Nada mais retrógrado do que ficção-científica? Pois, pois...

O que me faz lembrar de John Woodman Campbell, mítico - e folclórico... - editor americano que montou a dita Idade de Ouro da FC gringa, ao incluir também um embasamento maior, em termos de ciência: ao contrário do que se pode pensar, estórias assim também podem render boas e divertidas narrativas.

Parece-me claro que as referências e preocupações científicas dos escritores desta coletânea, em um bom dia, são de documentários dos canais History ou Discovery -- mas se isso é verdade, também o são as de quem quer que tenha sido o editor desta coletânea. Isso, pela questão científica - pelas opiniões pessoais expressadas, nem vou me alongar.

Ou seja, como fica mesmo aquele lance de se escrever sobre aquilo que se entende?

Se alguma resenha conseguiu me afastar de um produto, foram essas duas.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Dias da Peste...

... de Fábio Fernandes, pela Tarja Editorial. Há um excerto aqui. Acabei de ler (curiosamente, logo após ter assistido o último episódio da 1a. temporada de Dollhouse e disto aqui me ter caído em mãos, leitura promissora aliás), sabendo que seria algo que gostaria, como vem sendo com tudo que leio dele.

Este excerto já me ganhou pela introdução, apresentando a estória como sendo algo dentro de outra estória. No caso, a estória central, passada nos dias presentes, com o protagonista, é alvo de uma análise posterior, cem anos no futuro: há diversas notas de rodapé ao longo do texto, compreensível para nós, mas não inteiramente para "eles" que, pela introdução, estão bem mais integrados - amalgamados - com os computadores. Até onde li, isto de forma alguma interfere com a leitura.

Será uma boa aquisição para fim de ano.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Warehouse 13

Vem passando na Warner, #47 da Net. É no mesmo esquema de Fringe e, claro, Arquivos X, ainda que a idéia básica seja bem anterior: investigadores do paranormal indo, a cada episódio, atrás da verdadeira fonte de estranheza e horror acontecendo em algum lugar.

O "Armazém 13" fica em um ponto longínquo no Dakota do Sul, e abriga diversos artefatos sobrenaturais e paracientíficos: sabem aquele armazém do final de Caçadores da Arca Perdida e do início de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (quando é revelado chamar-se Hangar 16, em uma outra referência de Teoria da Conspiração), onde até o aliens de Roswell se encontram? Exatamente aquilo. É uma estrutura especial para abrigar tanta estranheza junta, havendo sido construído em 1914, por Thomas Edson, Nikola Tesla e M. C. Hescher. Onde estão os outros 12? Ao longo da História, a Biblioteca de Alexandria teria sido um deles...

As referências steampunk, aliás, vão embora: do videofone portátil à pistola de descargas elétricas de Tesla, sempre há alguma invenção genial de um século de idade. Os objetos problemáticos incluem coisas como o pente de cabelo de Lucrécia Borgia que faz com que mulheres passem a se comportar como megalômanas psicopatas, apenas para citar um episódio que vi.

A estrutura é bem simples: os protagonistas, um homem e uma mulher, são uma dupla de agentes federais transferidos para lá, sem saber exatamente o que diabos é aquilo, de cara se detestam e têm que conviver um com o outro. Fatalmente irão para a cama alguma hora, mas a gente não liga para isso. Há um agente veterano do W 13 enfurnado lá dentro, como um zelador do lugar. Mas aos poucos, algumas estórias dos personagens vão sendo reveladas, havendo mais do que aparenta.

A série tem um bom-humor que me vendeu, ao contrário de produtos semelhantes. Parece que já renovou para a próxima temporada. Procurarei acompanhar.

Link da wiki aqui.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Distrito 9

Assisti no último fim de semana, gostei do que vi. Pelo tema, podemos nos lembrar muito de Missão Alien, que até virou uma série de tv, e tem momentos que lembra muito A Mosca.

O filme (com um site maneiríssimo) é rodado em estilo documentário, alternando para câmeras de segurança, para dar a sensação de realidade, ainda que em certos momentos passe para a narrativa de um filme convencional sem maiores demarcações entre um estilo e outro. Eu não tive problemas com isso, mas ouvi gente que se incomodou.

Como em Missão Alien, uma grande nave alienígena chega, sem aviso algum, nos dias de hoje/futuro beeem próximo, com uma tripulação de refugiados. Aqui, passados alguns anos desde sua chegada, os alienígenas estão integrados à sociedade, ainda que pairem sempre problemas racistas (o filme é um grande tratamento sobre a questão dos imigrantes nos EUA, nos dias de hoje do fim da década de 80). Em D9, a questão do racismo é exarcebada ao extremo.

Apostando na palavra alienígena, os aliens de D9 são humanóides (cabeça, tronco, membros), mas não são antropomórficos como em Missão Alien (sim, eu sei: efeitos especiais de agora e de então, verba, e qualquer outro etc.), tendo um visual insetóide (o apelido pejorativo era prawn, camarão) que causa uma certa repulsa visual, e um comportamento nervoso aos nossos olhos que, decerto dificultaria a empatia e a comunicação em um caso real. Nojeiras orgânicas pululam no filme, aumentando a sensação de querer vê-los pelas costas o quanto antes.

Em Missão Alien, é dito que os visitantes são ex-escravos fugidos de alguma força galáxia afora, e são essencialmente trabalhadores pesados, ainda que se destaquem, para padrões humanos, também em algumas faculdades mentais (há toda uma reclamação sobre como os alienígenas estão tomando nossos empregos, no filme antigo). Em D9 também, mas há um comentário sobre como eles parecem carecer de uma força de vontade maior, o que seria o motivo pelo qual eles não se integrariam à sociedade, ou porque adotam um comportamento quase mendicante, sempre revirando lixões. O acampamento inicial, para onde os alienígenas haviam sido transportados, após serem descobertos em sua nave estando extremamente doentes, vira uma autêntica favela, com problemas de saúde e criminalidade.

District 9: quanto mais as coisas mudam, mais continuam as mesmas...

O fio condutor é a transformação, forçada, do ponto de vista do protagonista, o encarregado de executar o despejo da favela para um outro distrito da cidade (nenhuma outra que Johannesburgo) mais "urbanizado" - na verdade, há uma grande procura por artefato alienígenas entre todo aquele lixo. O protagonista, a quem se quer matar por 90% do filme, é quase um estereótipo, mas eu acho que funciona: um burocrata sem maiores brilhos, completamente insensível aos alienígenas, adepto de qualquer pensamento racista que possa aparecer, covarde, oportunista e burro. Muito burro.

O filme, aliás, aproveita-se de alguns tratamentos do caráter de seres humanos que programas como Quinta Dimensão e similares já dispensaram: dado a oportunidade de discriminar, todos os seres Humanos são iguais, independente de cor. Sem querer entregar maiores detalhes do filme, é só comparar como brancos e negros, à sua maneira, querem o poder dos alienígenas, por assim dizer, e farão qualquer coisa - qualquer coisa - para obtê-lo (destaque para o uso de companhias mercenárias privadas, alusão à Blackwater, utilizada por companhias americanas no Iraque a título de segurança).

É um filme de baixo orçamento, produzido por Peter Jackson, o diretor da trilogia de O Senhor dos Anéis. O diretor é Neil Blomkamp, com poucos filmes no currículo, assim como os atores principais. Achei que valeu à pena assistir, apesar de um ou outro detalhe que estranhei mas que não acho que comprometa o resultado geral. Espero que mais boas obras de Blomkamp venham.

Adendo de 10 de Novembro: uma opinião bem-embasada sobre o filme do meu prezadíssimo Lucio Manfredi, roteirista e escritor, pode ser encontrada aqui.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A Ameaça do Contínuo

... é um conto meu escrito anos atrás, para a Intempol (r). O organizador deste shared universe o disponibilizou online.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

StarGate Universe

Senão, vejamos: Grupo díspar sobrevive à hecatombe planetária indo parar em nave caindo aos pedaços, tem que aprender a conviver entre as briguinhas de ego e o doutor que gushes with evil intent/but why is he the only one with English accent?, enquanto são filmados com pouca luz, câmera no ombro e zoomzinho nervoso.

Sério, vergonhoso. Pareceu uma caricatura de BSG Galactica.

Vexaminoso.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Duas

Cyberpunk 2.0 é uma atualização do livro de Herlander Elias sobre esta vertente da FC, e está disponibilizado no link gratuitamente.

O Olho do Mundo é o primeiro livro da série A Roda do Tempo (Wheel of Time), do falecido Robert Jordan, no Brasil publicado pela Caladwin Editora. Confira uma resenha pela Rede RPG.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Ficção Científica & Afins

É o blog mantido por Ana Cristina Rodrigues sobre o assunto, que ecoou a resenha de The Godmakers, abaixo.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

The Godmakers

Planos dentro de planos, psiquismo misturado com religião, uma ordem secreta de mulheres conspirando nos mais altos escalões da política, um ar 'árabe' permeando toda a estória - Duna? Não, The Godmakers.

New English Library, (c) 1984

Escrito por Frank Herbert em 1972, sete anos depois de sua grande obra, Duna, o livro ostenta estas similaridades , levando-me a crer que, se não lhe for um tema recorrente (é o terceiro livro apenas que li de Herbert, além do já citado e de uma tentativa frustrada de ler sua primeira continuação, O Messias de Duna), talvez ele tenha sentido que não tinha dito tudo com essas fontes de inspiração.

As semelhanças, apesar de fortes, não impedem de revelar um livro de aventuras e mesmo de bom humor, algo que não sabia que Herbert era capaz - convenhamos, deve haver poucas obras mais sisudas do que Duna escritas na FC.

A estória, em um futuro distante, gira ao redor de Lewis Orne, um agente do governo galáctico, recém-saído do treinamento, a serviço de uma agência oficial que investiga o clima psicológico de mundos perdidos da grande civilização, em geral com o contato perdido após guerras civis. Orne tem excepcional habilidade, um verdadeiro faro para o assunto, nas mais tênues pistas decifrando tramas e armadilhas em mundos humanos e mesmo alienígenas.

Ao mesmo tempo, uma linha de eventos paralelos nos leva a Amel, um planeta onde todas as religiões e subsectos convivem sob a paz da Trégua Ecumênica, e os sacerdotes se empenham em uma atividade muito curiosa: a criação de um deus. Deuses não nascem, são criados, afinal de contas. E a forma de criá-los envolve todo um mumbo-jumbo místico-psíquico que os leitores de Duna já conhecem. Aliás, as notas de início de capítulo são um recurso já manjado, da mesma obra... e que funcionam muito bem também aqui, devo dizer. Mas tudo isto leva à criação de um deus, preconizado logo no início, e revelado nos episódios finais do livro.

Os desdobramentos do mumbo-jumbo talvez se devam à época em que foi escrito. Experiências sensoriais, drogas, misticismo, havia um quê a se acreditar que em algum ponto, isto tudo se conectava. É uma leitura bastante interessante, embora tenha que se prender à lógica própria do autor, para se seguir o raciocínio. E em falando de temas recorrentes do autor, política e sistemas de governo também têm seu papel no livro.

A estória tem um trecho um pouco estranho, ao meu ver: a ida ao mundo em que a conspiração de mulheres que citei lá em cima seria apresentada aos leitores, através de investigações e desdobramentos, simplesmente é substituída já pela volta do personagem, direto para a CTI, onde fica longos meses à beira da morte, após um clímax fatal envolvendo a revelação da tal conspiração. Necessidades editoriais? Falta de paciência do autor? Era para ser assim mesmo? Não sei, mas que achei estranho, sim, achei.

De resto, tem um quê de aventuras espaciais antigas, onde o papel feminino ainda consegue ser mais estereotipado do que o masculino: apesar de toda a capacidade intelectual daquela que será o amor verdadeiro do protagonista, ela praticamente só surge para disto se ter certeza e se preocupar com a saúde deste, e em seguida sair da trama.

É uma estória, no final das contas, interessante, apesar de momentos que achei irregulares. Serviu para conhecer um pouco mais da obra do autor. Na wikipedia, um brevíssimo artigo conta que este livro é uma espécie de interseção entre dois universos fictícios do personagem, o de Duna, e o da CoSentiency, de que nunca ouvi falar.

Foi uma companhia interessante.

Virtuality

Virtuality (2009) é um telefilme, piloto para uma série, criada por Ronald D. Moore, que se destacou recentemente por nos dar um complexo remake de Battlestar Galactica. Bem, vê-se lições foram aprendidas.

A história: em mais um ou dois séculos, o meio-ambiente estará tão alterado que a raça Humana encara sua própria extinção. Uma nave é construída para alcançar um sistema solar próximo ao nosso – Epsilon Eridani (vizinhança famosa) – levando uma dúzia de cientistas, que esperam alcançar o sistema em tempo hábil e determinar se há um mundo colonizável.

Até ai, o plot básico não é exatamente novidade, a nave que busca por um mundo novo é de, pelo menos, Patrulha Estelar (longa novíssimo para 12 de Dezembro próximo). O que cai matando é o tratamento: ao invés do ponto central ser somente o sucesso da missão ou algo mais técnico, o que realmente importa na história é a viagem em si, que deixa o ponto central do filme focar – como em BSG Galactica – nos dramas humanos, explorados de duas formas: para ajudar a saúde mental dos tripulantes, um complexo sistema de realidade virtual existe, permitindo que os tripulantes programem seu relax como quiserem com o assunto que preferirem, sozinhos, a dois ou mais. É um programa de realidade virtual, ao invés de um holodeck como em Jornada nas Estrelas, com visores especiais, mas que substitui a realidade 1.0 o suficiente para as sensações vividas serem fortemente prazeirosas, ou igualmente traumáticas.

A realidade virtual como ferramenta importante na construção de tramas e relações está presente, também em Caprica, spin-off de BSG Galactica, cujo telefilme homônimo recebeu críticas positivas e um go para se tornar série, em breve – and then there was much rejoicing.

A segunda forma de exploração dos dramas é uma idéia que eu achei fenomenal: bancada por uma poderosíssima corporação financeira, eles resolvem que não basta a sobrevivência da raça humana como forma única de pagamento: a tripulação é submetida a um constante reality show de si próprios. Com direito a “confessionário”. Não ajuda muito o psicólogo da equipe ser também o operador da mesa de edição da nave, recheada de câmeras para tudo quanto é lado. Conflitos e pequenas baixarias fazem o deleite de 5 bilhões de telespectadores, enquanto esperam, de boca aberta cheia de dentes, pela morte chegar. Ah, e a rede de tv que transmite esse programa é a própria emissora deste telefilme, nenhuma outra que a Fox Television.

Como Ficção-Científica, é algo que se aproxima bastante da hard s.f., tendo a nave – com o ominoso nome de Phaeton – gravidade artificial através de um carrossel e não podendo ultrapassar a velocidade da luz. O sistema de propulsão é baseado no modelo Órion, em que explosões nucleares são utilizados para impulsionar um veículo. Pormenores – porém jamais insignificantes – físicos podem ser discutidos, mas em termos de subgênero, para a televisão talvez seja as good as it gets.

(o que faz lembrar um pouco 2001 - Uma Odisséia No Espaço, assim como pela presença do computador central que, sempre com uma voz calma e ponderada, nunca tem exatamente idéia do que acontece, apesar de seu olho brilhante em todos os aposentos da nave.)

Mas não foi aproveitado: ao que tudo indica, ficou mesmo só no telefilme. Impera a mediocridade, creio... bem, é a Fox. :-/

reStart Trek: This Ship Has Sailed

Após o Lamento do Último Fã, eu decidi que deveria pelo menos falar bem daquilo que eu genuinamente gostei do filme. Eu dei nota 5, na verdade. Disse, não é nenhuma podreira como os dois últimos que foram feitos (aliás, convenhamos, os filmes da Nova Geração são podres, via de regra). Mas também não vou me alongar nisso mais - this ship has sailed.

Reparem que, lá embaixo, eu em momento algum contemporizei sobre o departamento visual da antiga série, ou ressaltei as virtudes do do novo: não é por ai que a minha banda toca. Acho que deve haver uma história, uma boa história antes, tanto na premissa como em sua condução.

Um dos maiores defeitos de Star Trek foi o world-building, desde o primeiro ano da primeira série. Era uma série episódica, com aventuras independentes, que dificilmente faziam alguma menção, se que é fizeram ao longo de seus três anos, uns aos outros. Como era a televisão de então, para esse tipo de produto, levando em conta o que esperava de seu público-alvo. Nem a ordem de produção dos episódios foi levada em conta, na distribuição. Há ali episódios em que certos elementos coadjuvantes à trama são trocados sem maiores explicações, mas pelo menos sem maior profundidade (a idéia da Federação não parece estar nos primeiros episódios, havendo referências, entretanto, à Terra como corpo governante). Outros tantos detalhes "técnicos" como exatamente qual a velocidade de cada fator de dobra variavam loucamente.

Em compensação, haviam histórias excelentes.

Quando se provou algo rentável, especialmente após o sucesso no cinema, uma nova série foi feita, com um approach fundamental diferente: ao invés de ser uma série puramente episódica, resolveu-se que as coisas seriam melhores entrelaçadas. Mas, para isso, há que se ter o tal do world-building acima bem construído - mas como fazer isso, se a série original, cada vez mais cultuada, era falha em tantos aspectos?

Olhando em retrospecto, é fácil agora apontar o erro - a falta de sinceridade com o público-alvo: "Olha, gente... nós todos amamos aquela série, mas ela tem mais furos do que queijo suíço. Estamos tentando continuar aquele universo, estamos tentando incluir o máximo possível de coisas referentes àquilo, mas fatalmente certas coisas serão ignoradas. Bola pra frente. Tentem não perder a voz se esgoelando, obrigado."

Mas eles resolveram que "fã de Star Trek não liga para continuidade", e persistiram no erro, filme após filme, série após série. É mais fácil assim, convenhamos, do explicar a cada novo escritor os do's and dont's depois de um certo ponto mais básico.E é porque exatamente o que foi resolvido - o fã médio de Star Trek também não tá nem ai: basta uma nave e uma fanfarra de fundo para todos começarem a salivar pelo canto da boca. Há tempos que digo que a gradativa queda da qualidade das histórias - independente da questão do canon - é principalmente por causa desse tipo de fã, que compraria no e-bay cocô de cachorro com um carimbo em relevo escrito "star trek".


A quebra da continuidade aqui é proposital pelo plot em si (ainda que continue quebrando, independente do plot...), em se tratando de que agora todos são uma realidade alternativa. Isso faz se livrar do monstrengo de quarenta anos de episódios e filmes desencontrados, e um novo início fresco, sem vícios, localizado antes e o que deveria ser o início jamais realmente contado da tripulação da apenas USS Enterprise, "no bloody A, B, C or D!".

Ora, se não foi contado, então poderia ser um início tão bom como outro qualquer. E, de fato, até que foi: na maiden voyage da USS Enterprise (como em Star Trek I, V), a situação se dá de tal maneira que a tripulação é constituída apenas de cadetes (Star Trek II) e jovens oficiais, e que têm na marra que resolver a situação. No processo, passam a ter que cooperar entre si, mesmo não indo com a cara um do outro (ou ainda, ninguém indo com a cara do agora insuportável James T. Kirk). Mais clichês, mas, que diabos?

E ai está o cerne, digamos. O encontro, a promessa de contar as histórias do dia 1. Na velha série, sugere-se que os oficiais ali, por mais que tenham crescido uma amizade em comum em frente às câmeras, antes da primeira filmagem já terem suas carreiras consolidadas, tendo conseguido postos na USS Enterprise, dita então uma das 12 battleships da Frota Estelar, tipo de nave que não é qualquer um vagabundo que podia entrar. James T. Kirk estava lá aos 34 anos de idade, o mais jovem oficial a tomar aquele tipo de comando. Ou seja, havia uma valorização em quem pisava lá dentro: e nada por ninguém ali ser alguma espécie de figura messiânica, esse já-clichê que vem empesteando o cinema fantástico ultimamente. Mas por mérito próprio. Competência. Capacidade. E não acaso... ou marra.

Da re-tripulação, bom ver Uhura como uma personagem de verdade, ainda que pouco faça na trama, efetivamente (eu sou mais as pernas da Nichelle Nichols, mas isso sou eu). Zachary Quinto faz Spock de uma maneira habilidosa, também não está ruim por si, embora os vulcanos de forma geral mais me parecessem empedernidos britânicos do que alienígenas realmente acostumados a privar-se de emoções (lembrando-me mais dos vulcanos da última série feita, Enterprise, a qual odeio profundamente, do que os vulcanos da série antiga). Simon Pegg, o inesquecível Shaun de Shaun of the Dead/Quase Todo Mundo Morto, faz um engenheiro-chefe Montgomery Scott mais alegre do que eu tenho na mente que fazia James Doohan, mas àquela altura do filme, rever Pegg foi uma grata surpresa - apesar do "Umpa-Lumpa com problemas de acne" (tm by Phil Plait).

Mas o meu destaque foi para quem eu menos achava que daria certo, face a disparidade física com DeForest Kelley: Karl Urban está nota 10 na interpretação de Leonard McCoy, o médico ranheta de bordo.

E de resto? Hum... visualmente está um esplendor, mas até ai, duh! É a Industrial Light & Magic em um filme de J. J. Abrams, ou seja, a ninfomaníaca se encontra com o priápico: o resultado é memorável.

Ritmo taquicárdico, ação, ação, ação... sem dúvida que aqui está excelente.

E o que mais, mesmo? Mais do mesmo?

Pois é. A impressão que fica é que se tirar o frisson de "é Jornada nas Estrelas", fica um filme de ação boboca. Se tirar o filme de ação boboca, fica uma representação torta de um universo igualmente torto, mesmo com a premissa da renovação. Envolvidos pelo mais reluzente celofane.

Eu tenho a impressão que esse filme, que vem agradando até a fãs mais velhos e mais exigentes, tem seu sucesso por causa exatamente do referencial próximo: dois filmes um pior do que o outro e uma série horrorosa. O que viesse era lucro. Quando entra no projeto o produtor hype do momento, pronto: ficou uma sensação de que Pai J.J. Moses viria para levar o povo trekker para a Terra Prometida, além da fronteira final e onde nenhum Berman jamais esteve. Enfim.

Por último, meu prezado Dom Bezerra disse que o grande erro do filme foi que ele não se afastou o suficiente do velho título, não mudou o bastante. Não sei, não sei mesmo. Acho que não adianta mudar. Eu não creio que, a futuro, com novos filmes, vá haver uma melhoria no problema básico: acho que periga continuar o mesmo vício. Uma nova continuidade, apenas para ser quebrada em prol da boa idéia do momento, da ignorância de quem escreve ou produz sobre o item anterior, e da falta de exigência do espectador.

E ai eu me toco o seguinte: o motivo do filme - uma nova cronologia - é falacioso. Cronologia em ST é problemática? Sim. Mas não é o problema de ST.

O problema de ST, nos últimos quatro produtos - duas séries e dois filmes - é que eles simplesmente são muito ruins. Continuidade falha apenas é parte do problema, não é o problema. E quanto mais não seja - fã de Star Trek não liga pra continuidade. É sério.

Não precisa destruir tudo. Basta apenas decidir o que é e o que não é. O filme é safo nisso. Notem que Spock-Nimoy sobrevive até o final. Ali está a chave para restaurar o que for, com seu conhecimento de física temporal do Século XXIV - ele sabe como voltar no Tempo o suficiente para catar baleias e salvar a Terra, afinal - e de História pregressa. Ou seja, não há sequer um compromisso mais sério em se propor algo "novo".

É, gente, desculpe, era só pra agora falar bem do filme, mas... enfim, de volta aos anos 90.

originalmente em 5 de Maio de 09

sábado, 9 de maio de 2009

Star Trek

Star Trek: Once Upon A Time...

Era uma vez uma série nos anos 60 na televisão americana que contava histórias de ficção-científica, sobre uma tripulação multinacional e étnica, de uma era em que a Humanidade estava unificada sob uma regra benevolente, havendo encontrado alienígenas que haviam ou se aliado em uma pacífica busca pelo conhecimento estrelas afora, ou à ela se oposto francamente, gerando inevitável conflito.

Era uma série em que não bastava apertar o gatilho todas as vezes. Havia momentos em que se questionava sobre apertar o gatilho, ou mesmo se violência era a melhor solução, assim como suas consequências. Sim, havia essa série, que ousava propor questionamentos éticos e dilemas morais, por mais rasos que pudessem ser dentro das limitações do formato - mas eles tentavam. Mesmo. Acreditem, essa série existiu.

A série durou, entretanto, apenas três anos, com problemas entre audiência e grade de programação, com o último ano recheado de episódios de baixa qualidade em suas histórias.

Um belo dia, dez anos após o encerramento ou quase, fizeram um filme. Um filme grandioso, kubrikiano em mais de um sentido, mostrando a velha turma um pouco mais... velha. E ai fizeram outro filme. Sensacional, resgataram um vilão da velha série, foi duca. Fizeram um terceiro. E um quarto. Um quinto. Um sexto. Fizeram também, a essa altura, uma nova série, passada 80 anos depois ou quase, dos eventos da primeira série. Fizeram mais outra série, e outra, e outra. Também fizeram mais quatro filmes.

Mas talvez tenham feito demais. Mas como resistir? Era lucrativo demais para não se manter o nome vivo - fora jogos e uma miríade de produtos franqueados. Uma galinha dos ovos de ouro. Não obstante alguma coisa ter se perdido... menos ideais, mais expediência, talvez. Mais histórias em cima de efeitos especiais. Reciclagens de velhos temas abordados, apresentados sob novos efeitos. Algo simplesmente não dava mais certo.

Star Trek: To The Absent Friends

Há dez anos ou o que seja que eu me refiro a Jornada Nas Estrelas como um querido amigo de infância, companheiro de todas as horas, e até de início de adolescência, mas que lá pelas tantas passou a se envolver com más companhias e drogas pesadas: eu o trato com preces, saudades, e uma saudável distância.

Mas ai, é claro, quando ele aparece, fraquejo, e vou vê-lo. Apenas para constatar que nada mudou, ou que assim todos nos enganamos, ou que as supostas melhoras aventadas apenas me fazem sofrer mais um pouco.

É sério. Eu fui ao cinema após longos meses de preparo psicológico, baixando como podia minhas expectativas, conforme explico um pouco mais abaixo. Eu fui com o coração tão aberto quanto pude - até com um certo entusiasmo, face à mudança do comando criativo da franquia. Eu achei que eu ia realmente curtir. Eu não achava que ia ser o ó do borogodó, eu achava que iria ser melhor do que pérolas como Insurrection ou Enemesis. Claro que isso devia ser obrigação, e não mérito, por um lado. Eu havia visto o trailer. Tudo colorido, tudo brilhante, e, de fato, tem um lens flare a cada cinco minutos, ou quase. Parecia divertido, um ótimo combate de naves, saltos de para-quedas de órbita, mais naves! Ok! Yaaay! Mas não vamos esperar mais do que isso - ei, Jornada nas Estrelas II e III são, em essência, aventuronas. Que mal há nisso? Não vamos esperar mais do que isso, repito.

Ou vamos?

O filme de J.J. Abrams tira das mãos dos responsáveis pelo afundamento da franquia, quebrando com um formalismo oriundo da segunda série de tv (caracterizada nos últimos quatro e cada vez mais desastrosos filmes), e indo na direção de algo mais aventuresco, concluído do que seria a série original dos anos 60.

Star Trek: All That Glitters

Até ai, ok, ainda que J. J. Abrams seja mais conhecido por hits de cinema (Cloverfield) e tv (Alias, Lost) que não precisem exatamente de muito conteúdo. Entre alguns amigos, havia a piada que repetíamos, "Gente!... é filme do J. J. Abrams!... vai ter gente bonita!... vai ter muita ação!... fotografia fodona!... altos efeitos especiais...! vai ser UMA MERDA!"

Ah, então é feio ter gente bonita, muita ação, fotografia fodona e altos efeitos especiais? Não, claro que não é, tá maluco?

O que é feio é só ficar nisso, especialmente se você leva o nome Star Trek na jogada, e ainda por cima quer remeter à velha série. Aquela mesma série que, ao contrário de todas as outras de FC dantanho, salvo Além da Imaginação, apesar de ser uma proposta bem diferente, era uma série que falava de racismo, males da guerra, códigos de conduta, etc, etc, e tal - podia fazer pensar E divertir - ei, revolucionário, não?

Star Trek: I Don't Give a Frak Anymore

Mas, já que vocês estão chegando até aqui, eu vou lhes contar o que realmente me fode nesse filme. Não, não é o apelo ao impetuoso-porém-sempre-certo. Não é a bicada na cronologia que existe além da questão da interferência temporal. Não é o fato de que os dois planetas centrais à trama se chamam Vulcan e Iowa. Não é o fato de se ter tanto, mas tanto e tanto já feito, e assim mesmo se abrir mão disso tudo em nome de liberdade para "criar". Não, também não é o fato de outra maldita viagem no Tempo. Não é o fato de, e sacaneio, um mineiro revoltado do Século XXIV ter conseguido fazer o que a Coletividade Borg não conseguiu. Não é o fato do vilão ser o segundo romulano com uma nave do Juízo Final na segunda vez consecutiva. Não é o fato de, apesar de ser Star Trek, a Astronomia não fazer mais sentido do que se fosse na velha série de Perdidos no Espaço. Não é o fato dos vulcanos não me convencerem. Não é o fato de sentir que nem Leonard Nimoy funciona como Spock.

Eric Bana: mineiro revoltado.

É o fato de ser mandatório gostar desse filme. Que os que não gostarem passam a "não saber o que estão perdendo". E quem tenta argumentar é "nerd chato babão". Que basta ser uma "aventura despretensiosa" - quando não há NADA, aprendam, NADA de despretensioso em qualquer projeto de milhões de dólares - para se passar a mão na cabeça por todas as suas incoerências. Eu odeio o discurso da simploriedade. E esse filme é simplório para caralho. Mas se FC reflete a mentalidade do tempo em foi escrita, então esses são os tempos da simploriedade. Filmes para o Homer Simpson não precisar entender.

E ai de quem um dia quis mais.

domingo, 3 de maio de 2009

A Roda do Tempo

Conforme anunciado na Rede RPG, a obra de Robert Jordan, Wheel of Time, inédita em Terras Brasis, será publicada ainda este ano. A casa é a Caladwin Editora, que começou com RPGs.

Previsões antigas...

... que viraram retrô. Eu amo isso.







Esse último aqui é motivo de discussão. Eu falo que FC aqui no Brasil é literatura de gueto, nego fica puto. Mas é.

FC é coisa de país industrializado, de tecnologia e ciência hard, e que sobretudo, como parte do investimento na indústria, acostuma a população a crer que a felicidade material está logo ali, daqui a alguns poucos anos. Ou seja, acaba acostumando a população que o esquisito tem sim, a ver com você e sua vida. A tecnologia entra no imaginário coletivo. Sem isso, não dá.

E não adianta dizer que Star Wars, Matrix e Arquivos X fazem sucesso, porquê ai é a) é uma questão de "filmes de ação" e b) uma questão de veículo, de mídia, e não de gênero. Repitam depois de mim, amiguinhos: hábito de ver televisão/ir ao cinema não gera hábito de leitura. Na melhor das hipóteses, um meio-termo, um suporte que tanto dependa de imagem como de texto: as histórias em quadrinhos.

Aqui no fazendão, se você quer escrever Horror, Fantasia, Realismo Mágico, vai fundo. Mas FC? Pouco provável.