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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

O Império dos Mutantes

 

Ficção-Científica Gótica?

Alerta: Spoilers abaixo.

O Império dos Mutantes (La Mort Vivante, 1958) é o primeiro livro que li deste autor, o francês Stefan Wul (1922-2003), do qual descubro ter sido dentista e apaixonado por ficção científica. Figura atuante no meio de seu país, sua obra mais famosa talvez seja a adaptação de animação O Planeta Fantástico (1973), a partir de Oms en série (1957).

Em um futuro onde a Humanidade vive em "planetas-paraísos de sistemas longínquos", nosso sistema solar original ficou apenas com Marte e Vênus habitados por sociedades onde a tecnologia se retraíra, e a Terra era proscrita e virtualmente inabitável, após catástrofes provocadas pela capacidade destrutiva dos seres humanos. O único lugar na Terra, descrito, são o que um dia foram os Montes Pirineus, erguendo-se do oceano que engloba quase toda a superfície do planeta junto com outros pontos mais altos.

A história começa em Vênus (sendo escrita em uma época em que se podia ainda crer em Vênus e Marte habitáveis sem forçar muito a barra), onde o protagonista, um biólogo, é censurado pela religião por seus experimentos com óvulos de anfíbios, deixando claro que é uma sociedade que não gosta de ciência e tecnologia, exatamente pelas desgraças do passado. A religião aqui, que sugere alguma vertente de cristianismo neste futuro não determinado, apela sempre a uma prudência a um ponto estagnante.

A fustração do biólogo é captada muito oportunamente por um contrabandista de artefatos - livros e microscópios - da Terra que, com o tempo, acaba cooptando-o para trabalhar para sua chefe na Terra, onde todos são proibidos de ir.

O trabalho envolve a clonagem da filha morta desta chefe, com resultados bastante perturbadores.

Achei a história com uma pegada distante de Frankenstein (resenha minha aqui), de Mary Shelley, de onde se acostumou com a ideia de que a ciência é uma vilã - quando o correto seria, a falta de ética é a vilã, como o é em qualquer campo. Dado momento, o protagonista, defronte os horrores que ajudou a criar, passa a culpar a religião por manter a ciência na rédea curta, em vez de na verdade estimulá-la, podendo então combater conhecimento com conhecimento.

Mas há outras ligações: se o autor estava pensando especialmente no Frankenstein do cinema, acabou gerando uma curiosa mistura de ficção científica com gótico, em um cenário pós-apocalíptico. Há o castelo decadente, tão isolado quanto arruinado, criptas por perto, um laboratório onde pesquisas jamais tentadas antes ou há muito tempo são executadas, um pequeno elenco de pessoas excêntricas ou de aspecto repugnante por este ou aquele motivo. Há também um grande pecado pairando no ar, que atormenta a todos os envolvidos e será a fonte da ruína. É um mundo doente, onde todos precisam se precaver contra a radiação, havendo poucos lugares habitáveis e nenhum sendo de conforto.

Há ainda noções como uma máquina auto-replicante que, consumindo os recursos ao redor, acabaria por ocupar - ou substituir - o planeta inteiro, sendo que ainda no caso esta criatura é um organismo, do qual pendem descrições de mutações voláteis de órgãos, feições e formas orgânicas dignas de animes que ainda seriam vistos décadas adiante - ou talvez já tivessem sido lidas em alguma escrito ou autor lovecraftiano. A evolução do estágio inicial até este resultado reforça a ideia de um namoro, senão com o gótico, com o terror, incluindo aí gêmeas com poderes telepáticos e a capacidade para maldade, lembrando um pouco The Midwich Cuckoos (1957), de John Wydham, que gerou duas adaptações para o cinema (19601995).

Dos pontos baixos, pensei no desenvolvimento de personagens. Só dois ali realmente contam, tanto o protagonista quanto a chefe, e esta mesmo assim pouco se fala sobre ela ou mesmo a operação de contrabando que comanda. O pai da criança não é sugerido, do que eu tivesse lido, por exemplo. Dado momento, ela se torna pouco mais do que uma donzela em apuros, embora isso me pareça que também a questão do gótico: sendo a mãe do monstro, viver o pesadelo que passam a se encontrar especialmente a destrói por dentro. 

Apesar do que, achei o livro interessante, pelos motivos acima.

O Império dos Mutantes
184 p.
Colecção Argonauta

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

O Homem Demolido




O Homem Demolido, (c) 1953

Acabei de ler por esses dias, achei muito interessante.

A ideia é uma sociedade pelo Século XXIV, com aquele otimismo de só quem escrevia FC nos anos 50 pra descrever um sistema solar colonizado. O grande diferencial aqui são os telepatas, membros produtivos da sociedade, que ajudam em vários campos, como psicologia e segurança e que, graças a isso, haviam evitado um assassinato de ocorrer havia bastante tempo -- e, para a trama, é quando um finalmente ocorre.

Não há mistérios: desde o início sabe-se quem são assassino, vítima e policial. O livro acaba sendo sobre a construção da caçada ao assassino, homem de vastos recursos financeiros, e a personalidade dos dois.

Babylon 5, a série, bebe abertamente desse livro, ao ponto que sua "Psi Corp" tem, no elenco de oponentes regulares, um personagem telepata chamado Alfred Bester, interpretado por Walter "Sr. Chekov" Koenig. Passage Through Gethsemane, o episódio, é sobre os efeitos posteriores da "demolição" de um homem.

O que me leva a pensar como ficaria uma sequência: o assassino é, além de multibilionário, dono de uma personalidade tida como mover and shaker do momento histórico. Como ficaria alguém assim após a Demolição, posto exatamente que aquela não era uma sociedade de carneirinhos obedientes, logo ao final? Até que ponto um excesso de "solaridade" em alguém de tal vontade cuja sombra foi derrotada poderia ser prejudicial?

O livro brinca com conceitos adiante de seu tempo, porém previsíveis até um certo ponto: machine learning aqui é aplicado para a solução de um caso criminoso com probabilidade calculada de veredito final, e na conversa telepática surge o que poderíamos hoje em dia ver como memes e emoticons, para os mesmos fins.

Recomendo.

O Homem Demolido
180 p.
Colecção Argonauta.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Blog Colecção Argonauta

A Colecção Argonauta é um empreendimento editorial português que, a preços módicos e publicações bem baratinhas, publicou em idioma luso centenas de obras de ficção-científica. A resenha que publiquei ainda hoje, Areias de Marte, logo abaixo desta postagem, é duma edição dessa coleção. Há um blog feito e mantido pelo fã João Vagos que é uma pequena obra de amor.

Areias de Marte

Coleccção Argonauta, (c) 1970.

Aviso: spoilers a rodo.

Areias de Marte/The Sands of Mars (1951) é o primeiro romance de FC por Arthur C. Clarke. Como (quase?) toda ficção-científica, é mais um caso em que uma história envelhece rápido e envelhece mal: e isso é ótimo, pois ganha todo um charme retrô.

Temos, no distante futuro dos anos 90, ou mesmo de agora, um personagem principal que vai para Marte a bordo de uma nave de propulsão atômica, a Ares, ao mesmo tempo que saca para anotar suas impressões de viagem uma fiel máquina de escrever mecânica; antes de embarcar sobe até uma estação orbital de transferência e usa ondas de rádio sem imagem para se comunicar com a Terra ou quem quer que seja.

Chega em Marte após alguns meses em queda livre e encontra o planeta, já habitado, com uma colônia estabelecida anos antes espalhada em alguns assentamentos. Precisando de proteção contra a tênue atmosfera de Marte, as cidades nascentes montam domos transparentes para conter a pressão atmosférica necessária e se protegerem do frio glacial típico do planeta: o que não impede que haja formas de vida, especialmente vegetais.

São visões que, se ultrapassadas, denotam hipóteses de um mundo futuro carregadas de otimismo que sempre foi uma das marcas registradas de Clarke, e um parâmetro para se pensar como se acreditava que poderia ser o futuro, mesmo o razoavelmente próximo.

O que mais me surpreendeu, entretanto, é a atualidade - justamente - inesperada da história, pois a colônia de Marte tem um grande problema: ela dá retorno financeiro ou material zero, apenas consumindo recursos. E, passado o deslumbre público de ter se chegado a um outro mundo, o homem comum se pergunta para que gastar impostos em algo tão exótico? E os políticos, é claro, começam a pender para este lado.

Familiar? Pois é. Não deixou de ser assim com o Homem na Lua - ibope caindo a cada nova missão Apollo, a Guerra do Vietnã consumindo outros bilhões - e há todo um questionamento sobre o investimento de se ir a Marte, ou mesmo retornar à Lua.

Entra em cena o diretor do projeto da colônia marciana, Warren Hadfield, disposto a muita coisa para manter a auto-suficiência da colônia, inclusive um gesto "apocalíptico" tremendamente familiar ao leitor, caso ele tenha lido (ou assistido) a 2010 - Uma Odisseia no Espaço II. A chegada em Marte do protagonista, o jornalista Martin Gibson, é tida com um certo receio, pois toda a propaganda positiva é necessária, e qualquer uma negativa pode ser desastrosa - e há planos em andamento...

No final das contas, o livro poderia ser mais um travelogue de Gibson, mas julgo que a gênese do que seria outra marca registrada - talvez a grande marca - do mestre, o sense of wonder, está lá, ao nos apresentar uma versão futurista da viagem ao local exótico, pois há um peso extra em tudo aquilo que Gibson testemunha: não apenas por ser um jornalista, ele é um escritor de ficção-científica, escrevendo sobre Marte no que parece ser os anos 60 e 70 (não há datas precisas no livro) e agora tendo a oportunidade de ver com os próprios olhos o futuro pretendido por ele, e o quanto errou. Há alguns tantos detalhes técnicos, pela boca de personagens ou pelo narrador onisciente, e devido à profissão do protagonista, até mesmo uma discussão sobre a atualização de histórias de FC, e, quando é assim, o valor que elas têm ou deixam de ter.

Como história paralela, e ainda com a comparação das viagens para o longínquo e o exótico para apenas encontrar a si mesmo; há uma trama sobre o envolvimento de Gibson com um dos tripulantes da Ares, a nave que o leva, uma vez que ele percebe que o jovem um filho que não sabia ter. Infelizmente, é Clarke, e esse desenvolvimento de personagem, o que é bem mais do que em obras suas posteriores, fica apenas no vai-da-valsa.

O tema da auto-suficiência da colônia marciana, cabe notar, aparece em um conto de Isaac Asimov, Nós, os Marcianos (1952, aqui no Brasil publicado pela Hemus), com a opinião pública manipulada por um perigoso populista chegando ao poder na Terra. Essa resenha aqui detalha mais.

O livro nos apresenta algumas ideias que nos ficaram mais conhecidas por obras posteriores: a estação orbital de transferência para uma nave interplanetária, acima citada, gira para obter gravidade artificial, assim como a noção de se chegar a Saturno antes de se alcançar Júpiter, estão em 2001 - Uma Odisseia no Espaço; mas o que chama muito a atenção é a incineração nuclear da lua Fobos, para que forneça o equivalente a "10% da luz solar" assim ajudando na terraformação marciana, lembrando bem a explosão de Júpiter em 2010 em um sol para aquecer e ajudar a desenvolver a vida na lua Europa.

O que me fez até lembrar que Frank Herbert torna a brincar com alguns tantos elementos de Duna em The Godmakers, levando-me a crer que, para um autor, às vezes um livro somente não basta.

Faixa-bônus: e o motivo de se ir a Saturno é por sua lua Titã, em que já se sabia desde 1944 haver metano em vastas quantidades, assim providenciando o combustível para o retorno para casa, nem tão diferente do que pretende o plano de Robert Zubrin para se ir a Marte - e ainda, com direito a se utilizar da gravidade de Júpiter como ponto de manobra para se alcançar Saturno, o que de fato é feito com missões interplanetárias hoje em dia. Nada mal para um livro de 1951, mas estamos também falando do cara que publicou um artigo acadêmico sobre a elaboração de uma rede de satélites artificiais para retransmissão de ondas de rádio mundo afora, ainda nos anos 40.

Até por uma maturidade como escritor, não é o melhor livro que eu li dele. Areias de Marte está muito aquém se compararmos com o que deve ser a fase áurea dele, nos anos 60 e 70. Mas fica pela curiosidade de ter sido seu primeiro romance, divertindo-se com detalhes técnicos mais do que com pessoas e, pelo seu protagonista, tendo a curiosa consciência de que FC pode envelhecer rápido e pode envelhecer mal... :)


Arthur C. Clarke - Areias de Marte
190 p.
Colecção Argonauta.