Adaptações sempre são uma aposta. Algumas dão certo, outras é melhor nem lembrar. Havendo começado com o óbvio, Entrevista com o Vampiro foi a melhor série em se tratando de natureza fantástica que assisti esse ano - e isso contando com Silo (resenha aqui), Extrapolations e For All Mankind.
Dá a impressão que tudo aquilo que deu errado com Anéis de Poder se acertou aqui: e houve mudanças arriscadas, as mais óbvias sendo tanto a mudança étnica de Louis quanto atualizar a série, tanto no passado - que agora começa em 1910 - e com a segunda entrevista, que é hoje em dia: a entrevista original de Daniel com Louis está no passado de ambos os personagens, ocorrida no final dos anos 70 e que acabou de maneira, huh, conflituosa: em uma cobertura da moderna Dubai, Daniel comparece a um convite de Louis, para retomarem a conversa interrompida décadas antes, e assim esclarecem diversos pontos que a entrevista original omitiu, transferindo a ação para a Nova Orleans de 1910 a 1930.
A vantagem de se ter uma adaptação para a televisão, em vez de um filme, é que não temos que correr com o prazo apertado de cerca de duas horas somente do filme: esparramados em diversos episódios de 40 ou 50 minutos, há tempo para as minúcias acontecerem e, se cultivadas de modo certo, reforçam aspectos centrais da trama, personagens e o mundo: a relação do triângulo Lestat-Louis-Claudia é demonstrada e desenvolvida em toda sua doença. Da mesma maneira, as décadas se passando mostram a mudança de costumes, porém a permanência das questões raciais.
A perfeita família disfuncional.
O elenco está simplesmente incrível: o casa de protagonistas exibe, como tanto foi notado, uma química excelente. Nesse aspecto, é uma adaptação bem fiel: no fim das contas, temos a visão do que aconteceu de Louis, e Lestat é - inevitável porém inegavelmente - mantido como o monstro misterioso, criador e destruidor, incapaz de remorso e agindo sempre sob interesses próprios. O Lestat de Sam Reid entrega exatamente isso, o tom de ameaça sempre a cada instante que surge, o lado brincalhão que sempre sublinhou a crueldade acrescentam personalidade junto do amor que sente por Louis - na versão, claro, de Lestat do que seja o assunto. Mas mesmo o boneco insensível que dá a impressão ser Lestat consegue-se aqui gerar um mínimo de empatia, ao citar sua origem e seu relacionamento com o vampiro que lhe criou: e que, mesmo apesar daquele terror, a ideia de abandono o aterroriza, o que ele acaba levando adiante.
A faixa do amanhecer, a fresta do caixão que abre, a mordida vampiresca: abertura sensacional de várias leituras.
Jacob Anderson, (conhecido do fandom como o Grey Worm de Game of Thrones) no papel do 'vampiro humanizado', vítima de seu criador, tem muito mais tempo para desenvolver Louis, ainda levando em conta suas origens mortais como um homem preto da Nova Orleans de 1910. com uma família que consegue enriquecer e ter uma boa posição social - tudo considerado... - mas que com que desenvolve uma relação cada vez mais conflituosa (não bastasse desaprovarem sua linha de trabalho), especialmente após o envolvimento com Lestat: a perda dos vínculos de afeto e sociais, que nos ajudam com nossa própria humanidade, são muito bem desenrolados aqui.
Bailey Bass, com apenas nove créditos como atriz segundo o IMDB, dá toda uma nova dimensão para Claudia, essa é uma atriz para prestarmos atenção quando seu nome aparecer. A personagem aqui mudou, inclusive, de idade - de novo: a Claudia original dos romances era ainda mais jovem do que a Claudia de Kirsten Dunst -, e a percepção de ser uma recém-adolescente eternamente pode ter uma realidade material ainda maior do que a percepção de ser uma criança eternamente, levando uma dose de drama. E é ela que será a grande fonte de oposição a Lestat, primeiro com seus desvarios encantada com sua nova condição, depois em frio cálculo e planejamento: novamente, tudo isso com a vantagem de se ter diversos episódios, em vez de somente duas horas de filme.
Psycho-cutie-cutie dos papais.
Agora, é Eric Bogosian com seu Daniel Molloy velho, doente, sobrevivente do encontro original, um jornalista que acumula décadas de cinismo e acidez, e que não sabe quando parar - e não é de hoje - que contestamos quem é o protagonista aqui. As perguntas de Daniel, assim como suas colocações, não raro deixando que o trauma e o ressentimento de quarenta anos antes as guie, ajuda a guiar as memórias e a história que Louis conta - mesmo para o desgosto do próprio, por vezes.
No fim das contas, Entrevista com o Vampiro é uma linda passagem de tocha, entre gerações, das adaptações de uma mesma obra importante para o terror, e que a própria autora elogiava: me deu a impressão que, algumas coisas, talvez ela tivesse querido ter escrito pessoalmente, lá atrás...
Esta série faz parte do mesmo universo onde se passa As Bruxas Mayfair de Anne Rice, de outra série de livro da autora. A ideia é uma mesma cronologia... espero que dê certo. Ambas as séries estão ainda apenas com sua primeira temporada.
Drácula (2020) é a novíssima série disponível no Netflix que tem o mérito de trazer sangue fresco - piscadinha, piscadinha - ao tema de vampirismo e do personagem.
É uma alternate fiction, em que uma obra é contada de outra forma ou acrescentado um novo conteúdo: a obra assim mais conhecida até agora é a série em quadrinhos (esqueçam aquele filme horroroso) A Liga dos Cavalheiros Extraordinários, de Alan Moore e Kevin O'Neil.
A mini-série tem três capítulos somente, de coisa de 1:40 de duração, nos moldes de Sherlock, não por acaso também dos mesmos produtores, o que por tabela coloca Doctor Who no radar.
Os três episódios se dão em duas épocas e 3 cenários bem distintos: os dois primeiros se passam no final do Século XIX e o último agora em 2020, e no Castelo Drácula, a bordo do Deméter e na Londres atual.
E é aqui que entra a nova ideia: a exploração de certas lacunas deixadas em aberto na obra original, pois sendo um livro epistolar, Drácula apenas mostra os pontos de vista de quem testemunha, de perto ou de longe, o que está acontecendo, e nem sempre tudo é revelado, entre o trauma passado, algumas omissões por escolha própria ou falta de testemunho vivo. Ao procurar responder essas lacunas, os roteiristas dão prova do cuidado e esmerada atenção que têm com a obra original.
Claes Bang: o novo Drácula.
#1 The Rules of the Beast
O primeiro episódio explora, em dois sentidos, o Castelo Drácula, em estrutura antiga e labiríntica na qual Jonathan Harker se perde cada vez mais, da qual não é possível sobreviver para contar a história, em um crescendo de medo e desesperança. A situação sugere ao lugar uma mitologia própria, por assim dizer, o que o deixa bem mais interessante, com segredos que mesmo o senhor do castelo não está a par.
Das adaptações dos personagens originais, foi a de Harker que ficou mais interessante e é o primeiro com quem nos deparamos, engenhosamente confundível com Renfield. Ainda assim, até o final, é alguém que não cede ao mal que sobrepõe-se a ele - embora ele seja apenas humano, no fim das contas.
Temos ainda Mina Murray (Morfydd Clark, recém-saída de His Dark Materials como Irmã Clara), a noiva de Jonathan, pouco explorada, mais servindo para pontuar a tragédia do noivo - e foge do que se prova um fatídico encontro. O outro personagem de relevância aqui é um novo, uma repaginação de Abraham Van Helsing: Agatha Van Helsing, uma freira com problemas com a fé e de intelecto inquisitivo, caçadora do sobrenatural. Agatha está interrogando Jonathan, depois que, desfalecido e adoecido, ele é descoberto no rio que passa perto do Castelo Drácula e levado até o mosteiro romeno onde se dá também o episódio*.
#2 Blood Vessel
O segundo episódio conta fatídica viagem do Deméter, que trouxe Drácula para a Inglaterra. Com os hábitos alimentares do protagonista, sumiços vão ocorrendo, e um clima de 'whodunit?' é instalado: quase como um romance de Agatha Christie, onde o assassino em um ambiente controlado é deixado para ser investigado pelos convivas. Mas não há Poirot ou Marple aqui.
Os demais passageiros do navio e seus tripulantes não são somente desenvolvidos, são criados da estaca (piscadinha, piscadinha) zero, com histórias delineadas, personalidades e motivações bem definidas - tendo mais em comum do que inicialmente podem crer. Como em um primeiro momento do episódio é alertado, "cheio de personagens interessantes - não vá se apegar a nenhum."
Nesse episódio, uma nova ideia apresentada no inicial é melhor desenvolvida: sangue é vidas. Plural. Pelo sangue, Drácula é capaz de saber das histórias de quem se alimenta, e absorver suas habilidades, como um idioma. Mas mais do que isso, conforme se verá no terceiro episódio, sendo um conceito crucial (piscadinha, piscadinha) para a mini-série inteira. Vemos também sobre um pouco mais do que é o 'undead' nesse universo ficcional.
Faixa-bônus do segundo episódio: a presença da atriz Catherine Schell como a Duquesa Valeria. Ela foi uma das garotas de 007 - A Serviço de Sua Majestade (aquele, com o Lazenby) e trabalhou em Espaço: 1999 (1975-1977) no papel da alienígena Maya.
#3 The Dark Compass
O terceiro episódio é o que mais tem mudanças em relação à obra original: após uma ótima reviravolta ao final do segundo, Drácula desembarca na Inglaterra com 123 anos de atraso, em pleno agora. Aqui, da história original, temos a aparição do rico texano Quincey, Dr. Jack Seward e Lucy Westenra, todos no papel de jovens de seus 20 e poucos anos. Notei a ausência de Arthur Holmwood, o Lorde Godalming**, terceiro dos pretendentes de Lucy, talvez limado por falta de tempo, uma certa redundância com Quincey e mesmo o risco de um anacronismo.
O interessante aqui é que a correlação entre os personagens é 'fast and furious', com a banalização das relações no nível da superfície, entre quem quer o dinheiro de um e quem quer a beleza do outro. Jack é um apaixonado por Lucy, mesmo após terem tidos relações algumas vezes, mas ela é completamente descolada desse tipo de afeto, mais se deixando levar pelas promessas financeiras de Quincey, de quem vira noiva (na obra original ela se decide por Holmwood): e é exatamente por esse grau de descolamento afetivo que Drácula cresce o olho em cima.
Mas entra em cena uma outra novidade, a Fundação Jonathan Harker, uma joint-venture das famílias Murray e Van Helsing, para fins de pesquisa médica e outras que não são exatamente ortodoxas. Jack é um estagiário, aqui. Uma sobrinha-bisneta de Agatha (Abraham não é citado em nenhum momento), reaproveitando a mesma atriz (Dolly Wells, que com Clark estrela Orgulho, Preconceito e Zumbis), é uma das cabeças da fundação, a responsável no fim das contas por trazer Drácula à Inglaterra dos dias de hoje, aprisionando-o a muito custo... apenas para ser solto por um advogado de nome Renfield.
O episódio se encerra de maneira muito interessante, conseguindo uma explicação incrivelmente racional sobre o motivo de vampiros se comportarem mal diante de cruzes, luz solar, etc. e tal. E é dessa compreensão que sai a resolução do conflito, e mesmo um sentido de paz para quem viveu ansiando por 500 anos. Esse desenvolvimento foi, definitivamente, um dos pontos fortes da mini-série inteira.
E do Drácula?
Não conhecia o ator dinamarquês Claes Bang. Achei que seu Drácula corre para todos os lados, não é possível que a série não tenha sido tentada a homenagear o que veio antes. Podemos ver algo do Gary Oldman de Drácula de Bram Stoker (1992), talvez haja mesmo Bela Lugosi, e definitivamente eu vejo, ao menos, Christopher Lee - detalhe para a cena da cripta, no primeiro episódio: é a gomalina certa com os esgares certos.
Um legado.
Mas não pude deixar de lembrar do Jerry Dandridge de Chris Sarandon no A Hora do Espanto (1985) original, com o deboche sempre no canto da boca. Mas imagino que isso seja devido à escrita da série, definitivamente com a assinatura de Steven Moffat (Sherlock, Doctor Who), especialmente no primeiro episódio. A saber: respostas rápidas e engraçadinhas, pequenas reviravoltas, personagens excêntricos, nojinhos estratégicos e a sensação geral de que eu assistia uma iteração do Doutor contra o Mestre. Tudo feito de uma forma que, pessoalmente, estou um pouco cansado. Foi o que vi Doctor Who a se reduzir, mas isso é outra história. Ainda, o conceito de memória vinda pelo sangue me é, de alguma forma, similar ao da memória ancestral genética, que Moffat aplicou em sua ótima Jekyll (2007).
E do terror?
A maquiagem dos mortos-vivos funciona, os sustos fáceis estão lá, a antecipação e atmosfera necessárias também. Mas a dimensão do terror/horror vai além disso, como na relação de Harker/Renfield com insetos, gerando propositalmente um belo incômodo, assim como a promessa do sofrimento mesmo depois da morte: dado momento, em um cemitério, Drácula conta 9 'sofredores', mortos que não perderam a consciência, e tentam desesperadamente sair de seus caixões e túmulos.
E em uma das variantes mais bacanas da obra original foi a saída de Lucy Westenra da cripta... sendo que ela foi cremada. Há, segundo certas fontes na religião, que se esperar pelo menos 24h antes da cremação de um corpo, prazo necessário para a alma se desligar de seu corpo original e não sofrer com a queima do próprio - acho que vocês entenderam o recado.
Tem tudo para ser uma temporada somente, embora deixe questões bem em aberto, especialmente: qual é, afinal, a fonte de financiamento da Fundação Jonathan Harker? Mas gostaria, mesmo, é de saber que, se existe Drácula e ele passou o final do Século XIX mais XX indisponível para o mundo, e Lord Ruthven foi apenas um dândi que nunca foi um vampiro como no livro de Polidori; que obra popularizou o termo e o conceito de vampiro na cultura daquela realidade apresentada no filme?
No final das contas, apesar da minha implicância, o saldo é positivo. Drácula merecia uma presença melhor depois da terceira temporada de Penny Dreadful (2014-2016), do filme de 2014 e da série de 2013, e acho que aqui se conseguiu.
EDIT
Graças a alguns comentários aqui e ali, corrijo algumas imprecisões, ora no próprio texto, ora à parte, por aqui:
* Havia um mosteiro próximo ao Castelo Drácula, para onde originalmente Harker havia sido levado após cair no rio, fugindo de lá. Mina se encontra ali com ele e ambos se casam, tudo isto, originalmente no livro.
Há uma "irmã Agatha" também, mas ela é citada en passant.
** Pisquei e perdi: em sua carta no primeiro episódio, Mina descreve Holmwood como provável interesse, caso Jonathan "se distraia". Mas foi só.