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terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Hyperion

Hyperion, de Dan Simmons: antes tarde do que nunca!

 AVISO: SPOILERS ABAIXO

Recém-publicado pela Aleph, este clássico de 1990 inédito em terras brasis - ainda, terras lusófonas - passou batido pelos nossos radares por tempo demais. Muitos aclamam como um dos grandes clássicos da literatura de ficção científica, merecendo seu lugar junto a sagas como Fundação ou Duna.

A tradução pode ser vista como sendo problemática, do título do livro - o titã Hipérion é velho conhecido da língua portuguesa - até a escolha do nome do grande antagonista da trama (até aí, Artemis - pitaqueado aqui - continuou sem acento na capa de sua edição BR pela Arqueiro: mais discreto, porém não menos estranho. Coisas do 'reforço de marca'?). Mas qualquer outro estranhamento que caso se possa ter é francamente diluível pela alta qualidade desta história.

Quem melhor conhece a obra me diz que é uma versão d'Os Cantos de Cantuária (Geoffrey Chaucer, sec. XIV), com a mesma estrutura de uma história sendo composta pelo contar dos personagens de suas próprias histórias pessoais. O que não é de se admirar, dado a formação acadêmica do autor ser de Letras. Uma outra obra dele, a duologia Illium e Olympus é a respeito de uma reencenação da Guerra de Tróia em Marte, por inteligências artificiais.

Como podemos ver, com Simmons nada é simples. 

Hyperion, portanto, é composto de uma história base que leva a bojo as histórias de seis dos sete protagonistas, em peregrinação para o planeta-título. Na medida em que a peregrinação ocorre, os personagens contam suas histórias pessoais e porque estão lá, para contar o tempo e talvez conseguir um insight de toda uma situação que os envolve, recheada de mistérios.

Na medida em que contam, percebem que, direta ou indiretamente, todos estão relacionados com  o remoto Hyperion e seu mais conhecido habitante, um monstro mitológico conhecido por empalar suas vítimas. Há todo um culto organizado por seres humanos ao redor do mito, que dadas horas lembra algo tirado de Hellraiser.

O futuro de Hyperion se passa no ano 2.732 (uma data modesta, perto de algumas antecipações mais hiperbólicas da ficção científica), e a Humanidade se espalha pelas estrelas sob sua Hegemonia, em centenas de mundos conectados por tecnologia de portais (chamada teleprojeção), também fazendo uso de naves subluz (com efeitos de dilatação do tempo contados como peso para a vida dos personagens).

Não é, apesar disso, um futuro gentil. Diferenças sociais abismais existem, potencializadas pela própria tecnologia, com ultra-ricos dispondo de casas em diversos mundos interligadas via portais, e massas de miseráveis vivendo de limpar canais de esgoto industrial como o descrito no planeta Portão Celestial, ou trabalhadores e operários vivendo em colmeias cinzentas em um ambiente esmagador como Lusus. Além disso, é citada a baixa alfabetização dessa mesma Humanidade pelas estrelas, e a singela falta da vontade de ler, como fica explícito na história contada pelo poeta: não bastasse, ainda uma parte da Humanidade, especializando-se em ambientes zero g, destacou-se e fugiu pelas estrelas, ameaçando voltar como uma força hostil contra a Hegemonia do Homem. Ainda, na última história, entendemos porque o espaço conhecido só apresenta relíquias alienígenas antigas ou o Homo sapiens: a 'hegemonia' assim é, pois descarta qualquer possibilidade de vida inteligente, antecipando uma concorrência.

A dupla duologia.

As histórias apresentadas se desenrolam bem, mesmo em sua complexidade, com focos em suas vidas pessoais alternando com as grandes questões e decisões que podem "abalar a galáxia", para ficar em um velho e preferido clichê, enquanto paisagens de diversos mundos são apresentadas, pelas memórias contadas ou durante a viagem dos peregrinos. Uma adaptação em minisérie seria realmente fascinante, pelos resultados.

No processo da escrita, vemos a qualidade do autor ao dar uma voz diferente (pessoal ou onisciente) para cada uma das histórias contadas, e aqui temos qualquer desenvolvimento de personagens: nesse primeiro volume, ao menos, ainda não li a sequência. Nenhum deles é particularmente simpático, salvo o professor, com o resto oscilando entre o mecânico e o insuportável.

As histórias pessoais são:

A história do sacerdote: "A fábula do homem e do deus"

Acompanhando a história prévia de um missionário, com seus pecados a pagar e sua crise de fé, a história contada por outro religioso que o conheceu, o padre Hoyt, bem descreve o afastar-se gradativo da civilização, mesmo uma com traços bem desagradáveis, cada vez mais dentro de lugares selvagens e inóspitos, exatamente como um evangelizador veria - apesar da conversão não ser a meta do missionário citado.

Por isso, essa história me fez lembrar de O Coração das Trevas (1899), em que se adentrava em um território cada vez mais longe, desconhecido e ameaçador a quem fosse de fora, como se fosse um personagem vivo. Ainda, as descrições das ruínas de tempos perdidos do Labirinto de Hyperion, assim como sua difícil acessibilidade, evoca facilmente as cidades perdidas de H. P. Lovecraft.

A relação com o povo Bikura de certa forma lembra o povo Pirahã, em seu isolacionismo e simplicidade (e com um missionário que saiu de seu contato com uma crise de fé), o que torna o contato pela linguagem outro tipo de desafio. Da mesma forma, os Bikuras são uma espécie de "neo-tribo": seres humanos que, no futuro, perdem o contato com a civilização tecnológica originária e forçosamente se readaptam a um estilo de vida tribal, ainda que à sua própria maneira (o "Povo Científico" de Estrelas, o meu destino sendo um exemplo). 

A história do soldado: "Os amantes da guerra"

A versatilidade de Simmons é vista logo no contraste aqui com a primeira história, melancólica e biográfica: agora vemos um thriller de sobrevivência sci-fi-militar taquicárdico, enquanto que a força hostil dos desterros é apresentada, assim como algum contexto. Poderia ser facilmente uma história no cinema estrelando, digamos, Tom Cruise ou qualquer outro 'action hero' que se queira elencar: o que significa que não há tempo para reflexão aqui, o oposto da história anterior. Há o mistério, entretanto, com que o soldado - cel. Fedmahn Kassad - se depara: a presença fantasmagórica de uma mulher nas simulações de batalha que, no final, levam ao monstro de Hyperion, e um pouco de seus planos.

Fan-arte inspirada. “The Lord and the Colonel”, por Alex Ries (fonte: Reddit

A história do poeta: "Cantos de Hyperion"

Aqui, temos outro depoimento pessoal, ainda que em uma história radicalmente diferente da do sacerdote, e talvez a que mais ofereça insights do cenário do romance. O poeta Martin Silenus, detestável até por seus companheiros de viagem, é uma extrapolação de ser escritor - especialmente quando quase ninguém lê -, eternamente em crise, seja porque não consegue público para sua 'alta literatura', enquanto que contratos milionários que lhe sustentam o luxo que tanto aprecia obrigam-no a escrever ficção rasa e escapista; seja porque luta para reencontrar sua musa: e quando a reencontra, tanto pior para todos.

O bônus aqui é um personagem secundário: há como não simpatizar pelo Triste Rei Billy e sua Cidade de Poetas.

A história do acadêmico: "O sabor do rio Lete é amargo"

O rio Lete, um dos rios do Inferno na mitologia grega, é o rio do qual as almas humanas, antes de renascerem, devem beber as águas, para que se esqueça da vida anterior. A citação do rio é o que ocorre com a filha de Sal Weintraub, como contado por este, É, disparado, a mais humana das histórias, 

Arqueóloga, a personagem vasculha as Tumbas Temporais de Hyperion, ruínas de sabe-se lá quando, para ser afetada de maneira única por suas 'marés temporais', revertendo sua idade rumo a seu nascimento, dia após dia. A agonia dos seus é desenrolada pela narrativa. E a peregrinação de seu pai, que tem nas mãos um bebê, é o que lhe resta como esperança - mesmo que em busca de um deus terrível.

A história da detetive: "O longo adeus"

Uma das mais famosas histórias de detetive dá o nome a este segmento, e aqui temos uma história seca, noir e cyberpunk para contar a participação das inteligências artificiais do cenário, especialmente seus esquemas velados: tudo começa com uma bela cliente - na verdade, um belo cliente - entrando pela porta do escritório chinelo de Brawne Lamia, investigadora particular, sem poder contar com a polícia, pedindo para que investigue um assassinato: o dele próprio.

A história do cônsul: "a história de Siri"

A ação da Hegemonia e uma pequena lição sobre como colonialismo funciona está nessa história, assim como as consequências da resistência armada. Ao mesmo tempo, ouvi ecos de Canções da Terra Distante, o último romance de Arthur C. Clarke (pitaqueado aqui), com longas despedidas entre amantes, separados pela dilatação do tempo por velocidades relativísticas. A dualidade - e oposição - dos mundos originais de ambos é uma resposta à proposta "E se Romeu e Julieta houvessem sobrevivido?".

***

Outra evidência da qualidade de Hyperion é que, apesar de recheado de referências literárias (o poeta inglês John Keats é paixão do autor), não conhecê-las não estraga a leitura: escritores, com suas pesquisas elaboradas, têm muito a aprender aqui.

Hyperion é seguido por Fall of Hyperion, Endymion e Rise of Endymion (trabalham como duas duologias), que estão ainda sem tradução publicada. Tomara que o primeiro venda o suficiente para a editora se interessar em lançar as sequências: é lastimável que, por exemplo, Anno Dracula - pela mesma editora - tenha ficado só no romance de estreia, por este exato motivo.

Recomendo altamente. Imperdível.

Hyperion
560 p
Aleph

domingo, 17 de outubro de 2021

O Messias de Duna


O Messias de Duna: capa da edição antiga pela Nova Fronteira.

Tenho que confessar que levei este tempo todo para finalmente ler inteiro. Achei simplesmente um livro chato, da primeira vez que li, e consequentemente, não avancei nos demais - apesar de conselhos dizendo que valia à pena. 

Mas, exatamente por causa da live que participei (e que comentei aqui), eu me vi entusiasmado para dar uma chance com um livro que, afinal, é mais ou menos um terço do original. E consegui terminá-lo, de fato, em poucos dias. 

O Messias de Duna (1969) é um livro muito centrado em conspirações - mais do que o livro anterior - e com isso um certo andamento pode ficar comprometido, de acordo com os gostos da audiência. Mas se você conseguir vencer os primeiros trechos ou o estilo, ganha uma ótima sequência ao livro original. 

Gênero

Messias de Duna originalmente foi publicado como noveleta na Galaxy Magazine, e depois ampliado para a forma de romance. Foi a primeira de mais quatro sequências que ele escreveu, valendo ainda Filhos de DunaO Imperador-Deus de DunaHereges de Duna e As Herdeiras de Duna. Os links anteriores vão pras edições atuais pela Aleph, que dispensou os artigos no título. 

Cenário

A mudança ambiental em Arrakis vai de vento em popa, conforme as ordens do Muad'Dib. Mas com a mudança, a sensação de ao se obter o que tanto se ansiava se mostra algo com um viés indesejável para os Fremen, que, apesar do sucesso em levar a palavra do Muad'Dib pelos mundos galáxia afora, veem seu modo de vida se diluir com os novos costumes e as novas gerações, ao mesmo tempo em que o ecossistema se torna mais generoso - subitamente, é como Arrakis não fosse mais o mundo feito por Deus "para testar os fiéis".

Trama

Passando-se 12 anos depois do livro original, Paul Atreides é não só o senhor de Arrakis mas o novo imperador do Universo Conhecido. Controlando a especiaria, ele controla o universo, e seus Fremen, como foi dito, são a base da mais nova jihad galáctica, que nesse meio tempo leva a palavra de seu autêntico messias aonde for. 

Ao mesmo tempo, ele já entendeu que sua presciência turbinada pela genética e a Água da Vida é antes uma prisão do que algo que consiga eficazmente controlar: e como poderá ficar o futuro para seu herdeiro? 

Personagens

De saída, somos apresentados aos conspiradores contra Paul Atreides, em um primeiro capítulo que me foi responsável, devo advertir e mesmo confessar, por minha desistência do livro da primeira vez que tentei de ler.

Entre os velhos os novos inimigos temos a CHOAM e as Bene Gesserit - na participação da Reverenda Madre Gaius Helena Mohiam assim como da própria esposa do imperador, a Princesa Irulan, além do Dançarino Facial Scyatle pelos Bene Tleilax e Edric, Navegador da CHOAM. Os BT ainda oferecem um presente duvidoso, na forma de Duncan Idaho redivivo, no que é chamado ghola.

O personagem central é, sem dúvida, Paul Atreides. Não obstante, doze anos depois dos eventos finais de Duna, sua jihad é vitoriosa, resultando em, de acordo com o próprio, 61 bilhões de mortos, 90 planetas esterilizados, 500 outros "totalmente desmoralizados" e no extermínio de seguidores de mais de 40 religiões diferentes - em uma "estimativa conservadora". 

Não precisamos chegar na página onde estão esses números para entendermos que a relutância de Paul em seguir esse caminho não o impediu de fazê-lo, exatamente antecipando o massacre que iria acontecer, ainda no primeiro livro, consciente ainda que o pior ainda poderia acontecer, caso não intereferisse. Em um enorme resumo: como ele atua dentro desse turbilhão é que é a intenção central deste volume.

Santa Alia da Faca, agora em sua adolescência, é alguém que teve a consciência desperta pela Água da Vida cedo demais, ainda sendo um feto em gestação: alguém tido como Aberração pelas Bene Gesserit, nela temos o embrião da tragédia que a consumirá no próximo livro, Os Filhos de Duna

Em edição atual pela Aleph.

Com um terço aproximadamente do livro original, mas sem precisar ambientar o leitor com todas as novidades trazidas pelo cenário rico e complexo como em Duna, esta sequência deixou alguns nomes conhecidos de fora: Gurney Halleck e Lady Jessica estão em Arrakis, mas somente dela só sabemos e através de uma carta enviada, em que ela alerta sobre os perigos da religião se unindo ao Estado, deixando Alia preocupada - e, de quebra, gerando um daqueles trechos cuja atualidade para nós, leitores, sempre é perturbadora. Tais perigos são melhor demonstrados, aliás, na sequência Os Filhos de Duna, em que ela volta a protagonizar.

Se não de fora, de menos na história: especialmente perto do fim, as coisas pareceram estar meio corridas quanto ao destino do elenco de conspiradores - nem que por bons serviços prestados, a gentil Reverenda Madre merecia uma última cena. 

O volume encerra com uma ótima saída de palco do protagonista, tanto em forma como motivações, e abrindo espaço para se sair da vida para entrar na lenda, ao mesmo tempo evitando muito do que o destino da civilização ele temia vir a se tornar.

O Messias de Duna 
283 p.
Editora Nova Fronteira (para fins de resenha)

sábado, 25 de setembro de 2021

Live de Duna (edit: + resenha)

 Domingo amanhã, 26/09/21, às 16h, participarei de uma live sobre Duna organizado pelo Clube de Leitura Zona Oeste, aproveitando o mote da estreia da refilmagem recente.

Desencavei minha velha cópia da ed. Nova Fronteira e reli nos últimos dias, após longos anos sem revê-lo. Reler com olhos de quem, hoje em dia, procura escrever se revelou uma grata surpresa.

Mais comentários depois de amanhã. Para quem quiser assistir, eis o link.


Duna, em edição de 1984 da ed. Nova Fronteira. Por Frank Herbert.

EDIT

Em vez de gerar mais um post, preferi ampliar este, uma espécie de resenha tardia (com spoilers) de Duna.
 
Como eu disse, grata surpresa ao reler depois de sei lá quanto tempo. Mais cedo neste ano ou em 2020 eu tentei, mas sem sucesso. Dessa vez fui até o final, e ainda no gás embiquei em O Messias de Duna, que deixarei pra um próximo post.

Na live eu digo tudo o que talvez tivesse a dizer aqui: há quem saliente que nunca se lê (relê) o mesmo liveo duas vezes, indicando a maturidade do leitor e seus momentos diferentes de vida. 

No meu caso, havendo entre lá e cá iniciado uma modesta carreira de autor, prestei atenção no texto que, de outra forma, talvez não tivesse.

Identifiquei trechos que me lembrava, que mais ou menos me lembrava, e passagens que para mim foram completamente inéditas. 

Foi muito bacana rever - ou ver - a construção das tramas, e os raciocínios que levarão Paul Atreides a ser o messias da Humanidade: não somente o plano das Bene Gesserit estava para acontecer, mas a força das circunstâncias leva Lady Jessica, sua mãe, a ativar "protocolos de emergência" psico-culturais, deixados pelas BG, que levam a uma população supersticiosa a acolhê-los como figuras profetizadas; e ainda sem que ninguém mais soubesse, paiava a promessa lançada pelo primeiro Planetólogo Imperial local para, junto à mesma população, trabalhar em um método para transformar o escaldante planeta desértico Arrakis em um paraíso ecológico nos séculos que viriam.

Duna é a primeira grande obra da new wave/'soft science fiction' abordando religião, política, cultura e ecologia como temas centrais, e não meras curiosidades secundárias, sendo da mesma geração que trouxe autores como Michael Moorcock, Ursula K. Le Guin e Philip K. Dick às prateleiras.

Seu worldbuilding impressiona, sendo também central à trama, conferindo ao planeta Arrakis toda uma identidade própria e senso de pertencimento dos personagens, sem o qual a proposta oferecida por um autor pode enfraquecer. O feito deixa Duna considerado também como tendo o primeiro grande worldbuilding da ficção científica, comparável ao da Terra-Média de Tolkien, do lado da fantasia.

Ao longo de suas 669 páginas dividas em três livros internos (mais apêndices), entretanto, senti que certos personagens apresentados ficaram "de menos" em seu desenvolvimento e potencial, tamanha a carga de informação - e não estou falando de nenhum infodump, percebam - que o livro apresenta. Não é um livro perfeito, mas não quer dizer que seja um livro ruim, longe, bem longe disso. O fã de ficção científica deve sempre dar uma chance para ler - quando não, reler - Duna.

Agora é esperar para ver o novo filme que, segundo soube, será divido em duas partes. Imagino que seja o certo a fazer, pois, como foi dito, são 669 páginas de muita informação que deixou o filme de 1984, de David Lynch, como problemático, para se dizer o mínimo.

Por último, cabe notar que Frank Herbert escreveu meia dúzia de livros a partir do primeiro, em sua carreira como escritor de ficção científica. Seu filho Brian e o escritor Kevin J. Anderson ainda expandiram o universo bem além, com base nas anotações do pai. No Brasil, que eu saiba apenas os livros do pai foram publicados. Uma página da wiki sobre a franquia de Duna aqui, para quem se interessar. Devo ler os primeiros livros em breve comentar por aqui, a futuro.

Duna
669 p.
Editora Nova Fronteira (para fins desta resenha. Edições atuais pela ed. Aleph)


sábado, 27 de março de 2021

Justiça Ancilar

Capa da edição brasileira.

Aviso: Spoilers abaixo.

Ancillary Justice (2013) é o romance de estreia da autora Ann Leckie, que começou já ganhando os badalados prêmios Hugo e Nebula, além de outros: nada mal, mesmo, para uma iniciante. No Brasil, uma tradução foi publicada pela ed. Aleph em 2018.

Gênero

A história é uma space opera bem próxima à "FC Militar", passando-se dentro de alguns tantos milhares de anos, com a Humanidade espalhada pela galáxia e algumas raças alienígenas, porém mais focada em povos humanos que já cultivam suas próprias culturas e ancestralidades. Apesar do que, há a presença do indefectível império galáctico, contra o qual não há escapatória, um governo humano que "traz a civilização" às estrelas e povos conquistados.

A autora investe ainda em transhumanismo, apresentando conceitos e sequências muito boas, com pontos de vista - literais - de uma mesma Inteligência Artificial alternando-se através dos diversos corpos que comanda, de parágrafo em parágrafo, às vezes mesmo diálogos. A protagonista um dia foi uma nave, sendo ao mesmo tempo a gerenciadora de suas funções e coordenadora da força de ancilares - corpos humanos sem direito à identidade conservados criogenicamente e despertos para receberem implantes onde a vontade da IA se manifestará.

Há ainda a presença de pós-humanos, os que se modificaram tanto que comunicar-se com o resto da Humanidade se torna um desafio cognitivo. Mas infelizmente eles são apresentados de relance.

Cenário:

Humanos e não-humanos sofrem o domínio do Império Radchaai, uma nação humana que se expande e assimila povos há alguns milhares de anos, contra quem não há resistência possível, impondo padrões de sociedade e cultura, em um processo de dominação contínuo, sob a justificativa e crença que "traz a civilização" ao conquistado. 

As imperfeições da sociedade futurista se revelam no discurso classista entre a nobreza de bem-nascidos e que nascem 'líderes naturais' contra quem, por esforço próprio, galga posições, um conflito social diretamente relacionado com a trama. 

A galáxia de Leckie é rica, portanto, em pontos de vista e questões culturais sempre indicados, especialmente as imprecisões da tradução de dados termos e intenções em diferentes idiomas, constantes na narrativa.

Trama:

A trama se dá em dois momentos de História, separados por séculos, mas mantendo o ponto de vista narrativo - ou múltiplos pontos de vista - sempre de Breq, contado em primeira pessoa. Ambos os tempos são apresentados por serem o início e o final da história, havendo a autora preferido alternar os momentos, em vez de uma abordagem linear em duas partes, 'passado e presente', para todo o conteúdo. Essa alternância é bem interessante, especialmente no passado, quando pontos de vista físicos eram trocados a cada parágrafo, com os vários olhos e ouvidos controlados por Breq, quando era a IA de uma nave militar.

Personagens:

É uma história de vingança, onde os dois protagonistas assumem o papel de "parceiros improváveis": Breq, movido por uma vingança pessoal, encontra Seivarden, um viciado em droga, e acaba o ajudando sem nem saber ao certo por que. Com o passar do livro, a identidade de ambos vai se tornando clara ao leitor, assim como as motivações e histórias, especialmente a de Breq, pela qual as coisas andam. 

Confesso que achei Seivarden não tão desenvolvido quanto poderia, sendo mais um acessório para Breq, no final das contas: no mais, sua recuperação do vício de drogas, apesar da tecnologia existente, ainda era algo para se preocupar ao nível da confiança - o que, efetivamente, leva à cena da ponte. Mas, a partir daí, as coisas se encaminham funcionais demais, ao meu ver. 

Ancillary Trilogy.

Forma:

Tomando como base a inexistência de gêneros na linguagem do dominador Radchaai, a autora fez uma outra experiência estilística (além da de alternância de pontos de vista) e retirou qualquer referência a homens ou mulheres, quando as coisas eram descritas ou ditas do ponto de vista de quem falasse ou pensasse em radchaai, deixando gênero para alguns poucos momentos em outros idiomas. A tradução do livro para o português, sob autorização da autora, pôs como gênero default o feminino, para salientar, à sua maneira, uma tentativa de estranheza da obra. 

Pessoalmente, pra mim funcionou, e foi divertido imaginar um elenco all-female pela história e galáxia afora.

A alternância de períodos de época e entre pontos de vista de localização pode ser um pouco confuso, mas é o que eu chamo de um bom confuso. Dá a sensação de novidade, senão conceitual, ao menos estilística que cabe perfeitamente em uma obra de ficção científica.

Entretanto, se não tivesse chamado a atenção para a questão de gênero no idioma, eu sinto que tanto faria como tanto fizesse ser assim como seus personagens serem todos homens, como em um romance mais antigo: não há definições, redefinições dos papeis de gênero, ou qualquer debate aqui. Talvez eu esteja perdendo o ponto proposto, mas não acho que isso deixe o livro com uma "sacada genial" ou similar, como parecem insistir: um mundo que, se por um lado há a louvável equivalência entre ambos os sexos em qualquer função - e é o mínimo que se espera em sociedades humanas daqui para frente, ao ponto que em si não é a primeira obra a pensar isto -, não me parece que salientar a ausência de gênero no vocabulário confira algum valor extra à obra.

Comparemos, por exemplo, com A Mão Esquerda da Escuridão (1969), de Ursula K. Le Guin, onde tanto há a questão de gênero é algo influente tanto para a história quanto para as culturas apresentadas: aqui, parece mais uma curiosidade exótica, que sempre é lembrada, mas não parece realmente importar para mais nada.

O filminho na minha cabeça: Breq e Seivarden, com a licença das descrições.

Achei o texto, por vezes, um pouco arrastado, com o ritmo melhorando pela metade do livro: em suas inúmeras sutilezas, a autora não se furta em salientá-las, o que talvez comprometa uma fluidez melhor.  Pode ser que tenha ocorrido por ter sido o primeiro livro de uma série, vendo-se na obrigação de apresentar o máximo de informação possível a um leitor, com uma escrita mais ágil nos volumes posteriores. 

Mas não só de poréns e entretantos vive a história: na busca por vingança pessoal contra o imperador galáctico, a ex-nave de guerra que é a protagonista promove uma guerra de uma pessoa só, apenas para descobrir que o imperador também está em uma guerra de uma pessoa só - civil, no caso, que já dura séculos e produz suas vítimas: pois em seus múltiplos corpos, o imperador não concorda sempre consigo mesmo,  mergulhado em um dilema insolúvel provocado por uma potência alienígena ameaçadora maior do que o Radch...

... e isso é uma história que vale à pena ler. 

Sendo parte de uma trilogia, espero que a Aleph venha a publicá-la por inteiro.

Recomendo.

Justiça Ancilar

384 p.

Editora Aleph

sábado, 1 de agosto de 2020

Expresso do Amanhã

Série Expresso do Amanhã estreará mais cedo que o esperado - POPSFERA
Snowpiercer: tecnologia futurista, calamidade presente, questões antigas.

Aviso: spoilers abaixo.

Le Transperceneige é uma obra que já alcançou mídias diferentes: as originais em quadrinhos, o filme com Chris Evans em 2013 e uma série nova na Netflix, agora em 2020. No Brasil, as três primeiras HQs (de 1982, 1999 e 2000) são encontradas em um só volume pela editora Aleph, O Perfuraneve. O quadrinho original foi criado por Jacques Lob (roteiro) e Jean-Marc Rochette (desenhos), e as demais publicações contaram com outros roteiristas.

O cenário é sobre quando o mundo entra em um período repentino de glaciação e os sobreviventes da Humanidade estão presos em uma composição de trem de mil vagões, rodando ano após anos por um circuito operacionais de linhas de trem. Não há para onde ir, apenas seguir. Todos lá fora morreram, as cidades são mausoléus brancos e congelados. O trem é uma maravilha da engenharia que, indica o nome, supera qualquer amontoamento de neve que bloqueie o circuito.

E a história é sobre como, dentro do trem, acontece uma representação da luta de classes, entre muitos que têm pouco e poucos que têm muito - e que nem no fim do mundo isso, dado a chance, mudará.

A ideia de sobreviventes da Humanidade em um último veículo selado contra o meio ambiente hostil não é nova, mas é sempre bom ver o que um novo take tem a acrescentar. A FC oferece, via de regra, naves gigantes, ditas geracionais, levando séculos e séculos em sua viagem por um lar às vezes cada vez mais mítico, até mesmo com seus habitantes se esquecendo de suas origens e mesmo sua missão. Na série original de Jornada nas Estrelas temos For the World is Hollow and I have Touched the Sky (3x08), já em The Orville a premissa é vista em If the Stars Should Appear (1x04). Uma disparidade de classes a bordo do veículo selado pode ser sugerida na frota de naves sobreviventes à mercê dos cylons na série Galactica original, assim como com o remake de 2004; e mais recentemente na espaçonave Órion vista na minisérie Ascension (2014), projeto este que infelizmente apenas ficou na mini-série.

Há mais tantos outros exemplos, independente da mídia, mas a vantagem básica, ao meu ver, é contar uma distopia social a bordo de um trem, que por mais futurista que possa ser concebido, é algo mais facilmente reconhecível pela audiência, alcançando assim mais gente - mesmo que questões sobre como linhas de trem continuariam funcionais sem manutenção (não é somente a respeito da locomotiva e da composição) tenham ficado em aberto.

A estrutura básica do trem se dá com os últimos vagões preenchido pelos pobres, em péssimas condições, que a medida que se avança pela composição até a locomotiva o nível de vida melhora consideravelmente: de comida a água encanada até algo que em geral não pensamos e damos por garantido, como espaço livre.


O Perfuraneve (2015), editora Aleph.

A primeira história em quadrinhos - a edição da Aleph traz as três primeiras histórias em um só volume. A primeira história apresenta a ideia e a ambientação. Um passageiro dos vagões dos fundos almeja avançar até a locomotiva. A diferença de classes aqui existe, mas a subversão não é o mote em si, ainda que a história, entretanto, mais foque em reações humanas quando o tema é 'farinha pouca, meu pirão primeiro': a "burguesa consciente" querendo ajudar o revolucionário que de revolucionário não tem exatamente algo é comovente. E em tempos de pandemia, a ideia de contágio aqui presente, devido às péssimas condições dos últimos vagões, tem um incômodo senso de atualidade.

Os enquadramentos privilegiam, como não pode deixar de ser, closes e ambientes fechados. Na primeira HQ, salvo a locomotiva, o trem tem um aspecto normal, por mais que a arte no geral privilegie os expressivos rostos dos personagens, pelo belo traço de Jean-Marc Rochette.

John Hurt, Chris Evans, and Tilda Swinton in Snowpiercer (2013)
O Expresso do Amanhã, 2013

O filme, dentro dos limites de tempo da exibição, apresenta uma situação de revolução iminente, com os desfavorecidos dos últimos vagões preparando-se para mais uma tentativa. Quinze anos já decorreram desde a partida do trem.

Além da adaptação entre formatos, há uma adaptação da história, mais se firmando nos elementos base presentes nos quadrinhos do que investindo em uma tradução entre mídias diferentes: mas o protagonista que anseia em alcançar a locomotiva, o coração e controle daquele mundo e por tabela das condições em que ele vivia, está lá.

É um retrato pouco sutil das questões de classe, com evocações até quando crianças eram utilizadas nas fábricas da Revolução Industrial para ocuparem espaços apertados e mexerem em maquinário perigoso, sem a menor proteção. Crianças pobres (e pretas, por tabela), esclarecido isto: enquanto crianças dos passageiros que pagaram melhores passagens tinham educação garantida de forma também a perpetuar uma mentalidade de descaso contra os menos favorecidos e apreciar a ordem, o status quo.

Chris Evans está bom como sempre, com o personagem finalmente desmoronando sob a confissão de seus pecados, próximo ao final. Ed Harris como uma espécie de Mágico de Oz/Grande Irmão orwelliano, o mítico e onipresente porém nunca visto Wilford, responsável pela criação do trem e do destino de todos a bordo. O elenco conta ainda com Octavia SpencerJohn HurtKang-ho Song (de Parasita) e, em um papel adoravelmente detestável, Tilda Swinton. Dirigido por Bong Joon Ho, também de Parasita, que aliás assina como escritor na nova série.

Snowpiercer: Season 1 – Review | Netflix / TNT Sci-Fi | Heaven of ...
Uma questão de lados.

A série dá a impressão de ser na mesma continuidade do trem, verificável por detalhes como o logotipo das Indústrias Wilson e a citação do elemento CW7 utilizado para o resfriamento global, assim como o problema com a droga koron - mas é um desenvolvimento próprio. Passa-se aproximadamente sete anos após a partida, e o esfriamento glacial se dá como explicado no filme, com o adendo de uma guerra havendo esquentado ainda mais o planeta, e a emenda saindo pior que o soneto.

Sendo um ambiente selado, o meio-ambiente precisa ser mantido em equilíbrio, para que não haja escassez: mas quando um assassinato ocorre, a elite do trem sente que o meio ambiente social pode estar em perigo. Entra em cena um dos protagonistas, um dos sobreviventes do fundo do trem, que antes do fim do mundo era detetive de homicídios - o único detetive a bordo. Com esse mote, o funcionamento social da composição vai sendo apresentado, com personagens por vezes envolvidos em segredos sórdidos.

Os passageiros se dividem em quatro classes, de acordo com o preço da passagem que compraram, ganhando vagões e opções de lazer cada vez menores: a primeira classe, a segunda e a terceira - e aí tem os tailers, os do fundo do trem, que forçaram sua entrada quando o desastre se abateu no planeta. Desde então, vêm sendo tratados como incômodo para o resto da ordem social: há que se alimentá-los de alguma forma, para prevenir tumultos como no passado. E mesmo a ideia cruel de apenas desatrelar os últimos vagões para se livrarem deles é vista com o receio por uma revolta na terceira classe, se isso acontecer.

No formato de série, o mundo pode aqui ser bem mais detalhado do que no filme, como a situação da tensão social a bordo. Mais do que pano de fundo, ela é parte da motivação dos personagens, entre a manutenção do status quo, sua derrubada e aquilo que se faz para se viver melhor.

O diretor aposta no momento atual, e não se enganem: esta também é uma obra tão política quanto Parasita, já citado. Não é à toa que o personagem principal é um negro, que não raro é espancado por seguranças fardados e blindados. Os dias em que começo a escrever essa resenha se sucedem ao do assassinato cruel de George Floyd nos EUA por um policial branco, e os violentos protestos que se seguiram.

Como na vida real com o S. S. Titanic, não há escaleres para todos, especialmente para as classes mais baixas.

Com dez episódios, a série termina em um belo gancho para a 2a temporada, ainda que tenha me parecido meio tirado da cartola. Mas o resultado, no cômputo geral, é bom e eu recomendo.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

The Forever War

The Forever War, de Joe Haldeman (Orion Press, 2009)

Spoilers abaixo.

Clássico da FC Militar, The Forever War (1974) é escrito por um veterano da Guerra do Vietnã (1955 - 1975), um ano antes da Ofensiva do Tet e da retirada das tropas americanas do sudeste asiático, dando fim ao conflito. Por ser a história que é e, imagino, capturar o momento, foi a obra vencedora dos Prêmios Hugo e Nebula, os máximos da FC norte-americana, além do Locus na categoria Melhor Romance do Ano.

A grande sacada de seu autor, Joe Haldeman, foi unir as consequências da dilatação do Tempo quando em velocidades próximas à da luz (o tempo passa bem mais devagar para um viajante nessas velocidades do que "do lado de fora") com a estranheza dos EUA no início e o fim da Guerra: uma América bem menos otimista e jovial do pós-II GM havia surgido; após toda a contestação, a contracultura beatnik, os assassinatos de Kennedy e Luther King, a Crise do Petróleo, hippies e o Verão de 68, os movimentos pacifista e ambiental, tensões étnicas, etc. etc. etc.

Soldados serviam até doze meses no Vietnã e, sobrevivendo, voltariam para casa. Mas a ideia é: e se eles ficassem todos os vinte anos fora de casa, no Vietnã? Como seria o contraste, ao voltar? Que EUA eles encontrariam? Como seria a sociedade? Perguntas feitas por alguém que teve que lutar para se reajustar à sociedade civil, especialmente após se ferir na guerra, ao servir em meados dos anos 60.

E Haldeman responde isso muito bem. A sociedade que ele imagina, no exótico mundo de 2024, ano do primeiro retorno do protagonista, o soldado William Mandella, é diferente o bastante do de sua partida, nos então distantes anos 90. Haldeman foi bem além do que nós fomos na vida real, com uma ciência astronáutica bem mais desenvolvida que em nosso mundo.

Mas ele reimaginou a sociedade de forma curiosa e amedrontadora, após episódios de fome mundial e um regime de força instaurado via ONU para assegurar que a sociedade não acabasse de descambar, com uma economia girando - e dependendo vitalmente - ao redor da guerra. A sexualidade é mais aberta, mas a seguridade social se torna cada vez mais escassa pela idade, até a inexistência. Cidades são aglomerados de pessoas em vários andares, todos com problemas altíssimos de segurança, sendo prática corriqueira contratar guarda-costas. Empregos são indicados pelo governo, mas há uma prática (ilegal) de subcontratar. Comunidades agrícolas semi-independentes correm à margem das cidades e do sistema, mas têm que enfrentar ataques de bandidos organizados; tudo com uma ligeira aura sugerindo o que vai ser explicitado em obras posteriores, de Mad Max ao cyberpunk.

A única certeza que Mandella tem é a da guerra. Ele se realista após experiências pessoais ruins, ele e uma colega de armas com quem já se relacionava nos tempos do serviço (o "amor livre" era prática na caserna), a cabo Marygay Potter. E a certeza de estarem juntos é também o que os conforta... por um tempo.

Mas nem na guerra a certeza lhe bastará: relíquia do fim do Século XX, ele irá se encontrar isolado culturalmente, entre o idioma que não mais fala e até mesmo sua sexualidade. Se apesar disso ele ainda tem que comandar os seus subordinados... o Exército deve saber o que está fazendo, não? :)

Mandella é um personagem curioso. Tem QI na base de 150, o que o candidata aos esquadrões de elite, com mestrado em Física. Ao mesmo tempo, não promove debate ou parece refletir o suficiente sobre o que ocorre. Não que não entenda, pelo contrário: talvez desde o começo perceba que não há nada a fazer em um sistema que depende da guerra para funcionar e, para isso, irá sacrificar gerações não raro com requintes de crueldade e passar um milênio em uma guerra contínua. Ele não busca informações sobre processos decisórios, alternando entre tempo de serviço e no que são breves momentos de fuga. Toda a informação que recebe é para fins práticos para a guerra. Deve ter sido processo similar na Guerra do Vietnã e o inimigo de aspecto mais estranho do que a norma étnica e cultural do soldado americano, assim como cultura e idioma, garantindo, suponho, uma barreira de comunicação perto do intransponível para a maioria. Ele não reflete, ele não julga, ele não condena - ele apenas prossegue.

O livro é o segundo escrito em um mesmo universo, o primeiro havendo sido War Year (1972), baseado nas cartas que enviou para casa, quando estava na guerra. Teve a sequência Forever Free (1999), um relato do ponto de vista da personagem Potter chamado A Separate War (1999) e uma sequência temática, não cronológica, chamada Forever Peace (1997). Há ainda adaptações para quadrinhos e uma para boardgame.

É um clássico instantâneo da FC Militar, como foi dito, sendo obra que merece estar ao lado de Tropas Estelares (1959), de Robert Heinlein, da qual tirou inspiração e de quem recebeu elogios.

Editora Aleph em vários fronts.

No Brasil, A Guerra Sem Fim pode ser encontrado pela editora Aleph, que também publicou a obra acima, investindo ainda na série mais recente A Guerra do Velho (2005, John Scalzi), apresentando ao público brasileiro três marcos do subgênero.

The Forever War
244 p
Orion Press

terça-feira, 4 de maio de 2010

Anno Dracula


Havendo finalmente lido o romance de Bram Stoker, logo na entrada abaixo, peguei para ler o livro que me motivou a comprá-lo, um excelente lançamento da Editora Aleph.

A Aleph, para quem não lembra ou conheceu, anda fazendo as vezes da finada Editora Hemus, que nos anos 60 publicou muito material de ficção-científica, além até do feijão com arroz Asimov-Clarke de sempre. Mas infelizmente fechou, e é cada vez mais raro encontrar seus livros nos sebos da vida. É, para o fã, um serviço de utilidade pública!

Então, vamos lá: Anno Dracula (1992), por Kim Newman, é o que é chamado Ficção Alternativa: sobre a obra de outra pessoa, você cria a sua, com personagens de outros em novas situações propostas pelo novo autor. O caso mais conhecido é o da Liga Extraordinária, péssima adaptação cinematográfica de A Liga dos Cavalheiros Extraordinários, em que diversos personagens criados no Século XIX por diferentes autores são reunidos por suas experiências e capacidades únicas para lutar contra um grande perigo à Coroa e ao Império Britânico. Enquanto o filme pode se sustentar, se você não conhecer a história original, como algo maluquete-divertidinho que você esquece em cinco minutos; a HQ original é estupenda, figurando personagens como Alan Quartermain, Mina Harker, Capitão Nemo, etc.; usando como base seus contextos originais, mas que isto não atrapalhe o novo que é criado.

Anno Dracula parte de um princípio semelhante, pegando a história original de Bram Stoker e partindo do pressuposto de que, no confronto no hospício em Carfax, em que ele é pego sugando o sangue de Mina Harker, ele não foge, mas enfrenta e varre o chão com os heróis, morrendo Quincey Morris e Johnathan Harker no processo. Daí para fora, temos a ascensão social do Príncipe da Valáquia até se casar com a Rainha Vitória - e o Império Britânico agora está sob nova direção: os empalamentos públicos estão ai para mostrar isto.

Para montar seu novo governo, Drácula nomeia diversos vampiros para lugares-chave e cargos de comando; e começa o desfile de nomes conhecidos (ou nem tanto): o primeiro-ministro da Inglaterra, por exemplo, é o personagem de John William Polidori em seu romance de 1816 The Vampyr, um dos primeiros vampiros literários em língua inglesa, bem antes do romance de Bram Stoker. Para sua terrível Guarda Carpatiana, quatro outros vampiros são resgatados de obras diferentes e, munidos de brutalidade, presas, espadas e armaduras, são re-introduzidos nesta obra como sendo velhos soldados a comando de Drácula, ainda contra os otomanos.

A edição brasileira, aliás, conta com um compêndio onde cada personagem é identificado com sua obra e autores originais, e os personagens históricos recebem uma breve biografia. Como O. Aragão aponta em seu ótimo pósfácio, Newman não se prende à literatura somente, mas lançando mão de personagens ainda de televisão e cinema.

Não conhecer estes personagens, ou totalmente desconhecer literatura vitoriana, entretanto, não diminui o prazer da leitura. Na verdade, Newman põe em primeiro plano seus próprios personagens, utilizados antes e depois em outros de seus livros, especialmente Charles Beauregard e Mademoiselle Geneviéve Dieudonné (esta, recorrente em obras do autor).

Aliás... talvez esteja o único problema a mais que vi no livro: assim como Quentin Tarantino faz em seus filmes, o excesso de referências parece antes servir a um desfile de cultura da área focalizada antes que realmente sirva ao desenrolar ou ao ambientar da história em si. Como já me definiram, é a situação-piscadinha que o autor faz ao leitor/espectador: "Olha, sacaram quem é esse cara? Hein, hein? É daquele livro, naquela hora! *piscadinha, piscadinha*"

Creio que a tentação seja grande demais, às vezes, para um autor que tanto se apaixona sobre o que tanto pesquisa resistir. Mas isso não compromete a fluência da leitura, em hipótese alguma -- aliás, talvez seja esse o principal ponto de diferença de literatura vitoriana: ritmo.

Newman não poupa esforços em mostrar uma nova sociedade londrina de fim de Século XIX. Em algum dado momento não especificado desde os três anos que separam Drácula de Anno Dracula, a existência de vampiros é dada como factual, apenas outro fenômeno natural, por mais estranho e peculiar que seja: ao mesmo tempo em que, rapidamente, os vampiros vão se tornando a classe superior, ainda há vampiros em todas as situações financeiras e sociais, e a vida eterna não exatamente mudou para melhor as condições destas pessoas. O ato de morder e sugar o sangue virou mais uma ferramenta de prazeres, incluída na prática da prostituição. Não há exatamente o glamour que certas obras ou visões podem dar do fenômeno do vampirismo.

É uma Londres que não se apóia, para seus conflitos, apenas na dualidade vampiros x quentes, mas também é a Londres dos anarquistas, socialistas, republicanos de modo geral, descontentes e, consequentemente, perseguidos do novo regime. Recorte deste mundo, e para onde a ação vira e mexe corre, é o Toynbee Hall, o que talvez em termos de Brasil de hoje em dia fosse um centro voltado para questões de cidadania: ao mesmo tempo que tem uma ala médica - é uma cidade tão doente que mesmo seus vampiros são doentes -, há salas para aulas populares e palestras. Nele encontramos o primeiro personagem do romance original, o sobrevivente Dr. John Seward, pretendente de Lucy Westenra e diretor do hospício onde Renfield estava internado. É agora o diretor do Toynbee Hall.

A repaginação dos personagens originais de Bram Stoker que aparecem, é... excelente, no caso de Seward, nada elogiosa, no caso do bom Arthur Holmwood, um pouco decepcionante, no caso de Mina e... surpreendente, no caso de Lucy. ;-) Leiam, e entenderão.

Do formato epistolar do livro original, aliás, temos apenas um único diário, justamente o de Seward, onde vamos nos dando conta de sua loucura gradativa, e de todos os fantasmas do passado que ele não consegue se livrar. As passagens de seu diário acabaram se tornando das minhas favoritas, em um livro só com grandes passagens... e ainda: é também um livro, como no romance original, sobre o homem que não está lá. Sua influência distante, desta vez, é brutalmente evidente.

Assim como no romance original, Anno Dracula nos dá diversos enfoques do problema do vampirismo: embora os diários e cartas dos personagens de Drácula todos representassem facetas de um mesmo problema, em Anno Dracula temos esta sociedade, acima descrita, vista por diversos homens e mulheres, quentes ou frios, em qualquer posição de poder, minando a idéia de que o vampirismo em si é somente um, senão O, problema.

Ao mesmo tempo, a atenção desta sociedade tão caótica, com tantos pareceres, se vê circulando ao redor de um único evento: o assassinato em série de prostitutas vampiras - sim, Jack o Estripador é um caçador de vampiros. Isto é apresentado logo de cara no primeiro capítulo, disponível aqui. Sensacional. E seus crimes vão agitando cada vez mais uma Londres prestes a explodir, devido às suas implicações políticas que nem o criminoso tem consciência.

Os vampiros aqui são tratados de forma "acessível", digamos. Não são seres sobrenaturais, há a possibilidade de entendê-los sob a luz da ciência (embora a questão dos espelhos seja uma pergunta embaraçosa). Nas divagações de Seward, constantemente ele se queixa da teimosia de Van Helsing em se apegar aos mitos folclóricos de outrora. É um desdobramento interessante, na minha opinião, exatamente da aproximação cientificista do problema sobrenatural, que até pus na resenha abaixo. Bom ver que Newman não ignorou isto.

Além do espectro mais amplo, o político e o social, o vampirismo está como agente de transformação o tempo todo, e não somente dos efeitos especiais do estado dos mortos-vivos ou licantropia: mas transformar-se em de quem se absorve o sangue, por exemplo. Ou de quem se convive, de quem se mira como exemplo... não de maneira geral ou literal, mas como força transformadora de uma personalidade, embora nem todos percebam. Isso foi um toque genial por parte do autor.

Anno Dracula tem ainda três continuações, The Bloody Red Baron (I Guerra Mundial), Dracula Cha Cha Cha (em 1959) e Johnny Alucard, fazendo parte de seu próprio conjunto de obra. Espero que algum dia saia no Brasil.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O Fim da Infância, de Arthur C. Clarke...

... ganhando nova edição pela Aleph. O primeiro capítulo pode ser acessado aqui.

É um dos (vários) grandes livros do mesmo co-autor de 2001 - Uma Odisséia no Espaço. Merecia, de fato, uma nova edição por aqui.

Previsão para Fevereiro.

terça-feira, 24 de novembro de 2009