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sábado, 19 de agosto de 2023

Silo

Silo: a verdade virá à tona - e alguns outros tantos mistérios também...

AVISO: SPOILERS A SEGUIR

Silo (2023) se passa em um período pós-apocalíptico, onde dez mil seres humanos nascem, crescem e morrem dentro de um bunker subterrâneo de 144 pavimentos, com medo do que ocorre na superfície. Eles sobrevivem em uma sociedade estável, por pelo menos 140 anos após um cataclismo, embora não saibam muito mais além disso: uma facção revoltosa no passado arruinou seus registros computadorizados, e ninguém se lembra mais como tudo aconteceu antes - "e a tradição oral?" pode ser uma pergunta válida, mas sem tantos spoilers assim.

A construção do cenário é bem explorada, com uma sociedade focada em cada um fazer o seu trabalho, em um ambiente confinado. Podia ser a bordo de uma nave ou veículo de gerações, como em O Expresso do AmanhãAscension ou algumas outras, embora a referência pop mais direta hoje em dia seja a série de games Fallout, onde personagens despertam de um sono induzido após o mundo entrar em uma guerra nuclear nos anos 50. Outras referências ceeertamente incluem 1984, onde o Grande Irmão nunca deixa de velar pelo povo, embora este, aqui, não tenha a menor ideia do que está acontecendo. Ainda, a ideia de uma sociedade confinada com medo - especialmente o injustificado - do que ocorre lá fora é antiga, de saída lembrando Fuga no Século XXIII e, claro, THX 1138. Podemos também nos lembrar de Zion, o último bastião da Humanidade, na franquia The Matrix.

Logo se vê uma conspiração envolvendo assassinatos, que é o que move a protagonista, que quanto mais cava, mais se aprende sobre os detalhes da sociedade, tanto os às claras quanto os sombrios. É uma trama sobre o apagamento sistemático do passado, em prol da segurança presente - e de interesses não necessariamente justificados para todos. O controle da informação sobre o passado é pivotal na trama, o que leva a um diálogo com obras da FC como o já referido 1984, mas também, pelo pós-apocalíptico da coisa, com Um Cântico para Leibowitz e mesmo Fundação.

Bom trailer!

O Silo, como assim é chamado, tem seus diversos pavimentos conectados sobretudo por um grande eixo central, ao redor do qual há uma rampa helicoidal, e as passarelas de acesso. Tudo é cinza meio esverdeado, salientando o cimento que vivem. Na base, há os engenheiros e mecânicos que mantêm 24 horas por dia o maquinário necessário funcionando, em geral se considerando meio esquecidos pelos demais níveis. Não há veículos, no máximo porters, mensageiros que vivem indo pra cima e pra baixo levando desde mensagens a alguma pequena carga. A tecnologia é similar à nossa, mas com um quê mais atrasado, justificável em uma sociedade que dirige todos os esforços em se manter funcional. À vista e escondido de todos, um poder Judiciário controla tudo ajuda a manter a ordem na casa: relíquias do mundo pré-apocalipse são objeto de visitas desagradáveis da lei em sua casa - e por elas, percebemos que o que acabou com a civilização não parece estar tão longe de nossa época.

Em cada nível há uma cantina comunitária, onde um amplo monitor panorâmico transmite, 24 horas por dia, uma mesma imagem, advinda da única câmera montada no exterior, sobre a saída do lugar. A saída do Silo, aliás, é garantida a qualquer um que se manifeste com uma frase como "eu quero ir lá fora" - mas uma vez proferida, não há desistência possível. O sistema criminal americano é lembrado aqui, com toda uma cerimônia de preparar um traje de sobrevivência, como quem arma uma cadeira elétrica ou câmera de gás, assim como o cargo de xerife, e a tropa de choque da polícia. Outra característica que permeia por alguns diálogos é a mítica dos 'Pais Fundadores' dos EUA, no caso, do Silo, que 'sabiam do que faziam', mesmo quando deixavam todo mundo sem resposta para algumas tantas perguntas.

Visualidades e ecos inevitáveis: O Planeta Proibido, O Túmel do Tempo...

O que leva a uma questão: onde ficaria o tal Silo? Uma única ideia, nesta temporada, é oferecida pela observação anual de um personagem secundário, que detecta uma formação de estrelas, à noite - cuja natureza os habitantes do Silo também desconhecem -, em forma de um W meio torto, que ele percebeu que nunca desaparece e reaparece sob o horizonte ao longo do ano. O dábliu sendo, pra conhece, a constelação do céu setentrional de Cassiopéia. E se ela é perene, ou seja, nunca se põe, está a (pelo menos) 34o. de latitude norte. Fuçando na internet, é uma latitude que passa por Los Angeles, e além da Califórnia, pelos estados de Arizona, Novo México, Texas, Oklahoma, Arkansas, Mississipi, Alabama, Geórgia e ambas as Carolinas: escolha um.

Da data dos eventos, é incerto se a série seguirá os livros, que se passam em períodos diferentes. O primeiro livro é vago sobre o assunto, o mais recente dá o ano de 2.345.

A protagonista da história é levada por Rebecca Ferguson (a Lady Jessica no novo Duna), ainda constando Tim Robbins. O elenco manda muitíssimo bem em seus personagens, com seus próprios problemas e segredos, ajudando a tocar a trama em um ótimo andamento, até um final de temporada bem surpreendente: se isso lembra a vocês de decepções como Lost, compreensível. Mas me parece que aprendeu as lições do que não fazer. A princípio, já que encerra a temporada em... grande estilo, digamos.

Sir Friendzone, ainda suspirando pela aprovação duma lourinha...

A apresentação é particularmente estilosa, aproveitando a coluna central do Silo, ao redor da qual desce uma rampa e acessos por seus cem níveis, e tece comparações com uma colônia de cupins, a espiral do ADN, coluna vertebral, etc.

Silo é uma adaptação de um universo ficcional criado por Hugh C. Howey, que já rendeu escritos e uma graphic novel. Aliás, fandom wiki aqui.

Pela Apple TV+, eu espero que haja uma segunda temporada.

domingo, 20 de março de 2022

Caranguejo Negro

A Garota Com Tatuagem De Não F*** Meu Juízo

Aviso: Spoilers abaixo.

Caranguejo Negro (2022) é um filme sueco disponível na Netflix e se passa em um futuro próximo (o filme é considerado pós-apocalíptico) - na verdade, poderia ser nos dias de hoje - onde uma guerra civil aflige um país nórdico - supõe-se, a própria Suécia.

Claro que, em tempos de invasão russa na Ucrânia, é difícil pensar em acaso, nessas horas. Mas talvez para não piorar qualquer pré-disposição; o fato é que a trama é econômica nas descrições: há nós, e há eles, os inimigos. Nenhuma pista é dada, salvo uma breve menção a uma guerra civil logo no início, um passado ao qual se volta de vez em quando em flashes e sonhos: após longos e dolorosos anos, tudo o que há é a guerra, retratada no presente.

Às vésperas da derrota certa pelo lado dos seis protagonistas, eles recebem a missão de alcançar uma ilha distante de onde estão, alcançável pelo gelo não por veículos ou barcos, mas patinando, para entregar um pacote misterioso, e com isso, vencer a guerra de uma vez por todas.

É um clima sombrio, onde motivações apresentadas podem levar a atitudes de desconfiança o tempo todo. 

Ao seu modo, talvez não deixe de ser um 'road movie'...

A viagem dos seis soldados pelo arquipélago congelado é o grande atrativo do filme. O gelo é repensado como só alguém, creio, de uma cultura que convive com o fenômeno poderia. Ligando ao estresse e os horrores da guerra, a passagem sobre o gelo e sob uma lua e céus nublados e cinzentos revela paisagens em geral não representadas, com deques de madeira abandonados, barcos e navios tombados, restos mortais de outra época nem tão distante assim - tudo saindo de debaixo do gelo, além de uma (nem que involuntária) assombrosa repaginação do Pântano dos Mortos em As Duas Torres

Nesse breve aspecto, o filme pode lembrar até mesmo de Apocalypse Now, e a viagem da lancha canhoeira rio acima, pelas selvas do Vietnã e encontros e ocorridos ao longo do caminho sendo perigosos e inusitados.

Fotografia que impressiona.

Do elenco, conheço somente Noomi Rapace, cuja personagem é obcecada em encontrar sua filha, separadas por soldados anos atrás. A moral cambiante dos tempos extremos é medida por sua motivação. Os demais atores não conheço ou reconheci de outros papeis, alguns deixando sua breve marca em personagens, como nesse tipo de filme e trama ocorre, descartáveis.

Recomendo.

sábado, 1 de agosto de 2020

Expresso do Amanhã

Série Expresso do Amanhã estreará mais cedo que o esperado - POPSFERA
Snowpiercer: tecnologia futurista, calamidade presente, questões antigas.

Aviso: spoilers abaixo.

Le Transperceneige é uma obra que já alcançou mídias diferentes: as originais em quadrinhos, o filme com Chris Evans em 2013 e uma série nova na Netflix, agora em 2020. No Brasil, as três primeiras HQs (de 1982, 1999 e 2000) são encontradas em um só volume pela editora Aleph, O Perfuraneve. O quadrinho original foi criado por Jacques Lob (roteiro) e Jean-Marc Rochette (desenhos), e as demais publicações contaram com outros roteiristas.

O cenário é sobre quando o mundo entra em um período repentino de glaciação e os sobreviventes da Humanidade estão presos em uma composição de trem de mil vagões, rodando ano após anos por um circuito operacionais de linhas de trem. Não há para onde ir, apenas seguir. Todos lá fora morreram, as cidades são mausoléus brancos e congelados. O trem é uma maravilha da engenharia que, indica o nome, supera qualquer amontoamento de neve que bloqueie o circuito.

E a história é sobre como, dentro do trem, acontece uma representação da luta de classes, entre muitos que têm pouco e poucos que têm muito - e que nem no fim do mundo isso, dado a chance, mudará.

A ideia de sobreviventes da Humanidade em um último veículo selado contra o meio ambiente hostil não é nova, mas é sempre bom ver o que um novo take tem a acrescentar. A FC oferece, via de regra, naves gigantes, ditas geracionais, levando séculos e séculos em sua viagem por um lar às vezes cada vez mais mítico, até mesmo com seus habitantes se esquecendo de suas origens e mesmo sua missão. Na série original de Jornada nas Estrelas temos For the World is Hollow and I have Touched the Sky (3x08), já em The Orville a premissa é vista em If the Stars Should Appear (1x04). Uma disparidade de classes a bordo do veículo selado pode ser sugerida na frota de naves sobreviventes à mercê dos cylons na série Galactica original, assim como com o remake de 2004; e mais recentemente na espaçonave Órion vista na minisérie Ascension (2014), projeto este que infelizmente apenas ficou na mini-série.

Há mais tantos outros exemplos, independente da mídia, mas a vantagem básica, ao meu ver, é contar uma distopia social a bordo de um trem, que por mais futurista que possa ser concebido, é algo mais facilmente reconhecível pela audiência, alcançando assim mais gente - mesmo que questões sobre como linhas de trem continuariam funcionais sem manutenção (não é somente a respeito da locomotiva e da composição) tenham ficado em aberto.

A estrutura básica do trem se dá com os últimos vagões preenchido pelos pobres, em péssimas condições, que a medida que se avança pela composição até a locomotiva o nível de vida melhora consideravelmente: de comida a água encanada até algo que em geral não pensamos e damos por garantido, como espaço livre.


O Perfuraneve (2015), editora Aleph.

A primeira história em quadrinhos - a edição da Aleph traz as três primeiras histórias em um só volume. A primeira história apresenta a ideia e a ambientação. Um passageiro dos vagões dos fundos almeja avançar até a locomotiva. A diferença de classes aqui existe, mas a subversão não é o mote em si, ainda que a história, entretanto, mais foque em reações humanas quando o tema é 'farinha pouca, meu pirão primeiro': a "burguesa consciente" querendo ajudar o revolucionário que de revolucionário não tem exatamente algo é comovente. E em tempos de pandemia, a ideia de contágio aqui presente, devido às péssimas condições dos últimos vagões, tem um incômodo senso de atualidade.

Os enquadramentos privilegiam, como não pode deixar de ser, closes e ambientes fechados. Na primeira HQ, salvo a locomotiva, o trem tem um aspecto normal, por mais que a arte no geral privilegie os expressivos rostos dos personagens, pelo belo traço de Jean-Marc Rochette.

John Hurt, Chris Evans, and Tilda Swinton in Snowpiercer (2013)
O Expresso do Amanhã, 2013

O filme, dentro dos limites de tempo da exibição, apresenta uma situação de revolução iminente, com os desfavorecidos dos últimos vagões preparando-se para mais uma tentativa. Quinze anos já decorreram desde a partida do trem.

Além da adaptação entre formatos, há uma adaptação da história, mais se firmando nos elementos base presentes nos quadrinhos do que investindo em uma tradução entre mídias diferentes: mas o protagonista que anseia em alcançar a locomotiva, o coração e controle daquele mundo e por tabela das condições em que ele vivia, está lá.

É um retrato pouco sutil das questões de classe, com evocações até quando crianças eram utilizadas nas fábricas da Revolução Industrial para ocuparem espaços apertados e mexerem em maquinário perigoso, sem a menor proteção. Crianças pobres (e pretas, por tabela), esclarecido isto: enquanto crianças dos passageiros que pagaram melhores passagens tinham educação garantida de forma também a perpetuar uma mentalidade de descaso contra os menos favorecidos e apreciar a ordem, o status quo.

Chris Evans está bom como sempre, com o personagem finalmente desmoronando sob a confissão de seus pecados, próximo ao final. Ed Harris como uma espécie de Mágico de Oz/Grande Irmão orwelliano, o mítico e onipresente porém nunca visto Wilford, responsável pela criação do trem e do destino de todos a bordo. O elenco conta ainda com Octavia SpencerJohn HurtKang-ho Song (de Parasita) e, em um papel adoravelmente detestável, Tilda Swinton. Dirigido por Bong Joon Ho, também de Parasita, que aliás assina como escritor na nova série.

Snowpiercer: Season 1 – Review | Netflix / TNT Sci-Fi | Heaven of ...
Uma questão de lados.

A série dá a impressão de ser na mesma continuidade do trem, verificável por detalhes como o logotipo das Indústrias Wilson e a citação do elemento CW7 utilizado para o resfriamento global, assim como o problema com a droga koron - mas é um desenvolvimento próprio. Passa-se aproximadamente sete anos após a partida, e o esfriamento glacial se dá como explicado no filme, com o adendo de uma guerra havendo esquentado ainda mais o planeta, e a emenda saindo pior que o soneto.

Sendo um ambiente selado, o meio-ambiente precisa ser mantido em equilíbrio, para que não haja escassez: mas quando um assassinato ocorre, a elite do trem sente que o meio ambiente social pode estar em perigo. Entra em cena um dos protagonistas, um dos sobreviventes do fundo do trem, que antes do fim do mundo era detetive de homicídios - o único detetive a bordo. Com esse mote, o funcionamento social da composição vai sendo apresentado, com personagens por vezes envolvidos em segredos sórdidos.

Os passageiros se dividem em quatro classes, de acordo com o preço da passagem que compraram, ganhando vagões e opções de lazer cada vez menores: a primeira classe, a segunda e a terceira - e aí tem os tailers, os do fundo do trem, que forçaram sua entrada quando o desastre se abateu no planeta. Desde então, vêm sendo tratados como incômodo para o resto da ordem social: há que se alimentá-los de alguma forma, para prevenir tumultos como no passado. E mesmo a ideia cruel de apenas desatrelar os últimos vagões para se livrarem deles é vista com o receio por uma revolta na terceira classe, se isso acontecer.

No formato de série, o mundo pode aqui ser bem mais detalhado do que no filme, como a situação da tensão social a bordo. Mais do que pano de fundo, ela é parte da motivação dos personagens, entre a manutenção do status quo, sua derrubada e aquilo que se faz para se viver melhor.

O diretor aposta no momento atual, e não se enganem: esta também é uma obra tão política quanto Parasita, já citado. Não é à toa que o personagem principal é um negro, que não raro é espancado por seguranças fardados e blindados. Os dias em que começo a escrever essa resenha se sucedem ao do assassinato cruel de George Floyd nos EUA por um policial branco, e os violentos protestos que se seguiram.

Como na vida real com o S. S. Titanic, não há escaleres para todos, especialmente para as classes mais baixas.

Com dez episódios, a série termina em um belo gancho para a 2a temporada, ainda que tenha me parecido meio tirado da cartola. Mas o resultado, no cômputo geral, é bom e eu recomendo.