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quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

A Ameaça do Contínuo - Intempol 2

Muitíssimo feliz de ter meu conto 'A Ameaça do Contínuo' adaptado pelo próprio Octavio Aragão e desenhado por André Flauzino para o volume 2 da antologia em quadrinhos da Intempol, projeto que tenho uma relação desde os primórdios, em fins de 90...

AadC tinha sido publicado somente no antigo site da "Empresa", infelizmente extinto há muito tempo, é muito bom vê-lo com uma segunda chance. :)

O álbum está previsto para este ano.




sábado, 1 de agosto de 2020

Expresso do Amanhã

Série Expresso do Amanhã estreará mais cedo que o esperado - POPSFERA
Snowpiercer: tecnologia futurista, calamidade presente, questões antigas.

Aviso: spoilers abaixo.

Le Transperceneige é uma obra que já alcançou mídias diferentes: as originais em quadrinhos, o filme com Chris Evans em 2013 e uma série nova na Netflix, agora em 2020. No Brasil, as três primeiras HQs (de 1982, 1999 e 2000) são encontradas em um só volume pela editora Aleph, O Perfuraneve. O quadrinho original foi criado por Jacques Lob (roteiro) e Jean-Marc Rochette (desenhos), e as demais publicações contaram com outros roteiristas.

O cenário é sobre quando o mundo entra em um período repentino de glaciação e os sobreviventes da Humanidade estão presos em uma composição de trem de mil vagões, rodando ano após anos por um circuito operacionais de linhas de trem. Não há para onde ir, apenas seguir. Todos lá fora morreram, as cidades são mausoléus brancos e congelados. O trem é uma maravilha da engenharia que, indica o nome, supera qualquer amontoamento de neve que bloqueie o circuito.

E a história é sobre como, dentro do trem, acontece uma representação da luta de classes, entre muitos que têm pouco e poucos que têm muito - e que nem no fim do mundo isso, dado a chance, mudará.

A ideia de sobreviventes da Humanidade em um último veículo selado contra o meio ambiente hostil não é nova, mas é sempre bom ver o que um novo take tem a acrescentar. A FC oferece, via de regra, naves gigantes, ditas geracionais, levando séculos e séculos em sua viagem por um lar às vezes cada vez mais mítico, até mesmo com seus habitantes se esquecendo de suas origens e mesmo sua missão. Na série original de Jornada nas Estrelas temos For the World is Hollow and I have Touched the Sky (3x08), já em The Orville a premissa é vista em If the Stars Should Appear (1x04). Uma disparidade de classes a bordo do veículo selado pode ser sugerida na frota de naves sobreviventes à mercê dos cylons na série Galactica original, assim como com o remake de 2004; e mais recentemente na espaçonave Órion vista na minisérie Ascension (2014), projeto este que infelizmente apenas ficou na mini-série.

Há mais tantos outros exemplos, independente da mídia, mas a vantagem básica, ao meu ver, é contar uma distopia social a bordo de um trem, que por mais futurista que possa ser concebido, é algo mais facilmente reconhecível pela audiência, alcançando assim mais gente - mesmo que questões sobre como linhas de trem continuariam funcionais sem manutenção (não é somente a respeito da locomotiva e da composição) tenham ficado em aberto.

A estrutura básica do trem se dá com os últimos vagões preenchido pelos pobres, em péssimas condições, que a medida que se avança pela composição até a locomotiva o nível de vida melhora consideravelmente: de comida a água encanada até algo que em geral não pensamos e damos por garantido, como espaço livre.


O Perfuraneve (2015), editora Aleph.

A primeira história em quadrinhos - a edição da Aleph traz as três primeiras histórias em um só volume. A primeira história apresenta a ideia e a ambientação. Um passageiro dos vagões dos fundos almeja avançar até a locomotiva. A diferença de classes aqui existe, mas a subversão não é o mote em si, ainda que a história, entretanto, mais foque em reações humanas quando o tema é 'farinha pouca, meu pirão primeiro': a "burguesa consciente" querendo ajudar o revolucionário que de revolucionário não tem exatamente algo é comovente. E em tempos de pandemia, a ideia de contágio aqui presente, devido às péssimas condições dos últimos vagões, tem um incômodo senso de atualidade.

Os enquadramentos privilegiam, como não pode deixar de ser, closes e ambientes fechados. Na primeira HQ, salvo a locomotiva, o trem tem um aspecto normal, por mais que a arte no geral privilegie os expressivos rostos dos personagens, pelo belo traço de Jean-Marc Rochette.

John Hurt, Chris Evans, and Tilda Swinton in Snowpiercer (2013)
O Expresso do Amanhã, 2013

O filme, dentro dos limites de tempo da exibição, apresenta uma situação de revolução iminente, com os desfavorecidos dos últimos vagões preparando-se para mais uma tentativa. Quinze anos já decorreram desde a partida do trem.

Além da adaptação entre formatos, há uma adaptação da história, mais se firmando nos elementos base presentes nos quadrinhos do que investindo em uma tradução entre mídias diferentes: mas o protagonista que anseia em alcançar a locomotiva, o coração e controle daquele mundo e por tabela das condições em que ele vivia, está lá.

É um retrato pouco sutil das questões de classe, com evocações até quando crianças eram utilizadas nas fábricas da Revolução Industrial para ocuparem espaços apertados e mexerem em maquinário perigoso, sem a menor proteção. Crianças pobres (e pretas, por tabela), esclarecido isto: enquanto crianças dos passageiros que pagaram melhores passagens tinham educação garantida de forma também a perpetuar uma mentalidade de descaso contra os menos favorecidos e apreciar a ordem, o status quo.

Chris Evans está bom como sempre, com o personagem finalmente desmoronando sob a confissão de seus pecados, próximo ao final. Ed Harris como uma espécie de Mágico de Oz/Grande Irmão orwelliano, o mítico e onipresente porém nunca visto Wilford, responsável pela criação do trem e do destino de todos a bordo. O elenco conta ainda com Octavia SpencerJohn HurtKang-ho Song (de Parasita) e, em um papel adoravelmente detestável, Tilda Swinton. Dirigido por Bong Joon Ho, também de Parasita, que aliás assina como escritor na nova série.

Snowpiercer: Season 1 – Review | Netflix / TNT Sci-Fi | Heaven of ...
Uma questão de lados.

A série dá a impressão de ser na mesma continuidade do trem, verificável por detalhes como o logotipo das Indústrias Wilson e a citação do elemento CW7 utilizado para o resfriamento global, assim como o problema com a droga koron - mas é um desenvolvimento próprio. Passa-se aproximadamente sete anos após a partida, e o esfriamento glacial se dá como explicado no filme, com o adendo de uma guerra havendo esquentado ainda mais o planeta, e a emenda saindo pior que o soneto.

Sendo um ambiente selado, o meio-ambiente precisa ser mantido em equilíbrio, para que não haja escassez: mas quando um assassinato ocorre, a elite do trem sente que o meio ambiente social pode estar em perigo. Entra em cena um dos protagonistas, um dos sobreviventes do fundo do trem, que antes do fim do mundo era detetive de homicídios - o único detetive a bordo. Com esse mote, o funcionamento social da composição vai sendo apresentado, com personagens por vezes envolvidos em segredos sórdidos.

Os passageiros se dividem em quatro classes, de acordo com o preço da passagem que compraram, ganhando vagões e opções de lazer cada vez menores: a primeira classe, a segunda e a terceira - e aí tem os tailers, os do fundo do trem, que forçaram sua entrada quando o desastre se abateu no planeta. Desde então, vêm sendo tratados como incômodo para o resto da ordem social: há que se alimentá-los de alguma forma, para prevenir tumultos como no passado. E mesmo a ideia cruel de apenas desatrelar os últimos vagões para se livrarem deles é vista com o receio por uma revolta na terceira classe, se isso acontecer.

No formato de série, o mundo pode aqui ser bem mais detalhado do que no filme, como a situação da tensão social a bordo. Mais do que pano de fundo, ela é parte da motivação dos personagens, entre a manutenção do status quo, sua derrubada e aquilo que se faz para se viver melhor.

O diretor aposta no momento atual, e não se enganem: esta também é uma obra tão política quanto Parasita, já citado. Não é à toa que o personagem principal é um negro, que não raro é espancado por seguranças fardados e blindados. Os dias em que começo a escrever essa resenha se sucedem ao do assassinato cruel de George Floyd nos EUA por um policial branco, e os violentos protestos que se seguiram.

Como na vida real com o S. S. Titanic, não há escaleres para todos, especialmente para as classes mais baixas.

Com dez episódios, a série termina em um belo gancho para a 2a temporada, ainda que tenha me parecido meio tirado da cartola. Mas o resultado, no cômputo geral, é bom e eu recomendo.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Psicopompo



Psicopompo: porque a luz pode ser tão apavorante quanto as trevas.

Acaba sendo um pouco difícil para mim falar algo mais do que já foi dito sobre Psicopompo, até mesmo nas páginas de apresentação da obra. Ainda, tem uma entrevista com eles aqui, e outra, de 2015, aqui. Só posso dizer que tudo aventado foi entregue, e a contento.

PSICOPOMPO | Quadrinho carioca já tem data de lançamento ...
Psicopompo: após tantos anos sendo planejado, eis finalmente o fruto dourado do sol.

A história é relativamente simples: em uma disputa de futebol entre meninos no campinho de uma favela, a batalha cósmica que define o fim de uma era ou ciclo está acontecendo. O anonimato do evento não torna o confronto menos importante ou decisivo, enquanto agentes imortais tentam influenciar sua decisão.

Eu disse, "relativamente".

Psicopompo on Twitter: "Ainda acha que os balões dos quadrinhos ...

O enquadrar e o reenquadrar.

O texto é de Octavio Aragão e a arte, de Carlos Hollanda, e como em toda boa parceria, um influenciou o outro durante o processo. Ambos são acadêmicos e profissionais com interesses e formação férteis para pensar em significados: quadrinhos, ficção científica, design, astrologia, arte e história da arte. O resultado é uma rica colheita esotérica-semiótica hipnotizante, especialmente em se tratando das cores... as cores... ah-ham. A arte passeia por significados não totalmente óbvios na primeira passada de olhos. É das obras que gostamos de apreciar, após a história lida, por suas páginas.

Psicopompo_Banner_e2.jpg
E Megiddo, quem diria, foi parar em Irajá.

Páginas estas que demoraram. Foram concebidas, tratadas, refinadas, refeitas desde 2014, entre reconceituações e a própria vida que passa diante de nós, ora tumultuada, ora rápida demais. Mas o resultado está aí. Valeu por todo esse tempo de espera? Sem dúvida.

Psicopompo
84 p.
Caligari, 2020.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Bartolomeu

Bartolomeu, de Victor Moura. Editora Caligari (2018)

Bartolomeu é a graphic novel do quadrinista Victor Moura, e conta uma história de gente normal, gente que queria ser normal, gente nada normal e o fim do mundo - senão, quase.

O personagem-título é assombrado desde criança por coisas assustadoras que só ele vê, e dá um jeito de viver bem com isso, na medida do possível. Depois de crescido, sabe sobre o que tudo se passa com ele, e reluta trilhar o caminho que dele se espera, preferindo a simples e limitada existência meramente humana. Obviamente que isso não pode ser possível.

Já vimos essa história? Já, e algumas vezes. Assim como das melhores vezes, Bartolomeu é muito bem feito. Em resumo, é como John Constantine fosse desenhado por Mike Mignola (Hellboy), vivesse na Lapa, Rio de Janeiro, entre bares de segunda onde toca violão e uma oficina de carros onde tira seu sustento - e tomando corrida de Coisas Que o Homem Não Deve Conhecer entre uma viela sombria e outra.

A afirmação de que "todos têm demônios interiores" ganha novos contornos aqui, gostosamente literais. Os demônios de Bartolomeu não apenas torturam e assombram, mas por vezes são torturados por aquilo que um dia foram e agora são, assombrados por uma realidade que não dominam nem nunca dominaram, estando a mercê de forças maiores do que eles - tem sempre um tubarão maior nessa praia.

A arte, em preto-e-branco, expressa e impressiona, pintando uma cena urbana insegura, onde nunca se sabe o que vai se encontrar após a próxima esquina. A escolha do autor de deliberadamente desenhar olhos de íris ou pupila novamente acerta o alvo, trazendo uma pequena dose de inquietude ao se ler.

Outro gol da pequena editora Caligari, que também acertou muito bem com Teocrasília, já resenhada. Não foi à toa que, no último 9 de Maio, quinta-feira, Bartolomeu ganhou o Prêmio LeBlanc de Melhor HQ Nacional Publicada por Editora. Devidamente merecido, e espero que venha mais.

Faixa-bônus: eis o canal de Bartolomeu no youtube, com trilhas compostas para o personagem e a HQ.

Bartolomeu
116 p.
Editora Caligari

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Teocrasília

Teocrasília, 2018


Obra nacional, de autoria - texto e desenhos - de Denis Mello; em tempos deste nosso cristofascismo distrópico é obra mais do que necessária.

Uma obra de Ficção-Científica dentro do subgênero das Distopias, Teocrasília nos fala um Brasil de um futuro próximo, evangélico e intolerante com tudo o que derive dessa forma de pensamento. Sem dourar qualquer pílula, é o Brasil de uma ditadura religiosa, uma teonomia ao melhor estilo O Conto da Aia, e que nesse nosso momento não soa algo tão improvável de ocorrer.

Os personagens são pessoais normais que a normalidade oficial os proíbe de sê-los como são, e como são levados a adotar posições de resistência e rebeldia contra essa oficialidade truculenta e abusiva. História que mostram que, para ter que sobreviver em uma sociedade pretensamente civilizada, não precisa ter que ser tachado como criminoso perante a lei: o passivo cada vez mais agressivo do geral é razão o suficiente para se viver em medo.

E é o que talvez seja mais assustador na história, que explora bem o clima de paranoia em sociedades assim, esse misto de omissão e coadunação das massas, da dita "gente de bem", com o terror que se instala, mediante então não somente seu voto, mas como seu aval.

A história salta aqui e ali no tempo, mostrando como se desceu rapidamente ao ponto em que está, não poupando críticas a figuras políticas e religiosas infelizmente conhecidas nossas, apenas mudando o nome.

Familiar? Pois é...

A arte, em preto e branco, cabe corretamente com o clima gerado, o de um futuro cinzento como um dia nublado, sem perspectiva de melhoras à vista, desenrolando-se em Niterói (cidade do autor) e seus arredores. Há medo, paranoia, e a coragem maior de se crer em esperança: mas não virá fácil. Afinal, este é o primeiro de 6 livros em quadrinhos. As tramas e dores ainda vão se alongar por muito tempo: o primeiro já é repleto de medo, tensão e violência, bem amparados pela arte de Denis.

O projeto foi financiado pelo Catarse (por onde Denis tem uma obra anterior de sucesso, o quadrinho de terror Beladona), e no link dá para conhecer um pouco mais desse ambiente e como pensa o autor.

Foram publicados, também pelo financiamento, Teocrasília - Edição Histórica e Teocrasília - Extra #1. O primeiro é como se fosse uma publicação alternativa contra o regime, e aproveita e mostra o desenrolar dos acontecimentos desde as Jornadas de Junho de 2013 que levaram à situação atual, notando um desenvolvimento cronológico desse universo pelo autor, para no final apresentar um refúgio comunitário livre e clandestino do regime teonômico onde parte da ação se desenrola.

O segundo, uma edição de formato menor, foi produzido durante um desafio de se fazer uma HQ em 24h, e conta uma história entre os capítulos 3 e 4 do álbum principal. A arte reflete um certo aspecto visceral de uma história de vingança, se puder assim descrever sem dar spoilers. :)

Teocrasília marca muito nosso tempo, o que talvez, a futuro, a deixe datada, mas não necessariamente: a exemplo de um grande clássico da distopia, 1984 de Orwell começa como uma crítica ao stalinismo, mas passou para o repertório mundial ao se tornar um alerta contra um regime opressor que vigie completamente a vida de seus cidadãos, tenha origem pela esquerda ou pela direita, sendo relido como um alerta ao totalitarismo. Acho que Teocrasília seguirá por aí.

Ainda cabe notar o êxito de O Doutrinador, HQ de Luciano Cunha, que recentemente ganhou as telas. Tanto esta quanto Teocrasília têm em comum a influência de eventos políticos que começam com a insatisfação da população contra a corrupção, desaguando nas já mencionadas Jornadas de Junho. Mas enquanto o Doutrinador segue a linha de anti-heróis ao estilo do Justiceiro, caçando corruptos um a um, Teocrasília é sobre não somente a corrupção política, mas todo um ambiente político repressor.

Lembro de ter visto, mas fui incapaz de guardar link ou nomes, de um projeto brasileiro de graphic novel sobre um transsexual também vivendo em um Brasil de ditadura religiosa há coisa de dois ou três anos atrás, mas não fui capaz de reencontrar a peça. Ou seja... o temor não é somente nosso: não é à toa que O Conto da Aia, fazendo sucesso agora em sua versão no Netflix, é um livro de 1985.

No Catarse, Teocrasília: Extra 2 está ainda em financiamento, havendo nascido do mesmo desafio do primeiro, só que este ano.

Inauguro, feliz, o marcador de quadrinhos com Teocrasília.

UPDATE Agosto de 2020: Teocrasília está com nova casa, a editora Guará.

Teocrasília
144 p.
Editora Caligari