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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

As Canções da Terra Distante

 As Canções da Terra Distante, por Arthur C. Clarke (1986)

Ler um romance de Arthur C. Clarke que me seja inédito é prazer cada vez mais raro. As Canções da Terra Distante foi lançado no Brasil em 86 pela Nova Fronteira, mas só agora consegui ler. Havia já lido o conto original, de mesmo nome, que saiu na coletânea O Outro Lado do Céu (NF, 1984).

De saída, antes de engrossar com os spoilers, há de notar uma agradável melancolia das saudades de tudo que um dia já foi, e daquilo e daqueles que se passa a conhecer, amar, mas que terão que ser deixados para trás. Sendo ainda uma história de navegação, a perda sentida embala também nas canções apresentadas da Terra distante. Ouço um distante eco com sotaque lusitano?

No Quarto Milênio, na expectativa do fim do sistema solar com a explosão do Sol em nova, a Humanidade monta grandes naves-arca com milhares de refugiados e parte para as estrelas, em busca de, como chamam hoje em dia, exoplanetas de ambiente compatíveis com o organismo humano.

A última dessas naves, por questões técnicas, para em uma colônia já estabelecida séculos antes, batizada com o nome de nome da antiga deusa do mar grega, Thalassa, um mundo primariamente oceânico com pouca superfície de terra firme onde a pequena colônia humana prospera.

Os visitantes passarão dois anos nos reparos (a reconstrução de um escudo de gelo, destruído, para absorver o impacto de matéria interestelar), antes de seguir viagem: e o choque cultural entre ambos os grupos, por mais diminuto que fosse a tripulação desperta do longo sono para a missão, é inevitável - isso, em um grande resumo.

Os thalassianos são de uma geração de naves semeadoras anteriores a recém-chegada Magalhães, quando material embrionário era despachado para as estrelas, em vez de refugiados congelados por criogenia como com a Magalhães: a ideia era um processo de desenvolvimento levado primariamente por máquinas, antes que pudessem ter os thalassianos seus próprios filhos e seguir adiante com a civilização humana. Foram duas gerações de naves semeadoras, a segunda passando a levar gente viva congelada, depois que o processo de criogenia se provou viável.

Entretanto, a colônias como a de Thalassa eram fruto de uma experiência social, com a História e Literatura da Terra severamente editadas, extirpando o conceito de religião, Deus e quetais: dos livros que conheço de Clarke, assim como sua opinião a respeito do assunto, este é o mais severo com religião - a despeito de uma generosidade talvez excessiva com o budismo, que também está presente aqui.

Havendo então uma colônia de seres criados ao mesmo tempo com as exatas mesmas condições de educação - e, intui-se, sociais/financeiras -, além de um vasto e pelo novo mundo, o sistema político que segue vem como um futuro desdobramento de uma república democrática, criando uma sociedade quase perfeita, jovial, com gosto pela vida, embora nem tão engajada em uma certa pressa com avanços tecnológicos. Quase como se fossem uma espécie de nobres selvagens do espaço, embora explicitamente tenham uma sociedade tecnológica. Mas são um povo amistoso e feliz com o que tem, e, como tal: sem pressa. Como resultado, um certo grau de pureza e ingenuidade emana dos thalassianos, Adões e Evas em seu Éden caribenho do espaço.

Thalassa - ou Scarif, se preferirem...

O contraste é com o recém-chegado: seres humanos completos, adultos, que viram o Sol explodir, após um último meio milênio conturbado, com sociedades em crise, levando consigo traumas e amarguras em geral dos últimos dias do sistema solar. Foram expostos a guerras, religião, levantes e decisões terríveis.

Infelizmente, o conflito, como em boa parte da obra de Clarke, não chega a realmente acontecer. Seu otimismo frequentemente vence o drama. A primeira metade do livro, mais ou menos, é para apresentar o cenário, a tecnologia e a situação, os personagens, os laços entre si, assim como as novas amizades e novos amores, e alguma rivalidade. Só para a segunda metade é que a promessa de conflito surge, mas mesmo assim, ela não desenvolve. Clarke simplesmente não consegue. Havendo ainda que desenvolver a descoberta de uma espécie própria thalassiana que, pelo jeito, demonstra sinais de inteligência.

E o que resta de um livro assim? O que parece restar sempre dos livros do Clarke: tudo. Todas as possibilidades. Todas as descrições acachapantes. Todas as ideias inovadoras e poderosas. Todas as promessas.

Só para ficar no que já foi descrito: é lícito uma sociedade tecnologicamente superior - os viajantes da Magalhães, no caso - interferir, ainda que da maneira mais gentil que encontrasse, em outra menos avançada? Sim? Não? Caso não, isso valeria a vida de um milhão de futuros colonos a bordo da nave, em uma expedição que ainda duraria 300 anos e 98% de chances de sucesso em um planeta descrito como similar a Marte, em vez de uma aposta garantida ali mesmo?

Obviamente que um livro bem maior seria necessário para explorar todas as implicações sugeridas aqui. A minha favorita é encontrar um subtexto que remete ao que chamo de "a geração de Moisés": no relato do Êxodo, nenhum dos escravos libertos do Egito viveu para entrar na Terra Prometida, devido ao pecado do Bezerro de Ouro - mas seus filhos não carregariam a mácula de seus pais, assim podendo entrar em Canaã.

Tal é o contraste entre thalassianos e viajantes. Os primeiros foram ideológica e biologicamente formados para ser uma Humanidade melhor. Os segundos são a promessa dos velhos maus hábitos retornando de um passado deixado para trás de todas as formas possíveis, e mesmo alguns dentre os viajantes têm ciência disso.

Em tempos de pré-ida a Marte, torna-se um questionamento atual: quem irá para outros corpos do sistema solar? E como pretendemos nos comportar lá fora?


As Canções da Terra Distante
336 p.
Editora Nova Fronteira

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Areias de Marte

Coleccção Argonauta, (c) 1970.

Aviso: spoilers a rodo.

Areias de Marte/The Sands of Mars (1951) é o primeiro romance de FC por Arthur C. Clarke. Como (quase?) toda ficção-científica, é mais um caso em que uma história envelhece rápido e envelhece mal: e isso é ótimo, pois ganha todo um charme retrô.

Temos, no distante futuro dos anos 90, ou mesmo de agora, um personagem principal que vai para Marte a bordo de uma nave de propulsão atômica, a Ares, ao mesmo tempo que saca para anotar suas impressões de viagem uma fiel máquina de escrever mecânica; antes de embarcar sobe até uma estação orbital de transferência e usa ondas de rádio sem imagem para se comunicar com a Terra ou quem quer que seja.

Chega em Marte após alguns meses em queda livre e encontra o planeta, já habitado, com uma colônia estabelecida anos antes espalhada em alguns assentamentos. Precisando de proteção contra a tênue atmosfera de Marte, as cidades nascentes montam domos transparentes para conter a pressão atmosférica necessária e se protegerem do frio glacial típico do planeta: o que não impede que haja formas de vida, especialmente vegetais.

São visões que, se ultrapassadas, denotam hipóteses de um mundo futuro carregadas de otimismo que sempre foi uma das marcas registradas de Clarke, e um parâmetro para se pensar como se acreditava que poderia ser o futuro, mesmo o razoavelmente próximo.

O que mais me surpreendeu, entretanto, é a atualidade - justamente - inesperada da história, pois a colônia de Marte tem um grande problema: ela dá retorno financeiro ou material zero, apenas consumindo recursos. E, passado o deslumbre público de ter se chegado a um outro mundo, o homem comum se pergunta para que gastar impostos em algo tão exótico? E os políticos, é claro, começam a pender para este lado.

Familiar? Pois é. Não deixou de ser assim com o Homem na Lua - ibope caindo a cada nova missão Apollo, a Guerra do Vietnã consumindo outros bilhões - e há todo um questionamento sobre o investimento de se ir a Marte, ou mesmo retornar à Lua.

Entra em cena o diretor do projeto da colônia marciana, Warren Hadfield, disposto a muita coisa para manter a auto-suficiência da colônia, inclusive um gesto "apocalíptico" tremendamente familiar ao leitor, caso ele tenha lido (ou assistido) a 2010 - Uma Odisseia no Espaço II. A chegada em Marte do protagonista, o jornalista Martin Gibson, é tida com um certo receio, pois toda a propaganda positiva é necessária, e qualquer uma negativa pode ser desastrosa - e há planos em andamento...

No final das contas, o livro poderia ser mais um travelogue de Gibson, mas julgo que a gênese do que seria outra marca registrada - talvez a grande marca - do mestre, o sense of wonder, está lá, ao nos apresentar uma versão futurista da viagem ao local exótico, pois há um peso extra em tudo aquilo que Gibson testemunha: não apenas por ser um jornalista, ele é um escritor de ficção-científica, escrevendo sobre Marte no que parece ser os anos 60 e 70 (não há datas precisas no livro) e agora tendo a oportunidade de ver com os próprios olhos o futuro pretendido por ele, e o quanto errou. Há alguns tantos detalhes técnicos, pela boca de personagens ou pelo narrador onisciente, e devido à profissão do protagonista, até mesmo uma discussão sobre a atualização de histórias de FC, e, quando é assim, o valor que elas têm ou deixam de ter.

Como história paralela, e ainda com a comparação das viagens para o longínquo e o exótico para apenas encontrar a si mesmo; há uma trama sobre o envolvimento de Gibson com um dos tripulantes da Ares, a nave que o leva, uma vez que ele percebe que o jovem um filho que não sabia ter. Infelizmente, é Clarke, e esse desenvolvimento de personagem, o que é bem mais do que em obras suas posteriores, fica apenas no vai-da-valsa.

O tema da auto-suficiência da colônia marciana, cabe notar, aparece em um conto de Isaac Asimov, Nós, os Marcianos (1952, aqui no Brasil publicado pela Hemus), com a opinião pública manipulada por um perigoso populista chegando ao poder na Terra. Essa resenha aqui detalha mais.

O livro nos apresenta algumas ideias que nos ficaram mais conhecidas por obras posteriores: a estação orbital de transferência para uma nave interplanetária, acima citada, gira para obter gravidade artificial, assim como a noção de se chegar a Saturno antes de se alcançar Júpiter, estão em 2001 - Uma Odisseia no Espaço; mas o que chama muito a atenção é a incineração nuclear da lua Fobos, para que forneça o equivalente a "10% da luz solar" assim ajudando na terraformação marciana, lembrando bem a explosão de Júpiter em 2010 em um sol para aquecer e ajudar a desenvolver a vida na lua Europa.

O que me fez até lembrar que Frank Herbert torna a brincar com alguns tantos elementos de Duna em The Godmakers, levando-me a crer que, para um autor, às vezes um livro somente não basta.

Faixa-bônus: e o motivo de se ir a Saturno é por sua lua Titã, em que já se sabia desde 1944 haver metano em vastas quantidades, assim providenciando o combustível para o retorno para casa, nem tão diferente do que pretende o plano de Robert Zubrin para se ir a Marte - e ainda, com direito a se utilizar da gravidade de Júpiter como ponto de manobra para se alcançar Saturno, o que de fato é feito com missões interplanetárias hoje em dia. Nada mal para um livro de 1951, mas estamos também falando do cara que publicou um artigo acadêmico sobre a elaboração de uma rede de satélites artificiais para retransmissão de ondas de rádio mundo afora, ainda nos anos 40.

Até por uma maturidade como escritor, não é o melhor livro que eu li dele. Areias de Marte está muito aquém se compararmos com o que deve ser a fase áurea dele, nos anos 60 e 70. Mas fica pela curiosidade de ter sido seu primeiro romance, divertindo-se com detalhes técnicos mais do que com pessoas e, pelo seu protagonista, tendo a curiosa consciência de que FC pode envelhecer rápido e pode envelhecer mal... :)


Arthur C. Clarke - Areias de Marte
190 p.
Colecção Argonauta.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

FDS CLFC

Retomando o blog... ainda tem alguém por perto? :)

Enfim. 

Dias 15 e 16 de Dezembro agora teremos o que informalmente chamo de FDS CLFC: um fim de semana de atividades do Clube de Leitores de Ficção-Científica.

No sábado, 16 teremos a cerimônia de entrega do Prêmio Argos 2017 de Literatura Fantástica, para os mais bem votados nas categorias Romance, Antologia/Coletânea e Conto, que foram publicados em 2016 e sido escritos originalmente em Português. Ano passado tive a graça e honra de ganhar nas categorias Melhor Antologia (junto com Daniel Russel Ribas por Monstros Gigantes - Kaiju, da editora Draco) e Melhor Conto (na mesma obra, "O Último Caçador Branco").

A entrega do Argos se dará na Universidade Veiga de Almeida campus Tijuca às 16h, inserindo-se no evento Tarde Animada, que contará com a exibição de curtas animados de profissionais e estudantes do curso de Design e Animação da casa, iniciando-se às 13h. Mais detalhes aqui

Vem sendo uma experiência interessante organizar o Argos.

Já no dia 15, sexta-feira das 17h às 19h, teremos uma palestra pelos 100 anos de Arthur C. Clarke, com um dos concorrentes ao Argos de Melhor Romance, Alexey Dodsworth, que verte uma palestra internacional sua chamada "Todos Estes Mundos São Seus: A Ética da Terraformação". Haverá mesa redonda e participação do público. 

A entrada para ambos os eventos é franca.


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A Cidade e as Estrelas


A Cidade e as Estrelas (1956), por Arthur C. Clarke

Spoilers zone ahead.

Reli, após uns quinze anos ou mais, A Cidade e as Estrelas (em edição de 1979 da Ed. Nova Fronteira), de Arthur C. Clarke. Bom ver que muito do que eu havia admirado ainda está lá. Entretanto, confesso que não foi a leitura fácil que eu acreditava ser. Tantos anos depois, alguns trechos me soaram meio chatos, fora uma certa datação do texto em si (ou terá sido da tradução?), não necessariamente das idéias apresentadas.

Curiosamente, procurando material para estes comentários, eu me deparei com este artigo na wikipedia que conta que The City and the Stars é a reescrita do mesmo autor de Against the Fall of the Night, que eu não conhecia. Apesar das muitas mudanças, a primeira versão nunca deixou de cair no gosto dos fãs.

A história é passada em alguns bilhões de anos no futuro, e nos apresenta Diaspar, a última cidade da raça Humana, fisicamente bastante similar tudo considerado, um modelo de ambiente de perfeição auto-sustentada. Diaspar é totalmente - salvo por túneis de ventilação - isolada do mundo ao redor, do qual só um imenso deserto pode ser visto, protegida por um enorme domo opaco. Dentro, o conforto material e intelectual dos estáveis dez milhões de habitantes vem sido mantido com perfeição pelas máquinas criadas há tanto tempo, especialmente pelo Computador Central - e como em toda a utopia, sempre tem um chato.

E ele é Alvin, que nunca não se satisfaz com tudo dado de mão aberta em Diaspar: desde cedo, ele quer ir além de suas fronteiras, mesmo que o que demonstra existir do lado de fora não seja exatamente encorajador.

Entra em cena Khedron, o Bufão de Diaspar, sempre disposto a agitar um pouco da ordem pública da cidade, dando a Alvin ferramentas para ir adiante com sua inusitada e preocupante mania. No que resulta disso, nem Khedron consegue enfrentar.

Ocorre que um bilhão de anos de Diaspar são montados em premissas falsas, que começam a cair quando Alvin descobre uma outra cidade, bastante diferente de Diaspar, Lys (que é mais uma região com diversas vilas), situada bem além do deserto ao redor de sua cidade.

A sociedade em Lys é bastante diferente da projetada em Diaspar. Lys não só conhece a presença de Diaspar, como a monitora. Em Lys, as pessoas levam um modo de vida voltado ao cultivo do solo (há uma natureza exuberante naquele terreno), com alguma vantagem tecnológica: mas são todos hábeis telepatas, fruto do planejamento genético e evolução após um bilhão de anos, sendo ainda grandes geneticistas e biólogos; enquanto que em Diaspar vivem dez milhões de diletantes ("todos são artistas"), dependendo inteiramente de máquinas para o que for. Os habitantes de Lys nascem e morrem em cerca de dois séculos, os de Diaspar são gerados já crescidos pelo Computador Central e tutorados por casais dispostos a ajudar nos primeiros vinte anos, para ajuste social e enquanto suas memórias não florescem - é como se já nascessem sabendo, resultado de inúmeras vidas com circuitos de memória armazenados após mil anos por vida, quando em geral decidem que já "está bom" e têm os corpos desmanchados pelo sistema da cidade. Sim: sexo, somente, para recreação. Utopia, pois. O critério de reinserção dos que já morreram na sociedade é de acordo com uma estatística de perfil de compatibilidade.

É óbvio que ambas as sociedades estão em isolamento e estagnação, devido a um grande temor do passado, e que precisam romper isto: a arcadiana Lys e a tecnológica Diaspar.

Há uma forte semelhança entre Alvin e Neo, da - por enquanto - trilogia The Matrix: ambos vêm de uma última cidade do Homem, criada por temor a um inimigo externo. E, principalmente: ambos são variações únicas de seus respectivos meios criadas pela máquina de tempos em tempos para testar o sistema, e levar tudo e todos a um novo patamar.

Para retratar o quão longe o ser Humano foi, Clarke abusa dos números: as estimativas mais modestas são na casa de mil anos. Seres e eventos de milênios, milhões e bilhões de anos perambulam pela história - grandiosidade que faz parte do sense of wonder que o autor é um mestre.

No final, A Cidade e as Estrelas acaba sendo uma história sobre eternidade - uma que mostra que nada dura para sempre.

244 p.
Editora Nova Fronteira

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O Fim da Infância, de Arthur C. Clarke...

... ganhando nova edição pela Aleph. O primeiro capítulo pode ser acessado aqui.

É um dos (vários) grandes livros do mesmo co-autor de 2001 - Uma Odisséia no Espaço. Merecia, de fato, uma nova edição por aqui.

Previsão para Fevereiro.