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sábado, 2 de fevereiro de 2019

Zigurate - Uma Fábula Babélica

Outra resenha resgatada, tb de um livro do Max. Segue texto na íntegra.
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Zigurate - Uma Fábula Babélica

Max Mallmann. Editora Rocco. Rio de Janeiro, 2003. 220 págs.



Ok, ele conseguiu novamente.

Comprei ontem o livro, 27 de Outubro de 2003, dia do lançamento carioca, evento no qual reuniram-se bons companheiros da Ficção-Científica, e li ainda antes de ir dormir, umas trinta páginas - e hoje mesmo o terminei, à espera de um professor que não apareceu na faculdade, somando um total de umas quatro, quatro horas e meia para liquidar suas cerca de 220 páginas.

Falo isto não para me gabar, mas para dizer que, quem gostou de Síndrome de Quimera, de uns três anos antes, do mesmo Max Mallmann, vai encontrar em Zigurate a mesma prosa fluída e enxuta que pega o leitor pela mão e vai conduzido em um rápido deslizar, num só fôlego, até o final do livro.

Zigurate é sobre dois imortais, um homem e uma mulher, Lugal e Nin, que estão entre nós pelo menos desde a época dos Sumérios; e duas pessoas normais que tem suas vidas mudadas ao cruzarem seu caminho. Duas tramas, uma para cada um, desenrolam-se no livro: entre Paris e Edimburgo, Sophie Brassier, uma jovem antropóloga com pouco tempo de vida - sofrendo uma enfermidade sem cura além de uma condição cardíaca - acha pistas através de registros históricos que a levam cada vez mais obsessivamente em busca dos imortais, acabando por encontrar Lugal. No Rio, temos a história paralela que se passa com Ray Stern, consultor de marketing americano, contratado para organizar a campanha de um político corrupto, que acaba encontrando - e se apaixonando - por Nin. A história de Sophie, e depois de Lugal e Sophie, é pontuada de uma certa melancolia, refletindo a imagem que se tem das cidades onde ocorre a trama. A história de Ray e Nin, refletindo a imagem que se tem do Rio de Janeiro, é agitada, apimentada e violenta, virando um thriller de ação muito bem desenvolvido - e este reflexo também se dá nos comportamentos respectivos de Lugal e Nin, como peixes em seus respectivos aquários, por assim dizer. As cidades são muito bem caracterizadas - nunca estive em Paris ou Edimburgo para constatar isto, mas ao menos me convence; e o Rio de Janeiro me saiu inconfundível.

Sophie e Lugal terão uma história curta cheia de perguntas, respostas, e poucas certezas no final - apenas aquelas que realmente importam. Ray e Nin terão uma história rápida e violenta, sem tempo para perguntas, porém repleto de respostas, e com um súbito final revelando uma certeza que possa valer à pena. O fim, como não podia deixar de ser, acaba sendo tomado pela melancolia - e a engraçada sensação do que é apresentado não deixar de ser o mais feliz possível dos fins.

Uma comparação com outras obras do autor acaba sendo inevitável - e como só de Mallmann conheço Síndrome de Quimera... de cara, não deixa nada a dever ao primeiro. Achei graça de Zigurate ter, assim como Síndrome de Quimera (que vai ganhar uma edição francesa!), um protagonista com uma condição cardíaca, além de uma brincadeira com a idéia da imortalidade. Claro, em Síndrome, o absurdo reina, enquanto que o fora do comum é representado apenas pelos imortais - e não apenas por isso, é uma história totalmente própria.

Alguns dos personagens secundários chegam a um nível quase cartunesco, no estereótipo, e para a levada de humor interno de Zigurate, todos eles com um charme pessoal, característico - detalhe para Neném da Candonga.

A citações sumérias permeiam o livro todo, com direito à escrita cuneiforme para numerar os capítulos. Versos do poema épico mais antigo que se tem, sobre mítico rei Gilgamesh, abrem as partes diferentes do livro, além de ficar revelado qual sua importância na história própria de Lugal e Nin. Impressionam também certas recriações históricas de Mallmann, por onde Sophie vai tirando suas conclusões. Uma ambientação extremamente competente, sem incorrer em excessos de descrição desnecessários, sem comprometer o ritmo da história.

Ritmo este ágil; Mallmann é extremamente hábil em fazer suas mudanças de cena, do que obviamente lhe faz valer sua experiência como roteirista profissional, dando a impressão que Zigurate seria facilmente adaptável para as telas do cinema. Nós aqui platéia estamos torcendo bastante para que isto, algum dia, ocorra. (Luiz Felipe Vasques)

Sítio do livro: www.zigurate.com

Síndrome de Quimera

Resgatei, de um endereço que não tem mais, uma antiga resenha minha sobre Síndrome de Quimera, do meu saudosíssimo Max Mallmann. Esta e a de Zigurate devem estar entre as minhas primeiras, e por mais do que isso eu tenho um certo carinho por esses texto. Na íntegra, segue como publicado originalmente em 29 de Janeiro de 2006:
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Síndrome de Quimera

Max Mallmann. Editora Rocco. Rio de Janeiro, 2001. 100 págs.

    Síndrome de Quimera, o terceiro livro do gaúcho Max Mallmann, atualmente roteirista da Rede Globo, é, no mínimo, insólito.

   Uma história na melhor tradição do realismo fantástico latino-americano, Mallmann nos conta uma história repleta de surrealismo sem perder de vista o quotidiano, com tons de tragédia sem entretanto nunca perder o bom-humor. Os personagens são a princípio tipos comuns, com suas vidas normais, do pano de fundo da cidade - a não ser por detalhes estranhos: uma personagem tem os olhos brilhantes como os de um vampiro; outro, de vez em quando, para relaxar do dia a dia, põe o cérebro de molho - literalmente -; e o próprio protagonista tem seus problemas, com uma pequena serpente que lhe envolve o coração... falar mais é começar a estragar a surpresa.

   Mas basta dizer que, pessoalmente, o tratamento dado ao caso tem um quê de Neil Gaiman, autor da série de quadrinhos Sandman: as coisas são surreais apenas porquê são, sem nenhuma fanfarra ou pseudoexplicação esotérica-mística - e isso não impede que o surreal seja um ótimo vizinho, ou companheiro de mesa de bar.

   São cem páginas de texto que vão nos levando como se fosse uma agradável conversa de bar regada com muita cerveja, onde aliás a história começa - após uma apresentação no capítulo 1 -, desenrolando-se com uma fluidez que convida o leitor a simplesmente devorar o livro: começou, não tem muito como largar. (Luiz Felipe Vasques)

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Resenha de 'Zigurate'...

... por Fernando Trevisan, sobre este ótimo livro do meu caro Max Mallmann.

Anos atrás, assim que saiu, eu também fiz uma, disponível aqui no site d'O Cisco Tonitruante.

Também aqui tem uma outra, do livro anterior de Max, Síndrome de Quimera.

Bom ver que Zigurate está em fase de adaptação para o cinema.