sábado, 13 de julho de 2019

PRÊMIO ARGOS 2019 - RESULTADOS!







PRÊMIO ARGOS 2019 - RESULTADOS!
A Comissão do Prêmio Argos 2019 de Literatura Fantástica deseja parabenizar os participantes e em especial os ganhadores!
Seguem os resultados, com os ganhadores sendo citados em primeiro, nas suas categorias.


ROMANCE:
A Mão Que Pune - 1890 - editora Caligari, por Octavio Aragão (livro que comentei aqui)
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Corrosão - editora Caligari, por Ricardo Labuto Gondim
O Auto da Maga Josefa - editora Dame Blanche, por Paola Paola Lima Siviero


ANTOLOGIA ou COLETÂNEA
Fractais Tropicais - editora SESI-SP, org. Nelson de Oliveira
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2084: Mundos Cyberpunk - editora Lendari, org. Lidia Zuin
Aqui quem fala é da Terra - editora Plutão, org. André Caniato e Jana Bianchi

Lovecraftiano: Volume 1 por [Galvão, Marcelo A.]


CONTOS
Sombras no Coração - in: Lovecraftiana vol. 1, autopub., por Marcelo Marcelo Augusto Galvão
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A Noite Não Me Deixa Dormir - editora Dandelion, Camila Fernandes
Entre as Gotas de Chuva, Encruzilhada - in: Aqui quem fala é da Terra, editora Plutão, por Cirilo S. Lemos

A Comissão também agradece todos aqueles que ajudaram de alguma forma, em especial à Priscilla Lhacer pelo espaço na Casa Fantástica, durante a Feira Literária de Paraty.

Um forte abraço a todos e até ano que vem!

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Sextas de Sci-Fi: Mundos Imaginados

Vulcano, antes do Sr. Spock.

Nas Sextas de Sci-Fi no blog do #Planetário do Rio, o fim da série (não da coluna!) Nossos Astros na Ficção-Científica, com o artigo: Mundos Imaginados. #Astronomia

Esperamos que tenham gostado de viajar tanto quanto curtimos pesquisar. :)

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Duendes - Meta expandida



Dica de Donana Merege:

Arthur Rackham (1867 – 1939) nasceu em Londres, numa família com doze filhos. Segundo seu biógrafo, Derek Hudson, era apaixonado por desenho desde criança e escondia papel e lápis sob as cobertas; quando sua mãe confiscava o papel, desenhava (...)

Saiba um pouco mais sobre Arthur Rackham e ajude a duplicar as recompensas de Duendes! Lá na Estante Mágica de Ana Merege.


segunda-feira, 8 de julho de 2019

Artemis

"Para Michael Collins, Dick Gordon, Jack Swigert, Stu Rosa, Al Worden, Ken Mattingly e Ron Evans. Porquê esses caras nem de longe recebem crédito suficiente." - Artemis, 2019. Ed Arqueiro.

Artemis (original em inglês publicado em 2017) é o novo livro de Andy Weir, escrito após Perdido em Marte, que até virou filme com Matt Damon. Desta vez, a Lua é o alvo.

No final do Século XXI, finalmente colonizamos a Lua: é Artemis, construída por um esforço inciado no Quênia, após atrair empresas particulares de astronáutica com uma política de impostos quase nula. Diversos laboratórios e indústrias se estabelecem em seus cinco domos interconectados (temos belos mapinhas abrindo o livro), assim como comércio, turismo, serviços e atividades ligadas a uma vida civil não tão especializada.

A trama tem alguns tons noir, ao envolver gente de baixo na pirâmide social com a nata, que ostenta fachadas de legalidade: a protagonista é uma entregadora que tem uma lucrativa atividade de contrabando de pequenas regalias para quem pode pagar. Desde cedo às voltas com encrencas junto à polícia por pequenos delitos, ela tenta cavar um lugar ao sol - e a chance surge quando um de seus clientes a contrata para um ato de sabotagem fora da cidade. A trama, a partir daí, escalona para outros elementos, como monopólios, carteis do crime (destaque para "O Palácio"...) e etc.

Há algumas semelhanças deste livro com o anterior. Ambos são centrados sobre os protagonistas, tipos bastante inteligentes, muito obstinados e com uma boa dose de humor ácido, cheio de opiniões sobre cada detalhe que testemunham, vivenciam ou lembram, e que através de sua prosa informal procuram atenuar o derrame de detalhes técnicos para o máximo de leitores possíveis, ambas afinal são obras de hard science fiction. 

Os domos da cidade Artemis: nomes de astronautas que desceram na Lua.

Ao repetir essas semelhanças, um probleminha: por mais que Jasmine "Jazz" Bashara, aqui, seja mulher de origem saudita com problemas financeiros e daddy issues, enquanto Mark Watney de Marte é um americano branco sem maiores desenvolvimentos de antecedentes - até onde eu me lembro, ao menos -; o discurso entre ambos varia muito pouco, e essa impressão piora porque em ambas as obras a narrativa é em primeira pessoa. 

Lá pelo meio do livro até dá pra sentir um pouco mais de diferença, já que a situação em que ambos se encontram é diferente, apesar de algumas semelhanças (essencialmente dois solitários contra um ambiente hostil, mas o caso de Mark é, indubitavelmente, bem mais literal do que o de Jazz). Mas não muita.

O grande destaque é a construção pelo autor da cidade de Artemis (implicância: por que não traduziram como Ártemis? O nome da deusa é proparoxítona, na verdade, então, em Português rola acento na antepenúltima sílaba). É um ambiente detalhado e crível, seja pelos detalhes técnicos, seja pela população descrita que a habita, multiétnica e internacional. É uma boomtown controlada atrás das oportunidades na nova fronteira, e detalhes de como a economia funciona são bem apresentados aqui e ali ao longo do livro, assim como a correlação com a história em si.

Assim como Perdido em Marte, a pesquisa feita pelo autor, egresso da área da informática, impressiona pelo grau de detalhamento. E aí está um problema. Apesar, como eu disse, dele usar o máximo de um linguajar informal para diluir uma carga informativa técnica, eu senti que a prosa fluiria ainda melhor se certos detalhes fossem menos explorados: se você quiser saber como cortar coisas com um maçarico em pleno no vácuo, vá em frente, esse é o seu livro. Essa tendência piora no trecho final de Artemis, quando arriscadas situações de vida ou morte ocorrem, e a trama necessariamente fica bem acelerada: pesquisa não substitui história. Mas isso não desmerece o resultado do livro, de forma alguma, eu o devorei em dois dias.

É, antes de mais nada, uma declaração de amor ao Projeto Apolo, que levou o ser Humano até a Lua. A dedicatória que abre o livro é justa: a todos os terceiros astronautas de cada um dos voos, do XI ao XVII, aqueles que foram até a Lua - mas nunca desceram, sendo os pilotos da missão. E ao desejo que, pelo menos nos 2080s (informação via artigo na wiki, eu jurava que seria fins de 2060, dado que é dito que Star Trek tem cerca de cem anos), já estaremos lá de volta, definitivamente.

Um bom livro para ser ler às vésperas do cinquentenário do Homem na Lua.

Artemis
304 p.
Editora Arqueiro

domingo, 7 de julho de 2019

Years and Years

Acabei de ver por um acácio o 1x02 na HBO. Pelo showrunner original de Doctor Who (e a Trivia no IMDB nota as semelhanças usadas aqui e em alguns eps de DW).

É desse ano, é FC tão near future que começa ainda neste 2019 e segue pelos próximos 15 anos: colapso bancário, ecológico e geopolítico, Michael Pence, vice de Trump, agora é presidente de uns EUA tão fascista que o mundo começa a fazer sanções contra, os presidentes da China e Rússia - os próprios Xi Jinping e Vladimir Putin - se tornam vitalícios.

A série foca em uma família inglesa, com seus dramas e variedades, que será pega em cheio pela quebradeira. Os Lyons têm mais diversidade do que Sense 8, o que pode ser um pouco caricato, mas os atores seguram.

Conectividade rola solta (conferências via Echos da Amazon corriqueiras, com múltiplos participantes: o grupo de zap da família é ao vivo e em áudio), uma das adolescentes da família resolve assinar embaixo do credo transhumanista, com implantes subcutâneos que substituem parte de seu telefone.

Ao redor, o mundo deporta imigrantes como se nada fosse, um ataque nuclear americano ocorre em uma ilha artificial criada pela China em águas internacionais em disputa, Rússia controlando de vez a Ucrânia em um governo que tortura dissidentes e homossexuais, a toda hora pequenas reportagens ao fundo sobre sumiço de pássaros e insetos, aquecimento global, escassez, etc.

Os ingleses vêm pegando o jeito de fazer near future: em geral programas com gente comum, mas com um elemento tecnológico chegando e mudando tudo, deixando o julgamento mais para o espectador, ou ao menos ao meu ver. Humans é um bom exemplo.

Gostei. Ainda vem de brinde a Professora Sybil Trelawney e Mr. Claire.

Abertura de Cáprica

Ontem dia 6 de Julho foi a Galacticon, que falei mês passado. Meu amigo Ivo Heinz deu a palestra dele, e comentou que falaria sobre a Caprica (2011), "prequência" de Galactica (2004), falando de sua abertura.

É uma das minhas aberturas favoritas, pois acho riquíssima de detalhes que apresentam o drama. Fiz uma análise que, espero, ele pode ter se beneficiado em sua apresentação. Vou repassá-la aqui.

***

(0:01)
A câmera segue em um travelling contínuo até o último segundo, “sobrevoando” os núcleos principais da série: ela abre em uma cidade futurista, correndo para o prédio das Indústrias Greystone, o ambiente é automatizado e frio em tons esverdeados, e lá se encontra o empresário e cientista Daniel Greystone testando um protótipo cylon que, ao passar pela viga, transforma-se em sua filha Zoe, denotando a relação dela com os robôs. Uma segunda viga a “destransforma” para o cylon de novo, (0:12) mas passando por vegetação dando a impressão de um espinheiro, e a câmera avança por ela e revela, em cores azuladas e frias, um cemitério.

(0:14) Quatro personagens estão ali, dois homens, uma anciã e um menino. O homem à frente de chapéu está sobre uma lápide onde se lê Adama, que é o nome da família deles: ele é Joseph Adama, o pai e chefe da família, atrás, segurando um guarda-chuva, a avó, e ainda ao lado o filho William e o irmão Sam. Enquanto a câmera passa por esses dois, Sam põe a mão esquerda sobre o ombro, junto ao pescoço, de William, e afasta com a direita o paletó, revelando para a câmera antes dela sair que tem uma faca. A câmera busca a estátua de um anjo atrás dele e foca em sua mão estendida, e nova mudança de ambiente.

(0:25) A mão se fecha sobre um chip, as cores são quentes, e se vê duas personagens femininas dentro de uma igreja, uma mais velha e uma jovem: Clarice Willow e Lacy Rand. Clarice entrega-lhe o símbolo do infinito. A câmera passa por Lacy e nova mudança de ambiente.

(0:30) No topo de um prédio, com um VTOL decolando ao fundo, vê-se novamente Daniel Greystoke agora com sua esposa Amanda, a câmera vira por trás deles e vemos, entre eles, sua filha Zoe. Um zoom extra foca em um de seus olhos e vemos o brilho vermelho do olhar cylon, assim como o efeito sonoro característico. Há a primeira interrupção do travelling e temos a vista panorâmica de uma cidade futurista, fade to black e o logo da série surge, “Caprica”.

Avaliação:

A abertura sintetiza de forma primorosa em pouco mais de 40 segundos os núcleos e conflitos principais. Sob um certo aspecto, é um drama sobre duas famílias, logo no início de eventos que eles nunca terão ideia do que ocorrerá, nem seu papel na gênese de tudo, desenrolando-se décadas depois durante o massacre cylon, início da série anterior, "Galactica".

No primeiro trecho, sobre o que é a série: o nascimento dos cylons, Cybernetic Life-form Node; robôs para o combate. A transição com Zoe é a respeito da fusão de sua mente com as I.A. por trás dos robôs. Daniel Greystone também está ali não somente por ser um dos personagens principais da série, mas também mostra sua devoção para com seu trabalho, que na série aprendemos que está custando seu casamento.

No segundo trecho, a dinâmica dos Adama: em um ambiente lúgubre, a morte ronda esta família. A esposa e mãe, Shannon, e a filha e irmã Tamara morrem em um atentado logo no início da série. Ainda, a família e em seu passado eles próprios têm negócios rondando o equivalente da máfia. Ajoelhado e de costas para o resto, Joseph negligencia o filho, que cai sob a influência do tio, Sam. A passagem da câmera revelando a faca à cintura faz notar que é que um homem perigoso tendo influência sobre um jovem.


O terceiro trecho fala da questão religiosa e da manipulação da mesma pelas mãos da personagem Clarice sobre os mais jovens – ela é diretora de uma escola –, representada pela presença de Lacy. O símbolo do infinto é o símbolo dos Soldados do Um, fanáticos religiosos que provocam atentados terroristas: mas com o destino final de Lacy, isso pode ter mais significado do que aparenta, e inadvertidamente provocado por Clarice. Cabe notar que dentro da igreja está como se estivesse ventando e as cores e luzes quentes tremulam, como se estivesse tudo em chamas, senão ao redor, do lado de fora.


O quarto trecho volta aos Greystone, agora apresentando como núcleo familiar: elegantes e distantes, eles caminham no terraço de um prédio, e passam por sua filha Zoe no meio deles, sem em nenhum momento dirigirem-lhe o olhar, como se ela não estivesse ali. Ela também é negligenciada. Ela, por sua vez, olha direto para câmera, zoom in e sua fusão com os cylons é novamente sugerida.

A abertura fecha como abre, mostrando uma grande cidade futurista, antes do logotipo “CAPRICA” aparecer.

***

Em um escopo maior, já foi dito que Caprica é um retrato dos EUA: Os Greystone, assim como os Capricanos, são ou tendem a ser representados por atores que encarnariam o padrão WASP. Os Adama, gente morena de Tauron, seriam algo entre latinos ou italianos, vistos de maneira depreciativa, com laços com o crime organizado. Infiltrando-se cada vez mais, uma religião monoteísta capaz de atos de terrorismo contra religião vigente, politeísta.

Pessoalmente acho que não fez sucesso por acabar fundindo dois gêneros que não pensa em apresentar normalmente: a sopa opera, ou novela americana, com seus dramas familiares de casamentos em crise e filhos problemáticos; e uma temática de ficção-científica. Pessoalmente eu lamento que tenha sido cancelada em tão pouco tempo.

Luiz Felipe Vasques
28.06.2019

sábado, 6 de julho de 2019

Links novos ao lado - Cantinho do Gárgula e Estante Mágica

Dois lugares legais:

A Estante Mágica de Ana Lúcia Merege é o blog da minha e escritora de Fantasia, sobre literatura fantástica e eventos.

O Canto do Gárgula é do meu prezadíssimo Daniel Braga, devotado também à literatura fantástica e com uma pegada mais para o Terror/Horror. Daniel também é um dos autores do boardgame Labyrinx.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Sextas de Sci-Fi: As Estrelas do Firmamento


Diferentes desenhos, diferentes culturas, mesmas estrelas.

Nas Sextas de Sci-Fi de hoje, no Blog do #Planetário da Gávea: Nossos Astros na Ficção Científica - Estrelas e Constelações.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Duendes - Contos Sombrios de Reinos Invisíveis na Catarse.me

Outra belíssima capa!


A mais nova antologia organizada pela editora Draco está em financiamento coletivo aqui. É de fantasia sombria, envolvendo o Povo Pequeno da floresta, em várias visões folclóricas diferentes ou de inspiração mais pessoal.

Das informações no link,

"O livro foi organizado por Ana Lúcia Merege, que também colabora com um conto. Os demais autores são Aya Imaeda, Simone Saueressig, Isa Prospero, Cristina Pezel, Diego Guerra, Luiz Felipe Vasques, Silas Chosen, Daniel Folador Rossi e Sid Castro."

Espero que gostem!

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Galacticon

Meu excelentíssimo Ivo Heinz vai dar uma palestra sobre prós e contras de prequels na Galacticon, evento dia 6 de Julho de 2019.

Será na Biblioteca Municipal Viriato Corrêa em São Paulo - SP. O endereço completo é Rua Sena Madureira, 298, Vila Mariana. A biblioteca fica entre as estações do metrô Vila Mariana e Santa Cruz (Linha 1 – Azul); a estação Vila Mariana é mais próxima.

Vai falar sobre Caprica e sua abertura, preparei algo que pode ajudá-lo, depois posto aqui. 

Sextas de Sci-Fi: Asteroides e Cometas





Na coluna de hoje das Sextas de Sci-Fi tem Nossos Astros na Ficção Científica: Asteroides e Cometas #Planetário #Astronomia

Já nos aproximamos do fim da jornada!

terça-feira, 25 de junho de 2019

A Fábula do Príncipe Narseu

A Fábula do Príncipe Narseu, 2019

De tempos em tempos, surge um livro singular em nossas vidas. Na minha, creio que A Fábula do Príncipe Narseu, de Paulo Gravina, é um desses. Em sua apresentação, abre com uma dedicatória "àqueles para quem os desgostos do mundo não derrotaram a capacidade de fabular".

É bastante fácil defini-lo: uma fantasia infanto-juvenil, dentro da jornada do herói, envolvendo terras estranhas e gentes de colorido próprio, um bastardo que irá salvar a princesa e o reino.

Ao mesmo tempo, não é tão fácil seguir apenas por aí: mesmo com influências identificáveis em folclore europeu, ele é um livro singular, investindo na singularidade de povos, lugares e mesmo cosmologia e sistema de magia, alfabeto e sistema numérico - o worldbuilding é caprichado, e apresentado de forma a não atrapalhar a narrativa, mas enriquecer.

A linguagem é simples apresentando um rebuscado aqui ou ali, na medida de uma certa estranheza - com Mestrado em Letras, o autor conscientemente buscou essa junção, tudo para o construir de uma fábula - ou assim passa essa impressão - ao mesmo tempo que o passo da história é curto, sem se detalhar, mas também não deixando uma impressão de deixar a dever algo... fora saber de mais histórias, em um mundo tão detalhado que, ao mesmo tempo, é tão somente sugerido.

Acompanha a narrativa as belas imagens em p&b da artista Luci Villanova, com direito a um mapa, que ajuda a apresentar o mundo e as ideias, margeando letras e apresentando sonhos - é de sua pena, também, logo no início, o mapa de Trissena, 'a estrela nova', para nos ajudar a viajar.

A Fábula do Príncipe Narseu é um livro que, nos dias de hoje, entre a taquicardia das sensações e obtusa objetividade oferecida e cobrada, talvez ouse ser uma fábula.

E fabular - sempre - é preciso.

A Fábula do Príncipe Narseu
70 p.
Editora Cândido (selo Candinho)

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Prêmio Argos 2019 - Finalistas

Eis os finalistas nas 3 categorias do Prêmio Argos 2019 de Literatura Fantástica,  da qual faço parte da comissão organizadora, premiação promovida pelo Clube de Leitores de Ficção Científica. Estão em ordem alfabética.

A disputa esse ano foi interessante, com uma das categorias disputando cabeça a cabeça o primeiro e segundo lugares, enquanto em outra o ganhador abriu mais do que sete corpos de vantagem sobre a segunda posição.

Bacana ver alguns nomes que fizeram bonito no Prêmio LeBlanc aqui se repetindo.

ROMANCE:
A Mão Que Pune - 1890 - editora Caligari, por Octavio Aragão
Corrosão - editora Caligari, por Ricardo Labuto Gondim
O Auto da Maga Josefa - editora Dame Blanche, por Paola Siviero

ANTOLOGIA ou COLETÂNEA
2084: Mundos Cyberpunk - editora Lendari, org. Lidia Zuin
Aqui quem fala é da Terra - editora Plutão, org. André Caniato e Jana Bianchi
Fractais Tropicais - editora SESI-SP, org. Nelson de Oliveira

CONTOS
A Noite Não Me Deixa Dormir - editora Dandelion, Camila S. Fernandes
Entre as Gotas de Chuva, Encruzilhada - in: Aqui quem fala é da Terra, editora Plutão, por Cirilo S. Lemos
Sombras no Coração - in: Lovecraftiana vol. 1, autopub., por Marcelo Augusto Galvão

A premiação com o troféu do Prêmio Argos será em 13 de julho de 2019, às 19h30 na Casa Fantástica da Flip na cidade de Paraty-RJ.

Os finalistas que não puderem estar presentes ou nomear representantes, devem desde já entrar em contato com a organização do Argos através de: premioargosclfc@gmail.com

Parabéns a todos os concorrentes!

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Sextas de Sci-Fi: Conan Doyle, Escritor de FC

A coluna no blog do #Planetário do Rio tem se mantido estável, em seu ritmo semanal, o que é bom. Nessa Sexta de Sci-Fi, o texto Conan Doyle, Escritor de Ficção Científica, é do meu prezado Carlos Orsi. #astronomia

Criador, ladeado por intérpretes de sua criatura mais famosa.

Pessoalmente, eu acho que a ideia da elaboração de um método científico na investigação de cena de crime, proposta nos escritos de Sherlock Holmes e que mudaram a investigação na vida real, já qualificaria uma espécie de “lugar de honra” das histórias do Detetive dentro do gênero.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Bartolomeu

Bartolomeu, de Victor Moura. Editora Caligari (2018)

Bartolomeu é a graphic novel do quadrinista Victor Moura, e conta uma história de gente normal, gente que queria ser normal, gente nada normal e o fim do mundo - senão, quase.

O personagem-título é assombrado desde criança por coisas assustadoras que só ele vê, e dá um jeito de viver bem com isso, na medida do possível. Depois de crescido, sabe sobre o que tudo se passa com ele, e reluta trilhar o caminho que dele se espera, preferindo a simples e limitada existência meramente humana. Obviamente que isso não pode ser possível.

Já vimos essa história? Já, e algumas vezes. Assim como das melhores vezes, Bartolomeu é muito bem feito. Em resumo, é como John Constantine fosse desenhado por Mike Mignola (Hellboy), vivesse na Lapa, Rio de Janeiro, entre bares de segunda onde toca violão e uma oficina de carros onde tira seu sustento - e tomando corrida de Coisas Que o Homem Não Deve Conhecer entre uma viela sombria e outra.

A afirmação de que "todos têm demônios interiores" ganha novos contornos aqui, gostosamente literais. Os demônios de Bartolomeu não apenas torturam e assombram, mas por vezes são torturados por aquilo que um dia foram e agora são, assombrados por uma realidade que não dominam nem nunca dominaram, estando a mercê de forças maiores do que eles - tem sempre um tubarão maior nessa praia.

A arte, em preto-e-branco, expressa e impressiona, pintando uma cena urbana insegura, onde nunca se sabe o que vai se encontrar após a próxima esquina. A escolha do autor de deliberadamente desenhar olhos de íris ou pupila novamente acerta o alvo, trazendo uma pequena dose de inquietude ao se ler.

Outro gol da pequena editora Caligari, que também acertou muito bem com Teocrasília, já resenhada. Não foi à toa que, no último 9 de Maio, quinta-feira, Bartolomeu ganhou o Prêmio LeBlanc de Melhor HQ Nacional Publicada por Editora. Devidamente merecido, e espero que venha mais.

Faixa-bônus: eis o canal de Bartolomeu no youtube, com trilhas compostas para o personagem e a HQ.

Bartolomeu
116 p.
Editora Caligari

domingo, 7 de abril de 2019

Best Science Fiction Books

Muito bacana o Best Science Fiction Books. Não só elenca listas legais de recomendação mas dá uma geral sobre temas e subgêneros da FC. Vale à pena fuçar.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Prêmio LeBlanc 2019

Divulgação. E aquele zumbido no primeiro dia de circo na rua. Votem, divulguem, participem.

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O PRÊMIO LE BLANC ESTÁ DE VOLTA

É chegada a hora de votar no II Prêmio Le Blanc. E este ano, além de premiarmos os expoentes nos campos de Histórias em Quadrinhos, Animação e Literatura Fantástica, temos uma novidade: GAMES.

Mais uma vez, a Universidade Veiga de Almeida uniu esforços à Escola de Comunicação da UFRJ para organizar e realizar o prêmio, que terá troféus para os ganhadores, distribuídos no dia 9 de Maio na Semana Internacional de Quadrinhos.

A votação será inicialmente por critério de voto popular, encerrando-se no dia 14 de Abril. Qualquer um poderá indicar suas obras favoritas do ano passado! Depois, um júri especializado analisará os finalistas e escolherá os grandes vencedores.

A #SIQ deste ano vai do dia 7 a 10 de Maio de 2019. Aguardamos vocês!

Seguem os links para votação nos comentários. Votem. Indiquem. Compartilhem.

CÉDULAS

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Voto para Ficção especulativa/literatura fantástica: tinyurl.com/yy6v2dj9

Voto para Animação: tinyurl.com/y58y8wha

Voto para História em Quadrinhos tinyurl.com/y6tntlx5

Voto para Games: tinyurl.com/yxljdbwh

segunda-feira, 4 de março de 2019

O jornalista, o escritor e o aviador

O jornalista, o escritor e o aviador, de Aluízio Falcão Filho (2007)

Spoilers abaixo.

Essas pesquisas em prol do Fevereiro Verniano têm a vantagem - como toda a pesquisa - de nos revelar coisas legais tangentes ao objeto de estudo - por vezes, mesmo desvirtuando um pouco da pesquisa em si... e, claro, haja foco.

Juntando com outro interesse meu, vim a descobrir este livro, O jornalista, o escritor e o aviador, de Aluizio Falcão Filho. Não é a primeira vez que esbarro em um livro tendo Santos-Dumont como personagem: a autora (diretora, atriz e dramaturga) Karen Accioly escreveu "Os Meus Balões" (título de um livro de Dumont) como opereta infantil e a recontou em forma de livro, sobre encontros de Verne e Dumont (que uma sinopse diz não terem ocorrido). "Santos-Dumont Número 8 - Um grande mistério será revelado...", de Claudio Soares (Universo dos Livros, 2008) assume o tom 'segredo revelado do passado', à maneira deste de agora, para explorar o ano de 1908 em reclusão de Dumont, em que ele nunca executou nenhum de seus projetos, por crer que '8' dava azar.

Em "O jornalista...", temos um protagonista jornalista (qual o autor) que, após um inesperado enriquecimento, resolve se dedicar a um projeto próprio, investigando o provável relacionamento entre Santos-Dumont e Júlio Verne. Na vida real, é incerto se os dois se conheceram pessoalmente: mas tanto Dumont era apaixonado por seus livros quando jovem quanto Verne ao morrer já admirava os esforços de Dumont - pelo que conta Paul Hoffman em seu excelente Asas da Loucura e que é parte da bibliografia da obra, conforme correlação ao final.

E o que ele descobre é motivo de conspirações, experimentos proibidos, envolvimento com terroristas e algumas reviravoltas. O livro se dá de maneira ágil e divertida, e recomendo como bom passa-tempo, ainda levando em conta questões da vida pessoal do protagonista, praticamente o único personagem desenvolvido na história. Tudo isto é desenvolvido em três "vozes": duas no presente, com o ponto de vista do protagonista quanto narrador onisciente; e o p.d.v. que realmente achei interessante no livro: narrativas passadas durante a vida de Dumont e seu envolvimento com Verne, as ideias que tiveram, e o que se passa por trás de seu suicídio em 1932. Figuras históricas dão o ar da graça aqui e ali nesses trechos, além de um misterioso personagem que, aparentemente, surge em ambos os períodos - e está bom de spoilers por aqui.

Pessoalmente, preferia ter visto os vilões desenvolvidos de uma maneira melhor. Achei que algumas reviravoltas e motivações não exatamente funcionam, e sendo de 2007, ainda pegou o mote do terror islâmico radical. Talvez na época fosse o bastante para impulsionar a história, mas passado já certo tempo, talvez se precise mais hoje em dia.

O jornalista, o escritor e o aviador
368 p.
Editora Clio

domingo, 3 de março de 2019

História de sua vida e outros contos

História de sua vida e outros contos, por Ted Chiang (2002)

História de sua vida e outros contos é a coletânea do autor norte-americano Ted Chiang lançada no Brasil em 2016 pela ed. Intrínseca, acompanhando o lançamento 14 dias depois nos cinemas do ótimo A Chegada, filme que se inspira no conto título do livro.

Não conhecia o autor, até esta coletânea, cujo interesse, claro, veio do filme. Achei a prosa não raro analítica e fria, mesmo no uso da primeira pessoa, como em Entenda! (claro, vemos que aqui é totalmente justificável), o que curiosamente não quer dizer que suas histórias não envolvam.

A Torre da Babilônia nos leva a uma versão mágica da mesma, seguindo uma premissa do Antigo Testamento sobre a Torre de Babel: e se ela alcançasse o céu, em desafio a Javé? Sabe-se que os babilônios nunca pretenderam isto, na verdade a torre - o zigurate do templo dedicado ao deus-mor Marduk - erguia-se para que os deuses descessem do céu à terra, mas, como indica o destino da torre no Livro do Gênese, algo se perdeu na tradução.

O resultado é uma viagem com imagens poderosas, de uma construção que passa séculos sendo construída, até que efetivamente toca a abóbada celeste, após passar por um céu ptolomaico e a ordem de suas esferas celestes, e com um final... revelador, por assim dizer.

Entenda! é uma história sobre super-inteligência em que acompanhamos, em primeira pessoa, o desenvolvimento galopante do intelecto de um homem para níveis bem acima da norma. Achei muitíssimo semelhante a Sem Limites, filme de 2011 (que gerou uma série em 2015, infelizmente já cancelada), embora haja aqui um senso de Transcendência e Revelação - não no sentido espiritual - que o filme não se aproxima (coisa que o filme Lucy, de Luc-Besson, trabalha), especialmente no trecho final. A inteligência na ficção-científica já rendeu ótimas histórias, e essa é uma delas.

Divisão por Zero é um conto curto, desenvolvendo uma questão teórica de matemática e apresentando os princípios por trás, o que não é para todos os públicos, em paralelo ocorrendo o relacionamento da cientista que chega a conclusões que lhe soam pessoalmente apocalípticas. É um conto curto, com uma conclusão em aberto, e a sombra de que não será agradável para os envolvidos.

A história de sua vida rendeu, como já dito, o filme A Chegada, e vemos que como adaptação funciona muito bem, por mais liberdades que o roteiro tome: o conto consegue ainda ser mais críptico do que o filme, debulhando detalhes sobre como uma raça realmente alienígena poderia se comunicar. Como um conto de FC que explana em detalhes como funciona a propulsão hiperespacial ou a máquina de viajar no Tempo, aqui ele se desdobra sobre como a lógica de uma linguagem alienígena pode acontecer, e o que fazer para compreendê-la.

O filme ainda mantém a ideia original: se, como é dito, idiomas reprogramam o cérebro de maneira particular, como um idioma alienígena influenciaria o cérebro humano em sua forma de pensar e perceber?

72 Letras propõe uma Inglaterra Vitoriana onde a magia é conhecida amplamente,  e o sistema mágico é derivado da lenda do Golem, onde um ser de barro era animado após se inscrever uma palavra em hebraico em um papel e inseri-la na boca do ser. Revolução Industrial, política e classismo ingleses se juntam a uma trama de uma proposta riquíssima onde, novamente, a construção de linguagem é a peça-chave por trás de tudo.

A Evolução da Ciência Humana tem o tom de um artigo, e é um take sutil no tema do transhumanismo. É o mais curto do livro.

O Inferno é a ausência de Deus fala sobre o que aconteceria se a fé não dependesse mais do mistério, sendo manifestações de Céu e Inferno atestáveis, e como ficaria a devoção mediante ao que se passa a experimentar.

Gostando do que vê: um documentário lembra uma narrativa epistolar, mas em vez de cartas, sendo em depoimentos colhidos para o documentário do título. A história se passa durante um engajamento universitário americano sobre um método reversão de indução de "caliagnose", uma lesão cerebral que corta nossa capacidade de apreciar um rosto por sua beleza física, escapando assim à ditadura dos padrões comerciais da moda e possibilitando pessoas a apreciarem umas às outras pela dita beleza interior, conteúdo, etc. Os depoimentos variam entre pós, contras e nem tanto um como no outro, interesses comerciais por parte da indústria de cosméticos, e etc. Propõe mais encontrar pontos de vista a respeito da questão do que declará-la assim ou assado, então a encerrando. Tal qual como no conto anterior, a ideia de uma solução direta para um problema não necessariamente é algo simples e benéfico.

Depois dos contos, há um posfácio com a palavra do autor contando um pouco da origem dos contos e suas ideias ao leitor.

Achei curioso como a necessidade de uma nova linguagem, ou o reimaginar da linguagem, é tema em quase todos os contos da coletânea. Sem dúvida Ficção-Científica excelente, daquelas que põem para pensar. Bola muito dentro da editora Intrínseca. Recomendadíssimo.

História de sua vida e outros contos
368 p.
Ed. Intrínseca

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Certamente, Talvez

Certamente, Talvez, por Arkady e Boris Strugatsky (1980)

Sabem quando você precisa se concentrar para terminar um trabalho, e você apenas não consegue? Não consegue, percebam, não por ansiedade, dispersão ou a última treta imperdível no facebook ou twitter: não, você está lá, sério, compenetradão, se bobear até gostando do que tá fazendo -- não, do que quer fazer, seja  para a faculdade, para o trabalho, para alguém ou para si mesmo... e simplesmente não consegue? Não consegue porque o telefone insiste em tocar o dia inteiro por qualquer motivo ou motivo nenhum, porque a campainha da porta toca como nunca, porque alguém aparece "só pra dizer uma coisinha", e assim, sucessivamente? Sabem esses dias?

Que parece até que o universo conspira contra?

Os irmãos Strutagtsky certamente sabiam, e transformaram um dia assim em um livro.

Certamente, Talvez foca nos esforços do cientista Dimitri Malianov em terminar o que pode ser sua obra máxima, no terreno da Física, e em um grande avanço para ciência mundial - se ao menos o deixassem trabalhar em paz.

Nos dois dias da trama, um desfile de estranhas ocorrências e personagens excêntricas passam pelo apartamento do protagonista, trazendo sempre consigo algo um ar de quem sabe mais do que está disposto a revelar, deixando o pobre Malianov cada vez mais perdido e confuso.

Entre os tipos excêntricos também estão seus amigos cientistas, percebendo que, cada um em sua área, estão com alguma espécie de contribuição extremamente importante prestes a concluir, mas que em suas vidas se deparam com sequências de interrupções inexplicáveis. Tudo isso sob alguma vodca, patês ou chá, com o clima de paranoia casando com a descrição de um calor de verão inclemente, apartamentos bagunçados e um princípio de decadência urbana cotidiana. Paranoia esta crescente junto do sentimento, assim como as sucessivas hipóteses sobre quem está contra os próximos e vitais passos do desenvolvimento científico da sociedade.



Dias de Eclipse (1988), adaptação para o cinema.

Não é das leituras mais convencionais. É um livro sobre análises sobre uma situação incomprovável e indescomprovável  de um problema, que fica à mercê de hipóteses favoritas de cada um (ou não), o que significa que é um livro baseado em diálogos.

Mais do que diálogos, fragmentos, conforme quando começa cada capítulo, uma sutil mudança de câmera desde a última situação se desenrolando, pegando um diálogo pelo meio, embora isso não trunque a compreensão do texto. Apenas apresenta ao leitor o ponto de vista dos personagens, em que há especulação demais e certezas de menos.



Certamente, Talvez
120 p.
Civilização Brasileira

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Planetário...

Estreando como colunista semanal de FC no blog do Planetário da Gávea. :) Primeiro texto, sobre o aniversário de Júlio Verne, sexta dia 8 agora.

Vai ser divertido. :)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Zigurate - Uma Fábula Babélica

Outra resenha resgatada, tb de um livro do Max. Segue texto na íntegra.
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Zigurate - Uma Fábula Babélica

Max Mallmann. Editora Rocco. Rio de Janeiro, 2003. 220 págs.



Ok, ele conseguiu novamente.

Comprei ontem o livro, 27 de Outubro de 2003, dia do lançamento carioca, evento no qual reuniram-se bons companheiros da Ficção-Científica, e li ainda antes de ir dormir, umas trinta páginas - e hoje mesmo o terminei, à espera de um professor que não apareceu na faculdade, somando um total de umas quatro, quatro horas e meia para liquidar suas cerca de 220 páginas.

Falo isto não para me gabar, mas para dizer que, quem gostou de Síndrome de Quimera, de uns três anos antes, do mesmo Max Mallmann, vai encontrar em Zigurate a mesma prosa fluída e enxuta que pega o leitor pela mão e vai conduzido em um rápido deslizar, num só fôlego, até o final do livro.

Zigurate é sobre dois imortais, um homem e uma mulher, Lugal e Nin, que estão entre nós pelo menos desde a época dos Sumérios; e duas pessoas normais que tem suas vidas mudadas ao cruzarem seu caminho. Duas tramas, uma para cada um, desenrolam-se no livro: entre Paris e Edimburgo, Sophie Brassier, uma jovem antropóloga com pouco tempo de vida - sofrendo uma enfermidade sem cura além de uma condição cardíaca - acha pistas através de registros históricos que a levam cada vez mais obsessivamente em busca dos imortais, acabando por encontrar Lugal. No Rio, temos a história paralela que se passa com Ray Stern, consultor de marketing americano, contratado para organizar a campanha de um político corrupto, que acaba encontrando - e se apaixonando - por Nin. A história de Sophie, e depois de Lugal e Sophie, é pontuada de uma certa melancolia, refletindo a imagem que se tem das cidades onde ocorre a trama. A história de Ray e Nin, refletindo a imagem que se tem do Rio de Janeiro, é agitada, apimentada e violenta, virando um thriller de ação muito bem desenvolvido - e este reflexo também se dá nos comportamentos respectivos de Lugal e Nin, como peixes em seus respectivos aquários, por assim dizer. As cidades são muito bem caracterizadas - nunca estive em Paris ou Edimburgo para constatar isto, mas ao menos me convence; e o Rio de Janeiro me saiu inconfundível.

Sophie e Lugal terão uma história curta cheia de perguntas, respostas, e poucas certezas no final - apenas aquelas que realmente importam. Ray e Nin terão uma história rápida e violenta, sem tempo para perguntas, porém repleto de respostas, e com um súbito final revelando uma certeza que possa valer à pena. O fim, como não podia deixar de ser, acaba sendo tomado pela melancolia - e a engraçada sensação do que é apresentado não deixar de ser o mais feliz possível dos fins.

Uma comparação com outras obras do autor acaba sendo inevitável - e como só de Mallmann conheço Síndrome de Quimera... de cara, não deixa nada a dever ao primeiro. Achei graça de Zigurate ter, assim como Síndrome de Quimera (que vai ganhar uma edição francesa!), um protagonista com uma condição cardíaca, além de uma brincadeira com a idéia da imortalidade. Claro, em Síndrome, o absurdo reina, enquanto que o fora do comum é representado apenas pelos imortais - e não apenas por isso, é uma história totalmente própria.

Alguns dos personagens secundários chegam a um nível quase cartunesco, no estereótipo, e para a levada de humor interno de Zigurate, todos eles com um charme pessoal, característico - detalhe para Neném da Candonga.

A citações sumérias permeiam o livro todo, com direito à escrita cuneiforme para numerar os capítulos. Versos do poema épico mais antigo que se tem, sobre mítico rei Gilgamesh, abrem as partes diferentes do livro, além de ficar revelado qual sua importância na história própria de Lugal e Nin. Impressionam também certas recriações históricas de Mallmann, por onde Sophie vai tirando suas conclusões. Uma ambientação extremamente competente, sem incorrer em excessos de descrição desnecessários, sem comprometer o ritmo da história.

Ritmo este ágil; Mallmann é extremamente hábil em fazer suas mudanças de cena, do que obviamente lhe faz valer sua experiência como roteirista profissional, dando a impressão que Zigurate seria facilmente adaptável para as telas do cinema. Nós aqui platéia estamos torcendo bastante para que isto, algum dia, ocorra. (Luiz Felipe Vasques)

Sítio do livro: www.zigurate.com

Síndrome de Quimera

Resgatei, de um endereço que não tem mais, uma antiga resenha minha sobre Síndrome de Quimera, do meu saudosíssimo Max Mallmann. Esta e a de Zigurate devem estar entre as minhas primeiras, e por mais do que isso eu tenho um certo carinho por esses texto. Na íntegra, segue como publicado originalmente em 29 de Janeiro de 2006:
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Síndrome de Quimera

Max Mallmann. Editora Rocco. Rio de Janeiro, 2001. 100 págs.

    Síndrome de Quimera, o terceiro livro do gaúcho Max Mallmann, atualmente roteirista da Rede Globo, é, no mínimo, insólito.

   Uma história na melhor tradição do realismo fantástico latino-americano, Mallmann nos conta uma história repleta de surrealismo sem perder de vista o quotidiano, com tons de tragédia sem entretanto nunca perder o bom-humor. Os personagens são a princípio tipos comuns, com suas vidas normais, do pano de fundo da cidade - a não ser por detalhes estranhos: uma personagem tem os olhos brilhantes como os de um vampiro; outro, de vez em quando, para relaxar do dia a dia, põe o cérebro de molho - literalmente -; e o próprio protagonista tem seus problemas, com uma pequena serpente que lhe envolve o coração... falar mais é começar a estragar a surpresa.

   Mas basta dizer que, pessoalmente, o tratamento dado ao caso tem um quê de Neil Gaiman, autor da série de quadrinhos Sandman: as coisas são surreais apenas porquê são, sem nenhuma fanfarra ou pseudoexplicação esotérica-mística - e isso não impede que o surreal seja um ótimo vizinho, ou companheiro de mesa de bar.

   São cem páginas de texto que vão nos levando como se fosse uma agradável conversa de bar regada com muita cerveja, onde aliás a história começa - após uma apresentação no capítulo 1 -, desenrolando-se com uma fluidez que convida o leitor a simplesmente devorar o livro: começou, não tem muito como largar. (Luiz Felipe Vasques)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

As Canções da Terra Distante

 As Canções da Terra Distante, por Arthur C. Clarke (1986)

Ler um romance de Arthur C. Clarke que me seja inédito é prazer cada vez mais raro. As Canções da Terra Distante foi lançado no Brasil em 86 pela Nova Fronteira, mas só agora consegui ler. Havia já lido o conto original, de mesmo nome, que saiu na coletânea O Outro Lado do Céu (NF, 1984).

De saída, antes de engrossar com os spoilers, há de notar uma agradável melancolia das saudades de tudo que um dia já foi, e daquilo e daqueles que se passa a conhecer, amar, mas que terão que ser deixados para trás. Sendo ainda uma história de navegação, a perda sentida embala também nas canções apresentadas da Terra distante. Ouço um distante eco com sotaque lusitano?

No Quarto Milênio, na expectativa do fim do sistema solar com a explosão do Sol em nova, a Humanidade monta grandes naves-arca com milhares de refugiados e parte para as estrelas, em busca de, como chamam hoje em dia, exoplanetas de ambiente compatíveis com o organismo humano.

A última dessas naves, por questões técnicas, para em uma colônia já estabelecida séculos antes, batizada com o nome de nome da antiga deusa do mar grega, Thalassa, um mundo primariamente oceânico com pouca superfície de terra firme onde a pequena colônia humana prospera.

Os visitantes passarão dois anos nos reparos (a reconstrução de um escudo de gelo, destruído, para absorver o impacto de matéria interestelar), antes de seguir viagem: e o choque cultural entre ambos os grupos, por mais diminuto que fosse a tripulação desperta do longo sono para a missão, é inevitável - isso, em um grande resumo.

Os thalassianos são de uma geração de naves semeadoras anteriores a recém-chegada Magalhães, quando material embrionário era despachado para as estrelas, em vez de refugiados congelados por criogenia como com a Magalhães: a ideia era um processo de desenvolvimento levado primariamente por máquinas, antes que pudessem ter os thalassianos seus próprios filhos e seguir adiante com a civilização humana. Foram duas gerações de naves semeadoras, a segunda passando a levar gente viva congelada, depois que o processo de criogenia se provou viável.

Entretanto, a colônias como a de Thalassa eram fruto de uma experiência social, com a História e Literatura da Terra severamente editadas, extirpando o conceito de religião, Deus e quetais: dos livros que conheço de Clarke, assim como sua opinião a respeito do assunto, este é o mais severo com religião - a despeito de uma generosidade talvez excessiva com o budismo, que também está presente aqui.

Havendo então uma colônia de seres criados ao mesmo tempo com as exatas mesmas condições de educação - e, intui-se, sociais/financeiras -, além de um vasto e pelo novo mundo, o sistema político que segue vem como um futuro desdobramento de uma república democrática, criando uma sociedade quase perfeita, jovial, com gosto pela vida, embora nem tão engajada em uma certa pressa com avanços tecnológicos. Quase como se fossem uma espécie de nobres selvagens do espaço, embora explicitamente tenham uma sociedade tecnológica. Mas são um povo amistoso e feliz com o que tem, e, como tal: sem pressa. Como resultado, um certo grau de pureza e ingenuidade emana dos thalassianos, Adões e Evas em seu Éden caribenho do espaço.

Thalassa - ou Scarif, se preferirem...

O contraste é com o recém-chegado: seres humanos completos, adultos, que viram o Sol explodir, após um último meio milênio conturbado, com sociedades em crise, levando consigo traumas e amarguras em geral dos últimos dias do sistema solar. Foram expostos a guerras, religião, levantes e decisões terríveis.

Infelizmente, o conflito, como em boa parte da obra de Clarke, não chega a realmente acontecer. Seu otimismo frequentemente vence o drama. A primeira metade do livro, mais ou menos, é para apresentar o cenário, a tecnologia e a situação, os personagens, os laços entre si, assim como as novas amizades e novos amores, e alguma rivalidade. Só para a segunda metade é que a promessa de conflito surge, mas mesmo assim, ela não desenvolve. Clarke simplesmente não consegue. Havendo ainda que desenvolver a descoberta de uma espécie própria thalassiana que, pelo jeito, demonstra sinais de inteligência.

E o que resta de um livro assim? O que parece restar sempre dos livros do Clarke: tudo. Todas as possibilidades. Todas as descrições acachapantes. Todas as ideias inovadoras e poderosas. Todas as promessas.

Só para ficar no que já foi descrito: é lícito uma sociedade tecnologicamente superior - os viajantes da Magalhães, no caso - interferir, ainda que da maneira mais gentil que encontrasse, em outra menos avançada? Sim? Não? Caso não, isso valeria a vida de um milhão de futuros colonos a bordo da nave, em uma expedição que ainda duraria 300 anos e 98% de chances de sucesso em um planeta descrito como similar a Marte, em vez de uma aposta garantida ali mesmo?

Obviamente que um livro bem maior seria necessário para explorar todas as implicações sugeridas aqui. A minha favorita é encontrar um subtexto que remete ao que chamo de "a geração de Moisés": no relato do Êxodo, nenhum dos escravos libertos do Egito viveu para entrar na Terra Prometida, devido ao pecado do Bezerro de Ouro - mas seus filhos não carregariam a mácula de seus pais, assim podendo entrar em Canaã.

Tal é o contraste entre thalassianos e viajantes. Os primeiros foram ideológica e biologicamente formados para ser uma Humanidade melhor. Os segundos são a promessa dos velhos maus hábitos retornando de um passado deixado para trás de todas as formas possíveis, e mesmo alguns dentre os viajantes têm ciência disso.

Em tempos de pré-ida a Marte, torna-se um questionamento atual: quem irá para outros corpos do sistema solar? E como pretendemos nos comportar lá fora?


As Canções da Terra Distante
336 p.
Editora Nova Fronteira

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A Mão Que Pune - 1890

A Mão Que Pune - 1890, por Octávio Aragão (2018)

A Mão Que Pune - 1890 é a sequência de A Mão Que Cria, que tive a oportunidade de ler e resenhar aqui. Terminei a resenha falando sobre esta sequência, desde então em desenvolvimento, com "Resta aguardar". Pois eis.

Vou me repetir um pouco, da resenha antiga: acompanho a carreira literária do amigo Octavio Aragão desde os tempos da Intempol e, como na resenha de 2011, cabe o alerta ao leitor de que isenção não é exatamente o caso aqui. Tive, ainda, o prazer de ser um dos 'leitores beta' do romance, ao longo de 2018. Ver a obra acabada foi uma grande alegria.

Ficção-Científica, ambos os livros são ainda o que se chama "Ficção Alternativa", em que personagens existentes são recontextualizados em uma nova história, nunca pretendida por seus autores originais. O grande expoente do gênero ainda são as HQs de A Liga dos Cavalheiros Extraordinários, por Alan Moore, e mais recentemente a excelente Penny Dreadful (HBO, 2014-2016) apresentou o conceito para muita gente. Na literatura, recomendo novamente Anno Dracula, cujas continuações no Brasil pelo visto vão ficar devendo. Inevitavelmente, cabe ainda localizar aqui a obra no subgênero steampunk.

AMQP é uma "prequel" de AMQC, passando-se no final do Século XIX, semeando as situações que vimos se desenrolarem no segundo livro. Assim como nele, aqui temos também um desfile de personagens históricos e fictícios interagindo entre si e protagonizando uma história de aventura e ação, intrigas e planos para dominação global.

Começa em Paris, 1890, com a narrativa pela voz do protagonista Angelo Agostini, chargista político brasileiro da vida real que foi a dor de cabeça de Dom Pedro II e dos políticos do Império, agora vivendo a tragédia pessoal da morte recente da amante e tendo seu filho recém-nascido sequestrado por partes inesperadas e terríveis.

Mas isso é tão somente o começo: são 210 páginas de aventuras aéreas, vinganças, truculências e cientistas loucos com suas versões do que é melhor para a Humanidade; um desfile histórico e fictício  de personagens em situações que, como leitores, poderíamos pensar como ficaria com mais detalhes e desenvolvimento alguns trechos, explorá-los por outros vieses e com ainda mais personagens. Sob o certo aspecto, o livro funciona como um celeiro de ideias que, espero, possamos vir a ler algum dia demais desenvolvimentos.

A obra conclui com um gentil posfácio contando a gênese da obra, assim como detalhes sobre os personagens apresentados: pesquisa foi feita, em pelo menos um caso, acadêmica - Agostini foi tema de Mestrado do autor. Boa parte ali, advinda de uma extensa e prazerosa vida de leituras.

De brinde, ainda prefácio por Christopher Kastensmidt, autor do projeto A Bandeira do Elefante e da Arara, projeto lúdico envolvendo o Brasil Colônia.

Foram 12 anos entre um livro e o outro. Tempo demais, mas às vezes assim vai a vida. Cabe agora torcer para que a Caligari adote e lance A Mão Que Cria, dispondo mais essa obra de Octavio Aragão para o leitor que está chegando agora ou que perdeu a oportunidade na época.

(Esta resenha está na íntegra no jornal BrasilBest, sediado em Miami, para a colônia brasileira.)

A Mão Que Pune - 1890
210 p.
Editora Caligari

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Teocrasília

Teocrasília, 2018


Obra nacional, de autoria - texto e desenhos - de Denis Mello; em tempos deste nosso cristofascismo distrópico é obra mais do que necessária.

Uma obra de Ficção-Científica dentro do subgênero das Distopias, Teocrasília nos fala um Brasil de um futuro próximo, evangélico e intolerante com tudo o que derive dessa forma de pensamento. Sem dourar qualquer pílula, é o Brasil de uma ditadura religiosa, uma teonomia ao melhor estilo O Conto da Aia, e que nesse nosso momento não soa algo tão improvável de ocorrer.

Os personagens são pessoais normais que a normalidade oficial os proíbe de sê-los como são, e como são levados a adotar posições de resistência e rebeldia contra essa oficialidade truculenta e abusiva. História que mostram que, para ter que sobreviver em uma sociedade pretensamente civilizada, não precisa ter que ser tachado como criminoso perante a lei: o passivo cada vez mais agressivo do geral é razão o suficiente para se viver em medo.

E é o que talvez seja mais assustador na história, que explora bem o clima de paranoia em sociedades assim, esse misto de omissão e coadunação das massas, da dita "gente de bem", com o terror que se instala, mediante então não somente seu voto, mas como seu aval.

A história salta aqui e ali no tempo, mostrando como se desceu rapidamente ao ponto em que está, não poupando críticas a figuras políticas e religiosas infelizmente conhecidas nossas, apenas mudando o nome.

Familiar? Pois é...

A arte, em preto e branco, cabe corretamente com o clima gerado, o de um futuro cinzento como um dia nublado, sem perspectiva de melhoras à vista, desenrolando-se em Niterói (cidade do autor) e seus arredores. Há medo, paranoia, e a coragem maior de se crer em esperança: mas não virá fácil. Afinal, este é o primeiro de 6 livros em quadrinhos. As tramas e dores ainda vão se alongar por muito tempo: o primeiro já é repleto de medo, tensão e violência, bem amparados pela arte de Denis.

O projeto foi financiado pelo Catarse (por onde Denis tem uma obra anterior de sucesso, o quadrinho de terror Beladona), e no link dá para conhecer um pouco mais desse ambiente e como pensa o autor.

Foram publicados, também pelo financiamento, Teocrasília - Edição Histórica e Teocrasília - Extra #1. O primeiro é como se fosse uma publicação alternativa contra o regime, e aproveita e mostra o desenrolar dos acontecimentos desde as Jornadas de Junho de 2013 que levaram à situação atual, notando um desenvolvimento cronológico desse universo pelo autor, para no final apresentar um refúgio comunitário livre e clandestino do regime teonômico onde parte da ação se desenrola.

O segundo, uma edição de formato menor, foi produzido durante um desafio de se fazer uma HQ em 24h, e conta uma história entre os capítulos 3 e 4 do álbum principal. A arte reflete um certo aspecto visceral de uma história de vingança, se puder assim descrever sem dar spoilers. :)

Teocrasília marca muito nosso tempo, o que talvez, a futuro, a deixe datada, mas não necessariamente: a exemplo de um grande clássico da distopia, 1984 de Orwell começa como uma crítica ao stalinismo, mas passou para o repertório mundial ao se tornar um alerta contra um regime opressor que vigie completamente a vida de seus cidadãos, tenha origem pela esquerda ou pela direita, sendo relido como um alerta ao totalitarismo. Acho que Teocrasília seguirá por aí.

Ainda cabe notar o êxito de O Doutrinador, HQ de Luciano Cunha, que recentemente ganhou as telas. Tanto esta quanto Teocrasília têm em comum a influência de eventos políticos que começam com a insatisfação da população contra a corrupção, desaguando nas já mencionadas Jornadas de Junho. Mas enquanto o Doutrinador segue a linha de anti-heróis ao estilo do Justiceiro, caçando corruptos um a um, Teocrasília é sobre não somente a corrupção política, mas todo um ambiente político repressor.

Lembro de ter visto, mas fui incapaz de guardar link ou nomes, de um projeto brasileiro de graphic novel sobre um transsexual também vivendo em um Brasil de ditadura religiosa há coisa de dois ou três anos atrás, mas não fui capaz de reencontrar a peça. Ou seja... o temor não é somente nosso: não é à toa que O Conto da Aia, fazendo sucesso agora em sua versão no Netflix, é um livro de 1985.

No Catarse, Teocrasília: Extra 2 está ainda em financiamento, havendo nascido do mesmo desafio do primeiro, só que este ano.

Inauguro, feliz, o marcador de quadrinhos com Teocrasília.

UPDATE Agosto de 2020: Teocrasília está com nova casa, a editora Guará.

Teocrasília
144 p.
Editora Caligari

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

O Homem Demolido




O Homem Demolido, (c) 1953

Acabei de ler por esses dias, achei muito interessante.

A ideia é uma sociedade pelo Século XXIV, com aquele otimismo de só quem escrevia FC nos anos 50 pra descrever um sistema solar colonizado. O grande diferencial aqui são os telepatas, membros produtivos da sociedade, que ajudam em vários campos, como psicologia e segurança e que, graças a isso, haviam evitado um assassinato de ocorrer havia bastante tempo -- e, para a trama, é quando um finalmente ocorre.

Não há mistérios: desde o início sabe-se quem são assassino, vítima e policial. O livro acaba sendo sobre a construção da caçada ao assassino, homem de vastos recursos financeiros, e a personalidade dos dois.

Babylon 5, a série, bebe abertamente desse livro, ao ponto que sua "Psi Corp" tem, no elenco de oponentes regulares, um personagem telepata chamado Alfred Bester, interpretado por Walter "Sr. Chekov" Koenig. Passage Through Gethsemane, o episódio, é sobre os efeitos posteriores da "demolição" de um homem.

O que me leva a pensar como ficaria uma sequência: o assassino é, além de multibilionário, dono de uma personalidade tida como mover and shaker do momento histórico. Como ficaria alguém assim após a Demolição, posto exatamente que aquela não era uma sociedade de carneirinhos obedientes, logo ao final? Até que ponto um excesso de "solaridade" em alguém de tal vontade cuja sombra foi derrotada poderia ser prejudicial?

O livro brinca com conceitos adiante de seu tempo, porém previsíveis até um certo ponto: machine learning aqui é aplicado para a solução de um caso criminoso com probabilidade calculada de veredito final, e na conversa telepática surge o que poderíamos hoje em dia ver como memes e emoticons, para os mesmos fins.

Recomendo.

O Homem Demolido
180 p.
Colecção Argonauta.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Blog Colecção Argonauta

A Colecção Argonauta é um empreendimento editorial português que, a preços módicos e publicações bem baratinhas, publicou em idioma luso centenas de obras de ficção-científica. A resenha que publiquei ainda hoje, Areias de Marte, logo abaixo desta postagem, é duma edição dessa coleção. Há um blog feito e mantido pelo fã João Vagos que é uma pequena obra de amor.

Areias de Marte

Coleccção Argonauta, (c) 1970.

Aviso: spoilers a rodo.

Areias de Marte/The Sands of Mars (1951) é o primeiro romance de FC por Arthur C. Clarke. Como (quase?) toda ficção-científica, é mais um caso em que uma história envelhece rápido e envelhece mal: e isso é ótimo, pois ganha todo um charme retrô.

Temos, no distante futuro dos anos 90, ou mesmo de agora, um personagem principal que vai para Marte a bordo de uma nave de propulsão atômica, a Ares, ao mesmo tempo que saca para anotar suas impressões de viagem uma fiel máquina de escrever mecânica; antes de embarcar sobe até uma estação orbital de transferência e usa ondas de rádio sem imagem para se comunicar com a Terra ou quem quer que seja.

Chega em Marte após alguns meses em queda livre e encontra o planeta, já habitado, com uma colônia estabelecida anos antes espalhada em alguns assentamentos. Precisando de proteção contra a tênue atmosfera de Marte, as cidades nascentes montam domos transparentes para conter a pressão atmosférica necessária e se protegerem do frio glacial típico do planeta: o que não impede que haja formas de vida, especialmente vegetais.

São visões que, se ultrapassadas, denotam hipóteses de um mundo futuro carregadas de otimismo que sempre foi uma das marcas registradas de Clarke, e um parâmetro para se pensar como se acreditava que poderia ser o futuro, mesmo o razoavelmente próximo.

O que mais me surpreendeu, entretanto, é a atualidade - justamente - inesperada da história, pois a colônia de Marte tem um grande problema: ela dá retorno financeiro ou material zero, apenas consumindo recursos. E, passado o deslumbre público de ter se chegado a um outro mundo, o homem comum se pergunta para que gastar impostos em algo tão exótico? E os políticos, é claro, começam a pender para este lado.

Familiar? Pois é. Não deixou de ser assim com o Homem na Lua - ibope caindo a cada nova missão Apollo, a Guerra do Vietnã consumindo outros bilhões - e há todo um questionamento sobre o investimento de se ir a Marte, ou mesmo retornar à Lua.

Entra em cena o diretor do projeto da colônia marciana, Warren Hadfield, disposto a muita coisa para manter a auto-suficiência da colônia, inclusive um gesto "apocalíptico" tremendamente familiar ao leitor, caso ele tenha lido (ou assistido) a 2010 - Uma Odisseia no Espaço II. A chegada em Marte do protagonista, o jornalista Martin Gibson, é tida com um certo receio, pois toda a propaganda positiva é necessária, e qualquer uma negativa pode ser desastrosa - e há planos em andamento...

No final das contas, o livro poderia ser mais um travelogue de Gibson, mas julgo que a gênese do que seria outra marca registrada - talvez a grande marca - do mestre, o sense of wonder, está lá, ao nos apresentar uma versão futurista da viagem ao local exótico, pois há um peso extra em tudo aquilo que Gibson testemunha: não apenas por ser um jornalista, ele é um escritor de ficção-científica, escrevendo sobre Marte no que parece ser os anos 60 e 70 (não há datas precisas no livro) e agora tendo a oportunidade de ver com os próprios olhos o futuro pretendido por ele, e o quanto errou. Há alguns tantos detalhes técnicos, pela boca de personagens ou pelo narrador onisciente, e devido à profissão do protagonista, até mesmo uma discussão sobre a atualização de histórias de FC, e, quando é assim, o valor que elas têm ou deixam de ter.

Como história paralela, e ainda com a comparação das viagens para o longínquo e o exótico para apenas encontrar a si mesmo; há uma trama sobre o envolvimento de Gibson com um dos tripulantes da Ares, a nave que o leva, uma vez que ele percebe que o jovem um filho que não sabia ter. Infelizmente, é Clarke, e esse desenvolvimento de personagem, o que é bem mais do que em obras suas posteriores, fica apenas no vai-da-valsa.

O tema da auto-suficiência da colônia marciana, cabe notar, aparece em um conto de Isaac Asimov, Nós, os Marcianos (1952, aqui no Brasil publicado pela Hemus), com a opinião pública manipulada por um perigoso populista chegando ao poder na Terra. Essa resenha aqui detalha mais.

O livro nos apresenta algumas ideias que nos ficaram mais conhecidas por obras posteriores: a estação orbital de transferência para uma nave interplanetária, acima citada, gira para obter gravidade artificial, assim como a noção de se chegar a Saturno antes de se alcançar Júpiter, estão em 2001 - Uma Odisseia no Espaço; mas o que chama muito a atenção é a incineração nuclear da lua Fobos, para que forneça o equivalente a "10% da luz solar" assim ajudando na terraformação marciana, lembrando bem a explosão de Júpiter em 2010 em um sol para aquecer e ajudar a desenvolver a vida na lua Europa.

O que me fez até lembrar que Frank Herbert torna a brincar com alguns tantos elementos de Duna em The Godmakers, levando-me a crer que, para um autor, às vezes um livro somente não basta.

Faixa-bônus: e o motivo de se ir a Saturno é por sua lua Titã, em que já se sabia desde 1944 haver metano em vastas quantidades, assim providenciando o combustível para o retorno para casa, nem tão diferente do que pretende o plano de Robert Zubrin para se ir a Marte - e ainda, com direito a se utilizar da gravidade de Júpiter como ponto de manobra para se alcançar Saturno, o que de fato é feito com missões interplanetárias hoje em dia. Nada mal para um livro de 1951, mas estamos também falando do cara que publicou um artigo acadêmico sobre a elaboração de uma rede de satélites artificiais para retransmissão de ondas de rádio mundo afora, ainda nos anos 40.

Até por uma maturidade como escritor, não é o melhor livro que eu li dele. Areias de Marte está muito aquém se compararmos com o que deve ser a fase áurea dele, nos anos 60 e 70. Mas fica pela curiosidade de ter sido seu primeiro romance, divertindo-se com detalhes técnicos mais do que com pessoas e, pelo seu protagonista, tendo a curiosa consciência de que FC pode envelhecer rápido e pode envelhecer mal... :)


Arthur C. Clarke - Areias de Marte
190 p.
Colecção Argonauta.