terça-feira, 9 de novembro de 2021

Jabuti 2021 - Romance de Entretenimento

 Saiu a correlação dos finalistas. A literatura fantástica representada, pelo menos, com Eneias Tavares, Cesar Bravo e Carol Chiovatto em:

Romance de Entretenimento

Título: Amanhã eu morro | Autor(a): Hugo Ribas | Editora(s): Patuá

Título: Apocalipse segundo Fausto | Autor(a): Marcos de Brito | Editora(s): Coerência

Título: Corpos secos | Autor(a): Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado | Editora(s): Alfaguara

Título: Descanso | Autor(a): Rafaela Riera | Editora(s): Penalux

Título: Desmemória | Autor(a): Thalita Saldanha Coelho | Editora(s): Jandaíra

Título: DVD: devoção verdadeira a D. | Autor(a): Cesar Bravo | Editora(s): DarkSide Books

Título: Parthenon Místico | Autor(a): Enéias Tavares | Editora(s): DarkSide Books

Título: Senciente nível 5 | Autor(a): Carol Chiovatto | Editora(s): Avec Editora

Título: Tortura Branca | Autor(a): Victor Bonini | Editora(s): Coerência

Título: Velhos demais para morrer | Autor(a): Vinícius Neves Mariano | Editora(s): Malê

Fonte: Fantasticursos no Telegram.



domingo, 17 de outubro de 2021

O Messias de Duna


O Messias de Duna: capa da edição antiga pela Nova Fronteira.

Tenho que confessar que levei este tempo todo para finalmente ler inteiro. Achei simplesmente um livro chato, da primeira vez que li, e consequentemente, não avancei nos demais - apesar de conselhos dizendo que valia à pena. 

Mas, exatamente por causa da live que participei (e que comentei aqui), eu me vi entusiasmado para dar uma chance com um livro que, afinal, é mais ou menos um terço do original. E consegui terminá-lo, de fato, em poucos dias. 

O Messias de Duna (1969) é um livro muito centrado em conspirações - mais do que o livro anterior - e com isso um certo andamento pode ficar comprometido, de acordo com os gostos da audiência. Mas se você conseguir vencer os primeiros trechos ou o estilo, ganha uma ótima sequência ao livro original. 

Gênero

Messias de Duna originalmente foi publicado como noveleta na Galaxy Magazine, e depois ampliado para a forma de romance. Foi a primeira de mais quatro sequências que ele escreveu, valendo ainda Filhos de DunaO Imperador-Deus de DunaHereges de Duna e As Herdeiras de Duna. Os links anteriores vão pras edições atuais pela Aleph, que dispensou os artigos no título. 

Cenário

A mudança ambiental em Arrakis vai de vento em popa, conforme as ordens do Muad'Dib. Mas com a mudança, a sensação de ao se obter o que tanto se ansiava se mostra algo com um viés indesejável para os Fremen, que, apesar do sucesso em levar a palavra do Muad'Dib pelos mundos galáxia afora, veem seu modo de vida se diluir com os novos costumes e as novas gerações, ao mesmo tempo em que o ecossistema se torna mais generoso - subitamente, é como Arrakis não fosse mais o mundo feito por Deus "para testar os fiéis".

Trama

Passando-se 12 anos depois do livro original, Paul Atreides é não só o senhor de Arrakis mas o novo imperador do Universo Conhecido. Controlando a especiaria, ele controla o universo, e seus Fremen, como foi dito, são a base da mais nova jihad galáctica, que nesse meio tempo leva a palavra de seu autêntico messias aonde for. 

Ao mesmo tempo, ele já entendeu que sua presciência turbinada pela genética e a Água da Vida é antes uma prisão do que algo que consiga eficazmente controlar: e como poderá ficar o futuro para seu herdeiro? 

Personagens

De saída, somos apresentados aos conspiradores contra Paul Atreides, em um primeiro capítulo que me foi responsável, devo advertir e mesmo confessar, por minha desistência do livro da primeira vez que tentei de ler.

Entre os velhos os novos inimigos temos a CHOAM e as Bene Gesserit - na participação da Reverenda Madre Gaius Helena Mohiam assim como da própria esposa do imperador, a Princesa Irulan, além do Dançarino Facial Scyatle pelos Bene Tleilax e Edric, Navegador da CHOAM. Os BT ainda oferecem um presente duvidoso, na forma de Duncan Idaho redivivo, no que é chamado ghola.

O personagem central é, sem dúvida, Paul Atreides. Não obstante, doze anos depois dos eventos finais de Duna, sua jihad é vitoriosa, resultando em, de acordo com o próprio, 61 bilhões de mortos, 90 planetas esterilizados, 500 outros "totalmente desmoralizados" e no extermínio de seguidores de mais de 40 religiões diferentes - em uma "estimativa conservadora". 

Não precisamos chegar na página onde estão esses números para entendermos que a relutância de Paul em seguir esse caminho não o impediu de fazê-lo, exatamente antecipando o massacre que iria acontecer, ainda no primeiro livro, consciente ainda que o pior ainda poderia acontecer, caso não intereferisse. Em um enorme resumo: como ele atua dentro desse turbilhão é que é a intenção central deste volume.

Santa Alia da Faca, agora em sua adolescência, é alguém que teve a consciência desperta pela Água da Vida cedo demais, ainda sendo um feto em gestação: alguém tido como Aberração pelas Bene Gesserit, nela temos o embrião da tragédia que a consumirá no próximo livro, Os Filhos de Duna

Em edição atual pela Aleph.

Com um terço aproximadamente do livro original, mas sem precisar ambientar o leitor com todas as novidades trazidas pelo cenário rico e complexo como em Duna, esta sequência deixou alguns nomes conhecidos de fora: Gurney Halleck e Lady Jessica estão em Arrakis, mas somente dela só sabemos e através de uma carta enviada, em que ela alerta sobre os perigos da religião se unindo ao Estado, deixando Alia preocupada - e, de quebra, gerando um daqueles trechos cuja atualidade para nós, leitores, sempre é perturbadora. Tais perigos são melhor demonstrados, aliás, na sequência Os Filhos de Duna, em que ela volta a protagonizar.

Se não de fora, de menos na história: especialmente perto do fim, as coisas pareceram estar meio corridas quanto ao destino do elenco de conspiradores - nem que por bons serviços prestados, a gentil Reverenda Madre merecia uma última cena. 

O volume encerra com uma ótima saída de palco do protagonista, tanto em forma como motivações, e abrindo espaço para se sair da vida para entrar na lenda, ao mesmo tempo evitando muito do que o destino da civilização ele temia vir a se tornar.

O Messias de Duna 
283 p.
Editora Nova Fronteira (para fins de resenha)

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Kirk in spaaaace!

Ok, várias coisas aqui...

Por um lado, tudo parece ser brincadeira entre multimilionários, com pouco ou nenhum recurso dizendo a respeito da sociedade. Como se apontando um futuro estilo Elysium, aliás corroborável aqui... 

Mas... MAS... há que se lembrar que a aviação começou também como algo para poucos, entre multimilionários de época e Estados.

O que aconteceu hoje foi um golpe publicitário? Duh. Double duh. Ao brincar de Cabhum orbital, isso demonstra que mesmo um nonagenário com histórico de alcoolismo pode peitar 5,5 G de arranque.

Notem: isso não apenas soa como um presente inventivo para o níver do sogrão ou do vovô do Homem que Tem Tudo, mas contradiz a imagem que, para se estar em órbita, há que se estar no ápice da forma física e intelectual, ser o melhor da espécie Humana: não, o vovô cachaça também pode estar lá. Por tabela, você - sim, você, lendo isso aqui, que em termos olímpicos é meio esquisito e, pior: você, que não tem neto ou genro bilionário, também pode estar lá: pois a impressão que fica é a de acessibilidade, e isso conta.

O homem comum no espaço: para mais detalhes dessa ótima ideia, assistam Avenue 5.

William Shatner aos 90 anos se torna a pessoa mais idosa a ir ao espaço, recorde anterior sendo da turista espacial Wally Funk (83 anos, em julho de 2021). Ambos foram pela Blue Origin de Bezos, e são voos suborbitais, atingindo 80 km de altitude (o que os americanos chamam de espaço por questões políticas, mas nem entremos nessa pendenga). Mas antes, houve John Glenn.


Vets in space: Caubóis do Espaço (2000)

John Glenn (1921 - 2016), o primeiro astronauta americano a orbitar a Terra em 1962, pilotando uma cápsula Mercury. Havia sido fuzileiro, piloto de aviação de caça condecorado, na II GM e na Coréia; e no devido tempo, senador. Em 1998 ele volta ao espaço pelo ônibus espacial Discovery, como participante de uma pesquisa sobre reações do organismo humano de uma pessoa idosa naquelas condições. Neste seu último voo ao espaço ele tinha 77 anos. 

Bom, vamos lá: não vamos nos enganar que ninguém é imune às necessidades da publicidade. Mesmo a NASA precisa disso: li certa vez que a miopia do Hubble teria se dado pelo lançamento antecipado do próprio, comprometendo um dos espelhos refletores de fundo; antecipação forçada pelo desastre da Challenger de anos antes, e a empresa precisava de algo que demostrasse a necessidade do programa espacial para o grande público. Mas aqui, o dinheiro é público, e se por um lado satisfações nunca são de menos, por outra o Homer Simpson que se ajuda a ser também não colabora.

Ainda, não precisamos lembrar de Jeff Bezos e sua "Sue" Origin, ou do quão "polêmica" é a figura de William Shatner.

A questão, portanto, é sobre quantos mais irão se beneficiar dessa indústria nascente. Pessoalmente eu desconfio, e muito, de interesses particulares dessa monta porque, bolas, eles são PARTICULARES, e o benefício social é algo a se adivinhar, uma bola enviesa para a qual você pode apenas torcer. 

I'm a rock-it man...!

A não ser que você seja como Santos-Dumont, com fortuna de família, que nunca se importou em patentear nada, fornecendo cópias de projetos a quem assim quisesse: sua ideia era, vamos todos voar juntos. Como consequência, mais pessoas conseguiram bolar seus próprios empreendimentos aéreos, ao passo que os irmãos Wright procuraram processar cada um que surgisse com um mais-pesado-do-que-o-ar (e perderam TODOS os processos). O resultado? Bem, os irmãos Wright podem ter sido os verdadeiros pais do avião, mas da Aviação? Esse foi Dumont. Seu legado não é somente tecnológico.

Temos algum Dumont, com esse tipo de visão, na praça?

Eu acho que não. Dumont já era uma mentalidade velha, em seu tempo, um romantismo-idealismo que se apagava com o Século XIX. O novo século era da mentalidade dos Wright.

Só que tem o seguinte, depois de tudo contextualizado e desconstruído, ainda tem o seguinte:

Oh, yeah, that's the good stuff!

É a porra do Capitão Kirk.

Os caras meteram o Capitão Kirk no espaço. 

Cês têm ideia prum certo tipo de nerd - especialmente um certo tipo de nerd de meia-idade - o que isso significa? 50 shades of putaquipariu, mano! 

Todo aquele otimismo gerado em plena guerra fria, que apesar dos riscos, das fictícias Guerras Eugênicas, da certeza da III (e nuclear) Guerra Mundial, que tudo ia valer a pena! Porque sobreviveríamos, e seríamos uma versão melhor de nós mesmos, como pessoa ou sociedade! E ia - não, e vai ser do caralho!

Shatner passou alguns minutos sob ausência de peso e vendo o escuro do espaço acima e o azul da Terra embaixo. Bastou. Entre suas primeiras declarações de volta disse a Bezos, "O que você me deu foi a mais profunda experiência que eu posso imaginar. Eu estou repleto de emoção por tudo o que acabou de acontecer".

A vida nunca é simples. Como todo ator que sofre de typecasting por um papel de sucesso - Basil Rathbone, sob a sombra de Sherlock Holmes, que o diga -, sua tendência era de rejeitar identificação com algo que lhe fechava portas. As décadas passaram, conseguiu dar a volta por cima, houveram por fim outros papéis e oportunidades - inclusive, novamente, como James T. Kirk. 

E, cinquenta anos depois, isto.

Se por mais nada, isto.

Imagino se Elon Musk, capaz de realmente por pessoas não-qualificadas em órbita por alguns dias, não está ligando para Patrick Sewart.

Sci-Fi Tropical

 Sci-Fi Tropical é o blog de ficção científica de meu prezado Rubens Angelo, designer e escritor, já na coluna ao lado. Destacam-se seus minibooks editados com contos de muita gente boa, além do resgate de parte da memória da FCB. 

Já na coluna ao lado.

sábado, 25 de setembro de 2021

Live de Duna (edit: + resenha)

 Domingo amanhã, 26/09/21, às 16h, participarei de uma live sobre Duna organizado pelo Clube de Leitura Zona Oeste, aproveitando o mote da estreia da refilmagem recente.

Desencavei minha velha cópia da ed. Nova Fronteira e reli nos últimos dias, após longos anos sem revê-lo. Reler com olhos de quem, hoje em dia, procura escrever se revelou uma grata surpresa.

Mais comentários depois de amanhã. Para quem quiser assistir, eis o link.


Duna, em edição de 1984 da ed. Nova Fronteira. Por Frank Herbert.

EDIT

Em vez de gerar mais um post, preferi ampliar este, uma espécie de resenha tardia (com spoilers) de Duna.
 
Como eu disse, grata surpresa ao reler depois de sei lá quanto tempo. Mais cedo neste ano ou em 2020 eu tentei, mas sem sucesso. Dessa vez fui até o final, e ainda no gás embiquei em O Messias de Duna, que deixarei pra um próximo post.

Na live eu digo tudo o que talvez tivesse a dizer aqui: há quem saliente que nunca se lê (relê) o mesmo liveo duas vezes, indicando a maturidade do leitor e seus momentos diferentes de vida. 

No meu caso, havendo entre lá e cá iniciado uma modesta carreira de autor, prestei atenção no texto que, de outra forma, talvez não tivesse.

Identifiquei trechos que me lembrava, que mais ou menos me lembrava, e passagens que para mim foram completamente inéditas. 

Foi muito bacana rever - ou ver - a construção das tramas, e os raciocínios que levarão Paul Atreides a ser o messias da Humanidade: não somente o plano das Bene Gesserit estava para acontecer, mas a força das circunstâncias leva Lady Jessica, sua mãe, a ativar "protocolos de emergência" psico-culturais, deixados pelas BG, que levam a uma população supersticiosa a acolhê-los como figuras profetizadas; e ainda sem que ninguém mais soubesse, paiava a promessa lançada pelo primeiro Planetólogo Imperial local para, junto à mesma população, trabalhar em um método para transformar o escaldante planeta desértico Arrakis em um paraíso ecológico nos séculos que viriam.

Duna é a primeira grande obra da new wave/'soft science fiction' abordando religião, política, cultura e ecologia como temas centrais, e não meras curiosidades secundárias, sendo da mesma geração que trouxe autores como Michael Moorcock, Ursula K. Le Guin e Philip K. Dick às prateleiras.

Seu worldbuilding impressiona, sendo também central à trama, conferindo ao planeta Arrakis toda uma identidade própria e senso de pertencimento dos personagens, sem o qual a proposta oferecida por um autor pode enfraquecer. O feito deixa Duna considerado também como tendo o primeiro grande worldbuilding da ficção científica, comparável ao da Terra-Média de Tolkien, do lado da fantasia.

Ao longo de suas 669 páginas dividas em três livros internos (mais apêndices), entretanto, senti que certos personagens apresentados ficaram "de menos" em seu desenvolvimento e potencial, tamanha a carga de informação - e não estou falando de nenhum infodump, percebam - que o livro apresenta. Não é um livro perfeito, mas não quer dizer que seja um livro ruim, longe, bem longe disso. O fã de ficção científica deve sempre dar uma chance para ler - quando não, reler - Duna.

Agora é esperar para ver o novo filme que, segundo soube, será divido em duas partes. Imagino que seja o certo a fazer, pois, como foi dito, são 669 páginas de muita informação que deixou o filme de 1984, de David Lynch, como problemático, para se dizer o mínimo.

Por último, cabe notar que Frank Herbert escreveu meia dúzia de livros a partir do primeiro, em sua carreira como escritor de ficção científica. Seu filho Brian e o escritor Kevin J. Anderson ainda expandiram o universo bem além, com base nas anotações do pai. No Brasil, que eu saiba apenas os livros do pai foram publicados. Uma página da wiki sobre a franquia de Duna aqui, para quem se interessar. Devo ler os primeiros livros em breve comentar por aqui, a futuro.

Duna
669 p.
Editora Nova Fronteira (para fins desta resenha. Edições atuais pela ed. Aleph)


sábado, 5 de junho de 2021

Não Existem Humanos Inteligentes...

... é o nome da antologia co-organizada por Lu Evans e Saulo Adami, baseada no imaginário de 'O Planeta dos Macacos', de Pierre Boulle. Participo com Radiumgami MechaniKong, Go!

É a segunda antologia que participo sob a batuta de Evans, a anterior sendo 'Sob As Luzes de Yule'.

Disponível em Google play books (GRÁTIS), Uiclap (Cupom de desconto: UAC3867CYTLVFLH1R ), Goodreads e Skoob.




domingo, 11 de abril de 2021

Prêmio Le Blanc 2021

 Já temos uma semana de votações abertas, e vamos até dia 23 de Abril. Os links vão aqui, no apoio da Bossa Criativa. O Prêmio Le Blanc é dedicado às obras nacionais do ano anterior nas áreas de Animação, Games, Literatura Fantástica e Quadrinhos.



Retrato de Le Blanc, fonte: Bossa Criativa

sábado, 3 de abril de 2021

Aniquilação

Capa da edição brasileira de Aniquilação.

Aniquilação (2014), de Jeff Vandermeer, é o primeiro de sua trilogia (ainda composta de Autoridade e Aceitação, já foram publicadas no Brasil pela mesma editora), que conta sobre a "Área X", uma região do território norte-americano desabitada sob influência alienígena, mudando fauna e flora. 

As quatro personagens são a 12a. expedição para este território, sob o comando de uma agência governamental conhecida apenas como "Comando Sul". Não há nomes, mas cada uma é chamada pela sua profissão, pela qual foram escolhidas para compor esta empreitada.

A prosa é densa e minuciosa em seus detalhes, enquanto a narradora-protagonista e suas colegas se aventuram na região, com amplas descrições do mundo natural pelos olhos dela, logo a bióloga, portanto mais apta a descrever a vida selvagem do lugar. O desenvolvimento da personagem, seu passado e presente, e suas tensões e questões próprias, resolvíveis ou insolúveis, são apresentadas, construindo uma personagem bem interessante.

É uma obra lovecraftiana, com direito a horror cósmico e o indizível em suas extensas descrições - que para mim soaram inovadoras, entretanto, fazendo uso criativo de sinestesia -, trazidas até nós por uma narrativa em primeira pessoa deixada em um diário. Impossível, dado ponto, não lembrar de A Cor que Veio do Espaço (1927), que, aliás, ganhou filme em 2019.

Trailer do filme de 2018, com Natalie Portman. Netflix

Como toda boa obra lovecraftiana, não há real explicação para o indizível - mas não deixa de ocorrer uma ou duas respostas para a narradora-protagonista, dando-lhe a possibilidade de encontrar termos com o marido desaparecido, e tudo aquilo que faltou dizer durante os anos de um casamento que se encontrava no final, quando ele partiu na expedição anterior à Área X: em meio a tanta dissolução orgânica e pessoal, algumas certezas nos bastarão - e isso não é a indicação de um final feliz, percebam.

Recomendo.

Aniquilação - Livro 1 da Trilogia Comando Sul

200 p.

Ed. Intrínseca

sábado, 27 de março de 2021

Justiça Ancilar

Capa da edição brasileira.

Aviso: Spoilers abaixo.

Ancillary Justice (2013) é o romance de estreia da autora Ann Leckie, que começou já ganhando os badalados prêmios Hugo e Nebula, além de outros: nada mal, mesmo, para uma iniciante. No Brasil, uma tradução foi publicada pela ed. Aleph em 2018.

Gênero

A história é uma space opera bem próxima à "FC Militar", passando-se dentro de alguns tantos milhares de anos, com a Humanidade espalhada pela galáxia e algumas raças alienígenas, porém mais focada em povos humanos que já cultivam suas próprias culturas e ancestralidades. Apesar do que, há a presença do indefectível império galáctico, contra o qual não há escapatória, um governo humano que "traz a civilização" às estrelas e povos conquistados.

A autora investe ainda em transhumanismo, apresentando conceitos e sequências muito boas, com pontos de vista - literais - de uma mesma Inteligência Artificial alternando-se através dos diversos corpos que comanda, de parágrafo em parágrafo, às vezes mesmo diálogos. A protagonista um dia foi uma nave, sendo ao mesmo tempo a gerenciadora de suas funções e coordenadora da força de ancilares - corpos humanos sem direito à identidade conservados criogenicamente e despertos para receberem implantes onde a vontade da IA se manifestará.

Há ainda a presença de pós-humanos, os que se modificaram tanto que comunicar-se com o resto da Humanidade se torna um desafio cognitivo. Mas infelizmente eles são apresentados de relance.

Cenário:

Humanos e não-humanos sofrem o domínio do Império Radchaai, uma nação humana que se expande e assimila povos há alguns milhares de anos, contra quem não há resistência possível, impondo padrões de sociedade e cultura, em um processo de dominação contínuo, sob a justificativa e crença que "traz a civilização" ao conquistado. 

As imperfeições da sociedade futurista se revelam no discurso classista entre a nobreza de bem-nascidos e que nascem 'líderes naturais' contra quem, por esforço próprio, galga posições, um conflito social diretamente relacionado com a trama. 

A galáxia de Leckie é rica, portanto, em pontos de vista e questões culturais sempre indicados, especialmente as imprecisões da tradução de dados termos e intenções em diferentes idiomas, constantes na narrativa.

Trama:

A trama se dá em dois momentos de História, separados por séculos, mas mantendo o ponto de vista narrativo - ou múltiplos pontos de vista - sempre de Breq, contado em primeira pessoa. Ambos os tempos são apresentados por serem o início e o final da história, havendo a autora preferido alternar os momentos, em vez de uma abordagem linear em duas partes, 'passado e presente', para todo o conteúdo. Essa alternância é bem interessante, especialmente no passado, quando pontos de vista físicos eram trocados a cada parágrafo, com os vários olhos e ouvidos controlados por Breq, quando era a IA de uma nave militar.

Personagens:

É uma história de vingança, onde os dois protagonistas assumem o papel de "parceiros improváveis": Breq, movido por uma vingança pessoal, encontra Seivarden, um viciado em droga, e acaba o ajudando sem nem saber ao certo por que. Com o passar do livro, a identidade de ambos vai se tornando clara ao leitor, assim como as motivações e histórias, especialmente a de Breq, pela qual as coisas andam. 

Confesso que achei Seivarden não tão desenvolvido quanto poderia, sendo mais um acessório para Breq, no final das contas: no mais, sua recuperação do vício de drogas, apesar da tecnologia existente, ainda era algo para se preocupar ao nível da confiança - o que, efetivamente, leva à cena da ponte. Mas, a partir daí, as coisas se encaminham funcionais demais, ao meu ver. 

Ancillary Trilogy.

Forma:

Tomando como base a inexistência de gêneros na linguagem do dominador Radchaai, a autora fez uma outra experiência estilística (além da de alternância de pontos de vista) e retirou qualquer referência a homens ou mulheres, quando as coisas eram descritas ou ditas do ponto de vista de quem falasse ou pensasse em radchaai, deixando gênero para alguns poucos momentos em outros idiomas. A tradução do livro para o português, sob autorização da autora, pôs como gênero default o feminino, para salientar, à sua maneira, uma tentativa de estranheza da obra. 

Pessoalmente, pra mim funcionou, e foi divertido imaginar um elenco all-female pela história e galáxia afora.

A alternância de períodos de época e entre pontos de vista de localização pode ser um pouco confuso, mas é o que eu chamo de um bom confuso. Dá a sensação de novidade, senão conceitual, ao menos estilística que cabe perfeitamente em uma obra de ficção científica.

Entretanto, se não tivesse chamado a atenção para a questão de gênero no idioma, eu sinto que tanto faria como tanto fizesse ser assim como seus personagens serem todos homens, como em um romance mais antigo: não há definições, redefinições dos papeis de gênero, ou qualquer debate aqui. Talvez eu esteja perdendo o ponto proposto, mas não acho que isso deixe o livro com uma "sacada genial" ou similar, como parecem insistir: um mundo que, se por um lado há a louvável equivalência entre ambos os sexos em qualquer função - e é o mínimo que se espera em sociedades humanas daqui para frente, ao ponto que em si não é a primeira obra a pensar isto -, não me parece que salientar a ausência de gênero no vocabulário confira algum valor extra à obra.

Comparemos, por exemplo, com A Mão Esquerda da Escuridão (1969), de Ursula K. Le Guin, onde tanto há a questão de gênero é algo influente tanto para a história quanto para as culturas apresentadas: aqui, parece mais uma curiosidade exótica, que sempre é lembrada, mas não parece realmente importar para mais nada.

O filminho na minha cabeça: Breq e Seivarden, com a licença das descrições.

Achei o texto, por vezes, um pouco arrastado, com o ritmo melhorando pela metade do livro: em suas inúmeras sutilezas, a autora não se furta em salientá-las, o que talvez comprometa uma fluidez melhor.  Pode ser que tenha ocorrido por ter sido o primeiro livro de uma série, vendo-se na obrigação de apresentar o máximo de informação possível a um leitor, com uma escrita mais ágil nos volumes posteriores. 

Mas não só de poréns e entretantos vive a história: na busca por vingança pessoal contra o imperador galáctico, a ex-nave de guerra que é a protagonista promove uma guerra de uma pessoa só, apenas para descobrir que o imperador também está em uma guerra de uma pessoa só - civil, no caso, que já dura séculos e produz suas vítimas: pois em seus múltiplos corpos, o imperador não concorda sempre consigo mesmo,  mergulhado em um dilema insolúvel provocado por uma potência alienígena ameaçadora maior do que o Radch...

... e isso é uma história que vale à pena ler. 

Sendo parte de uma trilogia, espero que a Aleph venha a publicá-la por inteiro.

Recomendo.

Justiça Ancilar

384 p.

Editora Aleph

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

O Império dos Mutantes

 

Ficção-Científica Gótica?

Alerta: Spoilers abaixo.

O Império dos Mutantes (La Mort Vivante, 1958) é o primeiro livro que li deste autor, o francês Stefan Wul (1922-2003), do qual descubro ter sido dentista e apaixonado por ficção científica. Figura atuante no meio de seu país, sua obra mais famosa talvez seja a adaptação de animação O Planeta Fantástico (1973), a partir de Oms en série (1957).

Em um futuro onde a Humanidade vive em "planetas-paraísos de sistemas longínquos", nosso sistema solar original ficou apenas com Marte e Vênus habitados por sociedades onde a tecnologia se retraíra, e a Terra era proscrita e virtualmente inabitável, após catástrofes provocadas pela capacidade destrutiva dos seres humanos. O único lugar na Terra, descrito, são o que um dia foram os Montes Pirineus, erguendo-se do oceano que engloba quase toda a superfície do planeta junto com outros pontos mais altos.

A história começa em Vênus (sendo escrita em uma época em que se podia ainda crer em Vênus e Marte habitáveis sem forçar muito a barra), onde o protagonista, um biólogo, é censurado pela religião por seus experimentos com óvulos de anfíbios, deixando claro que é uma sociedade que não gosta de ciência e tecnologia, exatamente pelas desgraças do passado. A religião aqui, que sugere alguma vertente de cristianismo neste futuro não determinado, apela sempre a uma prudência a um ponto estagnante.

A fustração do biólogo é captada muito oportunamente por um contrabandista de artefatos - livros e microscópios - da Terra que, com o tempo, acaba cooptando-o para trabalhar para sua chefe na Terra, onde todos são proibidos de ir.

O trabalho envolve a clonagem da filha morta desta chefe, com resultados bastante perturbadores.

Achei a história com uma pegada distante de Frankenstein (resenha minha aqui), de Mary Shelley, de onde se acostumou com a ideia de que a ciência é uma vilã - quando o correto seria, a falta de ética é a vilã, como o é em qualquer campo. Dado momento, o protagonista, defronte os horrores que ajudou a criar, passa a culpar a religião por manter a ciência na rédea curta, em vez de na verdade estimulá-la, podendo então combater conhecimento com conhecimento.

Mas há outras ligações: se o autor estava pensando especialmente no Frankenstein do cinema, acabou gerando uma curiosa mistura de ficção científica com gótico, em um cenário pós-apocalíptico. Há o castelo decadente, tão isolado quanto arruinado, criptas por perto, um laboratório onde pesquisas jamais tentadas antes ou há muito tempo são executadas, um pequeno elenco de pessoas excêntricas ou de aspecto repugnante por este ou aquele motivo. Há também um grande pecado pairando no ar, que atormenta a todos os envolvidos e será a fonte da ruína. É um mundo doente, onde todos precisam se precaver contra a radiação, havendo poucos lugares habitáveis e nenhum sendo de conforto.

Há ainda noções como uma máquina auto-replicante que, consumindo os recursos ao redor, acabaria por ocupar - ou substituir - o planeta inteiro, sendo que ainda no caso esta criatura é um organismo, do qual pendem descrições de mutações voláteis de órgãos, feições e formas orgânicas dignas de animes que ainda seriam vistos décadas adiante - ou talvez já tivessem sido lidas em alguma escrito ou autor lovecraftiano. A evolução do estágio inicial até este resultado reforça a ideia de um namoro, senão com o gótico, com o terror, incluindo aí gêmeas com poderes telepáticos e a capacidade para maldade, lembrando um pouco The Midwich Cuckoos (1957), de John Wydham, que gerou duas adaptações para o cinema (19601995).

Dos pontos baixos, pensei no desenvolvimento de personagens. Só dois ali realmente contam, tanto o protagonista quanto a chefe, e esta mesmo assim pouco se fala sobre ela ou mesmo a operação de contrabando que comanda. O pai da criança não é sugerido, do que eu tivesse lido, por exemplo. Dado momento, ela se torna pouco mais do que uma donzela em apuros, embora isso me pareça que também a questão do gótico: sendo a mãe do monstro, viver o pesadelo que passam a se encontrar especialmente a destrói por dentro. 

Apesar do que, achei o livro interessante, pelos motivos acima.

O Império dos Mutantes
184 p.
Colecção Argonauta

domingo, 4 de outubro de 2020

Prêmio Argos 2020

O Prêmio Argos 2020 de Literatura Fantástica está oficialmente aberto.

Através dele, os sócios do Clube de Leitores de Ficção Científica escolherão suas obras favoritas lidas no ano de 2019, obras originais em Português, nas categorias Conto, Antologia/Coletânea e Romance favoritos.

Para poder votar, apenas mediante ingresso no Clube via clfc.com.br E participação da lista de e-mail oficial.

A votação vai até Domingo, 22 de Novembro de 2020, 23:59.

Lembrem-se:

* as obras candidatas serão as que vocês sugerirem na cédula, DESDE QUE

* sejam obras originais de 2019 e em língua portuguesa. Reescritas e traduções do estrangeiro não contam.

Bons votos!


quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Silicone XXI

Purgatório da beleza e do caos: Silicone XXI, de Alfredo Sirkis (Record, 1985)

A morte recente de Alfredo Sirkis (1950-2020), político e ativista ambiental, acabou me fazendo finalmente ler seu único romance no campo da ficção científica, lançado em 1985 e situado em um Rio de Janeiro no distante ano de 2019.

A obra é claramente influenciada por Blade Runner: o Caçador de Androides (1982), com uma investigação policial, androides para fins sexuais, arranha-céus e carros aéreos, mas estes elementos levam à criação de um "romance policial futurista", consta na capa da frente ("seu primeiro roman noir", conforme informação da quarta capa): em vez de se tornar apenas uma cópia, afasta-se da referência original e traz questões próprias nossas.

E como bom noir, uma investigação policial encontra em seu caminho uma conspiração de alcance apocalíptico e nacional, no caso. Personagens no escuro, nem sempre as peças se encaixam a princípio, uma galeria de tipos singulares: Sirkis talvez - talvez - aqui tenha problemas de timing de apresentação e caracterização dos personagens. Pareceu-me que alguns personagens mais saem da cartola do que são realmente apresentados. Tive a impressão, ainda, que só pela metade do livro que a história, de fato, engrena - e engrena bem.

Costumo dizer que ficção científica envelhece rápido e envelhece mal, e aqui não é exceção. Claro, toda obra e autor são frutos de seu tempo, e talvez seja por isso que a FC padeça em especial por causa disso: suas extrapolações - conceituais ou tecnológicas - são calcadas no que o autor tem ao seu redor, entre a vivência cotidiana e hipóteses científicas de então.

Mas Silicone XXI é engraçado: há aquilo que envelheceu, há aquilo que se manteve atual e há aquilo inesperadamente atual. A saber:

Naquele futuro eletrônico sem ser digital; este Rio de 2019 não chegou nem perto de ocorrer, assim como aquela Los Angeles de 2017. Mas é mais do que armas laser, robôs, androides sexuais e aerocarros que, até aqui, nunca existiram, convivendo com a VARIG e micro-disquetes de computador que, se existiram, já se foram há tempos: há uma malandragem carioca como é descrita e escrita que nos faz pensar em algum filme de Hugo Carvana, entre os ditos tipos cariocas e seus diálogos... eu não sei se ainda valeria.

O clima noir não parece resistir muito ao otimismo do ideário do autor: o Rio retratado dispõe de metrô, monotrilho, calçadas rolantes e aerotransporte: para travessias sossegadas mais longas, dirigíveis a hélio. Na Avenida Rio Branco há um calçadão volante, o Centro é uma parte preservada em que não há mais novas construções. O Brasil é um regime parlamentarista onde predomina a coalizão entre sociais democratas e verdes. O Programa Nuclear Brasileiro - grande questão de época - foi desativado por plebiscito em 2005, e comunidades alternativas longe dos grandes centros urbanos prosperam, social e economicamente, mantendo autonomia graças à energia solar, e uma própria diversidade ideológica e religiosa, quando aplicado, em respeito umas com as outras.

As preocupações de Sirkis com o meio ambiente não podiam deixar de estar presentes: o início do livro se dá no Olympus Aerotel, uma edificação encravada no meio do Morro Dois Irmãos, cartão postal da zona sul do Rio de Janeiro e, desde 1992, reserva ambiental. O cenário evoca um certo espanto tanto pelo conceito arrojado de um prédio localizado em tal localidade, acessível somente por aeronaves; quanto pelo desplante facilmente acreditável por estar nesse lugar: dá a impressão que o Rio de Janeiro é uma cidade em que leis de urbanismo, paisagismo e preservação ambiental parecem apenas prorrogar o que é inevitável na melhor das hipóteses, e na pior delas ser apenas outro nome para "taxa de suborno".

Tais preocupações talvez sejam a única coisa sem realmente envelhecer de 1985 para cá, infelizmente.

Mas quem poderia se opor a tudo isso, senão elementos reacionários de contornos positivistas, assim como oriundos de radicais das Forças Armadas - no texto, cabe salientar, perfeitamente ajustadas na atual sociedade - que, bêbados na crença de seus delírios e discursos grandiloquentes, vale tudo para impedir o avanço do socialismo e homossexualização programada, até mesmo um atentado à adutora do Guandu: extremismo confesso e desavergonhado que, divulgado pela mídia interessada em ibope, ganha imenso apoio popular...

... familiar?

Em outra inesperada atualidade, um alvo das forças reacionárias é a "comunidade andrógina", abordando a questão atual de pessoas transgêneras e a transfobia, encontrando apoio de parte da sociedade a este discurso doentio.

Concluindo: Silicone XXI é um bom registro de época, abordando questões de então e projeções dentro do credo do autor, com erros que nos fazem sorrir, e acertos nos fazem refletir e mesmo nos preocupar. É, também, uma aventura policial, e pode - e deve - ser lido desta maneira, para quando se preferir. Aliás, na batida de ser uma obra pop, a edição providencia capa e ilustrações de miolo seguindo a estética dos quadrinhos sendo feitas por Al Voss, artista franco-alemão que morou no Brasil, projetou capas para os Mutantes e chegou a trabalhar para a Métal Hurlant, sendo conhecedor da linguagem das HQs: o aerógrafo de capa envelheceu mal particularmente bem.

Silicone XXI
200 p.
Editora Record

sábado, 15 de agosto de 2020

Metanfetaedro



Metanfetaedro – Ficção Científica Brasileira
Vizinhanças do estranho: Metanfetaedro, de Vic Vieira/Alliah (Tarja Editorial, 2012)

Metanfetaedro é uma coletânea de Vic Vieira, então assinando como Alliah. Saiu pela extinta editora Tarja, dedicada à publicação de literatura fantástica. O livro tem oito contos independentes, dois deles interligados no sentido de terem as mesmas protagonistas. Acompanham os contos ilustrações de capa e miolo de sua própria autoria.

Os escritos se propõem a seguir a corrente do New Weird, tornando-se até então uma das poucas publicações assim aqui no Brasil.

Pessoalmente, eu tenho a impressão que, do New Weird, há a tentação de cair em um rococó de adjetivos e nonsense que pode facilmente suplantar a própria história sendo contada: o que, conforme se apresenta, não é o caso aqui. Eu e Gerson Lodi-Ribeiro chegamos a receber um conto do autor em 2012 para a antologia que coordenamos, Super-Heróis (Draco, 2013), mas que infelizmente não pudemos aproveitar, e era completamente da mesma safra.

A Tarja, aliás, publicou obras dentro do subgênero até então inéditas no Brasil, como Alquimia da Pedra, de Ekaterina Sedia e a primeira tradução de China Miéville no Brasil de Rei Rato, ao contrário do que erroneamente já se pôde ler por aí.

O autor é ativista trans, havendo sido um dos proponentes do Manifesto Irradiativo, destinado à promoção da visibilidade das identidades não-mainstream étnicas, religiosas ou de gênero. Junte isso com sua formação inicial em oceanografia e posterior em artes plásticas, pensamento político mais puro tesão de quem então estava em seus 20 anos e obtemos um mosaico cinético de ações e referências explodindo de si mesmo por todo o livro.

E porque só se tem 20 anos uma vez, temos um dos meus dois contos favoritos do livro, por destoar de um discurso de ação espetaculosa de descrições ao usar o estranho para basear para uma história de cunho pessoal e de perda. Em O Jardim de Nenúfares Suspensos, a situação envolve a perda de alguém marcante ainda na fase universitária, daquela sensação de vida interrompida testemunhada bem antes do que "deveria ser", isto é, somente no devido tempo e idade de nossos avós: esperança revelada falsa, por motivo súbito e irracional, e a prontificação da saudade que muito provavelmente não irá embora... impressões que só aumentam com a narração em primeira pessoa.

Contemplafantasiação é um dos poucos escritos que li na vida que eu gostaria de ver animados. Não filmados: animados. Elementos e paletas diferentes voam, sucedem-se e se mesclam, em uma história trágica de um amor proibido, como são essas histórias. Tabus sociais e culturais impedem a felicidade das protagonistas de povos distintos, onde a homoafetividade do relacionamento é o de menos - não obstante uma oposição masculina, brutal e predominante.

Morgana Memphis contra a Irmandade Gravibramânica e Morgana Memphis Dividindo por Zero estrelam o mesmo par de personagens amorais, a citada Morgana Memphis e Amadahy, protagonistas de ação contra o excesso de desmandos do mundo em que se vive. O primeiro conto ganhou nos dias que passam uma pequena e perturbadora atualidade, com um populista de extrema direita no poder com vias de ser reeleito, além de religiões organizadas reacionárias que se acham detentoras de todos os motivos para oprimir o outro: sim, se as personagens são amorais como eu disse acima, podendo provocar a morte e acidente de passantes ocasionais sem sequer piscar o olho, quem elas enfrentam são coisas muito piores.

O outro, no caso, são uma população marginalizada de alienígenas assexuados que culturalmente adotaram para si a biologia mainstream, procurando se integrar e para isso buscando cirurgias de modificação corporal. Mas tudo o que conseguem é brutalidade e repulsa: "Grupos conservadores radicais, que havia pouco tempo habituarem-se a tolerar ciberorganiformes e animorfos, ficaram entusiasmados com o surgimento de uma nova identidade na praça e puseram-se imediatamente a protestar contra os novos translienígenas." (p. 91)

Mas isso é uma coisa em comum pelos mundos apresentados nos contos: a crueldade, extrapolação das injustiças do mundo real elevadas à enésima potência. Isso fica especialmente claro em Tupac Amarú III, onde o massacre do que seriam povos nativos andinos não encontra limites, macerando sua carne e espírito através de gerações, e Escolhidos ou deuses manifestados terão que cortar um dobrado para salvar ou vingar seu povo, com baixas chances de sucesso.

Tema recorrente é a cidade, a paisagem urbana, não apenas decadente mas futurista, arruinada porém não por isso menos viva e, se bobear, com intenções próprias. Do chão que absorve o sangue e o resto dos tombados para gerar energia para si a planos de fuga interdimensionais, a cidade está lá, um deus onipresente que se acostuma a não pensar nele, embora nos seja inescapável vê-lo ao nosso redor, a cidade tem seus próprios planos - e, à maneira dos deuses, planos insondáveis: em Uma Cidade Sonhando Seus Metais, a cidade é praticamente a personagem principal, ou assim pode ser lido. O tipo de conto que poderia facilmente constar na antologia Cidades Indizíveis (Llyr Editorial, 2011), por exemplo - e que, certamente, enriqueceria o livro.

O descaso pela vida do outro tornado mau hábito corriqueiro é fotografado especialmente nos contos envolvendo crianças. Como na vida real, são as que mais sofrem, nos escritos, não há porque ser diferente. Não há quem as salve, nem quem vele por elas. Suas vidas são breves, abandonadas e com fins violentos. Moleque é o conto que abre o livro, descrevendo dois irmãos separados por um oceano e unidas por tudo o que há contra sua existência. Uma delas ainda tem o conforto da companhia gentil de uma Iara, Mãe D'Água, porém em fim de carreira quando os mares e rios estão completamente poluídos. Mas é uma exceção.

Por último, Metanfetaedro, o conto que deu nome ao livro. Este foi reeditado na Fractais Tropicais (SESI-SP Editora, 2018), importante antologia coordenada por Nelson de Oliveira que caracteriza autores das ditas três diferentes ondas da ficção científica brasileira. Seu texto foi reescrito, em uma nova versão, no caso, beneficiando-se de um polimento. A história trata - se entendi - a respeito de bloqueio criativo, envolvendo ainda hipergeometria e drogas transcendentais - bem, metanfetaedro já está no título, afinal: e mais é tentar explicar o que deve ser curtido, sentido e viajado.

Espero que essa coletânea, algum dia, possa ser republicada, e que o autor possa ter o destaque que, definitivamente, merece.

Metanfetaedro
232 p
Tarja Editorial

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Mestres do Terror



A antologia Mestres do Terror está em financiamento coletivo. Será lançada pela Skript Editora, e tem à frente do projeto meu estimadíssimo Daniel Gárgula.




 A ideia é juntar os autores estrangeiros e mesmo nacionais em um só volume. A seleção de contos:  Os contos selecionados para a obra:

• O Convidado do Drácula
Bram Stoker

• O Estranho Caso do Sr. Valdemar
Edgar Allan Poe

• Dagon
H. P. Lovecraft

• O Corpo Roubado
H. G. Wells

• Transformação
Mary Shelley

• Os Porcos
Júlia Lopes de Almeida

• A Casa sem sono
Coelho Neto

• O Estranho
Ambrose Bierce

• Madrugada Negra
Viriato Corrêa

 Boa sorte com o projeto!

sábado, 1 de agosto de 2020

Expresso do Amanhã

Série Expresso do Amanhã estreará mais cedo que o esperado - POPSFERA
Snowpiercer: tecnologia futurista, calamidade presente, questões antigas.

Aviso: spoilers abaixo.

Le Transperceneige é uma obra que já alcançou mídias diferentes: as originais em quadrinhos, o filme com Chris Evans em 2013 e uma série nova na Netflix, agora em 2020. No Brasil, as três primeiras HQs (de 1982, 1999 e 2000) são encontradas em um só volume pela editora Aleph, O Perfuraneve. O quadrinho original foi criado por Jacques Lob (roteiro) e Jean-Marc Rochette (desenhos), e as demais publicações contaram com outros roteiristas.

O cenário é sobre quando o mundo entra em um período repentino de glaciação e os sobreviventes da Humanidade estão presos em uma composição de trem de mil vagões, rodando ano após anos por um circuito operacionais de linhas de trem. Não há para onde ir, apenas seguir. Todos lá fora morreram, as cidades são mausoléus brancos e congelados. O trem é uma maravilha da engenharia que, indica o nome, supera qualquer amontoamento de neve que bloqueie o circuito.

E a história é sobre como, dentro do trem, acontece uma representação da luta de classes, entre muitos que têm pouco e poucos que têm muito - e que nem no fim do mundo isso, dado a chance, mudará.

A ideia de sobreviventes da Humanidade em um último veículo selado contra o meio ambiente hostil não é nova, mas é sempre bom ver o que um novo take tem a acrescentar. A FC oferece, via de regra, naves gigantes, ditas geracionais, levando séculos e séculos em sua viagem por um lar às vezes cada vez mais mítico, até mesmo com seus habitantes se esquecendo de suas origens e mesmo sua missão. Na série original de Jornada nas Estrelas temos For the World is Hollow and I have Touched the Sky (3x08), já em The Orville a premissa é vista em If the Stars Should Appear (1x04). Uma disparidade de classes a bordo do veículo selado pode ser sugerida na frota de naves sobreviventes à mercê dos cylons na série Galactica original, assim como com o remake de 2004; e mais recentemente na espaçonave Órion vista na minisérie Ascension (2014), projeto este que infelizmente apenas ficou na mini-série.

Há mais tantos outros exemplos, independente da mídia, mas a vantagem básica, ao meu ver, é contar uma distopia social a bordo de um trem, que por mais futurista que possa ser concebido, é algo mais facilmente reconhecível pela audiência, alcançando assim mais gente - mesmo que questões sobre como linhas de trem continuariam funcionais sem manutenção (não é somente a respeito da locomotiva e da composição) tenham ficado em aberto.

A estrutura básica do trem se dá com os últimos vagões preenchido pelos pobres, em péssimas condições, que a medida que se avança pela composição até a locomotiva o nível de vida melhora consideravelmente: de comida a água encanada até algo que em geral não pensamos e damos por garantido, como espaço livre.


O Perfuraneve (2015), editora Aleph.

A primeira história em quadrinhos - a edição da Aleph traz as três primeiras histórias em um só volume. A primeira história apresenta a ideia e a ambientação. Um passageiro dos vagões dos fundos almeja avançar até a locomotiva. A diferença de classes aqui existe, mas a subversão não é o mote em si, ainda que a história, entretanto, mais foque em reações humanas quando o tema é 'farinha pouca, meu pirão primeiro': a "burguesa consciente" querendo ajudar o revolucionário que de revolucionário não tem exatamente algo é comovente. E em tempos de pandemia, a ideia de contágio aqui presente, devido às péssimas condições dos últimos vagões, tem um incômodo senso de atualidade.

Os enquadramentos privilegiam, como não pode deixar de ser, closes e ambientes fechados. Na primeira HQ, salvo a locomotiva, o trem tem um aspecto normal, por mais que a arte no geral privilegie os expressivos rostos dos personagens, pelo belo traço de Jean-Marc Rochette.

John Hurt, Chris Evans, and Tilda Swinton in Snowpiercer (2013)
O Expresso do Amanhã, 2013

O filme, dentro dos limites de tempo da exibição, apresenta uma situação de revolução iminente, com os desfavorecidos dos últimos vagões preparando-se para mais uma tentativa. Quinze anos já decorreram desde a partida do trem.

Além da adaptação entre formatos, há uma adaptação da história, mais se firmando nos elementos base presentes nos quadrinhos do que investindo em uma tradução entre mídias diferentes: mas o protagonista que anseia em alcançar a locomotiva, o coração e controle daquele mundo e por tabela das condições em que ele vivia, está lá.

É um retrato pouco sutil das questões de classe, com evocações até quando crianças eram utilizadas nas fábricas da Revolução Industrial para ocuparem espaços apertados e mexerem em maquinário perigoso, sem a menor proteção. Crianças pobres (e pretas, por tabela), esclarecido isto: enquanto crianças dos passageiros que pagaram melhores passagens tinham educação garantida de forma também a perpetuar uma mentalidade de descaso contra os menos favorecidos e apreciar a ordem, o status quo.

Chris Evans está bom como sempre, com o personagem finalmente desmoronando sob a confissão de seus pecados, próximo ao final. Ed Harris como uma espécie de Mágico de Oz/Grande Irmão orwelliano, o mítico e onipresente porém nunca visto Wilford, responsável pela criação do trem e do destino de todos a bordo. O elenco conta ainda com Octavia SpencerJohn HurtKang-ho Song (de Parasita) e, em um papel adoravelmente detestável, Tilda Swinton. Dirigido por Bong Joon Ho, também de Parasita, que aliás assina como escritor na nova série.

Snowpiercer: Season 1 – Review | Netflix / TNT Sci-Fi | Heaven of ...
Uma questão de lados.

A série dá a impressão de ser na mesma continuidade do trem, verificável por detalhes como o logotipo das Indústrias Wilson e a citação do elemento CW7 utilizado para o resfriamento global, assim como o problema com a droga koron - mas é um desenvolvimento próprio. Passa-se aproximadamente sete anos após a partida, e o esfriamento glacial se dá como explicado no filme, com o adendo de uma guerra havendo esquentado ainda mais o planeta, e a emenda saindo pior que o soneto.

Sendo um ambiente selado, o meio-ambiente precisa ser mantido em equilíbrio, para que não haja escassez: mas quando um assassinato ocorre, a elite do trem sente que o meio ambiente social pode estar em perigo. Entra em cena um dos protagonistas, um dos sobreviventes do fundo do trem, que antes do fim do mundo era detetive de homicídios - o único detetive a bordo. Com esse mote, o funcionamento social da composição vai sendo apresentado, com personagens por vezes envolvidos em segredos sórdidos.

Os passageiros se dividem em quatro classes, de acordo com o preço da passagem que compraram, ganhando vagões e opções de lazer cada vez menores: a primeira classe, a segunda e a terceira - e aí tem os tailers, os do fundo do trem, que forçaram sua entrada quando o desastre se abateu no planeta. Desde então, vêm sendo tratados como incômodo para o resto da ordem social: há que se alimentá-los de alguma forma, para prevenir tumultos como no passado. E mesmo a ideia cruel de apenas desatrelar os últimos vagões para se livrarem deles é vista com o receio por uma revolta na terceira classe, se isso acontecer.

No formato de série, o mundo pode aqui ser bem mais detalhado do que no filme, como a situação da tensão social a bordo. Mais do que pano de fundo, ela é parte da motivação dos personagens, entre a manutenção do status quo, sua derrubada e aquilo que se faz para se viver melhor.

O diretor aposta no momento atual, e não se enganem: esta também é uma obra tão política quanto Parasita, já citado. Não é à toa que o personagem principal é um negro, que não raro é espancado por seguranças fardados e blindados. Os dias em que começo a escrever essa resenha se sucedem ao do assassinato cruel de George Floyd nos EUA por um policial branco, e os violentos protestos que se seguiram.

Como na vida real com o S. S. Titanic, não há escaleres para todos, especialmente para as classes mais baixas.

Com dez episódios, a série termina em um belo gancho para a 2a temporada, ainda que tenha me parecido meio tirado da cartola. Mas o resultado, no cômputo geral, é bom e eu recomendo.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Star Trek e Worldbuilding

A quem aportar por aqui... nesta sexta, dia 17/07, às 19h, tem live no canal da Nova Frota BR sobre worldbuilding e Star Trek, participando este vosso criado. Será aberto a perguntas. Espero vcs lá!



sexta-feira, 10 de julho de 2020

Psicopompo



Psicopompo: porque a luz pode ser tão apavorante quanto as trevas.

Acaba sendo um pouco difícil para mim falar algo mais do que já foi dito sobre Psicopompo, até mesmo nas páginas de apresentação da obra. Ainda, tem uma entrevista com eles aqui, e outra, de 2015, aqui. Só posso dizer que tudo aventado foi entregue, e a contento.

PSICOPOMPO | Quadrinho carioca já tem data de lançamento ...
Psicopompo: após tantos anos sendo planejado, eis finalmente o fruto dourado do sol.

A história é relativamente simples: em uma disputa de futebol entre meninos no campinho de uma favela, a batalha cósmica que define o fim de uma era ou ciclo está acontecendo. O anonimato do evento não torna o confronto menos importante ou decisivo, enquanto agentes imortais tentam influenciar sua decisão.

Eu disse, "relativamente".

Psicopompo on Twitter: "Ainda acha que os balões dos quadrinhos ...

O enquadrar e o reenquadrar.

O texto é de Octavio Aragão e a arte, de Carlos Hollanda, e como em toda boa parceria, um influenciou o outro durante o processo. Ambos são acadêmicos e profissionais com interesses e formação férteis para pensar em significados: quadrinhos, ficção científica, design, astrologia, arte e história da arte. O resultado é uma rica colheita esotérica-semiótica hipnotizante, especialmente em se tratando das cores... as cores... ah-ham. A arte passeia por significados não totalmente óbvios na primeira passada de olhos. É das obras que gostamos de apreciar, após a história lida, por suas páginas.

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E Megiddo, quem diria, foi parar em Irajá.

Páginas estas que demoraram. Foram concebidas, tratadas, refinadas, refeitas desde 2014, entre reconceituações e a própria vida que passa diante de nós, ora tumultuada, ora rápida demais. Mas o resultado está aí. Valeu por todo esse tempo de espera? Sem dúvida.

Psicopompo
84 p.
Caligari, 2020.

sábado, 20 de junho de 2020

Carnival Row


Carnival Row (2019 - )


Atenção: muitos spoilers a seguir.

Série disponível na Amazon Prime Vídeo, Carnival Row nos leva a um mundo de fantasia (wiki oficial em inglês aqui) que alcançou a Revolução Industrial. Existe magia, deuses, seres míticos como fadas, faunos, kobolds e etc - assim como máquinas a vapor, experimentos em eletricidade, dirigíveis de ataque, imperialismo das nações, (aparente) monoteísmo mainstream, racismo institucionalizado e estratificação social. Fantasia steampunk cai bem aqui.

A série é centralizada principalmente na cidade do Burgo, capital do país de mesmo nome, que o tempo todo tem ares da Londres vitoriana, com sua arquitetura, costumes sociais, religião, moda vigente e mesmo uma série de assassinatos sanguinolentos. A Carnival Row do título é a zona boêmia da cidade.

O conflito social e racial se dá de algumas formas: a guerra de expansão entre o Burgo e o temível Pacto, outra nação humana mas que pouco vemos, além de se mostrarem temíveis e cruéis inimigos, leva as fadas e outros não-humanos, naturais do continente e das terras que se tornaram o campo de batalha a buscarem refúgio na capital, onde são tratados como cidadãos de segunda classe sujeitos a subempregos ou contratos de servidão, gerando um problema de criminalidade, do tráfico de drogas à prostituição.

Burgo: pseudo-Londres vitoriana muito eficiente...

Como um espelho distorcido de nosso mundo, as referências históricas nossas estão lá: as nações conflitantes são de seres humanos brancos, ou brancos ao comando. No Burgo, há seres humanos negros, embora possam ser encontrados na nata da sociedade: é mencionado que entre brancos e negros já houve conflito e rejeição, mas isto havia sido superado. Afinal, cor de pele parece bobagem, quando existem pessoas com chifres e cascos ou asas para discriminar.

Entra em cena um dito romance proibido entre uma humana de alta classe e tradição e um fauno novo rico: o que não impediu de ser entre uma branca e um negro, pois não há exclusão de papéis nas espécies apresentadas. Este romance, portanto, envolve três conflitos: o social (o fauno novo rico se muda para uma vizinhança de 'gente de bem'), o entre espécies (humano e não-humano) e um que diz mais à nossa realidade do que à apresentada que é o entre etnias.

... de um mundo complexo e instigante.

Outro romance proibido, inter-espécies, esconde, na verdade, outro aspecto da discriminação que é revelado no passar dos episódios, quando o humano da relação descobre que é um meio-fada, e mestiços são desprezados pelos seres humanos.

Cabe notar que conflitos sociais e políticos têm tido maior destaque em tempos recentes, na produção de conteúdo fantástico para a TV/stream, sob a forma de alegorias ou utilizando metáforas mais pontuais. O filme Bright (2017) traz as raças de fantasia para uma Los Angeles atual de alta criminalidade, a mini Years and Years (2019) é 'near future' sobre a ascensão da extrema direita na Inglaterra, entre outros exemplo - e Carnival Row certamente não é exceção.

Ótimos valores de produção.

Um ponto que ainda gostei foi seu worldbuilding: mais do que espécies de vida exóticas e geografia de países imaginários, há uma direta influência no mundo como molda o personagem, define seus ódios e afetos, e pela interpretação dos atores somos levados a crer naquilo tudo - as duas dores de Vignette por sua amada biblioteca, por exemplo. O medo do povo fada diante de toda uma estrutura social que depõe contra eles. Tudo isto está bem conduzido.

Do lado negativo desta primeira temporada, alguns desenvolvimentos pessoais me pareceram apressados demais, provavelmente devido à temporada ter somente 8 episódios: o romance proibido de Imogen e Agreus me soou um pouco rápido para acontecer, assim como a revelação da verdadeira personalidade de Sophie Longerbane, o oposto do sugerido a partir de quando ela nos é apresentada.

No elenco: Professor Moriarty, ao seu dispor.

Do elenco, tudo considerado, todos estão bem, apesar de não exatamente excepcionais: Orlando Bloom e Cara Delevigne como o casal principal que acaba se reconectando após um início turbulento, em alguns pontos me lembrando, bem, Orlando Bloom e Kyra Knightley em Piratas do Caribe: tanto lá quanto cá o personagem de Orlando tem uma origem órfã rodeada de mistérios que leva a uma herança mista e lealdade dividida, enquanto sua contraparte amorosa se mantém virtuosa quanto àquilo e aqueles que ama, arriscando-se não importa o quê; apesar de, em si, tanto Vignette Stonemoss e Elizabeth Swann terem peculiaridades bem distintas, assim como William Turner e Rycroft Philostrate não serem definitivamente a mesma pessoa.

Faixa-bônus: Indira Varma, a eterna Niobe (sra. Lucius Vorenus) de Roma-da-HBO.

É esperar pela segunda temporada.

Recomendo.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Além do Universo



Assisti a Além do Universo (The Beyond, 2017), do diretor estreante Hasraf “HaZ” Dulull, baseado em seu próprio curta de 2014, Project Kronos (trailer deste, aqui). O filme é montado em estilo documentário/found footage, com atuações de entrevistas e imagens sempre como se fossem do arquivo de filmes feitos para alguma outra função, esta de natureza técnica. Cabe ainda a nota de que é um filme independente, com o diretor egresso da área de efeitos visuais.

A história ocorre ainda no Século XXI, a respeito de uma agência espacial de esforço internacional, e quando uma estranha anomalia surge próxima da Terra, gerando uma distorção gravitacional estranha. Descobre-se que é um buraco de verme que leva a um planeta em outro sistema solar, onde contato com alienígenas é travado. Estranhas esferas negras surgem sobre a superfície terrestre gerando medo e uma reação negativa dos países, mas no final, era tudo para a proteção da Humanidade, conforme acaba se revelando. 

O filme mistura diversas referências e influências. A ideia do “alien incognoscível” não é novidade desde 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968), assim como o voo por um túnel cósmico [idem, e ainda Contato (1997) e, mais recentemente, Interestelar (2014)] para encontrar os tais aliens com uma meia mensagem compreensível mas de fundo positivo, além de coisas nem todas explicadas.

Ainda acena para um tema relativamente recente, o transhumanismo, inserindo cérebros vivos em corpos totalmente artificiais, para que se pudesse mandar astronautas através das pressões gravitacionais dentro da anomalia e chegar ao outro lado.

Tudo isso considerado, tive problemas com o final, ao considerá-lo particularmente fantasioso, com a desintegração dos demais planetas do sistema solar e a criação de um gêmeo da Terra “ao nosso lado” – para o que vinha até então se apresentando como uma história inclinada ao hard. s.f., a coisa ficou over, ao meu ver. Ficou no ar – ao menos para mim – os aliens causavam a anomalia que em primeiro lugar trazia problemas para a Terra que eles puderam resolver, ou apenas aproveitaram o bonde, enquanto fenômeno natural? Isso tudo parece que segue as referências cinematográficas acima citadas, procurando também exibir todo um sense of wonder, mas me parece que erraram a mão.

Apesar disso, não deixa de ser interessante e visualmente bem caprichado, embora eu não sinta vontade particular de recomendar. Mas intrigou o bastante para produzir esta resenha.

Uma wiki aqui