Mostrando postagens com marcador TV. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador TV. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Dollhouse

Tipologia desconjuntada: antes de virar clichê em capa de livros, creio: mas aqui, está no tema.

Aviso: sujeito a SPOILERS.

 Dollhouse (2009) foi uma série menos conhecida, das criadas por Joss Whedon. Ele já tinha feito seus mega-sucessos Buffy e Angel, fracassado gloriosamente em Firefly, ainda estava a 3 anos de despontar como nerd god no primeiro filme d'Os Vingadores - e ainda não sabíamos de seu comportamento extremamente problemático em ambiente de trabalho.

A essa altura, Dollhouse é uma série que, para ele, talvez seja melhor continuar a ser esquecida: a premissa é a de uma organização secreta com tecnologia de ponta que, através de lavagem cerebral futurista adormece a personalidade de adultos e cola em seus cérebros quase vazios novas personalidades, com habilidades próprias, ou por vezes um remendão de ambos os conceitos, para o melhor desempenho. Desempenho em...? Pois é. Para o que quer que um cliente que muito bem pague assim precise.

Ou seja, esses 'frankensteins cognitivos' agem como desde médicos, ladrões sofisticados, cantores ou artistas marciais, até escorts ou namorada/os por um fim de semana, para depois serem devolvidos e terem as memórias apagadas - e aqui está o óbvio problema do conceito, desde antes que se mostre a primeira cena de Eliza Dushku na cama com alguém que, em coisa de um ou dois dias, ela jamais irá se lembrar do que, onde e com quem: na Dollhouse, eles não estão em um papel, eles são o papel que lhes é imposto. A presença de bonecOs, além de bonecas, não convence muito, ao meu ver, em caso de uma alegada equiparação: prostituição masculina, via de regra, é muito menos debatida na sociedade do que a feminina (e nem precisamos mencionar prostituição gay).

No final das contas, é uma série não só sobre exploração sexual de pessoas vulneráveis, mas sobretudo, de controle: cabe a leitura de um artigo do Mary Sue sobre como Dollhouse é a visão discriminatória que Whedon tem a respeito de mulheres, debaixo de uma capa de progressismo. Me é difícil discordar.

Do ponto de vista da Ficção Científica, a ideia do espião sem memórias que tem um jeito de compensar com habilidades que jamais teve não é novidade desde, ao menos, O Super Espião. Conceitos similares podem ser vistos em John Doe e mesmo na comédia Chuck (a impressão que tenho é que acabaram derivando do conceito da reunião de talentos geniais com personalidades e backgrounds singulares para uma dada missão, agora é uma espécie de "exército de um homem só" de habilidades múltiplas). 

A ideia de personalidades vestindo corpos que não são seus também é uma noção manjada, mais recentemente vista em Carbono Alterado (livro original de 2003; cuja ideia de estocagem em mídia física de memórias e personalidades reaproveitadas em um corpo posterior aparece em Dollhouse no ep. 1x10). Na recente Severance, a ideia da separação da vida no trabalho da de fora do trabalho é elevada a um novo patamar. A escravização/servidão de seres humanos de maneiras futuristas, vistas em filmes como A Ilha (clones para peças sobressalentes), o que faz lembrar a HQ O Mundo de Krypton (a versão de Byrne & Mignola, 1987-1988), em que clones eram mantidos inconscientes, também como depósitos de peças sobressalentes para seus originais, em caso de necessidade médica - em uma sociedade avançada e hedonista.

... mas não é novidade, mesmo...

Claro que a Dollhouse em si não é, possivelmente, uma organização 'do Bem', mas também não é apenas uma startup de cafetinagem high-tech. Conspirações com motivos sombrios são hit desde, pelo menos, Arquivo X

Os eps tendem a sempre dar um motivo, aleatório ou não, para a programação instalada nos 'Ativos' dar um pifa, especialmente em Echo, a protagonista de Dushku. Apesar da repetição da premissa, isso é uma forma de progredir o próprio plot, especialmente dado o número reduzido de episódios (já faziam 12 por temporada, na época, logo após a greve de roteiristas de '07-'08). 

Cabe dizer que tecnologias inventadas em FC não raro se tornam fonte de episódios inteiros, quando começam a funcionar de maneiras inesperadas, uma vez determinados - para o público, especialmente - os parâmetros sob os quais elas devem operar: ou, deveriam. A franquia de Star Trek tem seu quinhão de problemas com o teletransportador e, claro, o holodeck, para ficarmos em um exemplo manjado - inclusive, um sobre como não usar este tipo de artifício. 

Em Dollhouse, o imprevisto é sobre a capacidade de absorver e esquecer as memórias e personalidades implantadas, além de variações que não necessariamente os personagens desenvolvedores não conhecem, o que é válido, já que a tecnologia é inteiramente nova: e brincar sobre variações imprevisíveis de uma tecnologia inexistente não é novidade desde Isaac Asimov e suas 3 Leis da Robótica.

A primeira temporada serve para então apresentar os personagens, a trama, a tecnologia de impressão mental e seus imprevistos, episódio por episódio, sendo os imprevistos parte da fórmula do 'caso/monstro da semana', como em tantas outras séries. O finale quebra com o formato, jogando a trama 10 anos no futuro, no distante ano de 2019 (pois é...) e o elenco quase só com outros personagens, apenas para o episódio. Muita coisa deu errado até então, com a sociedade reduzida a escombros, uma vez que aquela tecnologia desenvolvida para a Dollhouse saiu do controle (eis uma cronologia do universo da série).

E tome de causar impressões...

A segunda temporada começa no tempo normal, com Echo/Caroline (Dushku) ciente de cada impressão de personalidade que ela já recebeu (após eventos perto do fim da temporada passada), após passar a 1a. temporada dando indícios que ela se esquecia cada vez menos dos ocorridos de suas identidades temporárias. 

Os personagens ao redor ganham mais espaço para serem desenvolvidos, mostrando lados mais humanos do que como foram estabelecidos na primeira, e o alvo é a matriz da conspiração, a corporação Rossum (uma referência assumida), por trás das Dollhouses. Goste ou não, há algumas reviravoltas aqui, é bom se preparar. Os cenários se diversificam mais, de situações ou localidades (a Dollhouse de Washington aparece, e os planos para a futura 23a. em Dubai são parte de uma trama): destaque para o episódio 2x10, "The Attic", onde finalmente tão citado e temido "Sótão" da casa é mostrado, sendo uma espécie de 'The Matrix' mas feito da maneira certa, e que ainda remete ao final da 1a. temporada.

Os dilemas apresentados ganham vários contornos, dentro das limitações de tempo por episódio/temporada: mas para o final da segunda (que se firma com o finale da primeira), temos a discussão sobre quem teria mais direitos de se ser: uma personalidade original, ou outra desenvolvida com o tempo, após passar pelas remodelagens impressas - algo nem tão diferente de Douglas Quaid de O Vingador do Futuro (1990).

Problemas no deck de voo da Galáctica...

Múltiplas interpretações pelo mesmo ator ou atriz sempre são divertidos de ver, e se o trabalho é bom, de se admirar, apostando na versatilidade de suas atuações. Os exemplos são vários, mas só pra citar dois de cabeça, Eddie Murphy vira e mexe faz isso em um de seus filmes, e Tatiana Maslany impressionou muito bem em Orphan Black. O elenco de 'Ativos' tem a oportunidade de fazer isto várias vezes e, francamente, achei divertido comparar. Falando no elenco, vários rostos com quem Whedon trabalha surgem, além de outros conhecidos, especialmente se você assistia séries da Fox daquele período.


Rostos whedonianos se reencontrando.

Conclusões finais? A série merecia mais. Merecia mais tempo para desenrolar e deixar um pouco mais claro os desenvolvimentos da tecnologia de impressão de personalidades, assim como toda a trama em si. Merecia ter seus atores com melhor disposição para trabalhar o alcance de papeis, por exemplo. Merecia, também, um pensar mais cuidadoso quanto às questões acima colocadas - em 2009 certos simancóis talvez já devessem estar melhor tomados.

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Entrevista com o Vampiro (2022)

Para assistir sem medo!

AVISO: SPOILERS ABAIXO

Adaptações sempre são uma aposta. Algumas dão certo, outras é melhor nem lembrar. Havendo começado com o óbvio, Entrevista com o Vampiro foi a melhor série em se tratando de natureza fantástica que assisti esse ano - e isso contando com Silo (resenha aqui), Extrapolations e For All Mankind.

Dá a impressão que tudo aquilo que deu errado com Anéis de Poder se acertou aqui: e houve mudanças arriscadas, as mais óbvias sendo tanto a mudança étnica de Louis quanto atualizar a série, tanto no passado - que agora começa em 1910 - e com a segunda entrevista, que é hoje em dia: a entrevista original de Daniel com Louis está no passado de ambos os personagens, ocorrida no final dos anos 70 e que acabou de maneira, huh, conflituosa: em uma cobertura da moderna Dubai, Daniel comparece a  um convite de Louis, para retomarem a conversa interrompida décadas antes, e assim esclarecem diversos pontos que a entrevista original omitiu, transferindo a ação para a Nova Orleans de 1910 a 1930.

A vantagem de se ter uma adaptação para a televisão, em vez de um filme, é que não temos que correr com o prazo apertado de cerca de duas horas somente do filme: esparramados em diversos episódios de 40 ou 50 minutos, há tempo para as minúcias acontecerem e, se cultivadas de modo certo, reforçam aspectos centrais da trama, personagens e o mundo: a relação do triângulo Lestat-Louis-Claudia é demonstrada e desenvolvida em toda sua doença. Da mesma maneira, as décadas se passando mostram a mudança de costumes, porém a permanência das questões raciais.

A perfeita família disfuncional.

O elenco está simplesmente incrível: o casa de protagonistas exibe, como tanto foi notado, uma química excelente. Nesse aspecto, é uma adaptação bem fiel: no fim das contas, temos a visão do que aconteceu de Louis, e Lestat é - inevitável porém inegavelmente - mantido como o monstro misterioso, criador e destruidor, incapaz de remorso e agindo sempre sob interesses próprios. O Lestat de Sam Reid entrega exatamente isso, o tom de ameaça sempre a cada instante que surge, o lado brincalhão que sempre sublinhou a crueldade acrescentam personalidade junto do amor que sente por Louis - na versão, claro, de Lestat do que seja o assunto. Mas mesmo o boneco insensível que dá a impressão ser Lestat consegue-se aqui gerar um mínimo de empatia, ao citar sua origem e seu relacionamento com o vampiro que lhe criou: e que, mesmo apesar daquele terror, a ideia de abandono o aterroriza, o que ele acaba levando adiante.

A faixa do amanhecer, a fresta do caixão que abre, a mordida vampiresca: abertura sensacional de várias leituras.

Jacob Anderson, (conhecido do fandom como o Grey Worm de Game of Thrones) no papel do 'vampiro humanizado', vítima de seu criador, tem muito mais tempo para desenvolver Louis, ainda levando em conta suas origens mortais como um homem preto da Nova Orleans de 1910. com uma família que consegue enriquecer e ter uma boa posição social - tudo considerado... - mas que com que desenvolve uma relação cada vez mais conflituosa (não bastasse desaprovarem sua linha de trabalho), especialmente após o envolvimento com Lestat: a perda dos vínculos de afeto e sociais, que nos ajudam com nossa própria humanidade, são muito bem desenrolados aqui.

Bailey Bass, com apenas nove créditos como atriz segundo o IMDB, dá toda uma nova dimensão para Claudia, essa é uma atriz para prestarmos atenção quando seu nome aparecer. A personagem aqui mudou, inclusive, de idade - de novo: a Claudia original dos romances era ainda mais jovem do que a Claudia de Kirsten Dunst -, e a percepção de ser uma recém-adolescente eternamente pode ter uma realidade material ainda maior do que a percepção de ser uma criança eternamente, levando uma dose de drama. E é ela que será a grande fonte de oposição a Lestat, primeiro com seus desvarios encantada com sua nova condição, depois em frio cálculo e planejamento: novamente, tudo isso com a vantagem de se ter diversos episódios, em vez de somente duas horas de filme.

Psycho-cutie-cutie dos papais.

Agora, é Eric Bogosian com seu Daniel  Molloy velho, doente, sobrevivente do encontro original, um jornalista que acumula décadas de cinismo e acidez, e que não sabe quando parar - e não é de hoje - que contestamos quem é o protagonista aqui. As perguntas de Daniel, assim como suas colocações, não raro deixando que o trauma e o ressentimento de quarenta anos antes as guie, ajuda a guiar as memórias e a história que Louis conta - mesmo para o desgosto do próprio, por vezes. 

No fim das contas, Entrevista com o Vampiro é uma linda passagem de tocha, entre gerações, das adaptações de uma mesma obra importante para o terror, e que a própria autora elogiava: me deu a impressão que, algumas coisas, talvez ela tivesse querido ter escrito pessoalmente, lá atrás...

Esta série faz parte do mesmo universo onde se passa As Bruxas Mayfair de Anne Rice, de outra série de livro da autora. A ideia é uma mesma cronologia... espero que dê certo. Ambas as séries estão ainda apenas com sua primeira temporada.

Que venha a segunda!

sábado, 19 de agosto de 2023

Silo

Silo: a verdade virá à tona - e alguns outros tantos mistérios também...

AVISO: SPOILERS A SEGUIR

Silo (2023) se passa em um período pós-apocalíptico, onde dez mil seres humanos nascem, crescem e morrem dentro de um bunker subterrâneo de 144 pavimentos, com medo do que ocorre na superfície. Eles sobrevivem em uma sociedade estável, por pelo menos 140 anos após um cataclismo, embora não saibam muito mais além disso: uma facção revoltosa no passado arruinou seus registros computadorizados, e ninguém se lembra mais como tudo aconteceu antes - "e a tradição oral?" pode ser uma pergunta válida, mas sem tantos spoilers assim.

A construção do cenário é bem explorada, com uma sociedade focada em cada um fazer o seu trabalho, em um ambiente confinado. Podia ser a bordo de uma nave ou veículo de gerações, como em O Expresso do AmanhãAscension ou algumas outras, embora a referência pop mais direta hoje em dia seja a série de games Fallout, onde personagens despertam de um sono induzido após o mundo entrar em uma guerra nuclear nos anos 50. Outras referências ceeertamente incluem 1984, onde o Grande Irmão nunca deixa de velar pelo povo, embora este, aqui, não tenha a menor ideia do que está acontecendo. Ainda, a ideia de uma sociedade confinada com medo - especialmente o injustificado - do que ocorre lá fora é antiga, de saída lembrando Fuga no Século XXIII e, claro, THX 1138. Podemos também nos lembrar de Zion, o último bastião da Humanidade, na franquia The Matrix.

Logo se vê uma conspiração envolvendo assassinatos, que é o que move a protagonista, que quanto mais cava, mais se aprende sobre os detalhes da sociedade, tanto os às claras quanto os sombrios. É uma trama sobre o apagamento sistemático do passado, em prol da segurança presente - e de interesses não necessariamente justificados para todos. O controle da informação sobre o passado é pivotal na trama, o que leva a um diálogo com obras da FC como o já referido 1984, mas também, pelo pós-apocalíptico da coisa, com Um Cântico para Leibowitz e mesmo Fundação.

Bom trailer!

O Silo, como assim é chamado, tem seus diversos pavimentos conectados sobretudo por um grande eixo central, ao redor do qual há uma rampa helicoidal, e as passarelas de acesso. Tudo é cinza meio esverdeado, salientando o cimento que vivem. Na base, há os engenheiros e mecânicos que mantêm 24 horas por dia o maquinário necessário funcionando, em geral se considerando meio esquecidos pelos demais níveis. Não há veículos, no máximo porters, mensageiros que vivem indo pra cima e pra baixo levando desde mensagens a alguma pequena carga. A tecnologia é similar à nossa, mas com um quê mais atrasado, justificável em uma sociedade que dirige todos os esforços em se manter funcional. À vista e escondido de todos, um poder Judiciário controla tudo ajuda a manter a ordem na casa: relíquias do mundo pré-apocalipse são objeto de visitas desagradáveis da lei em sua casa - e por elas, percebemos que o que acabou com a civilização não parece estar tão longe de nossa época.

Em cada nível há uma cantina comunitária, onde um amplo monitor panorâmico transmite, 24 horas por dia, uma mesma imagem, advinda da única câmera montada no exterior, sobre a saída do lugar. A saída do Silo, aliás, é garantida a qualquer um que se manifeste com uma frase como "eu quero ir lá fora" - mas uma vez proferida, não há desistência possível. O sistema criminal americano é lembrado aqui, com toda uma cerimônia de preparar um traje de sobrevivência, como quem arma uma cadeira elétrica ou câmera de gás, assim como o cargo de xerife, e a tropa de choque da polícia. Outra característica que permeia por alguns diálogos é a mítica dos 'Pais Fundadores' dos EUA, no caso, do Silo, que 'sabiam do que faziam', mesmo quando deixavam todo mundo sem resposta para algumas tantas perguntas.

Visualidades e ecos inevitáveis: O Planeta Proibido, O Túmel do Tempo...

O que leva a uma questão: onde ficaria o tal Silo? Uma única ideia, nesta temporada, é oferecida pela observação anual de um personagem secundário, que detecta uma formação de estrelas, à noite - cuja natureza os habitantes do Silo também desconhecem -, em forma de um W meio torto, que ele percebeu que nunca desaparece e reaparece sob o horizonte ao longo do ano. O dábliu sendo, pra conhece, a constelação do céu setentrional de Cassiopéia. E se ela é perene, ou seja, nunca se põe, está a (pelo menos) 34o. de latitude norte. Fuçando na internet, é uma latitude que passa por Los Angeles, e além da Califórnia, pelos estados de Arizona, Novo México, Texas, Oklahoma, Arkansas, Mississipi, Alabama, Geórgia e ambas as Carolinas: escolha um.

Da data dos eventos, é incerto se a série seguirá os livros, que se passam em períodos diferentes. O primeiro livro é vago sobre o assunto, o mais recente dá o ano de 2.345.

A protagonista da história é levada por Rebecca Ferguson (a Lady Jessica no novo Duna), ainda constando Tim Robbins. O elenco manda muitíssimo bem em seus personagens, com seus próprios problemas e segredos, ajudando a tocar a trama em um ótimo andamento, até um final de temporada bem surpreendente: se isso lembra a vocês de decepções como Lost, compreensível. Mas me parece que aprendeu as lições do que não fazer. A princípio, já que encerra a temporada em... grande estilo, digamos.

Sir Friendzone, ainda suspirando pela aprovação duma lourinha...

A apresentação é particularmente estilosa, aproveitando a coluna central do Silo, ao redor da qual desce uma rampa e acessos por seus cem níveis, e tece comparações com uma colônia de cupins, a espiral do ADN, coluna vertebral, etc.

Silo é uma adaptação de um universo ficcional criado por Hugh C. Howey, que já rendeu escritos e uma graphic novel. Aliás, fandom wiki aqui.

Pela Apple TV+, eu espero que haja uma segunda temporada.

terça-feira, 4 de julho de 2023

Filmografia das ExoMigrações

Disclaimer: SPOILERS a seguir.

A ideia de naves espaciais levando tripulantes inertes, sob alguma forma de animação suspensa, através de décadas ou séculos até um outro sistema estelar - devido à impossibilidade do voo mais veloz do que a luz - data pelo menos de Far Centaurus (1944), conto de A. E. Van Vogt, em que o autor aproveita e dá também a solução de "e no meio do caminho, enquanto dormiam, o voo FTL é descoberto e quando chegam ta-daaa já tá tudo habitado". O destino era a estrela mais próxima depois do Sol, o sistema triplo de Alfa Centauri (Alfa Centauri A, B e C - esta última é tbm conhecida por Proxima Centauri).

Há uma certa solenidade no conceito, pois envolve um respeito e temor pelas forças da Natureza, e da vastidão de um cosmos letal e indiferente, ao mesmo tempo em que coragem face a um provável sacrifício de suas próprias vidas são valorizados: o conceito do "martírio pela Ciência" data da virada para o século XX e nunca desapareceu por completo.

Uma variação do tema é a nave geracional, em que se não se preserva os tripulantes pois tal tecnologia é impossível ou ineficiente, mas supõe-se que eles vivam, tenham filhos e faleçam em tempo de voo, até que futuramente se chegue ao destino (um planeta habitável, via de regra). Teóricos da Astronáutica como Robert Goddard, J. D. Bernal e Konstantin Tsiolkovsky já propunham isso lá pelos 1920s.

Não é à toa que se denomina esse tipo de nave, em geral, como "arca": para a nossa cultura ocidental, a referência óbvia é a bíblica, em que na Arca de Noé a esperança de sobrevivência dos últimos humanos (e das espécies animais) persistiam após a destruição do mundo anterior. Outros povos ao redor do mundo apresentam histórias semelhantes em seus imaginários, como Deucalião e Pirra dos antigos gregos. 

Tem uma bela lista do Goodreads onde várias obras literárias do subgênero são apresentadas, incluindo-se aí Encontro com Rama, de Arthur C. Clarke (1973), Aurora (1980), de Kim Stanley Robinson e Herdeiros do Tempo (2015), de Adrian Tchaikovsky.

Abaixo, alguns exemplos nas telas.

Originalmente, a missão a bordo da Júpiter II de Perdidos no Espaço (1965-1968) incluia sua tripulação em animação suspensa, até o ato de sabotagem do Dr. Smith. Ambas as séries, a original e a de 2018, têm Alfa Centauri como seu destino, embora o filme (1998) se refira a um planeta chamado Alpha Prime - seja onde lá isso for. Tal recurso não foi adotado mais, entre as viagens nos episódios para o planeta da semana.

A nave Júpiter 2 original.

Semente do Espaço (1x22) é um dos mais famosos episódios da Star Trek original, pois apresenta o vilão Khan Noonian Singh, que vinte anos depois volta em Jornada nas Estrelas II - A Ira de Khan (1982), assim sedimentando a ideia de continuidade em um show que prima em ser episódico, dado o formato de época. Após terem sido derrotados nas Guerras Eugênicas dos anos 1990s, Khan e os seus são julgados e exilados em uma nave sem capacidade FTL, sendo mantidos em animação suspensa - até serem encontrados pela tripulação da USS Enterprise.

A Enterprise e a Botany Bay: não uma, mas duas naus de insensatos...

O Mundo Infinito (3x08, 1968) é outro episódio da série clássica, em que os habitantes de Yonada, um asteroide oco, já se esqueceram até mesmo que estão em um lar provisório, com sua jornada havendo  começado com seus antepassados milênios antes.

A Enterprise e o asteroide-mundo Yonada.

A Estrela Perdida (1973) no Brasil, Starlost foi uma série de curta duração, com base em história de Harlan Ellison e com a atuação de Keir Dulea, o Dave Bowman de 2001 - Uma Odisseia no Espaço. Nela, a nave Ark, de (fontes divergem, mas são muitos quilômetros) de comprimento, carrega diversos ambientes estanques em uma longa viagem interestelar (fontes divergem, mas por muitos) séculos, mas está em curso de colisão com uma estrela. Cabe os personagens trafegar entre os diferentes ambientes (onde, via de regra, seus ocupantes também se esqueceram de suas origens), um por episódio, até o comando para tentar consertar a coisa. Após uma temporada, entretanto, a série foi cancelada sem que houvesse uma solução ao dilema central.

Earthship Ark: vagando incerta até hoje.

Wall-E (2008) conta a história em uma Terra arruinada ecologicamente pelo consumismo exacerbado, deixada sob os cuidados de robôs lixeiros enquanto ela volta a se tornar habitável, e que o que restou da Humanidade nasce, vive e morre a bordo dos Starliners da corporação BNL: aqui, a história se passa a bordo da Axiom, em que todo o dia é uma mistura de country club com shopping center, e seus moradores mantidos em ignorância e consumismo, conforme o desejo do verdadeiro comandante da nave, que não deseja voltar à Terra. Uma sociedade mantida estável, na ignorância e pelo consumo de bens materiais não é novidade na FC: adicione drogas e teremos, pelo menos, Admirável Mundo Novo (1932).

 

Axiom: a distopia simpática.

Pandorum (2009) apresenta a tragédia da Elysium, que parte com 60.000 almas para colonizar um mundo em uma viagem de 123 anos, pondo todos em hibernação. Mas quando alguns dos colonos despertam, descobrem haver toda uma nova situação a bordo, com mutantes canibais descendentes de quem devia estar dormindo tocando o terror. O filme foi muito mal na bilheteria, o que interrompeu suas pretensões de ser uma trilogia.

Elysium: mais para Hades.

Ascension (2014) envolve o Projeto Órion, uma estimativa do governo americano para lançar uma nave que pudesse alcançar até 10% da velocidade da luz, utilizando como propulsão sucessivas detonações nucleares à popa do veículo, protegido por um escudo resistente. O projeto foi proposto ainda nos anos 60 e, na vida real, engavetado: esta minissérie propõe que ele não somente foi construído como lançado secretamente, com a trama se desenrolando tanto lá quanto cá, em clima de conspiração. A bordo, ainda é uma espécie de sociedade americana dos anos 60, com moda e visual congelados no tempo, já na terceira geração - além de problemas, conspirações e estranhezas ocorrendo a bordo. 

Ascension: nem tudo é o que parece ser...

Passageiros (2016) investe no drama pessoal de um solitário colono que, por defeito de sua unidade de criogenia, desperta antes da chegada, o que ocorrerá apenas em 90 anos. Sem a possibilidade de entrar novamente em animação suspensa, ele percorre os amplos salões e corredores da Avalon e resolve despertar outra passageira, por quem passa a nutrir sentimentos, possivelmente a condenando a um destino semelhante ao dele.

Esquemas da Avalon.

Smile (10x02, 2017) é um episódio de Doctor Who onde a ação transcorre em uma colônia extrassolar (é dito ser Gliese 581d, off-screen) com uma nave de hibernação já havendo aterrissado, a Erewhon.

Se as Estrelas aparecessem (1x04, 2017) é um episódio da série The Orville, inspirada em Star Trek. Apesar do clima de paródia que permeia a série, ela consegue por diversas vezes ser extremamente fiel ao material original. Neste episódio, de forma semelhante a O Mundo Infinito, descrito acima, uma arca transporta seus habitantes há tanto tempo que eles já se esqueceram de suas origens: no caso, uma viagem para colonizar outro planeta se torna uma jornada de 2.000 anos, após uma tempestade iônica danificar o controle de voo, levando ao esquecimento e regresso da tecnologia e civilização.

A gigantesca bionave: perdidinha ali no meio, creiam, está a Orville.

The Ark (2023) é uma série que conta sobre uma malograda expedição a Próxima Centauri b, cujos futuros colonos são despertados de sua criogenia porque sua nave está caindo aos pedaços, e ninguém sabe direito o motivo. O elenco, como já é moda há algum tempo, constitui-se de desconhecidos entre si com diversas origens, capacidades - e motivações - que não exatamente gostam uns dos outros, mas precisam trabalhar juntos para sobreviverem a um desastre

Ark 1, onde problemas não faltam.

Das amostras acima, interessante ver alguns flertes com hard science-fiction, antes de sucumbirem às necessidades do drama, alguns erros conceituais e franco não-tô-nem-aí.

Nos onze casos acima, cinco adotaram destinos cientificamente embasados (seis, se contarmos o da Axiom). O sistema tríplice de Alfa Centauri foi lembrado quatro vezes: Perdidos no Espaço original e de 2108, Ascension e Ark 1. É normal que Alfa Centauri tenha uma boa presença em nosso imaginário: é o sistema estelar mais próximo do nosso, distando a 4,3 anos-luz: uma lonjura desgraçada que, ao mesmo tempo, é um "logo ali" em distâncias astronômicas. Com a confirmação de planetas ao redor de Proxima Centauri (Alfa Centauri A e B, mais semelhantes ao nosso Sol, não estão apresentando evidência até agora), é normal que a ficção científica renove o interesse ultimamente - especialmente com Proxima Centauri b, orbitando na distância certa de sua estrela para ter água em estado líquido em sua superfície, se lá houver. Já Gliese 581d, no episódio de Doctor Who, orbita uma estrela a 20,4 anos-luz de nós, com sua posição aparente próxima à de Beta de Libra.

Passageiros cita um mundo-alvo apenas chamado Homestead II, em uma viagem que durará 120 anos, e o filme de Perdidos no Espaço menciona o tal Alpha Prime. O destino foi esquecido ou não era importante nos demais casos. 

As viagens retratadas levando aproximadamente 5 a 6 anos (Ark 1, na 1a. temporada), 50 anos (Ascension), 120 anos (Avalon), 123 anos (Elysium) 270 anos (Botany Bay), 405 anos (Earthship Ark), 750 anos (Axiom), 2.000 anos (bionave), 10.000 anos (Yonada) e três temporadas (Júpiter II).

Alguns dos motivos para os êxodos são semelhantes: a falência do ecossistema lança a flotilha com Earthship Ark, Júpiter II (1998), Axiom, Elysium e Ark 1; a superpopulação global lança o Júpiter II original, enquanto um evento de impacto na Terra motiva a partida dos expedicionários no Perdidos do Espaço de 2018; pelo ensejo por colonização em outro sistema estelar decola a bionave em The Orville; a explosão da estrela natal em nova lança o asteroide Yonadu, e uma sentença penal encarrega a Botany Bay de levar Khan e seus asseclas para sabe-se lá para onde.

Dos veículos retratados, além da barreira da velocidade da luz (mesmo se o universo ficcional permitir), algo que que se pretende que dê peso (piscadinha, piscadinha) ao cenário é a gravidade induzida por setores rotatórios, como em The Ark e Passageiros. Ascension parte (mais ou menos) do princípio de que a nave tem alguma aceleração para explicar sua gravidade a bordo. Semelhantemente, nas séries Babylon 5 e The Expanse temos uma aplicação mais cuidadosa disto, assim como as necessidades da inércia sempre que possível: o problema primeiro é que, via de regra, gente flutuando significa encarecer a produção. Em segundo, levar em conta a inércia significa ações calmas e leeentas - assim como em 2001 e alguns filmes inspirados por ele ao longo dos anos 70 -, o que pra fins de drama não interessa a (quase) ninguém. Acaba sendo um equilíbrio nem sempre fácil de se obter entre ambas as necessidades, ao se fazer esse tipo de história.

Proxima b: from 'eyeball planet' to full Alderaan...

No final, o que sobra é a solenidade mencionada, e que na curta experiência humana, podemos relacionar somente com o período das Grandes Navegações que, independente de seus motivos e consequências, inspira até hoje se imaginamos a ousadia e engenhosidade do enfrentamento do mar aberto, ambiente eminentemente hostil, por quem somente dispunha de navios à vela e nenhuma possibilidade de navegação eletrônica, muito menos de comunicação com terra. Quando a ficção científica se estabelece, ao pensar no futuro da exploração espacial, inevitavelmente vai atrás das referências históricas e, como tal, traça paralelos com os 1400s-1600s.

Como será que faremos isso, na real? Só estando lá para saber. Tecnologia, ciência e sociedade às vezes dão saltos ou tomam caminhos inesperados de qualquer projeção que façamos: e ficção científica inevitavelmente reflete o agora.

Mas eu gostaria de estar lá para ver.

quarta-feira, 21 de junho de 2023

Operação Resgate feelings...

(originalmente pus isto no twitter...)

Pura nostalgia. O início dum episódio com a abertura aqui.

Sob o risco de nos tornarmos a nação de agora 200 milhões de engenheiros navais; a ideia do submarino feito no easy mode lembra muito uma série nozoitenta chamada Operação Resgate, em que um sucateiro monta uma nave espacial pra ir à Lua. Puro suco de sonho americano, e com o devido perdão à criança que eu era, é dos casos que ficção científica envelhece mal (isso, quando não envelhece rápido), embora no quesito 'a opinião do zé mané vale tanto quanto a do especialista', a atualidade de Avenue 5 seja matadora - conforme aliás em post do outro dia.

Ah, esses sucateiros americanos incorrigíveis... 

Dentro dos meus achismos e pitacos; me parece que há uma espécie de linha de código de pensamento e comportamento ao longo aí duns 3000 anos  que permeia o pensamento ocidental, que vem da Grécia Antiga e é salientado hj em dia no pós-calvinismo neoliberal do self-made fucker.

Zilionários sendo, claro, o epítome (gostaram?) desse pensamento: Deus gosta de você por você ter/fazer dinheiro (Calvinismo em resumo), todos querem ter pelo menos um pouco da boa vida que têm (protagonismo no imaginário) e eles têm a faca e o queijo na mão para deixar sua marca na posteridade (gregos antigos) - nem que seja a da tragédia (gregos antigos again), como no caso. 

Mas noção de que eles também sejam fruto de um contexto maior e ameaçadoramente anonimalizante, ninguém quer nem ouvir: há mais de um tipo de vencedor para contar a História, afinal. Ninguém liga para as massas. É das massas que queremos, nós, os pós-gregos, nos excluir e destacar. E quanto a números...

Não há rostos discerníveis em meio à massa, mesmo na tragédia.

... a tendência é que eles anestesiem.



sábado, 17 de junho de 2023

Para uma Cinematografia do Retardo das Massas, ou: o Apocalipse Cognitivo será Televisionado

 Comecei essa postagem em 2021, logo após ter assistido Não Olhe para Cima, e vi que já havia exemplares que justificavam uma comparação. Mas acabei me esquecendo de concluir, e meio que perdi o timing do lançamento do filme. A situação política - ainda bem - minimamente voltou a um QI positivo (espero), mas... fica pelo registro. 

Dependendo, posso vir a adicionar mais entradas aqui, a futuro.

***

Don't Look Up - Altas Aventuras de Impacto Profundo no Armageddon.

Não Olhe para Cima (Netflix, 2021), quase encerrando o ano, enquanto começo a digitar este texto, conseguiu chamar a atenção nos dias que passam, por suas provocações, elenco estelar, e - como vem andando o mundo - pela capacidade de polarizar entre quem o ama e quem o odeia - note-se ainda, surpreendentemente, que a orientação ideológica ou partidária não é garantia deste posicionamento, ainda que certas carapuças certamente estejam descendo até os tornozelos. E não é à toa.

Quando começou a ser planejado, a ideia era contrastar o negacionismo científico a respeito da mudança do clima - longa e gradativa - com a da vinda de um cometa em curso de colisão com a Terra dentro de seis meses, em um evento resultante similar ao da extinção dos dinossauros, obliterando o ecossistema. Porém, ao longo da produção, veio a pandemia, e a ideia serviu para ambos os casos: na verdade, serve para qualquer caso onde os fatos e suas averiguações científicas - já incluído a verificação por outros cientistas - são tratados com o mesmo peso e descaso da opinião tanto do zé mané da esquina quanto da conveniência política do demagogo eleito da vez e interesse financeiro de uma elite econômica predatória.

A administração Trump (destaque para Meryl Streep), com seus tipos vulgares, obcecados por imagem na mídia e, pior de tudo: completamente inadequados para qualquer cargo que ocupavam; além da submissão aos interesses que financiaram suas campanhas eleitorais, fora campanhas sujas envolvendo fake news e factoides sempre que uma nova inconveniência surgia. Nova prova de universalidade do filme, pois tudo isso poderia ser um retrato dos EUA hoje em dia, não fosse a terrível sensação de familiaridade muito, mas muito mais próxima de nós aqui, no Brasil.

Ao mesmo tempo, lembram quando filme-de-meteoro (MeteoroImpacto ProfundoArmageddon) implicava em governos e sociedade sossegarem o facho e trabalharem juntos em um esforço focado para se livrar da ameaça de aniquilação total? Pois é: esqueçam. Agora que aquelas peculiares teorias da conspiração viraram mainstream (imagino que, inclusive, graças à 'aceitação e normalização' da figura do nerd, que também virou um mercado cobiçado), tudo é relativizável, todas as opiniões passaram a ter o peso de estudos feitos e revistos por especialistas. 

E aquilo que desagrade é simplesmente desconsiderado - assim como cientistas despedidos por não concordarem com a 'linha do Partido', ou melhor, a 'linha da Companhia', contestando a forma que a já citada elite empresarial resolveu que queria lucrar. Em geral no papel da Cassandra do mito grego em filmes assim, o cientista agora não somente ninguém dá bola, mas também é ameaçado no emprego.

No filme, essa elite, incorporada na figura de um 'Elon Jobs' da vida, é tão predatória que dado momento decide sacrificar uma missão que poderia potencialmente salvar o mundo após descobrir que o astro se aproximando contém trilhões de dólares em metais comercialmente estratégicos, lançando uma segunda missão que fragmentaria o cometa mas não o destruiria: pondo ainda assim em risco a vida sobre a Terra. 

Tal decisão entra no mecanismo de polarização da sociedade, com pessoas dispostas a arriscar tudo porque 'o cometa gerará empregos'. 

Mas não é a primeira vez em que crítica ácida em comédia às custas do que é o próprio público médio - ei, claaaro que não a você, mas aos outros, aos outros... - é feita.

Space Force (Netflix, 2020) tem semelhanças com Não Olhe Para Cima, havendo se iniciado durante o governo Trump, contra o qual não faltam farpas, em termos de irracionalidade e jequice apresentadas. Para a segunda temporada (2022), havendo mudado a administração americana para algo minimamente racional, talvez exatamente por isso certo tom de crítica arrefeceu, e a série se tornou mais um programa sobre colegas disfuncionais de trabalho que acabam tendo uns nos outros uma espécie de família: meio que um The Office orientado ao espaço, não à toa com o mesmo Steve Carell,  Um ótimo preço a ser pago, tudo considerado...

Avenue 5 (Amazon, 2020) coloca a opinião do zé mané, especialmente a do zé mané com dinheiro, no real valor que ela tem, quando o assunto é ciência. O Avenue 5 do título é o nome de uma nave espacial de turismo, dando uma volta interplanetária em nosso sistema solar, e que acaba ficando sem controle. O reduzido staff técnico do cruzeiro tem que lidar com o "bom senso" prevalecente de bordo, dos passageiros e do patrão, que difere da maioria apenas por ter mais dinheiro - de saída, o atraso entre as comunicações nave-Terra devido à enorme distância lhe é um incômodo, não resolvido apenas porque ninguém está sendo criativo ou propositivo o suficiente. O episódio 8 é particularmente enervante, em que por votação querem abandonar a nave, apostando que nunca saíram da Terra.

Idiocracy (2006) talvez seja o marco moderno dessa cinematografia, tendo um olho na sociedade contemporânea de consumo, da época da Internet. Do mesmo Mike Judge que nos deu O Rei do Pedaço e, claro, Beavis e Butthead (1993-2011), com seu olho para a mediocridade humana fez de Idiocracy um filme tido como de, desnecessariamente exagerado em sua época a, simplesmente, profético. Meu medo é que, nesse ritmo, algum dia passe a ser desatualizado e mesmo otimista. Mas, que a cafonice de mau gosto da presidência Camacho e sua associação com a mídia e cultura pop lembram os tempos obsessivos com o assunto de Trump e, por tabela, a da presidenta Orlean: sem dúvida. 


Com a palavra, o excelentíssimo senhor presidente Dwayne Elizondo Mountain Dew Herbert Camacho. 

Os Simpsons (1989- ) Essa lista, claro, não poderia ficar sem eles. Não obstante os personagens principais e recorrentes já terem um viés simplório da dita típica família americana, o common sense das multidões é alvo dos roteiristas com alguma rotina.

"Nós continuaremos tentando fortalecer a família americana. Para fazer com que elas se pareçam mais com Os Waltons e menos com Os Simpsons." - sim, este senhor mandou essa na convenção nacional do Partido Republicano, 1992.

A Vida de Brian (1979), do grupo britânico Monty Python, mira na cegueira religiosa defendida como fé, ou em nome dela. O Brian do título nasce na mesma noite e na manjedoura ao lado da de Jesus Cristo, e com ele por vezes é confundido ao longo da vida. Seus idealizadores pretenderam que fosse um filme a respeito da estupidez pela cegueira religiosa.

Network - Rede de Intrigas (1976) conta sobre manipulação de índices de audiência através de um apresentador de jornal que apenas diz, ao vivo, que vai se matar, depois que sabe será demitido em breve. A ideia é como manter o interesse do público no auge, enquanto se dá voz a alguém precisando de tratamento. O protagonista passa a dizer o que o "cidadão médio sente" e com o que se indigna, antecipando (?) o demagogo moderno, e sendo contemporâneo de um tipo de midiático como Howard Stern, que inicia sua carreira como locutor em 1976 ainda em uma rádio universitária e que acrescenta baixaria sem culpa ao repertório.

Doutor Fantástico (1964), clássico de Stanley Kubrick, talvez fuja um pouco da ideia dessa postagem, uma vez que é focado no idiota no poder - o idiota com o gatilho da bomba atômica, capaz de começar o fim do mundo. Mas fica como referência e, temo, um conto cautelar imorredouro...

sábado, 1 de agosto de 2020

Expresso do Amanhã

Série Expresso do Amanhã estreará mais cedo que o esperado - POPSFERA
Snowpiercer: tecnologia futurista, calamidade presente, questões antigas.

Aviso: spoilers abaixo.

Le Transperceneige é uma obra que já alcançou mídias diferentes: as originais em quadrinhos, o filme com Chris Evans em 2013 e uma série nova na Netflix, agora em 2020. No Brasil, as três primeiras HQs (de 1982, 1999 e 2000) são encontradas em um só volume pela editora Aleph, O Perfuraneve. O quadrinho original foi criado por Jacques Lob (roteiro) e Jean-Marc Rochette (desenhos), e as demais publicações contaram com outros roteiristas.

O cenário é sobre quando o mundo entra em um período repentino de glaciação e os sobreviventes da Humanidade estão presos em uma composição de trem de mil vagões, rodando ano após anos por um circuito operacionais de linhas de trem. Não há para onde ir, apenas seguir. Todos lá fora morreram, as cidades são mausoléus brancos e congelados. O trem é uma maravilha da engenharia que, indica o nome, supera qualquer amontoamento de neve que bloqueie o circuito.

E a história é sobre como, dentro do trem, acontece uma representação da luta de classes, entre muitos que têm pouco e poucos que têm muito - e que nem no fim do mundo isso, dado a chance, mudará.

A ideia de sobreviventes da Humanidade em um último veículo selado contra o meio ambiente hostil não é nova, mas é sempre bom ver o que um novo take tem a acrescentar. A FC oferece, via de regra, naves gigantes, ditas geracionais, levando séculos e séculos em sua viagem por um lar às vezes cada vez mais mítico, até mesmo com seus habitantes se esquecendo de suas origens e mesmo sua missão. Na série original de Jornada nas Estrelas temos For the World is Hollow and I have Touched the Sky (3x08), já em The Orville a premissa é vista em If the Stars Should Appear (1x04). Uma disparidade de classes a bordo do veículo selado pode ser sugerida na frota de naves sobreviventes à mercê dos cylons na série Galactica original, assim como com o remake de 2004; e mais recentemente na espaçonave Órion vista na minisérie Ascension (2014), projeto este que infelizmente apenas ficou na mini-série.

Há mais tantos outros exemplos, independente da mídia, mas a vantagem básica, ao meu ver, é contar uma distopia social a bordo de um trem, que por mais futurista que possa ser concebido, é algo mais facilmente reconhecível pela audiência, alcançando assim mais gente - mesmo que questões sobre como linhas de trem continuariam funcionais sem manutenção (não é somente a respeito da locomotiva e da composição) tenham ficado em aberto.

A estrutura básica do trem se dá com os últimos vagões preenchido pelos pobres, em péssimas condições, que a medida que se avança pela composição até a locomotiva o nível de vida melhora consideravelmente: de comida a água encanada até algo que em geral não pensamos e damos por garantido, como espaço livre.


O Perfuraneve (2015), editora Aleph.

A primeira história em quadrinhos - a edição da Aleph traz as três primeiras histórias em um só volume. A primeira história apresenta a ideia e a ambientação. Um passageiro dos vagões dos fundos almeja avançar até a locomotiva. A diferença de classes aqui existe, mas a subversão não é o mote em si, ainda que a história, entretanto, mais foque em reações humanas quando o tema é 'farinha pouca, meu pirão primeiro': a "burguesa consciente" querendo ajudar o revolucionário que de revolucionário não tem exatamente algo é comovente. E em tempos de pandemia, a ideia de contágio aqui presente, devido às péssimas condições dos últimos vagões, tem um incômodo senso de atualidade.

Os enquadramentos privilegiam, como não pode deixar de ser, closes e ambientes fechados. Na primeira HQ, salvo a locomotiva, o trem tem um aspecto normal, por mais que a arte no geral privilegie os expressivos rostos dos personagens, pelo belo traço de Jean-Marc Rochette.

John Hurt, Chris Evans, and Tilda Swinton in Snowpiercer (2013)
O Expresso do Amanhã, 2013

O filme, dentro dos limites de tempo da exibição, apresenta uma situação de revolução iminente, com os desfavorecidos dos últimos vagões preparando-se para mais uma tentativa. Quinze anos já decorreram desde a partida do trem.

Além da adaptação entre formatos, há uma adaptação da história, mais se firmando nos elementos base presentes nos quadrinhos do que investindo em uma tradução entre mídias diferentes: mas o protagonista que anseia em alcançar a locomotiva, o coração e controle daquele mundo e por tabela das condições em que ele vivia, está lá.

É um retrato pouco sutil das questões de classe, com evocações até quando crianças eram utilizadas nas fábricas da Revolução Industrial para ocuparem espaços apertados e mexerem em maquinário perigoso, sem a menor proteção. Crianças pobres (e pretas, por tabela), esclarecido isto: enquanto crianças dos passageiros que pagaram melhores passagens tinham educação garantida de forma também a perpetuar uma mentalidade de descaso contra os menos favorecidos e apreciar a ordem, o status quo.

Chris Evans está bom como sempre, com o personagem finalmente desmoronando sob a confissão de seus pecados, próximo ao final. Ed Harris como uma espécie de Mágico de Oz/Grande Irmão orwelliano, o mítico e onipresente porém nunca visto Wilford, responsável pela criação do trem e do destino de todos a bordo. O elenco conta ainda com Octavia SpencerJohn HurtKang-ho Song (de Parasita) e, em um papel adoravelmente detestável, Tilda Swinton. Dirigido por Bong Joon Ho, também de Parasita, que aliás assina como escritor na nova série.

Snowpiercer: Season 1 – Review | Netflix / TNT Sci-Fi | Heaven of ...
Uma questão de lados.

A série dá a impressão de ser na mesma continuidade do trem, verificável por detalhes como o logotipo das Indústrias Wilson e a citação do elemento CW7 utilizado para o resfriamento global, assim como o problema com a droga koron - mas é um desenvolvimento próprio. Passa-se aproximadamente sete anos após a partida, e o esfriamento glacial se dá como explicado no filme, com o adendo de uma guerra havendo esquentado ainda mais o planeta, e a emenda saindo pior que o soneto.

Sendo um ambiente selado, o meio-ambiente precisa ser mantido em equilíbrio, para que não haja escassez: mas quando um assassinato ocorre, a elite do trem sente que o meio ambiente social pode estar em perigo. Entra em cena um dos protagonistas, um dos sobreviventes do fundo do trem, que antes do fim do mundo era detetive de homicídios - o único detetive a bordo. Com esse mote, o funcionamento social da composição vai sendo apresentado, com personagens por vezes envolvidos em segredos sórdidos.

Os passageiros se dividem em quatro classes, de acordo com o preço da passagem que compraram, ganhando vagões e opções de lazer cada vez menores: a primeira classe, a segunda e a terceira - e aí tem os tailers, os do fundo do trem, que forçaram sua entrada quando o desastre se abateu no planeta. Desde então, vêm sendo tratados como incômodo para o resto da ordem social: há que se alimentá-los de alguma forma, para prevenir tumultos como no passado. E mesmo a ideia cruel de apenas desatrelar os últimos vagões para se livrarem deles é vista com o receio por uma revolta na terceira classe, se isso acontecer.

No formato de série, o mundo pode aqui ser bem mais detalhado do que no filme, como a situação da tensão social a bordo. Mais do que pano de fundo, ela é parte da motivação dos personagens, entre a manutenção do status quo, sua derrubada e aquilo que se faz para se viver melhor.

O diretor aposta no momento atual, e não se enganem: esta também é uma obra tão política quanto Parasita, já citado. Não é à toa que o personagem principal é um negro, que não raro é espancado por seguranças fardados e blindados. Os dias em que começo a escrever essa resenha se sucedem ao do assassinato cruel de George Floyd nos EUA por um policial branco, e os violentos protestos que se seguiram.

Como na vida real com o S. S. Titanic, não há escaleres para todos, especialmente para as classes mais baixas.

Com dez episódios, a série termina em um belo gancho para a 2a temporada, ainda que tenha me parecido meio tirado da cartola. Mas o resultado, no cômputo geral, é bom e eu recomendo.

sábado, 20 de junho de 2020

Carnival Row


Carnival Row (2019 - )


Atenção: muitos spoilers a seguir.

Série disponível na Amazon Prime Vídeo, Carnival Row nos leva a um mundo de fantasia (wiki oficial em inglês aqui) que alcançou a Revolução Industrial. Existe magia, deuses, seres míticos como fadas, faunos, kobolds e etc - assim como máquinas a vapor, experimentos em eletricidade, dirigíveis de ataque, imperialismo das nações, (aparente) monoteísmo mainstream, racismo institucionalizado e estratificação social. Fantasia steampunk cai bem aqui.

A série é centralizada principalmente na cidade do Burgo, capital do país de mesmo nome, que o tempo todo tem ares da Londres vitoriana, com sua arquitetura, costumes sociais, religião, moda vigente e mesmo uma série de assassinatos sanguinolentos. A Carnival Row do título é a zona boêmia da cidade.

O conflito social e racial se dá de algumas formas: a guerra de expansão entre o Burgo e o temível Pacto, outra nação humana mas que pouco vemos, além de se mostrarem temíveis e cruéis inimigos, leva as fadas e outros não-humanos, naturais do continente e das terras que se tornaram o campo de batalha a buscarem refúgio na capital, onde são tratados como cidadãos de segunda classe sujeitos a subempregos ou contratos de servidão, gerando um problema de criminalidade, do tráfico de drogas à prostituição.

Burgo: pseudo-Londres vitoriana muito eficiente...

Como um espelho distorcido de nosso mundo, as referências históricas nossas estão lá: as nações conflitantes são de seres humanos brancos, ou brancos ao comando. No Burgo, há seres humanos negros, embora possam ser encontrados na nata da sociedade: é mencionado que entre brancos e negros já houve conflito e rejeição, mas isto havia sido superado. Afinal, cor de pele parece bobagem, quando existem pessoas com chifres e cascos ou asas para discriminar.

Entra em cena um dito romance proibido entre uma humana de alta classe e tradição e um fauno novo rico: o que não impediu de ser entre uma branca e um negro, pois não há exclusão de papéis nas espécies apresentadas. Este romance, portanto, envolve três conflitos: o social (o fauno novo rico se muda para uma vizinhança de 'gente de bem'), o entre espécies (humano e não-humano) e um que diz mais à nossa realidade do que à apresentada que é o entre etnias.

... de um mundo complexo e instigante.

Outro romance proibido, inter-espécies, esconde, na verdade, outro aspecto da discriminação que é revelado no passar dos episódios, quando o humano da relação descobre que é um meio-fada, e mestiços são desprezados pelos seres humanos.

Cabe notar que conflitos sociais e políticos têm tido maior destaque em tempos recentes, na produção de conteúdo fantástico para a TV/stream, sob a forma de alegorias ou utilizando metáforas mais pontuais. O filme Bright (2017) traz as raças de fantasia para uma Los Angeles atual de alta criminalidade, a mini Years and Years (2019) é 'near future' sobre a ascensão da extrema direita na Inglaterra, entre outros exemplo - e Carnival Row certamente não é exceção.

Ótimos valores de produção.

Um ponto que ainda gostei foi seu worldbuilding: mais do que espécies de vida exóticas e geografia de países imaginários, há uma direta influência no mundo como molda o personagem, define seus ódios e afetos, e pela interpretação dos atores somos levados a crer naquilo tudo - as duas dores de Vignette por sua amada biblioteca, por exemplo. O medo do povo fada diante de toda uma estrutura social que depõe contra eles. Tudo isto está bem conduzido.

Do lado negativo desta primeira temporada, alguns desenvolvimentos pessoais me pareceram apressados demais, provavelmente devido à temporada ter somente 8 episódios: o romance proibido de Imogen e Agreus me soou um pouco rápido para acontecer, assim como a revelação da verdadeira personalidade de Sophie Longerbane, o oposto do sugerido a partir de quando ela nos é apresentada.

No elenco: Professor Moriarty, ao seu dispor.

Do elenco, tudo considerado, todos estão bem, apesar de não exatamente excepcionais: Orlando Bloom e Cara Delevigne como o casal principal que acaba se reconectando após um início turbulento, em alguns pontos me lembrando, bem, Orlando Bloom e Kyra Knightley em Piratas do Caribe: tanto lá quanto cá o personagem de Orlando tem uma origem órfã rodeada de mistérios que leva a uma herança mista e lealdade dividida, enquanto sua contraparte amorosa se mantém virtuosa quanto àquilo e aqueles que ama, arriscando-se não importa o quê; apesar de, em si, tanto Vignette Stonemoss e Elizabeth Swann terem peculiaridades bem distintas, assim como William Turner e Rycroft Philostrate não serem definitivamente a mesma pessoa.

Faixa-bônus: Indira Varma, a eterna Niobe (sra. Lucius Vorenus) de Roma-da-HBO.

É esperar pela segunda temporada.

Recomendo.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Ad Vitam


SPOILERS ABAIXO.

Ad Vitam é uma série francesa de 2018 de FC e mistério policial, passando-se aproximadamente daqui a cem anos.

A TV inglesa já vinha nos dando séries "near future" há algum tempo: Years and Years é de 2019 e vai até os próximos 15 anos e fala da ascensão da extrema direita no país, enquanto que Humans (refilmagem de um original sueco) parte do princípio que andróides são uma tecnologia pronta e implementada na sociedade.

A sinopse do IMDB diz que

Em um futuro onde a tecnologia de regeneração permite humanos viverem indefinidamente, um policial e uma jovem problemática investigam uma estranha onda de suicídios juvenis.

Ou seja, a influência sobre a sociedade é essa tecnologia que permite um tipo de juventude eterna. Ela já está estabelecida, e é celebrada: logo no primeiro capítulo, temos flashes de como é esse mundo, onde o aniversário da pessoa mais idosa do mundo - uma mulher - é comemorado planeta afora, ao completar 161 anos de idade.

É uma sociedade aparentemente estável, pois o tratamento para a juventude é garantido a todos e a base da pirâmide social não parece apresentar pobreza em massa. A morte é uma ocorrência rara e desagradável, com cemitérios sendo desmanchados por falta de uso e de visitas.

A descoberta em 1998, no mundo real, das propriedades de rejuvenescimento de uma espécie de água-viva, a Turritopsis nutricula (a espécie em si havia sido catalogada já em 1848), leva à descoberta, na ficção, de uma variante chamada Turritopsis draculea, que é de onde o fenômeno é finalmente decifrado e convertido em um bem para a Humanidade.

A descoberta dessa água-viva (há uma intercambialidade aqui entre água-viva e medusa, mas deixemos como está) foi tão importante que, quase cem anos depois, ela é um marco cultural. Sempre há alguma menção, desde a primeiríssima cena do primeiro episódio, hologramas, etc.

Trailer de Ad Vitam.

Ao mesmo tempo, está a dias de acontecer um plebiscito que irá impor uma restrição à natalidade, pois em um mundo de juventude eterna, a necessidade de novas gerações diminui, portanto, como acolhê-las, já que aposentadoria não necessariamente é algo tido como garantido? Não bastasse, ainda é o mundo do aquecimento climático e escassez de recursos, onde a principal forma de alimento passa por insetos processados, e a carne é uma raridade. O número "quatro bilhões" para descrever a população global surge aqui e ali ao longo da série. É citado uma grande praga no passado que matou muita gente, o que pode ter contribuído para o número atual.

Mas o que não quer dizer que tudo são flores: pessoas têm um jeito todo... próprio... de se relacionar com o que lhes poderia ser positivo e seguro. O narcisismo pode levá-las a banhos diários de rejuvenescimento. Preservar perfeitamente um antigo restaurante só pelas memórias que traz. A morte pode ser um evento raro, mas a principal causa é o parricídio. Pessoas podem ter múltiplas carreiras ao longo de uma mesma vida, mas o tédio pode consumi-las. E, mesmo diante da chave da imortalidade e juventude, elas ainda podem querer mais.

O conflito social aqui passa por direitos do indivíduo, o que faz sentido ser uma série francesa, cuja sociedade sempre é engajada, conforme vemos mesmo hoje em noticiários. No caso, questões a respeito da jovialidade e imortalidade: a maioridade legal é de 30 anos, idade mínima para o rejuvenescimento funcionar em um organismo com segurança. Pessoas que, hoje em dia em nossa sociedade, são adultos aptos para o mercado de trabalho e constituírem família na série são condenados a uma adolescência tardia.

Christa e Darius: a improvável dupla investigando um crime, com o mérito de fugirem de todos os clichês.

E a essas tantas, entram os protagonistas: Darius e Christa são, respectivamente, um policial com aposentadoria compulsória em vista, após 99 anos de serviço ativo, com muita bagagem e um evento traumático em sua vida logo na época  quando começaram a aplicação do rejuvenescimento que o assombra até hoje; e uma menor de 24 anos de idade que sobreviveu a um culto de suicídio jovem dez anos antes da nova onda, conforme na sinopse acima. Cada um em seu momento de vida, e a incerteza os norteia por igual.

Os personagens secundários dão a chance de ter mais reações a esta sociedade, como um policial que, aos 30 anos, reage muito mal ao presenciar alguém morrendo. Os pais de Christa, bem resolvidos na sociedade, ambos já em suas terceiras carreiras, com ela descobrem que ter um filho não é a coisa tão perfeitamente programada assim: ter uma água-viva de estimação é bem mais simples.

Christa e sua irmã adotiva.

A investigação passa por alguns níveis diferentes da complexidade da sociedade apresentada, até o epílogo onde um grande e anônimo oponente é apresentado. Como no gênero noir, é antes sobre sobrevivê-lo a realmente vencê-lo. E as coisas são como são.

Eu não pude deixar de notar que o tema de vampirismo possa ter sido abordado, de forma bastante sutil, mais às claras neste epílogo (não me entendam mal: é uma série de ficção-científica, ponto. O único outro gênero com que ela cruza é o policial).

Mas tomemos Drácula (cuja mini-série hiper-recente eu resenhei aqui)  como exemplo. Talvez parte do sucesso da história de Drácula seja por um motivo que não sei se Bram Stoker estaria ciente... há uma crítica social embutida, ao se descrever alguém da aristocracia predando em cima de gente comum ao redor e sem controle. Pode ser visto, ainda, quando o velho não deixa que o novo vingue, dele servindo-se para se revigorar, às custas da vida do novo. Ou, a espécie da água-viva imaginária não seria draculea (em oposição a nutricula da vida real) à toa.