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domingo, 11 de junho de 2023

Corrosão

 

Corrosão (2018), de Ricardo Labuto Gondim: finalista do Argos e vencedor do Odisseia em 2019

Aviso: SPOILERS abaixo.

Candidato a se tornar um clássico dentro do subgênero de FC hard brasileira, o que torna o livro em si é um raro exemplar, Corrosão é aquele tipo de ficção científica que nos inspira e deslumbra, um filho da tradição clarkeana de sense of wonder regado a música erudita, mesmo que em um mundo primariamente de máquinas e seres humanos destas não muito distintos: ao mesmo tempo, apresenta ao leitor aspirações, inspirações e outras pirações filosóficas e metafísicas que me levam a mais do que encaixá-la sob um subgênero, mas a arriscar dizer que esta é a lua de platina da FCB.

O futuro dos 2150s descrito por Gondim é, do nosso ponto do primeiro quarto do século XXI, perfeitamente crível: não bastasse questões ambientais, a sociedade é descrita como uma mesma grande massa global conformada e alienada sob drogas recreativas - a referência a Huxley não está lá à toa - com Estados nacionais dissolvidos e política de pouca força ou ilusória importância, sob a batuta de um mesmo  monopólio econômico, um conglomerado conhecido como apenas como a Corporação, resultando em "uma sociedade sem aspirações, corroída de baixo para cima". 

Essa credibilidade acaba dando um tom cautelar ao livro, uma leitura extra como por vezes Ficção Científica assume e exibe.

A história segue a trajetória do Nikola Tesla e seus tripulantes, encarregados de seguir até a lonjura de Plutão atrás de um asteroide contendo "vastas reservas de um óxido extraordinário, capaz de manter propriedades supercondutoras sob altíssimas temperaturas sem entrar em fusão", podendo mesmo "apresentar propriedades antigravitacionais 'voláteis' ou 'coisa similar'"; alcançá-lo, mineirá-lo e retornar com o butim para a citada Corporação. A nave foi construída para a missão em específico, sendo um ápice de tecnologia. Mas ao contrário do que foi a ida do Homem à Lua, os primeiros seres humanos a irem tão longe assim da Terra não são retratados com o glamour das primeiras décadas da exploração espacial tripulada, antes havendo mais uma atmosfera de apenas um outro dia de trabalho, apenas sendo mais longe dessa vez: o que é par com o tipo de sociedade que não se deixa exclamar com o que acha ser pouco, o que significa deixar de passar oportunidades assim.

No caminho, surge o inesperado: uma anomalia eletromagnética em espaço já devidamente cartografado, de intensidade e tamanho que jamais deixariam de ter sido notadas anteriormente, com a tecnologia vigente já há tempos. Despertado de seu sono em animação suspensa pela IA de bordo, o comandante da missão decide então investigar, acordando o resto de sua tripulação. A partir daí, somos apresentados aos demais e como reagem, no crescendo em que a investigação se dá até o centro da anomalia, e o inesperado revela conter o impensável: nada menos que o HMS Titanic - sim, o próprio, toneladas de aço, inteiro ainda que sob muita, muita ferrugem.

O astronauta e a ostentação de época: Memories - The Magnetic Rose, de Otomo (animação de 1995) também me lembrou.

As personagens, seguindo a tradição hard s.f., são de curto ou difícil desenvolvimento, já que FC normalmente é um tipo de história orientado à uma trama, quanto mais FC hard. Mas, mesmo assim, temos indícios do que esperar de cada um dos tripulantes do Tesla: são oriundos de uma sociedade onde há baixo envolvimento de pessoas com o que quer que seja além de suas atividades profissionais, e o ser humano que resta é pouco mais do que uma engrenagem em uma sistema maior, havendo pouco interesse na construção de uma poética pessoal, mesmo em uma época onde assuntos e oportunidades não faltem, parecendo se tornar cada vez mais difícil convencer as pessoas disto: não obstante, dois deles procuram quebrar esta fôrma, olhando para os demais com uma certa condescendência.

Dois personagens mantêm uma relação conflituosa devido às suas personalidades, e no processo um ajuda o outro a se delinear: o comandante da nave, Kiril Alexandrovich Mravisnky, e a geofísica espacial Sandrine Mercier divergem diametralmente sobre a investigação inesperada. Ele, em último caso por não ter outra saída em termos do dever; ela, deixando-se levar pelo medo do desconhecido, uma vez que fica claro que a tal anomalia não pode ter uma fonte natural. 

Mravinsky é um comandante de astronave como se espera que os comandantes sejam, autênticas rochas de salvação, nem tão aprofundados em um dado campo de conhecimento como os demais, mas capaz de liderá-los, ouvir as considerações e tomar a decisão que tiver que tomar. Já Mercier se mostra frágil e desequilibrada, e com outros atributos que, quando comparados, até pelo texto se torna fácil gostar de um e desgostar da outra. Apesar do que, entendemos Mercier, uma vez que ela é alguém que se permite sentir medo do desconhecido.

Corrosão, indeed...

Dos demais personagens, contamos com a astrofísica de bordo, Anitra Nordraak, como ótimo exemplo desse tipo de super-especialista gerado por esta sociedade - e um tipo ideal para a importância da missão. Daniel Martinu, projetista da Tesla e engenheiro de bordo, é o outro personagem que consegue 'quebrar a fôrma', permitindo-se um nível de conjectura filosófica enquanto vivencia o insólito - apenas para, dado momento, igualar-se a Mercier, ao ser o primeiro a, in loco, constatar o nome do transatlântico. Ambos, poética pessoal ou não, sucumbem ao medo face o irracional. Temos ainda Oleg Koslov, o piloto da nave e uma sexta tripulante que misteriosamente não se ergue do sono criônico, Anca Kertész. Ela é a profissional de comunicações, e descrita como tendo uma personalidade catalisadora, ajudando a aproximar o grupo de trabalho - e tendo "uma curiosidade incomum naquele tempo". Olhando em retrospecto, pode-se supor que sua ausência pode ter sido sentida no desenrolar do drama.

E há o sétimo tripulante: ANNA, a IA de bordo, uma personalidade construída que trabalha com estatísticas do comportamento humano para o que esperar das reações dos demais, e mesmo antecipar. Ao mesmo tempo, ela está simultaneamente em cada canto da nave e da missão, zelando pelo sucesso da própria. A comparação inevitável é com Hal 9000, ainda que ANNA seja mais sutil em garantir o cumprimento da diretiva que obriga a investigação em caso de possibilidade de um primeiro contato com inteligências alienígenas, como saberemos mediante o destino de uma das personagens.

MOTHER, o computador da Nostromo em Alien - o 8o. Passageiro, também pode ser lembrado.

.As comparações com 2001 - Uma Odisseia no Espaço, são inevitáveis. Ao contrário do Monolito, que é a total ausência de significado possível para quem o investiga, o insólito apresentado pelo Titanic trabalha com algo plenamente reconhecível e que, por isso mesmo, fica ainda mais indecifrável. Os momentos de pânico passados por Martinu e a reação de Mercier são completamente justficáveis. Cenas como o encontro a bordo do Titanic e a desativação de parte das capacidades cerebrais de Anna igualmente remetem, assim como os momentos extemporâneos do epílogo.

Os detalhes técnicos permeiam a narrativa como os fragmentos da corrosão que o transatlântico sofre, e da mesma forma que as demais interferências nublam a visão clara do que ocorre aos personagens, trafegar pelos parágrafos pode ser de uma navegação incerta. Em outra narrativa, ou por outro autor, isso poderia ser um problema, mas Gondim toca o barco com habilidade o bastante para que isso, voluntariamente ou não, funcione como uma meta-narrativa. Navegar é preciso, tudo mais é impreciso, e prosseguimos, noite adentro, no encalço do mistério, atrás do farol de luzes suspeitas.

Por último; se o Titanic, ápice tecnológico naval, é lembrado como uma espécie de arauto do fim da 'Era Dourada' do moderno capitalismo inicial, penso se, por paralelo, sua reaparição e contribuição com o naufrágio do Nikola Tesla - ápice tecnológico aeroespacial - não poderia simbolizar o fim de outra era, também bem capitalista, ainda que elite de agora zele por prudência e discrição. Portanto, resta aguardar por uma continuação, e o ICG7-51 - com seu conteúdo cheio de promessas, econômicas e narrativas - possa ser finalmente alcançado.

Recomendo.

Corrosão
292 p.
Caligari

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Psicopompo



Psicopompo: porque a luz pode ser tão apavorante quanto as trevas.

Acaba sendo um pouco difícil para mim falar algo mais do que já foi dito sobre Psicopompo, até mesmo nas páginas de apresentação da obra. Ainda, tem uma entrevista com eles aqui, e outra, de 2015, aqui. Só posso dizer que tudo aventado foi entregue, e a contento.

PSICOPOMPO | Quadrinho carioca já tem data de lançamento ...
Psicopompo: após tantos anos sendo planejado, eis finalmente o fruto dourado do sol.

A história é relativamente simples: em uma disputa de futebol entre meninos no campinho de uma favela, a batalha cósmica que define o fim de uma era ou ciclo está acontecendo. O anonimato do evento não torna o confronto menos importante ou decisivo, enquanto agentes imortais tentam influenciar sua decisão.

Eu disse, "relativamente".

Psicopompo on Twitter: "Ainda acha que os balões dos quadrinhos ...

O enquadrar e o reenquadrar.

O texto é de Octavio Aragão e a arte, de Carlos Hollanda, e como em toda boa parceria, um influenciou o outro durante o processo. Ambos são acadêmicos e profissionais com interesses e formação férteis para pensar em significados: quadrinhos, ficção científica, design, astrologia, arte e história da arte. O resultado é uma rica colheita esotérica-semiótica hipnotizante, especialmente em se tratando das cores... as cores... ah-ham. A arte passeia por significados não totalmente óbvios na primeira passada de olhos. É das obras que gostamos de apreciar, após a história lida, por suas páginas.

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E Megiddo, quem diria, foi parar em Irajá.

Páginas estas que demoraram. Foram concebidas, tratadas, refinadas, refeitas desde 2014, entre reconceituações e a própria vida que passa diante de nós, ora tumultuada, ora rápida demais. Mas o resultado está aí. Valeu por todo esse tempo de espera? Sem dúvida.

Psicopompo
84 p.
Caligari, 2020.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Bartolomeu

Bartolomeu, de Victor Moura. Editora Caligari (2018)

Bartolomeu é a graphic novel do quadrinista Victor Moura, e conta uma história de gente normal, gente que queria ser normal, gente nada normal e o fim do mundo - senão, quase.

O personagem-título é assombrado desde criança por coisas assustadoras que só ele vê, e dá um jeito de viver bem com isso, na medida do possível. Depois de crescido, sabe sobre o que tudo se passa com ele, e reluta trilhar o caminho que dele se espera, preferindo a simples e limitada existência meramente humana. Obviamente que isso não pode ser possível.

Já vimos essa história? Já, e algumas vezes. Assim como das melhores vezes, Bartolomeu é muito bem feito. Em resumo, é como John Constantine fosse desenhado por Mike Mignola (Hellboy), vivesse na Lapa, Rio de Janeiro, entre bares de segunda onde toca violão e uma oficina de carros onde tira seu sustento - e tomando corrida de Coisas Que o Homem Não Deve Conhecer entre uma viela sombria e outra.

A afirmação de que "todos têm demônios interiores" ganha novos contornos aqui, gostosamente literais. Os demônios de Bartolomeu não apenas torturam e assombram, mas por vezes são torturados por aquilo que um dia foram e agora são, assombrados por uma realidade que não dominam nem nunca dominaram, estando a mercê de forças maiores do que eles - tem sempre um tubarão maior nessa praia.

A arte, em preto-e-branco, expressa e impressiona, pintando uma cena urbana insegura, onde nunca se sabe o que vai se encontrar após a próxima esquina. A escolha do autor de deliberadamente desenhar olhos de íris ou pupila novamente acerta o alvo, trazendo uma pequena dose de inquietude ao se ler.

Outro gol da pequena editora Caligari, que também acertou muito bem com Teocrasília, já resenhada. Não foi à toa que, no último 9 de Maio, quinta-feira, Bartolomeu ganhou o Prêmio LeBlanc de Melhor HQ Nacional Publicada por Editora. Devidamente merecido, e espero que venha mais.

Faixa-bônus: eis o canal de Bartolomeu no youtube, com trilhas compostas para o personagem e a HQ.

Bartolomeu
116 p.
Editora Caligari

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A Mão Que Pune - 1890

A Mão Que Pune - 1890, por Octávio Aragão (2018)

A Mão Que Pune - 1890 é a sequência de A Mão Que Cria, que tive a oportunidade de ler e resenhar aqui. Terminei a resenha falando sobre esta sequência, desde então em desenvolvimento, com "Resta aguardar". Pois eis.

Vou me repetir um pouco, da resenha antiga: acompanho a carreira literária do amigo Octavio Aragão desde os tempos da Intempol e, como na resenha de 2011, cabe o alerta ao leitor de que isenção não é exatamente o caso aqui. Tive, ainda, o prazer de ser um dos 'leitores beta' do romance, ao longo de 2018. Ver a obra acabada foi uma grande alegria.

Ficção-Científica, ambos os livros são ainda o que se chama "Ficção Alternativa", em que personagens existentes são recontextualizados em uma nova história, nunca pretendida por seus autores originais. O grande expoente do gênero ainda são as HQs de A Liga dos Cavalheiros Extraordinários, por Alan Moore, e mais recentemente a excelente Penny Dreadful (HBO, 2014-2016) apresentou o conceito para muita gente. Na literatura, recomendo novamente Anno Dracula, cujas continuações no Brasil pelo visto vão ficar devendo. Inevitavelmente, cabe ainda localizar aqui a obra no subgênero steampunk.

AMQP é uma "prequel" de AMQC, passando-se no final do Século XIX, semeando as situações que vimos se desenrolarem no segundo livro. Assim como nele, aqui temos também um desfile de personagens históricos e fictícios interagindo entre si e protagonizando uma história de aventura e ação, intrigas e planos para dominação global.

Começa em Paris, 1890, com a narrativa pela voz do protagonista Angelo Agostini, chargista político brasileiro da vida real que foi a dor de cabeça de Dom Pedro II e dos políticos do Império, agora vivendo a tragédia pessoal da morte recente da amante e tendo seu filho recém-nascido sequestrado por partes inesperadas e terríveis.

Mas isso é tão somente o começo: são 210 páginas de aventuras aéreas, vinganças, truculências e cientistas loucos com suas versões do que é melhor para a Humanidade; um desfile histórico e fictício  de personagens em situações que, como leitores, poderíamos pensar como ficaria com mais detalhes e desenvolvimento alguns trechos, explorá-los por outros vieses e com ainda mais personagens. Sob o certo aspecto, o livro funciona como um celeiro de ideias que, espero, possamos vir a ler algum dia demais desenvolvimentos.

A obra conclui com um gentil posfácio contando a gênese da obra, assim como detalhes sobre os personagens apresentados: pesquisa foi feita, em pelo menos um caso, acadêmica - Agostini foi tema de Mestrado do autor. Boa parte ali, advinda de uma extensa e prazerosa vida de leituras.

De brinde, ainda prefácio por Christopher Kastensmidt, autor do projeto A Bandeira do Elefante e da Arara, projeto lúdico envolvendo o Brasil Colônia.

Foram 12 anos entre um livro e o outro. Tempo demais, mas às vezes assim vai a vida. Cabe agora torcer para que a Caligari adote e lance A Mão Que Cria, dispondo mais essa obra de Octavio Aragão para o leitor que está chegando agora ou que perdeu a oportunidade na época.

(Esta resenha está na íntegra no jornal BrasilBest, sediado em Miami, para a colônia brasileira.)

A Mão Que Pune - 1890
210 p.
Editora Caligari

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Teocrasília

Teocrasília, 2018


Obra nacional, de autoria - texto e desenhos - de Denis Mello; em tempos deste nosso cristofascismo distrópico é obra mais do que necessária.

Uma obra de Ficção-Científica dentro do subgênero das Distopias, Teocrasília nos fala um Brasil de um futuro próximo, evangélico e intolerante com tudo o que derive dessa forma de pensamento. Sem dourar qualquer pílula, é o Brasil de uma ditadura religiosa, uma teonomia ao melhor estilo O Conto da Aia, e que nesse nosso momento não soa algo tão improvável de ocorrer.

Os personagens são pessoais normais que a normalidade oficial os proíbe de sê-los como são, e como são levados a adotar posições de resistência e rebeldia contra essa oficialidade truculenta e abusiva. História que mostram que, para ter que sobreviver em uma sociedade pretensamente civilizada, não precisa ter que ser tachado como criminoso perante a lei: o passivo cada vez mais agressivo do geral é razão o suficiente para se viver em medo.

E é o que talvez seja mais assustador na história, que explora bem o clima de paranoia em sociedades assim, esse misto de omissão e coadunação das massas, da dita "gente de bem", com o terror que se instala, mediante então não somente seu voto, mas como seu aval.

A história salta aqui e ali no tempo, mostrando como se desceu rapidamente ao ponto em que está, não poupando críticas a figuras políticas e religiosas infelizmente conhecidas nossas, apenas mudando o nome.

Familiar? Pois é...

A arte, em preto e branco, cabe corretamente com o clima gerado, o de um futuro cinzento como um dia nublado, sem perspectiva de melhoras à vista, desenrolando-se em Niterói (cidade do autor) e seus arredores. Há medo, paranoia, e a coragem maior de se crer em esperança: mas não virá fácil. Afinal, este é o primeiro de 6 livros em quadrinhos. As tramas e dores ainda vão se alongar por muito tempo: o primeiro já é repleto de medo, tensão e violência, bem amparados pela arte de Denis.

O projeto foi financiado pelo Catarse (por onde Denis tem uma obra anterior de sucesso, o quadrinho de terror Beladona), e no link dá para conhecer um pouco mais desse ambiente e como pensa o autor.

Foram publicados, também pelo financiamento, Teocrasília - Edição Histórica e Teocrasília - Extra #1. O primeiro é como se fosse uma publicação alternativa contra o regime, e aproveita e mostra o desenrolar dos acontecimentos desde as Jornadas de Junho de 2013 que levaram à situação atual, notando um desenvolvimento cronológico desse universo pelo autor, para no final apresentar um refúgio comunitário livre e clandestino do regime teonômico onde parte da ação se desenrola.

O segundo, uma edição de formato menor, foi produzido durante um desafio de se fazer uma HQ em 24h, e conta uma história entre os capítulos 3 e 4 do álbum principal. A arte reflete um certo aspecto visceral de uma história de vingança, se puder assim descrever sem dar spoilers. :)

Teocrasília marca muito nosso tempo, o que talvez, a futuro, a deixe datada, mas não necessariamente: a exemplo de um grande clássico da distopia, 1984 de Orwell começa como uma crítica ao stalinismo, mas passou para o repertório mundial ao se tornar um alerta contra um regime opressor que vigie completamente a vida de seus cidadãos, tenha origem pela esquerda ou pela direita, sendo relido como um alerta ao totalitarismo. Acho que Teocrasília seguirá por aí.

Ainda cabe notar o êxito de O Doutrinador, HQ de Luciano Cunha, que recentemente ganhou as telas. Tanto esta quanto Teocrasília têm em comum a influência de eventos políticos que começam com a insatisfação da população contra a corrupção, desaguando nas já mencionadas Jornadas de Junho. Mas enquanto o Doutrinador segue a linha de anti-heróis ao estilo do Justiceiro, caçando corruptos um a um, Teocrasília é sobre não somente a corrupção política, mas todo um ambiente político repressor.

Lembro de ter visto, mas fui incapaz de guardar link ou nomes, de um projeto brasileiro de graphic novel sobre um transsexual também vivendo em um Brasil de ditadura religiosa há coisa de dois ou três anos atrás, mas não fui capaz de reencontrar a peça. Ou seja... o temor não é somente nosso: não é à toa que O Conto da Aia, fazendo sucesso agora em sua versão no Netflix, é um livro de 1985.

No Catarse, Teocrasília: Extra 2 está ainda em financiamento, havendo nascido do mesmo desafio do primeiro, só que este ano.

Inauguro, feliz, o marcador de quadrinhos com Teocrasília.

UPDATE Agosto de 2020: Teocrasília está com nova casa, a editora Guará.

Teocrasília
144 p.
Editora Caligari