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quarta-feira, 5 de junho de 2024

Paradoxo de Theséus

 

Paradoxo de Theséus (2022)

AVISO: SPOILERS ABAIXO

Um romance curto, Paradoxo de Theséus recheia bem suas 129 páginas com ideias e considerações sobre sobre a autenticidade de uma pessoa, levando em conta ética e filosofia, às vésperas de um grande salto tecnológico que irá dar à Humanidade a vida eterna - ou a possibilidade de sua extinção.

Passado no ano 2071, é uma ficção científica near future, que pode nos lembrar de séries recentes como Years and Years e Extrapolations - Futuro Inquietante, Mesmo se deixarmos a tecnologia mais avançada  - e (ainda/por enquanto) mais fantasiosa - do romance de lado, sobra uma bela apresentação sobre como a percepção/ponto de vista é influenciado pela intermediação digital, quando se torna comum o uso de lentes de contato que captam sinais que todos passam a emitir como cartões de visita sempre online, informando nomes, pronomes e diversos dados biográficos - levando alguns à necessidade de hackear o sistema e, com isso, tornar-se invisível. Segue o trecho da página 35:

A informação metavérsica sempre haveria de sobrepujar o mundo dos fatos. Se as lentes dissessem que uma árvore é uma pedra, levaria alguns segundos até que a mente fosse capaz de contestar a informação errada. Por isso, o truque de Barbara funcionava tão bem. Com a maquiagem capaz de obstruir o reconhecimento facial, ela era ninguém para o metaverso e, sendo ninguém, poderia transitar quase invisível.

Em uma sociedade onde tudo era tão exposto e a cognição média - e inteligência nada tendo a ver com isso - tão afetada e dependente de tal intermediação, as possibilidades de cancelamento e perseguição são amplas, como as que sofre o protagonista.

Deixando claro, isto ocorre principalmente onde a maior parte da trama se desenrola, Utreque, na Holanda: a "evasão de privacidade" é dita não ser tão cultural assim quanto na Turquia como é na Europa, quando temos uma cena em Istambul.

Importante notar que, todo esse modo de viver e de ver é detalhado ao longo das 120 páginas do romance, sendo a informação bem distribuída e relevante a cada ponto. 

Podemos ter Paradoxo de Theséus como também uma história sobre ficção científica transhumanista, o que lembra outro romance da mesma coleção Dragão Mecânico, Silêncios Infinitos de Nikelen Witter (resenhado aqui), indicando a atenção de algumas de nossas autorias nesses temas.

A desconhecida série Century City: casos legais sobre direitos de clones e afins.

A trama gira ao redor do acionamento do Basilisco, uma máquina constituída de "um trilhão e setecentos e vinte bilhões de robôs de 0,05 micrômetros de diâmetro", capazes de captar e copiar as memórias, personalidades e quaisquer outras informações de um indivíduo, levando-as, teoricamente, para a posteridade digital. Mas, já se contando 23 personalidades copiadas, entre as intelectual, ética e artisticamente mais relevantes para o planeta, fica a pergunta: por que o Basilisco não se manifesta?

Este acionamento é seguido de opiniões fortes e divididas, permeando a sociedade, especialmente sobre quem se opõe: tanto o Humanismo Radical quanto a Frente de Libertação Animal rejeitam o experimento. O HR, por rígidas questões da identidade em se ser Humano, enquanto a FLA, devido a um experimento da tecnologia do Basilisco em animais, com fins horrendos.

No momento do livro, o das 23 personalidades já copiadas, de pessoas notáveis e - esta agora, condição indiscutível para o armazenamento - às portas da morte, os ânimos se acirram no campo do debate e da miltância, com ações cada vez mais agressivas ocorrendo: em breve, "cultura do cancelamento" não será o suficiente. 

Missão Garatéa - gentis menções assim como a fé na ciência made in BR, como de praxe na obra do autor.

Os personagens se colocam, diante de tudo isso, dentro do papel que lhes cabe: o criador do projeto, seu irmão, sua aliada, sua antagonista e seu assistente. Há uma rede entre eles, especialmente os 3 primeiros, de amparo por afeto genuíno. A antagonista, ligada a uma das facções radicais, opera dentro de uma hipocrisia, usando os meios de seu grupo para satisfazer motivações pessoais contra o projeto do Basilisco. É uma personagem fácil de se antipatizar (mesmo ao se compreender suas motivações), embora o protagonista seja também difícil de simpatizar: não só pela natureza de seu projeto e mas por seu compromisso com o mesmo é que o levam não só para um demorado passeio pelo quintal do Cientista Louco, mas a ameaças extremas para remover qualquer oposição - o que lhe salva, o que lhe puxa para o pé-no-chão e apela ao seu lado humano são o carinho e preocupação por seu irmão, portador de Síndrome de Angelman, que mesmo a ciência da metade do século XXI apenas pode aliviar muito pouco. Obstinação do tipo, "até as últimas consequências, aproximam protagonista e antagonista. O quinto personagem, o assistente do protagonista, é peça fundamental para a trama, com suas próprias motivações.

Cabe dizer que protagonista e aliada também têm transtornos, dentro do espectro autista, com suas peculiaridades. Ela ainda sofre de agorafobia, combatível sob pesados medicamentos - mas também ama o irmão do protagonista, genuinamente se preocupando com ele. Sendo assim, construídos sobre seus erros, os personagens navegam pela história, dando o que creem ser o melhor de si.

O que me leva ainda pensar: antes de algum desejo por representatividade por parte do autor; ao desenvolver assim seus personagens, consideremos a noção da Humanidade, no amplo sentido biológico, histórico e geográfico da coisa. Ao falarmos assim da espécie humana, temos uma ideia geral e difusa sobre pessoas que, a princípio, parecem ditas normais: mas, como cantava Gal ou Caetano (e antes, talvez comentasse Picasso), de perto ninguém é normal. Neurodivergente é o novo normal? Talvez. Mas para salvar - ou condenar - de vez essa Vaca Profana, é o que tem pra hoje.

Saros 136: autor multimídia, e alguns temas comuns a ambas as obras.

A expectativa do "Despertar da Máquina" lembra filmes como Colossus (1970), A Geração Proteus (1977) ou os contos Disque F Para Frankenstein, de Arthur C. Clarke, e o micro-conto de Frederic Brown, Resposta: o 'complexo de Frankenstein', que Asimov nos advertia contra - Homem cria Robô, Robô mata Homem. Claro que a midiografia aqui vai longe (de cabeça, franquias e filmes como O Exterminador do FuturoThe MatrixLucy, etc.), mas uma coisa legal do livro é que se passa no momento da expectativa da ativação daquilo que, se não for nos extinguir e ponto, pode extinguir nosso modo de vida/ver as coisas.

O "paradoxo de Teseu" do título se refere a um exercício de pensamento, sobre, se após anos e anos de manutenção e substituição de partes gastas, defeituosas, de um navio, ao ponto em que não há mais uma única peça original da embarcação: ainda é o mesmo navio? E, sendo possível montar um segundo navio só com as peças antigas, qual dos dois navios é "o tal"? 

Sendo assim, se uma consciência é alçada além de seu corpo orgânico original para um 'estado de graça' sintético: ele ainda é a mesma pessoa, mesmo se a versão digital for a única que estiver sobrando? E, caso ainda sobre a original, quem é o verdadeiro pai das crianças? Quem é a autêntica pessoa amada? Quem é o autor dessa obra? Quem é o dono do imóvel? Quem é o verdadeiro Slim Shady? E, provavelmente acima de tudo: quem vai pagar os impostos?


"Eu era Dave Bowman."

Em Saros 136, uma graphic novel de seu roteiro, Alexey propõe uma passagem de tocha entre o Homo Sapiens e cetáceos por nós modificados: há, em ambas as obras, um preservar do conhecimento assim como a geração de novos seres sencientes, porém existências díspares que, devido a isso, reluta-se em reconhecê-las em pé de igualdade como gente.

Essa validação do Outro como gente talvez seja admitir, de uma vez por todas, que apenas ser Humano não é algo tão especial como tantos e tantos milênios de religiões e tradições antigas nos fizeram crer. E talvez inclua, nesse desapego, uma dose cavalar de generosidade que, como sociedade, talvez não obtenhamos tão cedo.

Paradoxo de Theséus
129 p
Draco

domingo, 10 de setembro de 2023

Silêncios Infinitos

Anong Us - o Livro

AVISO: SPOILERS A SEGUIR.

O sistema tríplice de Alfa Centauri, distando de nós "apenas" 4,3 anos-luz, vem sendo uma constante na Ficção Científica, e a descoberta de um planeta ao redor de Alfa Centauri C (mais conhecida como Proxima Centauri), em 2016, apenas agitou ainda mais nossos sonhos de exploração espacial: rochoso e do tamanho da Terra, Proxima Centauri b (em minúsculo) está na distância certa para que, caso haja água em sua superfície, ser encontrada em estado líquido, o que por sua vez sugere a possibilidade de haver vida (nem que um pouco como a que conhecemos) ou, pelo menos, viabilizar alguma sobrevivência nossa: e é lá que a trama de Silêncios Infinitos se desenrola. Passando-se no século XXVI, temos a história da expedição que lá chegou, e sua tarefa é preparar o planeta para a futura colonização.

Próxima Centauri b é retratado como um mundo de luz eternamente vermelha e imutável, como convém a um planeta que sempre mantém uma mesma face voltada à uma anã vermelha, e de vegetação escura, negra - para a máxima captação da luz solar. A atmosfera ainda é irrespirável e os níveis de radiação são problemáticos. Na verdade, temos muito pouco do planeta (há um mapa-mundi no início do livro, junto com uma breve cronologia do futuro), com a ação se passando entre os módulos da estação em que vivem e trabalham as personagens. Há descrições de sua organização, assim como as IAs presentes, e como isso acaba sendo importante a todos e à trama.


Concepção artística da vista de Próxima Centauri b e seus três sóis, no céu.

Isso por si me lembra de séries e filmes como Espaço 1999, Projeto UFO e 2001 - Uma Odisseia no Espaço: ambientes altamente tecnológicos, a única possibilidade de sobrevivência entre um exterior vazio e letal e um interior seguro porém estéril. Sob um certo aspecto, toda a tecnologia presente e o isolamento fazem com que esse tipo de cenário, em si, seja uma espécie de idealização de um laboratório onde o humano não deixa também de ser um experimento: o que, para a trama, faz sentido.

Os personagens são 26 clones adultos de especialistas em suas áreas que ficaram na Terra. Os clones mantêm alguma memória pessoal e traços da personalidade, realçados ou enfraquecidos conforme edição prévia desses originais e tratamento com remédios. Eles são peças dum grande mecanismo que preza a máxima eficiência dado a ambição da missão, e é curioso ver como, mesmo assim, o fator humano dá um jeito de se imiscuir, pelos clones ou seus originais.

A trama é contada a partir do ponto de vista de Liu, um clone que, ao despertar quando a expedição chega, recebe a carga mnemônica de dois clones: a que se destinava, a partir de seu original, e a de uma colega, Dira, cujo clone não acorda, e o sono é um enigma durante o ano que se segue, antecedendo o relato do livro. A personalidade de Liu é dominante, mas a de Dira não é apenas no plano da memória: e suprimir essa presença é de um grande transtorno para Liu: e aqui nós temos a grande sacada, representada na capa do livro, que é a apresentação da transgeneridade em um ambiente futurista e sua percepção como um erro, e o armário que disso gera -- uma vez que não há protocolos, naquela ordem perfeita, para aquela situação. O que fazer? O sentimento de inadequação de Liu lhe é avassalador.

Mas não demora muito, e o drama pessoal narrado por Liu, como já não lhe bastasse, é confrontado por outro problema: o líder da expedição morre assassinado. E há pouco tempo para descobrir, uma vez que uma tempestade gigantesca se aproxima da base.

Ao final das contas, o livro apresenta uma atualização da indefinição de se ser quem é a partir de memórias implantadas -- conforme Philip K. Dick trabalha tão bem em sua obra, desde os anos 60 -- trazendo para uma questão atual, da identidade de transgeneridade - com um twist todo próprio, como bem cabe à ficção científica. Witter também apresenta questões de ética - a eutanásia planejada para Dira, uma vez que a preservação de seu corpo apenas consome recursos - e, novamente, recontextualiza no ambiente futurista que preparou. A ideia da descarte de um ser humano, ou seu clone, não termina com a questão da eutanásia: ao meu ver, todos os clones presentes são descartáveis, e confesso que esperava dada altura do livro isso seria revelado, em mais uma menção a PKD - agora, com o tempo de vida útil dos replicantes. São questões, ainda, que valem a tag para este post de transhumanismo.

E isso, agora, me leva a ler uma nova versão de um tema que gosto muito, que chamo de "pecados dos pais": como a geração subsequente à de outra, em seu tempo protagonista, sofre com os erros cometidos por esta - no caso, os clones sofrem pelos atos de seus orginais orgânicos. Há uma lembrança aqui, pelo conceito somente, do filme A Ilha, com Ewan McGregor e Scarlett Johansson, em que clones devem - falando em termos amplos - pagar pelos erros de seus originais. 

Não é à toa que os clones, no livro, recebem seus nomes baseados em um deus de alguma cultura ao redor do mundo que tenha a ver com sua função, especialmente Hebe, "especialista em medicina de prevenção, cuidado e bem-estar", recebendo o nome da "deusa grega da juventude"; Naga é devido a uma "entidade guardiã entre os tailandeses", sendo "especialista em engenharia de segurança, com habilidades de luta e sobrevivência", etc. A nave que os transportou é chamada Vímana, e foi pilotada até lá pela IA cujo acrônimo se lê AGNI, também uma divindade hindu, do fogo, e ligada aos mitos de criação. Há uma bela descrição, no início do capítulo 3 (p. 27) comparativa entre o desmantelamento da nave para novas funções e a liberação de sua carga como a nova vida que se fará no planeta com mitos cosmogônicos, de onde dos restos mortais de um ser primordial surge a vida e o próprio mundo. Nada mais mitológico - ou, ao menos, grego-mitológico - que os erros antigos também sejam transmitidos nas novas oportunidades.

Terra: Próxima b não está impressionado.

Por último, gostaria de notar que foi com certa surpresa, pouco tempo depois de ter lido Corrosão, de ter me deparado tão cedo com outro livro brasileiro de ficção científica hard, ainda que tomando mais liberdades quanto ao cenário do que seria Próxima Centauri b - se bem entendi. Mas, ao contrário dos dilemas cósmicos de Gondim, Witter foca no dilema interno da personagem central, apesar do nível detalhado de uma missão de contornos épicos executada em ambiente altamente tecnológico, porém igualmente sem lançar mão de soluções mágicas, como convêm à space opera ou outros subgêneros da ficção científica: percebam, não tenho nada contra isto, mas reitero que é bom ver autores nacionais com a segurança de conduzir suas tramas dentro desse tipo de regra do jogo.

E assim como o livro de Gondim, gostaria de ver mais - particularmente, ainda mais que Corrosão, Silêncios Infinitos (um romance curto) termina sugerindo fortemente que pode haver uma parte 2 em algum lugar do hd da autora.

O livro faz parte da coleção Dragão Mecânico, da editora Draco. O capricho gráfico que lhes são peculiares está lá.

Recomendo.

Silêncios Infinitos
130 p
Draco

quarta-feira, 30 de março de 2022

Os Pilares de Melkart: financiamento coletivo

É com muita alegria que eu ajudo a divulgar esse projeto, todo da Ana Lúcia Merege : Os Pilares de Melkart! Para mais detalhes, vejam a descrição. Quem puder dar aquela força, pelo menos divulgue - a autora agradece. :)

https://www.catarse.me/pilares

Os Pilares de Melkart, no catar.se


Gente amiga, chegou a hora de compartilhar algo que venho preparando há muito tempo.
Vocês devem saber como sou fascinada por Mitologia e pelos épicos antigos. Alguns já devem conhecer os personagens que criei em cenários da Antiguidade e trouxe para os meus contos: Balthazar, o pirata e capitão mercante fenício, e o sonhador heleno Lísias. Agora, estou pronta para publicar um primeiro volume contendo as histórias da dupla, que vai levá-los a diferentes épocas e cenários do Mundo Antigo, desde a Creta de Minos à Jerusalém do Ano Um, passando por Tartessos e pelos bastidores do teatro grego.
Junto com a Editora Draco, preparei uma campanha onde explico tudo sobre o projeto. Vocês poderão perceber que é um trabalho bem elaborado, que requereu muita pesquisa, mas também contou com a minha imaginação e o meu desejo de, antes de tudo, contar boas histórias repletas de fantasia, aventura e um pouco de humor.
Convido vocês a visitar nossa página no Catarse e, se curtirem, a apoiar, não apenas com a aquisição do livro ou dos combos (o que, claro, seria fantástico!), mas também com divulgação, compartilhamentos, boca a boca... Tudo para levar nossos navegadores o mais longe possível!
Vou deixar o link nos comentários, e desde já agradeço, de coração, todo o apoio, carinho e boas vibrações. Que as Musas nos sorriam, pois aqui vamos nós!

sábado, 31 de agosto de 2019

Duendes na Bienal do Rio

Monstrões e monstrinhos.

Tive a felicidade ontem de, chegando no estande da editora Draco (O-83 do pavilhão verde), encontrar estas duas criaturas lado a lado.

Para quem não conhece, a Monstros Gigantes - Kaiju foi co-organizada por mim e Daniel Ribas em 2015, um livro que deu muito gosto de fazer. Ganhamos o Prêmio Argos no ano seguinte (e o meu conto nela tbm).

A Duendes - Contos Sombrios de Reinos Invisíveis é a quarta antologia organizada por Ana Lúcia Merege (depois da arturiana Excalibur, da qual participo com 'meio conto' junto com Daniel Bezerra, e ainda Medieval e Magos), e nela eu tenho um conto que foi aprovado na época.

Participam ainda Daniel F. Rossi e Sid Castro, que também estão na Kaiju. Só por esses dois, qualquer antologia vale à pena.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Omelete de Duendes

Duendes - Contos Sombrios de Reinos Invisíveis ganhou uma matéria no Omelete, com trechos de contos de Diego Guerra, da organizadora Ana Lúcia Merege e deste que vos digita. A campanha de financiamento continua, aliás.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Duendes - Meta expandida



Dica de Donana Merege:

Arthur Rackham (1867 – 1939) nasceu em Londres, numa família com doze filhos. Segundo seu biógrafo, Derek Hudson, era apaixonado por desenho desde criança e escondia papel e lápis sob as cobertas; quando sua mãe confiscava o papel, desenhava (...)

Saiba um pouco mais sobre Arthur Rackham e ajude a duplicar as recompensas de Duendes! Lá na Estante Mágica de Ana Merege.


quarta-feira, 3 de julho de 2019

Duendes - Contos Sombrios de Reinos Invisíveis na Catarse.me

Outra belíssima capa!


A mais nova antologia organizada pela editora Draco está em financiamento coletivo aqui. É de fantasia sombria, envolvendo o Povo Pequeno da floresta, em várias visões folclóricas diferentes ou de inspiração mais pessoal.

Das informações no link,

"O livro foi organizado por Ana Lúcia Merege, que também colabora com um conto. Os demais autores são Aya Imaeda, Simone Saueressig, Isa Prospero, Cristina Pezel, Diego Guerra, Luiz Felipe Vasques, Silas Chosen, Daniel Folador Rossi e Sid Castro."

Espero que gostem!

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

O Segredo do Kelpie


O Segredo do Kelpie é o romance de estreia de Aya Imaelda, creio que seja um Young Adult. Acabei de ler, bem competente, fluido, apresenta estilo sem se perder.

A pesquisa sobre folclore celta como base para uma improvável história de amor é aplicada de modo competente. Os personagens são tipos básicos, mas bem trabalhados, a coisa toda é apresentada e descrita de forma a facilmente visualizarmos. Acho que daria um ótimo longa de animação.

Achei curioso a alternância, lá pelas tantas, do ponto de vista narrativo entre os dois protagonistas, uma vez que havia sido tudo sempre sob o ponto de vista de um deles. Ainda que, pessoalmente, não tivesse sentido maior diferença no discurso entre ambas as personalidades, isso não interfere na compreensão do texto de forma alguma.

Aya Imaelda está de parabéns em sua estreia, e espero poder ler mais desdobramentos em uma cultura que sempre é bem-vinda nas histórias e na qual ela se desenvolve muito bem.
Mais um show de capa da ed. Draco.

Aya Imaelda, O Segredo do Kelpie
232 p.
Editora Draco

sábado, 21 de janeiro de 2012

Dieselpunk - Arquivos Confidenciais de uma Bela Época


Dieselpunk - Arquivos confidenciais de uma bela época, editora Draco (2011)


Terminei a coletânea Dieselpunk - Arquivos confidenciais de uma bela época, da editora Draco.

Dieselpunk, para os não-iniciados, é um sub-gênero dentro da Ficção Científica que escolhe como época a primeira metade do Século XX, seguindo-se ao Steampunk, focalizado na Era Vitoriana, a Revolução Industrial e o impacto da tecnologia da época. O dieselpunk reflete o entre-guerras e a ascensão do motor a combustão e o uso do petróleo ao invés do carvão como base da indústria. Dirigíveis, muito art deco, aviões à hélice mas a nova era se anuncia, com mochilas-foguete e mesmo pistolas de raios - qualquer semelhança com o filme SkyCaptain and the World of Tomorrow não é mera coincidência.

Com 9 contos e quase 380 páginas, este pequeno tijolo de literatura fantástica é uma "continuação temática" da coletânea steampunk da mesma Draco, em 2010, chamada Vaporpunk - Relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades. Não li esta ainda, mas pelo resultado da Dieselpunk, fiquei realmente curioso para ler.

O nível das histórias é surpreendentemente... denso, para dizer o mínimo. Não se trata somente de literatura de entretenimento, como poderia se esperar, embora ação e aventura certamente estejam lá. Mas há, claramente, duas vertentes - em que nenhuma escolha pese para desmerecer uma ou outra, percebam, ou estancá-las de uma maneira binária: as histórias são ótimas -, uma puxando mais para o lado da ação e outra nem tanto. Um show à parte são as ambientações criadas para estas histórias, onde não só a tecnologia, mas a História e a sociedade divergiram bastante, também.

Modo geral, sem apontar dedos, parece-me que a tentação em mostrar ora a pesquisa feita, ora o trabalho de world-building, para que o leitor entenda e participe do tesão que foi montar estas histórias pode acabar por ameaçar o fruir do que é contado.

A Fúria do Escorpião Azul, de Carlos Orsi, abre o livro com uma história de ação e espionagem, com um protagonista-título nos moldes dos vingadores mascarados como o Sombra, Spyder, etc., que permeavam os folhetins americanos de 70-80 anos atrás. Passado em um Brasil onde a revolução comunista se deu, envolve pesquisas extra-sensoriais soviéticas e o sequestro de bebês... para fins inomináveis!

Grande G, de Tibor Moricz, fala sobre duas cidades imaginárias, uma movida a diesel e outra a vapor, em constante conflito, quase como imaginando as duas vertentes - steampunk e dieselpunk - dialogassem em maus termos.

Impávido Colosso, de Hugo Vera, conta uma história de guerra - tema inevitável para o gênero e o livro - entre Brasil e Argentina, com nuestros hermanos nos invadindo com exércitos de robôs teleguiados e nós resistindo com colossais robôs tripulados!

Cobra de Fogo, de Sid Castro, é dos meus favoritos. Em um mundo pós-Grande Guerra, os conflitos internacionais são mediados pela Liga das Nações, e resolvidos por corridas intercontinentais utilizando gigantescos veículos chamados locomotivas, capazes inclusive de voar à maneira dos ekroplanos. A história em si é sobre a disputa da Região Amazônica, reivindicada para ser uma área internacional pelos países, ponto contestado prontamente pelo Império Brasileiro. Cabe à tripulação da M'Boitata defender nossas cores. Eu não sei quanto aos demais leitores nem quanto ao autor, mas esta história de corrida intercontinental com carros estrambóticos e um pano de fundo político não me é mais nada senão que Speed Racer - e aqui, feita com carros-mamute! Sensacional! Destaque para o sombrio Primeiro-Ministro do Império, o Conde de São Borges... Getúlio Vargas.

O Dia em que Virgulino cortou o Rabo da Cobra Sem Fim com o Chuço Excomungado, de Octavio Aragão, aqui retrata um encontro que não houve na História: Virgulino Ferreira, mais conhecido como o rei do cangaço Lampião, e Luis Carlos Prestes, em plena marcha de sua Quinta Coluna. Estes dois e outros personagens históricos são apresentados, sendo que, até o encontro, pessoas e coisas estranhas acontecem, decidindo eventos que podem afetar o Brasil... e o mundo.

O País da Aviação, do meu camarada antologista Gerson Lodi-Ribeiro - e organizador desta coletânea -, é mais um de seus escritos de História Alternativa, partindo do princípio desta vez que o engenheiro norte-americano Robert Fulton, ao contrário da vida real, consegue vender seu motor a vapor para Napoleão Bonaparte, inaugurando uma nova fase da Marinha décadas antes do suposto, mudando o destino da decisiva batalha de Trafalgar. A Hegemonia Europeia se estabelece, e expande-se pelas Américas. O conto salta pelas décadas do processo (contado em datas da Revolução Francesa), e em dado momento mostra o encontro dos Pais da Aviação: os irmãos Wright, Santos Dumont, - e os menos conhecidos - Otto Lilenthal e Karl Jatho sob uma mesma bandeira.

Ao perdedor, as baratas, de Luiz Antonio M. C. Costa, trabalha pelo lado da conspiração política, em um cenário histórico revirado ao avesso, em que no panorama ideológico mundial, consta um predomínio holandês, e não inglês, versus uma monarquia dos trópicos que se vê obrigada a aceitar a diversidade étnica e cultural - simbolizada em um casal inter-étnico de personagens, união repudiada ocultamente pelo protagonista, um agente secreto que irá causar um evento capaz de transformar o mundo. Filosofia, política, sociedade, Kafka e Lovecraft são discutidos ou apresentados na trama, montando um dos mais complexos cenários presentes no livro.

O Auto do Extermínio, de Cirilo S. Lemos também trabalha com monarquias claudicantes e conspirações políticas, loucura, espionagem, tiroteio, robôs e ação. É o fim dos dias de Dom Pedro III (baseado no Príncipe Pedro Augusto de Alcântara, personagem da vida real, retratado no livro O Príncipe Maldito - Loucura e Traição na Família Real, da historiadora Maria Lúcia del Priore), e o Brasil vive um clima tenso politicamente, com Integralistas de um lado e Socialistas do outro esquentando o panorama, à espera da apresentação do herdeiro real - uma possibilidade que ninguém deseja. É um conto muito interessante, com toques místicos envolvendo a loucura presciente do protagonista.

Só a morte te resgata, do português Jorge Candeias, talvez seja a mais madura das obras apresentadas. Levanta uma questão interessante: se o lar é onde está o coração, o que pode ocorrer quando seu coração não está em lugar algum? Encerrando o livro com um tom melancólico, apesar do mundo alternativo apresentado, conta a história de um piloto de biplanos de guerra, após sua unidade ter sido massacrada no meio do deserto, tentando voltar para casa, lançando mão de recursos pouco honrados, até o retorno. De certa forma, este retorno é tão solitário quanto seus voos.

Em suma, ótima e criativa leitura. Parabéns aos envolvidos!
Editora Draco

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Antologia SUPER-HERÓIS

Pois é. Virei antologista.

Uma empreitada completamente nova para mim, em uma ideia junto à editora Draco e ainda de quebra tendo meu prezadíssimo Gerson Lodi-Ribeiro a bordo.

A Draco, para quem não conhece ainda, especializou-se em seus já dois anos de existência, em coletâneas de literatura fantástica, ficção científica e suas variantes.

Seguem as guidelines, presentes no blog do Gerson e no da editora. Divulguem, divulguem... :)

Antologia SUPER-HERÓIS
Guidelines


O.k., nem todo mundo curte os filmes e quadrinhos de super-heróis. Porém, se você gosta de escrever literatura fantástica e não se inclui nessa minoria, gostaríamos de convidá-lo a submeter um conto para apreciação na antologia que estamos organizando para a Editora Draco, cujo título provisório (imaginativo) é Super-Heróis.

Nossa proposta é organizar uma antologia de contos bem escritos que abordem as aventuras de super-heróis de forma criativa, original e preferencialmente com tempero lusófono. Tanto faz se seu herói é humano ou alienígena, se possui superpoderes ou não, se é um bom sujeito ou nem tanto — embora, em princípio, prefiramos que nossos autores deixem os vilões do tipo sociopata mascarado para uma eventual Super-Heróis II: Supervilões. Tampouco importa se você mostrará a gênese do seu herói ou se ele cairá de paraquedas no meio de uma grande aventura. O importante é que seu(s) protagonistas sejam psicologicamente bem delineados e que suas aventuras / desventuras constituam uma leitura instigante e divertida.

Fanfiction? No que se pese ser difícil reinventar a roda, no quesito originalidade, não desejamos receber fanfictions. Nada contra trabalhos escritos por fãs para homenagear seus heróis favoritos no âmbito amador dos blogues e e-zines. Contudo, no âmbito profissional, a história é outra. Daí, no intuito de evitar a possibilidade de nos tornarmos (autores, antologistas e editores, não necessariamente neste ordem) réus em processos judiciais movidos pelos detentores legítimos dos direitos autorais sobre super-heróis criados por terceiros, incentivamos com empenho os autores que pretendem participar deste projeto a criar seus próprios heróis em vez de “tomar emprestado” personagens da Marvel, DC ou outras empresas. Para evitar riscos desse gênero, rejeitaremos pronta e inapelavelmente sem apreciação do mérito literário qualquer trabalho que nos pareça fanfiction.

Tamanho: Desejamos apreciar trabalhos entre 3.000 e 12.000 palavras. Isto não significa que submissões fora deste intervalo serão sumariamente rejeitadas. Se o conto analisado possuir qualidade literária e se enquadrar na temática proposta, essa qualidade será considerada em nossa apreciação, mesmoque o texto seja menor ou maior do que o limite proposto. Noentanto, a bem da sinceridade, deixamos claro que apreciaremoscom maior simpatia trabalhos dentro do intervalo referido.

Filosofia de trabalho: Analogamente, gostaríamos dereceber trabalhos criativos e originais cujos enredos mostrassem heróis ou super-heróis inseridos direta ou indiretamente na cultura brasileira e/ou portuguesa, mostrando o impacto socialda existência e das proezas desses personagens e de seus superpoderes nessa cultura. Não se trata de uma exigênciaestrita. Trabalhos que nada tenham a ver com o Brasil ou comPortugal serão apreciados com a atenção devida e poderão sereventualmente aceitos. Porém, cumpre frisar nossa predileçãopor contos lusófonos de corpo (i.e, escritos por autoresportugueses e brasileiros) e espírito (enredo, personagens, ambientação lusófonos).

Deadline: 31 de março de 2012.

Data de lançamento (provável): Fantasticon 2012.

Eis aqui a oportunidade ímpar do autor lusófono de literatura fantástica criar seu próprio super-herói e imortalizá-lo nas páginas impressas da Super-Heróis.

As submissões devem ser enviadas apenas em versão eletrônica, formato rich text file (.RTF), para os e-mailslfvasques@gmail.com e glodir@unisys.com.br, com cópia de segurança para o e-mail ericksama@gmail.com. Confirmaremos a recepção de todos os trabalhos recebidos.

Dúvidas? Não hesite em contatar os seus antologistas de plantão.

Gostaria de discutir sua trama ou linha de enredo conosco? Não se acanhe. A casa é sua! Estamos aqui para isto.

Aguardamos ansiosamente a submissão do seu trabalho.

Luiz Felipe Vasques & Gerson Lodi-Ribeiro (antologistas)

Erick Sama (editor).

Setembro de 2011.