Duendes - Catar.se

Opa! Fui selecionado com outros para a antologia de fantasia sombria Duendes - Contos Sombrios de Reinos Invisíveis, organizado por Ana Lúcia Merege. O livro estava em financiamento coletivo, seguindo este link, e já encerrou. Obrigado a todos que participaram!

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Sextas de Sci-Fi: Worldbuiling - A Terra Média

A Terra Média vista do espaço, via Outerra.

Nas Sextas de Sci-Fi do #blog do Planetário Do Rio comecei hj uma nova série, sobre Worlbuilding. Impossível não começar pelo maior deles. A Terra Média impressiona até hoje.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Inspirações e Pesquisas...

Não sei se a meia dúzia que me segue aqui sabe, mas eu me arrisco a escrever literatura fantástica de vez em quando: ficção científica e fantasia primariamente, ainda olho pra terror com um pouco de receio (é, piada horrorosa não intencional mas bem vinda). Pra isso resolvo pesquisar algumas coisas a respeito do tema, dentro do gênero, a que me disponho a escrever. Há um tempo atrás eu tinha um blog só sobre as referências, mas acabei deixando de lado... pensei em voltar com ele, mas... nhé. Prefiro inaugurar um novo marcador pra isto: referenciais.

Trago hoje um resultado duma pesquisazinha que fiz pra um artigo das Sextas de Sci-Fi, dentro da série Nossos Astros na Ficção Científica - As Estrelas do Firmamento: foi a descoberta do site DataSketch.

Datasketch: demonstrando que constelações são convenções culturais.

Até achei que tivesse falado dele na época, mas pelo visto me descuidei, só deixando o link direto para a coluna.

A ideia do DataSketch é correlacionar graficamente estrelas de importância no céu com constelações imaginadas por outras culturas que não a nossa. No exemplo acima, Betelgeuse, que é tanto Órion quanto o Tucano, o Arado, entre outras. Pela facilidade da interface, imagino que possa ter uma boa função pedagógica... tentem, vocês vão gostar.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Sextas de Sci-Fi: As Possibilidades do Cinema de Ficção Científica

Rogue One e A Chegada (2016): duas possibilidades distintas dentro do mesmo gênero.

Na Sexta de SciFi do blog do Planetário do Rio, para hoje reenviamos o texto As Possibilidades do Cinema de Ficção Científica.

Foi um dos textos que eu mais gostei de ter feito. Tive a ideia para uma coluna que infelizmente não aconteceu, na época do lançamento dos dois filmes a que me dirijo como exemplo: tinha acabado de assistir A Chegada e, uma ou duas semanas depois, assisti Rogue One. Claro que essa constatação me era antiga, mas vê-la assim, com duas novidades em tão pouco tempo entre ambas acabou me inspirando.


Aproveito e falo da Science & Entertainment Exchange, uma iniciativa da Academia americana para, junto às produções hollywoodianas, tentar esclarecer pontos em histórias e quetais.

Divirtam-se!

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Sextas de Sci-Fi: Três Visões Vernianas

Três vezes Verne.
Reenviamos hoje uma micro-entrevista feita no "Fevereiro Verniano" com três autores que tiveram Júlio Verne como personagem em seus escritos de ficção científica: Octavio Aragão, João Barreiros e David Brin.

http://planeta.rio/tres-visoes-vernianas/

quinta-feira, 25 de julho de 2019

The Forever War

The Forever War, de Joe Haldeman (Orion Press, 2009)

Spoilers abaixo.

Clássico da FC Militar, The Forever War (1974) é escrito por um veterano da Guerra do Vietnã (1955 - 1975), um ano antes da Ofensiva do Tet e da retirada das tropas americanas do sudeste asiático, dando fim ao conflito. Por ser a história que é e, imagino, capturar o momento, foi a obra vencedora dos Prêmios Hugo e Nebula, os máximos da FC norte-americana, além do Locus na categoria Melhor Romance do Ano.

A grande sacada de seu autor, Joe Haldeman, foi unir as consequências da dilatação do Tempo quando em velocidades próximas à da luz (o tempo passa bem mais devagar para um viajante nessas velocidades do que "do lado de fora") com a estranheza dos EUA no início e o fim da Guerra: uma América bem menos otimista e jovial do pós-II GM havia surgido; após toda a contestação, a contracultura beatnik, os assassinatos de Kennedy e Luther King, a Crise do Petróleo, hippies e o Verão de 68, os movimentos pacifista e ambiental, tensões étnicas, etc. etc. etc.

Soldados serviam até doze meses no Vietnã e, sobrevivendo, voltariam para casa. Mas a ideia é: e se eles ficassem todos os vinte anos fora de casa, no Vietnã? Como seria o contraste, ao voltar? Que EUA eles encontrariam? Como seria a sociedade? Perguntas feitas por alguém que teve que lutar para se reajustar à sociedade civil, especialmente após ferir-se na guerra, ao servir em meados dos anos 60.

E Haldeman responde isso muito bem. A sociedade que ele imagina, no exótico mundo de 2024, ano do primeiro retorno do protagonista, o soldado William Mandella, é diferente o bastante do de sua partida, nos então distantes anos 90. Haldeman foi bem além do que nós fomos na vida real, com uma ciência astronáutica bem mais desenvolvida que em nosso mundo.

Mas ele reimaginou a sociedade de forma curiosa e amedrontadora, após episódios de fome mundial e um regime de força instaurado via ONU para assegurar que a sociedade não acabasse de descambar, com uma economia girando - e dependendo vitalmente - ao redor da guerra. A sexualidade é mais aberta, mas a seguridade social se torna cada vez mais escassa pela idade, até a inexistência. Cidades são aglomerados de pessoas em vários andares, todos com problemas altíssimos de segurança, sendo prática corriqueira contratar guarda-costas. Empregos são indicados pelo governo, mas há uma prática (ilegal) de subcontratar. Comunidades agrícolas semi-independentes correm à margem das cidades e do sistema, mas têm que enfrentar ataques de bandidos organizados; tudo com uma ligeira aura sugerindo o que vai ser explicitado em obras posteriores, de Mad Max ao cyberpunk.

A única certeza que Mandella tem é a da guerra. Ele se realista após experiências pessoais ruins, ele e uma colega de armas com quem já se relacionava nos tempos do serviço (o "amor livre" era prática na caserna), a cabo Marygay Potter. E a certeza de estarem juntos é também o que os conforta... por um tempo.

Mas nem na guerra a certeza lhe bastará: relíquia do fim do Século XX, ele irá se encontrar isolado culturalmente, entre o idioma que não mais fala e até mesmo sua sexualidade. Se apesar disso ele ainda tem que comandar os seus subordinados... o Exército deve saber o que está fazendo, não? :)

Mandella é um personagem curioso. Tem QI na base de 150, o que o candidata aos esquadrões de elite, com mestrado em Física. Ao mesmo tempo, não promove debate ou parece refletir o suficiente sobre o que ocorre. Não que não entenda, pelo contrário: talvez desde o começo perceba que não há nada a fazer em um sistema que depende da guerra para funcionar e, para isso, irá sacrificar gerações não raro com requintes de crueldade e passar um milênio em uma guerra contínua. Ele não busca informações sobre processos decisórios, alternando entre tempo de serviço e no que são breves momentos de fuga. Toda a informação que recebe é para fins práticos para a guerra. Deve ter sido processo similar na Guerra do Vietnã e o inimigo de aspecto mais estranho do que a norma étnica e cultural do soldado americano, assim como cultura e idioma, garantindo, suponho, uma barreira de comunicação perto do intransponível para a maioria. Ele não reflete, ele não julga, ele não condena - ele apenas prossegue.

O livro é o segundo escrito em um mesmo universo, o primeiro havendo sido War Year (1972), baseado nas cartas que enviou para casa, quando estava na guerra. Teve a sequência Forever Free (1999), um relato do ponto de vista da personagem Potter chamado A Separate War (1999) e uma sequência temática, não cronológica, chamada Forever Peace (1997). Há ainda adaptações para quadrinhos e uma para boardgame.

É um clássico instantâneo da FC Militar, como foi dito, sendo obra que merece estar ao lado de Tropas Estelares (1959), de Robert Heinlein, da qual tirou inspiração e de quem recebeu elogios.

Editora Aleph em vários fronts.

No Brasil, A Guerra Sem Fim pode ser encontrado pela editora Aleph, que também publicou a obra acima, investindo ainda na série mais recente A Guerra do Velho (2005, John Scalzi), apresentando ao público brasileiro três marcos do subgênero.

The Forever War
244 p
Orion Press

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Omelete de Duendes

Duendes - Contos Sombrios de Reinos Invisíveis ganhou uma matéria no Omelete, com trechos de contos de Diego Guerra, da organizadora Ana Lúcia Merege e deste que vos digita. A campanha de financiamento continua, aliás.

domingo, 21 de julho de 2019

Sextas de Sci-Fi: A Conquista da Lua

Não foi bem assim que aconteceu, mas quase lá...
Nas Sextas de Sci-Fi do Blog do #Planetário da Gávea: a Conquista da Lua!

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Crônicas da FC Brasileira - Argos e a Casa Fantástica

Nas Crônicas da FC Brasileira (link na coluna ao lado) do dia 16 de Julho, Gerson Lodi-Ribeiro discorre sobre sua presença na Casa Fantástica da FLiP e a entrega do Argos 2019.  Um vídeo sobre sua palestra está aqui.

sábado, 13 de julho de 2019

PRÊMIO ARGOS 2019 - RESULTADOS!







PRÊMIO ARGOS 2019 - RESULTADOS!
A Comissão do Prêmio Argos 2019 de Literatura Fantástica deseja parabenizar os participantes e em especial os ganhadores!
Seguem os resultados, com os ganhadores sendo citados em primeiro, nas suas categorias.


ROMANCE:
A Mão Que Pune - 1890 - editora Caligari, por Octavio Aragão (livro que comentei aqui)
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Corrosão - editora Caligari, por Ricardo Labuto Gondim
O Auto da Maga Josefa - editora Dame Blanche, por Paola Paola Lima Siviero


ANTOLOGIA ou COLETÂNEA
Fractais Tropicais - editora SESI-SP, org. Nelson de Oliveira
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2084: Mundos Cyberpunk - editora Lendari, org. Lidia Zuin
Aqui quem fala é da Terra - editora Plutão, org. André Caniato e Jana Bianchi

Lovecraftiano: Volume 1 por [Galvão, Marcelo A.]


CONTOS
Sombras no Coração - in: Lovecraftiana vol. 1, autopub., por Marcelo Marcelo Augusto Galvão
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A Noite Não Me Deixa Dormir - editora Dandelion, Camila Fernandes
Entre as Gotas de Chuva, Encruzilhada - in: Aqui quem fala é da Terra, editora Plutão, por Cirilo S. Lemos

A Comissão também agradece todos aqueles que ajudaram de alguma forma, em especial à Priscilla Lhacer pelo espaço na Casa Fantástica, durante a Feira Literária de Paraty.

Um forte abraço a todos e até ano que vem!

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Sextas de Sci-Fi: Mundos Imaginados

Vulcano, antes do Sr. Spock.

Nas Sextas de Sci-Fi no blog do #Planetário do Rio, o fim da série (não da coluna!) Nossos Astros na Ficção-Científica, com o artigo: Mundos Imaginados. #Astronomia

Esperamos que tenham gostado de viajar tanto quanto curtimos pesquisar. :)

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Duendes - Meta expandida



Dica de Donana Merege:

Arthur Rackham (1867 – 1939) nasceu em Londres, numa família com doze filhos. Segundo seu biógrafo, Derek Hudson, era apaixonado por desenho desde criança e escondia papel e lápis sob as cobertas; quando sua mãe confiscava o papel, desenhava (...)

Saiba um pouco mais sobre Arthur Rackham e ajude a duplicar as recompensas de Duendes! Lá na Estante Mágica de Ana Merege.


segunda-feira, 8 de julho de 2019

Artemis

"Para Michael Collins, Dick Gordon, Jack Swigert, Stu Rosa, Al Worden, Ken Mattingly e Ron Evans. Porque esses caras nem de longe recebem crédito suficiente." - Artemis, 2019. Ed Arqueiro.

Artemis (original em inglês publicado em 2017) é o novo livro de Andy Weir, escrito após Perdido em Marte, que até virou filme com Matt Damon. Desta vez, a Lua é o alvo.

No final do Século XXI, finalmente colonizamos a Lua: é Artemis, construída por um esforço inciado no Quênia, após atrair empresas particulares de astronáutica com uma política de impostos quase nula. Diversos laboratórios e indústrias se estabelecem em seus cinco domos interconectados (temos belos mapinhas abrindo o livro), assim como comércio, turismo, serviços e atividades ligadas a uma vida civil não tão especializada.

A trama tem alguns tons noir, ao envolver gente de baixo na pirâmide social com a nata, que ostenta fachadas de legalidade: a protagonista é uma entregadora que tem uma lucrativa atividade de contrabando de pequenas regalias para quem pode pagar. Desde cedo às voltas com encrencas junto à polícia por pequenos delitos, ela tenta cavar um lugar ao sol - e a chance surge quando um de seus clientes a contrata para um ato de sabotagem fora da cidade. A trama, a partir daí, escalona para outros elementos, como monopólios, carteis do crime (destaque para "O Palácio"...) e etc.

Há algumas semelhanças deste livro com o anterior. Ambos são centrados sobre os protagonistas, tipos bastante inteligentes, muito obstinados e com uma boa dose de humor ácido, cheio de opiniões sobre cada detalhe que testemunham, vivenciam ou lembram, e que através de sua prosa informal procuram atenuar o derrame de detalhes técnicos para o máximo de leitores possíveis, ambas afinal são obras de hard science fiction

Os domos da cidade Artemis: nomes de astronautas que desceram na Lua.

Ao repetir essas semelhanças, um probleminha: por mais que Jasmine "Jazz" Bashara, aqui, seja mulher de origem saudita com problemas financeiros e daddy issues, enquanto Mark Watney de Marte é um americano branco sem maiores desenvolvimentos de antecedentes - até onde eu me lembro, ao menos -; o discurso entre ambos varia muito pouco, e essa impressão piora porque em ambas as obras a narrativa é em primeira pessoa. 

Lá pelo meio do livro até dá pra sentir um pouco mais de diferença, já que a situação em que ambos se encontram é diferente, apesar de algumas semelhanças (essencialmente dois solitários contra um ambiente hostil, mas o caso de Mark é, indubitavelmente, bem mais literal do que o de Jazz). Mas não muita.

O grande destaque é a construção pelo autor da cidade de Artemis (implicância: por que não traduziram como Ártemis? O nome da deusa é proparoxítona, na verdade, então, em Português rola acento na antepenúltima sílaba). É um ambiente detalhado e crível, seja pelos detalhes técnicos, seja pela população descrita que a habita, multiétnica e internacional. É uma boomtown controlada atrás das oportunidades na nova fronteira, e detalhes de como a economia funciona são bem apresentados aqui e ali ao longo do livro, assim como a correlação com a história em si.

Assim como Perdido em Marte, a pesquisa feita pelo autor, egresso da área da informática, impressiona pelo grau de detalhamento. E aí está um problema. Apesar, como eu disse, dele usar o máximo de um linguajar informal para diluir uma carga informativa técnica, eu senti que a prosa fluiria ainda melhor se certos detalhes fossem menos explorados: se você quiser saber como cortar coisas com um maçarico em pleno no vácuo, vá em frente, esse é o seu livro. Essa tendência piora no trecho final de Artemis, quando arriscadas situações de vida ou morte ocorrem, e a trama necessariamente fica bem acelerada: pesquisa não substitui história. Mas isso não desmerece o resultado do livro, de forma alguma, eu o devorei em dois dias.

É, antes de mais nada, uma declaração de amor ao Projeto Apolo, que levou o ser Humano até a Lua. A dedicatória que abre o livro é justa: a todos os terceiros astronautas de cada um dos voos, do XI ao XVII, aqueles que foram até a Lua - mas nunca desceram, sendo os pilotos da missão. E ao desejo que, pelo menos nos 2080s (informação via artigo na wiki, eu jurava que seria fins de 2060, dado que é dito que Star Trek tem cerca de cem anos), já estaremos lá de volta, definitivamente.

Um bom livro para ser ler às vésperas do cinquentenário do Homem na Lua.

Artemis
304 p.
Editora Arqueiro

domingo, 7 de julho de 2019

Years and Years

Acabei de ver por um acácio o 1x02 na HBO. Pelo showrunner original de Doctor Who (e a Trivia no IMDB nota as semelhanças usadas aqui e em alguns eps de DW).

É desse ano, é FC tão near future que começa ainda neste 2019 e segue pelos próximos 15 anos: colapso bancário, ecológico e geopolítico, Michael Pence, vice de Trump, agora é presidente de uns EUA tão fascista que o mundo começa a fazer sanções contra, os presidentes da China e Rússia - os próprios Xi Jinping e Vladimir Putin - se tornam vitalícios.

A série foca em uma família inglesa, com seus dramas e variedades, que será pega em cheio pela quebradeira. Os Lyons têm mais diversidade do que Sense 8, o que pode ser um pouco caricato, mas os atores seguram.

Conectividade rola solta (conferências via Echos da Amazon corriqueiras, com múltiplos participantes: o grupo de zap da família é ao vivo e em áudio), uma das adolescentes da família resolve assinar embaixo do credo transhumanista, com implantes subcutâneos que substituem parte de seu telefone.

Ao redor, o mundo deporta imigrantes como se nada fosse, um ataque nuclear americano ocorre em uma ilha artificial criada pela China em águas internacionais em disputa, Rússia controlando de vez a Ucrânia em um governo que tortura dissidentes e homossexuais, a toda hora pequenas reportagens ao fundo sobre sumiço de pássaros e insetos, aquecimento global, escassez, etc.

Os ingleses vêm pegando o jeito de fazer near future: em geral programas com gente comum, mas com um elemento tecnológico chegando e mudando tudo, deixando o julgamento mais para o espectador, ou ao menos ao meu ver. Humans é um bom exemplo.

Gostei. Ainda vem de brinde a Professora Sybil Trelawney e Mr. Claire.

Abertura de Cáprica

Ontem dia 6 de Julho foi a Galacticon, que falei mês passado. Meu amigo Ivo Heinz deu a palestra dele, e comentou que falaria sobre a Caprica (2011), "prequência" de Galactica (2004), falando de sua abertura.

É uma das minhas aberturas favoritas, pois acho riquíssima de detalhes que apresentam o drama. Fiz uma análise que, espero, ele pode ter se beneficiado em sua apresentação. Vou repassá-la aqui.

***

(0:01)
A câmera segue em um travelling contínuo até o último segundo, “sobrevoando” os núcleos principais da série: ela abre em uma cidade futurista, correndo para o prédio das Indústrias Greystone, o ambiente é automatizado e frio em tons esverdeados, e lá se encontra o empresário e cientista Daniel Greystone testando um protótipo cylon que, ao passar pela viga, transforma-se em sua filha Zoe, denotando a relação dela com os robôs. Uma segunda viga a “destransforma” para o cylon de novo, (0:12) mas passando por vegetação dando a impressão de um espinheiro, e a câmera avança por ela e revela, em cores azuladas e frias, um cemitério.

(0:14) Quatro personagens estão ali, dois homens, uma anciã e um menino. O homem à frente de chapéu está sobre uma lápide onde se lê Adama, que é o nome da família deles: ele é Joseph Adama, o pai e chefe da família, atrás, segurando um guarda-chuva, a avó, e ainda ao lado o filho William e o irmão Sam. Enquanto a câmera passa por esses dois, Sam põe a mão esquerda sobre o ombro, junto ao pescoço, de William, e afasta com a direita o paletó, revelando para a câmera antes dela sair que tem uma faca. A câmera busca a estátua de um anjo atrás dele e foca em sua mão estendida, e nova mudança de ambiente.

(0:25) A mão se fecha sobre um chip, as cores são quentes, e se vê duas personagens femininas dentro de uma igreja, uma mais velha e uma jovem: Clarice Willow e Lacy Rand. Clarice entrega-lhe o símbolo do infinito. A câmera passa por Lacy e nova mudança de ambiente.

(0:30) No topo de um prédio, com um VTOL decolando ao fundo, vê-se novamente Daniel Greystoke agora com sua esposa Amanda, a câmera vira por trás deles e vemos, entre eles, sua filha Zoe. Um zoom extra foca em um de seus olhos e vemos o brilho vermelho do olhar cylon, assim como o efeito sonoro característico. Há a primeira interrupção do travelling e temos a vista panorâmica de uma cidade futurista, fade to black e o logo da série surge, “Caprica”.

Avaliação:

A abertura sintetiza de forma primorosa em pouco mais de 40 segundos os núcleos e conflitos principais. Sob um certo aspecto, é um drama sobre duas famílias, logo no início de eventos que eles nunca terão ideia do que ocorrerá, nem seu papel na gênese de tudo, desenrolando-se décadas depois durante o massacre cylon, início da série anterior, "Galactica".

No primeiro trecho, sobre o que é a série: o nascimento dos cylons, Cybernetic Life-form Node; robôs para o combate. A transição com Zoe é a respeito da fusão de sua mente com as I.A. por trás dos robôs. Daniel Greystone também está ali não somente por ser um dos personagens principais da série, mas também mostra sua devoção para com seu trabalho, que na série aprendemos que está custando seu casamento.

No segundo trecho, a dinâmica dos Adama: em um ambiente lúgubre, a morte ronda esta família. A esposa e mãe, Shannon, e a filha e irmã Tamara morrem em um atentado logo no início da série. Ainda, a família e em seu passado eles próprios têm negócios rondando o equivalente da máfia. Ajoelhado e de costas para o resto, Joseph negligencia o filho, que cai sob a influência do tio, Sam. A passagem da câmera revelando a faca à cintura faz notar que é que um homem perigoso tendo influência sobre um jovem.


O terceiro trecho fala da questão religiosa e da manipulação da mesma pelas mãos da personagem Clarice sobre os mais jovens – ela é diretora de uma escola –, representada pela presença de Lacy. O símbolo do infinto é o símbolo dos Soldados do Um, fanáticos religiosos que provocam atentados terroristas: mas com o destino final de Lacy, isso pode ter mais significado do que aparenta, e inadvertidamente provocado por Clarice. Cabe notar que dentro da igreja está como se estivesse ventando e as cores e luzes quentes tremulam, como se estivesse tudo em chamas, senão ao redor, do lado de fora.


O quarto trecho volta aos Greystone, agora apresentando como núcleo familiar: elegantes e distantes, eles caminham no terraço de um prédio, e passam por sua filha Zoe no meio deles, sem em nenhum momento dirigirem-lhe o olhar, como se ela não estivesse ali. Ela também é negligenciada. Ela, por sua vez, olha direto para câmera, zoom in e sua fusão com os cylons é novamente sugerida.

A abertura fecha como abre, mostrando uma grande cidade futurista, antes do logotipo “CAPRICA” aparecer.

***

Em um escopo maior, já foi dito que Caprica é um retrato dos EUA: Os Greystone, assim como os Capricanos, são ou tendem a ser representados por atores que encarnariam o padrão WASP. Os Adama, gente morena de Tauron, seriam algo entre latinos ou italianos, vistos de maneira depreciativa, com laços com o crime organizado. Infiltrando-se cada vez mais, uma religião monoteísta capaz de atos de terrorismo contra religião vigente, politeísta.

Pessoalmente acho que não fez sucesso por acabar fundindo dois gêneros que não pensa em apresentar normalmente: a sopa opera, ou novela americana, com seus dramas familiares de casamentos em crise e filhos problemáticos; e uma temática de ficção-científica. Pessoalmente eu lamento que tenha sido cancelada em tão pouco tempo.

Luiz Felipe Vasques
28.06.2019

sábado, 6 de julho de 2019

Links novos ao lado - Cantinho do Gárgula e Estante Mágica

Dois lugares legais:

A Estante Mágica de Ana Lúcia Merege é o blog da minha e escritora de Fantasia, sobre literatura fantástica e eventos.

O Canto do Gárgula é do meu prezadíssimo Daniel Braga, devotado também à literatura fantástica e com uma pegada mais para o Terror/Horror. Daniel também é um dos autores do boardgame Labyrinx.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Sextas de Sci-Fi: As Estrelas do Firmamento


Diferentes desenhos, diferentes culturas, mesmas estrelas.

Nas Sextas de Sci-Fi de hoje, no Blog do #Planetário da Gávea: Nossos Astros na Ficção Científica - Estrelas e Constelações.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Duendes - Contos Sombrios de Reinos Invisíveis na Catarse.me

Outra belíssima capa!


A mais nova antologia organizada pela editora Draco está em financiamento coletivo aqui. É de fantasia sombria, envolvendo o Povo Pequeno da floresta, em várias visões folclóricas diferentes ou de inspiração mais pessoal.

Das informações no link,

"O livro foi organizado por Ana Lúcia Merege, que também colabora com um conto. Os demais autores são Aya Imaeda, Simone Saueressig, Isa Prospero, Cristina Pezel, Diego Guerra, Luiz Felipe Vasques, Silas Chosen, Daniel Folador Rossi e Sid Castro."

Espero que gostem!

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Galacticon

Meu excelentíssimo Ivo Heinz vai dar uma palestra sobre prós e contras de prequels na Galacticon, evento dia 6 de Julho de 2019.

Será na Biblioteca Municipal Viriato Corrêa em São Paulo - SP. O endereço completo é Rua Sena Madureira, 298, Vila Mariana. A biblioteca fica entre as estações do metrô Vila Mariana e Santa Cruz (Linha 1 – Azul); a estação Vila Mariana é mais próxima.

Vai falar sobre Caprica e sua abertura, preparei algo que pode ajudá-lo, depois posto aqui. 

Sextas de Sci-Fi: Asteroides e Cometas





Na coluna de hoje das Sextas de Sci-Fi tem Nossos Astros na Ficção Científica: Asteroides e Cometas #Planetário #Astronomia

Já nos aproximamos do fim da jornada!

terça-feira, 25 de junho de 2019

A Fábula do Príncipe Narseu

A Fábula do Príncipe Narseu, 2019

De tempos em tempos, surge um livro singular em nossas vidas. Na minha, creio que A Fábula do Príncipe Narseu, de Paulo Gravina, é um desses. Em sua apresentação, abre com uma dedicatória "àqueles para quem os desgostos do mundo não derrotaram a capacidade de fabular".

É bastante fácil defini-lo: uma fantasia infanto-juvenil, dentro da jornada do herói, envolvendo terras estranhas e gentes de colorido próprio, um bastardo que irá salvar a princesa e o reino.

Ao mesmo tempo, não é tão fácil seguir apenas por aí: mesmo com influências identificáveis em folclore europeu, ele é um livro singular, investindo na singularidade de povos, lugares e mesmo cosmologia e sistema de magia, alfabeto e sistema numérico - o worldbuilding é caprichado, e apresentado de forma a não atrapalhar a narrativa, mas enriquecer.

A linguagem é simples apresentando um rebuscado aqui ou ali, na medida de uma certa estranheza - com Mestrado em Letras, o autor conscientemente buscou essa junção, tudo para o construir de uma fábula - ou assim passa essa impressão - ao mesmo tempo que o passo da história é curto, sem se detalhar, mas também não deixando uma impressão de deixar a dever algo... fora saber de mais histórias, em um mundo tão detalhado que, ao mesmo tempo, é tão somente sugerido.

Acompanha a narrativa as belas imagens em p&b da artista Luci Villanova, com direito a um mapa, que ajuda a apresentar o mundo e as ideias, margeando letras e apresentando sonhos - é de sua pena, também, logo no início, o mapa de Trissena, 'a estrela nova', para nos ajudar a viajar.

A Fábula do Príncipe Narseu é um livro que, nos dias de hoje, entre a taquicardia das sensações e obtusa objetividade oferecida e cobrada, talvez ouse ser uma fábula.

E fabular - sempre - é preciso.

A Fábula do Príncipe Narseu
70 p.
Editora Cândido (selo Candinho)

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Prêmio Argos 2019 - Finalistas

Eis os finalistas nas 3 categorias do Prêmio Argos 2019 de Literatura Fantástica,  da qual faço parte da comissão organizadora, premiação promovida pelo Clube de Leitores de Ficção Científica. Estão em ordem alfabética.

A disputa esse ano foi interessante, com uma das categorias disputando cabeça a cabeça o primeiro e segundo lugares, enquanto em outra o ganhador abriu mais do que sete corpos de vantagem sobre a segunda posição.

Bacana ver alguns nomes que fizeram bonito no Prêmio LeBlanc aqui se repetindo.

ROMANCE:
A Mão Que Pune - 1890 - editora Caligari, por Octavio Aragão
Corrosão - editora Caligari, por Ricardo Labuto Gondim
O Auto da Maga Josefa - editora Dame Blanche, por Paola Siviero

ANTOLOGIA ou COLETÂNEA
2084: Mundos Cyberpunk - editora Lendari, org. Lidia Zuin
Aqui quem fala é da Terra - editora Plutão, org. André Caniato e Jana Bianchi
Fractais Tropicais - editora SESI-SP, org. Nelson de Oliveira

CONTOS
A Noite Não Me Deixa Dormir - editora Dandelion, Camila S. Fernandes
Entre as Gotas de Chuva, Encruzilhada - in: Aqui quem fala é da Terra, editora Plutão, por Cirilo S. Lemos
Sombras no Coração - in: Lovecraftiana vol. 1, autopub., por Marcelo Augusto Galvão

A premiação com o troféu do Prêmio Argos será em 13 de julho de 2019, às 19h30 na Casa Fantástica da Flip na cidade de Paraty-RJ.

Os finalistas que não puderem estar presentes ou nomear representantes, devem desde já entrar em contato com a organização do Argos através de: premioargosclfc@gmail.com

Parabéns a todos os concorrentes!

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Sextas de Sci-Fi: Conan Doyle, Escritor de FC

A coluna no blog do #Planetário do Rio tem se mantido estável, em seu ritmo semanal, o que é bom. Nessa Sexta de Sci-Fi, o texto Conan Doyle, Escritor de Ficção Científica, é do meu prezado Carlos Orsi. #astronomia

Criador, ladeado por intérpretes de sua criatura mais famosa.

Pessoalmente, eu acho que a ideia da elaboração de um método científico na investigação de cena de crime, proposta nos escritos de Sherlock Holmes e que mudaram a investigação na vida real, já qualificaria uma espécie de “lugar de honra” das histórias do Detetive dentro do gênero.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Bartolomeu

Bartolomeu, de Victor Moura. Editora Caligari (2018)

Bartolomeu é a graphic novel do quadrinista Victor Moura, e conta uma história de gente normal, gente que queria ser normal, gente nada normal e o fim do mundo - senão, quase.

O personagem-título é assombrado desde criança por coisas assustadoras que só ele vê, e dá um jeito de viver bem com isso, na medida do possível. Depois de crescido, sabe sobre o que tudo se passa com ele, e reluta trilhar o caminho que dele se espera, preferindo a simples e limitada existência meramente humana. Obviamente que isso não pode ser possível.

Já vimos essa história? Já, e algumas vezes. Assim como das melhores vezes, Bartolomeu é muito bem feito. Em resumo, é como John Constantine fosse desenhado por Mike Mignola (Hellboy), vivesse na Lapa, Rio de Janeiro, entre bares de segunda onde toca violão e uma oficina de carros onde tira seu sustento - e tomando corrida de Coisas Que o Homem Não Deve Conhecer entre uma viela sombria e outra.

A afirmação de que "todos têm demônios interiores" ganha novos contornos aqui, gostosamente literais. Os demônios de Bartolomeu não apenas torturam e assombram, mas por vezes são torturados por aquilo que um dia foram e agora são, assombrados por uma realidade que não dominam nem nunca dominaram, estando a mercê de forças maiores do que eles - tem sempre um tubarão maior nessa praia.

A arte, em preto-e-branco, expressa e impressiona, pintando uma cena urbana insegura, onde nunca se sabe o que vai se encontrar após a próxima esquina. A escolha do autor de deliberadamente desenhar olhos de íris ou pupila novamente acerta o alvo, trazendo uma pequena dose de inquietude ao se ler.

Outro gol da pequena editora Caligari, que também acertou muito bem com Teocrasília, já resenhada. Não foi à toa que, no último 9 de Maio, quinta-feira, Bartolomeu ganhou o Prêmio LeBlanc de Melhor HQ Nacional Publicada por Editora. Devidamente merecido, e espero que venha mais.

Faixa-bônus: eis o canal de Bartolomeu no youtube, com trilhas compostas para o personagem e a HQ.

Bartolomeu
116 p.
Editora Caligari

domingo, 7 de abril de 2019

Best Science Fiction Books

Muito bacana o Best Science Fiction Books. Não só elenca listas legais de recomendação mas dá uma geral sobre temas e subgêneros da FC. Vale à pena fuçar.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Prêmio LeBlanc 2019

Divulgação. E aquele zumbido no primeiro dia de circo na rua. Votem, divulguem, participem.

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O PRÊMIO LE BLANC ESTÁ DE VOLTA

É chegada a hora de votar no II Prêmio Le Blanc. E este ano, além de premiarmos os expoentes nos campos de Histórias em Quadrinhos, Animação e Literatura Fantástica, temos uma novidade: GAMES.

Mais uma vez, a Universidade Veiga de Almeida uniu esforços à Escola de Comunicação da UFRJ para organizar e realizar o prêmio, que terá troféus para os ganhadores, distribuídos no dia 9 de Maio na Semana Internacional de Quadrinhos.

A votação será inicialmente por critério de voto popular, encerrando-se no dia 14 de Abril. Qualquer um poderá indicar suas obras favoritas do ano passado! Depois, um júri especializado analisará os finalistas e escolherá os grandes vencedores.

A #SIQ deste ano vai do dia 7 a 10 de Maio de 2019. Aguardamos vocês!

Seguem os links para votação nos comentários. Votem. Indiquem. Compartilhem.

CÉDULAS

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Voto para Ficção especulativa/literatura fantástica: tinyurl.com/yy6v2dj9

Voto para Animação: tinyurl.com/y58y8wha

Voto para História em Quadrinhos tinyurl.com/y6tntlx5

Voto para Games: tinyurl.com/yxljdbwh

segunda-feira, 4 de março de 2019

O jornalista, o escritor e o aviador

O jornalista, o escritor e o aviador, de Aluízio Falcão Filho (2007)

Spoilers abaixo.

Essas pesquisas em prol do Fevereiro Verniano têm a vantagem - como toda a pesquisa - de nos revelar coisas legais tangentes ao objeto de estudo - por vezes, mesmo desvirtuando um pouco da pesquisa em si... e, claro, haja foco.

Juntando com outro interesse meu, vim a descobrir este livro, O jornalista, o escritor e o aviador, de Aluizio Falcão Filho. Não é a primeira vez que esbarro em um livro tendo Santos-Dumont como personagem: a autora (diretora, atriz e dramaturga) Karen Accioly escreveu "Os Meus Balões" (título de um livro de Dumont) como opereta infantil e a recontou em forma de livro, sobre encontros de Verne e Dumont (que uma sinopse diz não terem ocorrido). "Santos-Dumont Número 8 - Um grande mistério será revelado...", de Claudio Soares (Universo dos Livros, 2008) assume o tom 'segredo revelado do passado', à maneira deste de agora, para explorar o ano de 1908 em reclusão de Dumont, em que ele nunca executou nenhum de seus projetos, por crer que '8' dava azar.

Em "O jornalista...", temos um protagonista jornalista (qual o autor) que, após um inesperado enriquecimento, resolve se dedicar a um projeto próprio, investigando o provável relacionamento entre Santos-Dumont e Júlio Verne. Na vida real, é incerto se os dois se conheceram pessoalmente: mas tanto Dumont era apaixonado por seus livros quando jovem quanto Verne ao morrer já admirava os esforços de Dumont - pelo que conta Paul Hoffman em seu excelente Asas da Loucura e que é parte da bibliografia da obra, conforme correlação ao final.

E o que ele descobre é motivo de conspirações, experimentos proibidos, envolvimento com terroristas e algumas reviravoltas. O livro se dá de maneira ágil e divertida, e recomendo como bom passa-tempo, ainda levando em conta questões da vida pessoal do protagonista, praticamente o único personagem desenvolvido na história. Tudo isto é desenvolvido em três "vozes": duas no presente, com o ponto de vista do protagonista quanto narrador onisciente; e o p.d.v. que realmente achei interessante no livro: narrativas passadas durante a vida de Dumont e seu envolvimento com Verne, as ideias que tiveram, e o que se passa por trás de seu suicídio em 1932. Figuras históricas dão o ar da graça aqui e ali nesses trechos, além de um misterioso personagem que, aparentemente, surge em ambos os períodos - e está bom de spoilers por aqui.

Pessoalmente, preferia ter visto os vilões desenvolvidos de uma maneira melhor. Achei que algumas reviravoltas e motivações não exatamente funcionam, e sendo de 2007, ainda pegou o mote do terror islâmico radical. Talvez na época fosse o bastante para impulsionar a história, mas passado já certo tempo, talvez se precise mais hoje em dia.

O jornalista, o escritor e o aviador
368 p.
Editora Clio

domingo, 3 de março de 2019

História de sua vida e outros contos

História de sua vida e outros contos, por Ted Chiang (2002)

História de sua vida e outros contos é a coletânea do autor norte-americano Ted Chiang lançada no Brasil em 2016 pela ed. Intrínseca, acompanhando o lançamento 14 dias depois nos cinemas do ótimo A Chegada, filme que se inspira no conto título do livro.

Não conhecia o autor, até esta coletânea, cujo interesse, claro, veio do filme. Achei a prosa não raro analítica e fria, mesmo no uso da primeira pessoa, como em Entenda! (claro, vemos que aqui é totalmente justificável), o que curiosamente não quer dizer que suas histórias não envolvam.

A Torre da Babilônia nos leva a uma versão mágica da mesma, seguindo uma premissa do Antigo Testamento sobre a Torre de Babel: e se ela alcançasse o céu, em desafio a Javé? Sabe-se que os babilônios nunca pretenderam isto, na verdade a torre - o zigurate do templo dedicado ao deus-mor Marduk - erguia-se para que os deuses descessem do céu à terra, mas, como indica o destino da torre no Livro do Gênese, algo se perdeu na tradução.

O resultado é uma viagem com imagens poderosas, de uma construção que passa séculos sendo construída, até que efetivamente toca a abóbada celeste, após passar por um céu ptolomaico e a ordem de suas esferas celestes, e com um final... revelador, por assim dizer.

Entenda! é uma história sobre super-inteligência em que acompanhamos, em primeira pessoa, o desenvolvimento galopante do intelecto de um homem para níveis bem acima da norma. Achei muitíssimo semelhante a Sem Limites, filme de 2011 (que gerou uma série em 2015, infelizmente já cancelada), embora haja aqui um senso de Transcendência e Revelação - não no sentido espiritual - que o filme não se aproxima (coisa que o filme Lucy, de Luc-Besson, trabalha), especialmente no trecho final. A inteligência na ficção-científica já rendeu ótimas histórias, e essa é uma delas.

Divisão por Zero é um conto curto, desenvolvendo uma questão teórica de matemática e apresentando os princípios por trás, o que não é para todos os públicos, em paralelo ocorrendo o relacionamento da cientista que chega a conclusões que lhe soam pessoalmente apocalípticas. É um conto curto, com uma conclusão em aberto, e a sombra de que não será agradável para os envolvidos.

A história de sua vida rendeu, como já dito, o filme A Chegada, e vemos que como adaptação funciona muito bem, por mais liberdades que o roteiro tome: o conto consegue ainda ser mais críptico do que o filme, debulhando detalhes sobre como uma raça realmente alienígena poderia se comunicar. Como um conto de FC que explana em detalhes como funciona a propulsão hiperespacial ou a máquina de viajar no Tempo, aqui ele se desdobra sobre como a lógica de uma linguagem alienígena pode acontecer, e o que fazer para compreendê-la.

O filme ainda mantém a ideia original: se, como é dito, idiomas reprogramam o cérebro de maneira particular, como um idioma alienígena influenciaria o cérebro humano em sua forma de pensar e perceber?

72 Letras propõe uma Inglaterra Vitoriana onde a magia é conhecida amplamente,  e o sistema mágico é derivado da lenda do Golem, onde um ser de barro era animado após se inscrever uma palavra em hebraico em um papel e inseri-la na boca do ser. Revolução Industrial, política e classismo ingleses se juntam a uma trama de uma proposta riquíssima onde, novamente, a construção de linguagem é a peça-chave por trás de tudo.

A Evolução da Ciência Humana tem o tom de um artigo, e é um take sutil no tema do transhumanismo. É o mais curto do livro.

O Inferno é a ausência de Deus fala sobre o que aconteceria se a fé não dependesse mais do mistério, sendo manifestações de Céu e Inferno atestáveis, e como ficaria a devoção mediante ao que se passa a experimentar.

Gostando do que vê: um documentário lembra uma narrativa epistolar, mas em vez de cartas, sendo em depoimentos colhidos para o documentário do título. A história se passa durante um engajamento universitário americano sobre um método reversão de indução de "caliagnose", uma lesão cerebral que corta nossa capacidade de apreciar um rosto por sua beleza física, escapando assim à ditadura dos padrões comerciais da moda e possibilitando pessoas a apreciarem umas às outras pela dita beleza interior, conteúdo, etc. Os depoimentos variam entre pós, contras e nem tanto um como no outro, interesses comerciais por parte da indústria de cosméticos, e etc. Propõe mais encontrar pontos de vista a respeito da questão do que declará-la assim ou assado, então a encerrando. Tal qual como no conto anterior, a ideia de uma solução direta para um problema não necessariamente é algo simples e benéfico.

Depois dos contos, há um posfácio com a palavra do autor contando um pouco da origem dos contos e suas ideias ao leitor.

Achei curioso como a necessidade de uma nova linguagem, ou o reimaginar da linguagem, é tema em quase todos os contos da coletânea. Sem dúvida Ficção-Científica excelente, daquelas que põem para pensar. Bola muito dentro da editora Intrínseca. Recomendadíssimo.

História de sua vida e outros contos
368 p.
Ed. Intrínseca

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Certamente, Talvez

Certamente, Talvez, por Arkady e Boris Strugatsky (1980)

Sabem quando você precisa se concentrar para terminar um trabalho, e você apenas não consegue? Não consegue, percebam, não por ansiedade, dispersão ou a última treta imperdível no facebook ou twitter: não, você está lá, sério, compenetradão, se bobear até gostando do que tá fazendo -- não, do que quer fazer, seja  para a faculdade, para o trabalho, para alguém ou para si mesmo... e simplesmente não consegue? Não consegue porque o telefone insiste em tocar o dia inteiro por qualquer motivo ou motivo nenhum, porque a campainha da porta toca como nunca, porque alguém aparece "só pra dizer uma coisinha", e assim, sucessivamente? Sabem esses dias?

Que parece até que o universo conspira contra?

Os irmãos Strutagtsky certamente sabiam, e transformaram um dia assim em um livro.

Certamente, Talvez foca nos esforços do cientista Dimitri Malianov em terminar o que pode ser sua obra máxima, no terreno da Física, e em um grande avanço para ciência mundial - se ao menos o deixassem trabalhar em paz.

Nos dois dias da trama, um desfile de estranhas ocorrências e personagens excêntricas passam pelo apartamento do protagonista, trazendo sempre consigo algo um ar de quem sabe mais do que está disposto a revelar, deixando o pobre Malianov cada vez mais perdido e confuso.

Entre os tipos excêntricos também estão seus amigos cientistas, percebendo que, cada um em sua área, estão com alguma espécie de contribuição extremamente importante prestes a concluir, mas que em suas vidas se deparam com sequências de interrupções inexplicáveis. Tudo isso sob alguma vodca, patês ou chá, com o clima de paranoia casando com a descrição de um calor de verão inclemente, apartamentos bagunçados e um princípio de decadência urbana cotidiana. Paranoia esta crescente junto do sentimento, assim como as sucessivas hipóteses sobre quem está contra os próximos e vitais passos do desenvolvimento científico da sociedade.



Dias de Eclipse (1988), adaptação para o cinema.

Não é das leituras mais convencionais. É um livro sobre análises sobre uma situação incomprovável e indescomprovável  de um problema, que fica à mercê de hipóteses favoritas de cada um ou não, o que significa que é um livro baseado em diálogos.

Mais do que diálogos, fragmentos, conforme quando começa cada capítulo, uma sutil mudança de câmera desde a última situação se desenrolando, pegando um diálogo pelo meio, embora isso não trunque a compreensão do texto. Apenas apresenta ao leitor o ponto de vista dos personagens, em que há especulação demais e certezas de menos.



Certamente, Talvez
120 p.
Civilização Brasileira

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Planetário...

Estreando como colunista semanal de FC no blog do Planetário da Gávea. :) Primeiro texto, sobre o aniversário de Júlio Verne, sexta dia 8 agora.

Vai ser divertido. :)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019