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sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

Megalopolis


Esse lightsaber tá diferente...

Alerta: SPOILERS A SEGUIR.

Megalópolis (2024) é a ousadia de um veterano do cinema. Francis Ford Coppola, ao longo de décadas de carreira, dirigiu/produziu clássicos do cinema americano como Drácula de Bram Stoker, Apocalypse Now e, claro, a trilogia de O Poderoso Chefão, e agora nos brinda com uma obra de ficção científica.

É um filme autoral, com uma história de 40 anos entre a concepção, desenvolvimento, desilusão, retomada e execução: custou 120 milhões de dólares (parte do diretor, que investiu em sua vinícola por muito tempo visando o filme) e arrecadou, mundo, pouco acima de 14 milhões.

Metrópole: mais do que uma referência, um autêntico ancestralato.

Mas talvez seja daqueles flops que valham a pena assistir. Não é um filme convencional - pelo menos, até um certo ponto, visto mais abaixo. Mas, até lá, a história se passa em uma cidade fictícia no lugar de Nova York chamada New Rome, passando por uma forte crise habitacional, em que uma velha área deve ser derrubada para um novo investimento: a competição é entre o projeto do prefeito, que quer instalar cassinos e gerar empregos, e o do arquiteto que quer transformar a cidade em uma utopia urbana, especialmente de posse de um novo material empregado em construção que inventou, chamado megalon. Mas essa reforma é bem cara, e com resultados não imediatos.

Retrofuturismo at its finest.

Temos aqui um "vilão clássico" de alguns filmes: a corrupção pela especulação imobiliária, e a participação da Máfia nisso e seu envolvimento com a política. Sendo o diretor quem é, não é exatamente um elemento desconhecido de sua obra. Essas ligações, por outro lado, dão espaço para mais níveis do roteiro, que inclui política e filosofia, além de estética - tem uma ótima resenha no Cinegnose sobre isso.

Mais do que a questão estética, explorando com excelência o neo-classicismo (além do art-decô) urbano de NY, a "Nova Roma" se mostra no conflito romano histórico entre os senadores Marcos Túlio Cícero e Lúcio Sérgio Catilina, em que o primeiro acusava o segundo de conspiração para almejar o poder. O famoso discurso de Cícero, as Catilinárias, é citado na fala indignada do prefeito. Não é o único monólogo pré-existente inserido no texto, o Ser ou Não Ser shakespeariano também está lá.

O passo de fé para o amor e a esperança.

O conflito de projetos é o conflito de dois homens e suas visões: pelo cassino e o pragmatismo, o prefeito Cícero, pela utopia, o arquiteto César Catilina; respectivamente interpretados por Giancarlo Esposito e Adam Driver. Eles lideram um elenco de peso com - dos nomes que eu conheço - Aubrey Plaza (Wow Platinum), Shia LaBeouf (Clodio Pulcher), Jon Voight (Hamilton Crassus III), Laurence Fishburne (Fundi Romain), Dustin Hoffmann e mesmo uma Talia Shire (Constance Crassus Catilina), a "Adriaaaaaan" de Rocky - um Lutador e Connie Corleone.

E é também em suas atuações que se vê a marca autoral do diretor, que consta estimular improviso e a mudança de última hora nas falas; ajudando na - boa - estranheza em tudo o que se vê. O elenco me parece estar plenamente de acordo com tudo, resultando em personagens complexos e caricatos ao mesmo tempo, entre conspiradores e invejosos, aproveitadores e idealistas, parcialmente firmados não só ao que se espera deles em uma história, mas a seus papéis na História.


A Nova Roma em si é um espetáculo. É exagerada e cafona, seja em cenários internos e externos, seja em comportamentos e costumes - como se espera que a Antiga Roma seja -, como na hora do declínio do império. É uma overdose visual que Coppola nos apresenta, e ela é irretocável.

Havendo considerado tudo isso... 

Não me escapa que, mesmo assim, apesar de todo o experimentalismo, há muito de um cinema convencional no núcleo de tudo. Os bons triunfam, os maus perdem e perecem - ou, como muito bem me alertaram, pode fazer parte da engenho/ingenuidade proposital do filme, sendo portanto uma questão estética. 

Ok até aqui, mas me incomoda um pouco que, na hora da punição, a morte de Aubrey Plaza esteja explícita, e a de Shia LaBeouf, por maior que seja a referência ao destino de Mussolini (digna de um personagem radical de direita), é apenas implícita - como dizem, sem corpo, sem crime: a pecadora é gráfica e sumariamente punida, o pecador é deixado ao tribunal da mente do espectador. Acho estranho para os dias de hoje, mas isso pode ser apenas eu.

A amante desprezada.

Ainda, a cidade de Nova Roma ganha: a crise habitacional dado momento é substituída por uma catástrofe, quando o satélite soviético Cartago despenca sobre a cidade quase a destruindo por inteiro, e o megalon é a única solução possível. Não bastasse, as coisas se consertam na medida do possível, com o arrependimento de Esposito e o oportunismo de Voight, este, ao fim da vida - e do filme - dedicando sua vasta fortuna em benefício da reforma: a massa apenas aparece para ser manipulada por parte da elite da cidade, e salva pela outra parte.

Perdura também uma "lição de moral" bem ao gosto do americano médio, sobre a necessidade de "ir em frente", to move on, e deixar as dores e culpas do passado no que já foi, aceitar e ficar bem com as novas conquistas. 

Por último, há também uma espécie de ranço ayn-randiano no protagonista: afinal, é um arquiteto genial incompreendido por muitos, invejado e detestado por gente em posição de mando e que não tem seu brilho. Aqui, ele ainda é o inventor do megalon, e mesmo consegue manipular o próprio Tempo, como figura para a visão que ele tem. Acho que particularmente essa referência ideológica é inevitável para o diretor, cuja geração não conseguiu escapar ao fascínio dessas ideias.

A coisa toda conspira na direção de um final feliz. Bem, há uma resenha muito boa de Raissa Ferreira em seu blog, que fala, entre outras coisas, da escolha pelo otimismo e esperança - algo cada vez mais necessário em nossas histórias, nestes dias que passam. O que é corretíssimo - mas, a princípio, me passou a ideia de que seria um engessamento de alguma fórmula antiga. Novamente... pode ser apenas eu.

Tudo isso, portanto, torna o filme não tão avançado como a forma tanto sugere... mas, definitivamente, não impede de ter seu brilho próprio.

Sendo assim, no final das contas fico feliz que Megalópolis tenha sido feito: e recomendo de coração.


quarta-feira, 8 de maio de 2024

2x Godzilla

Aviso: SPOILERS a seguir (sim, é Godzilla, eu sei, mas sempre tem um...)

Assisti a Shin Godzilla (2016) e Godzilla Minus One (2023). A maratona kaijuística me mostrou dois filmes diferentes, dentro do velho tema - desde os anos 60 - do lagartão radioativo que invade Tóquio, com algumas similaridades (além do protagonista e seu passeio predileto).

Cabe notar ainda que ambos os filmes não pertencem ao título em andamento nos cinemas de rinha de kaiju (Godzilla vs Kong, Rei dos Monstros, etc.).

Gostei da ideia de drama histórico.

Em G-1, a história se passa nos primeiros fins da II Guerra Mundial e a capitulação do Japão, onde um ex-piloto de aviação chega em uma ilha de apoio e reabastecimento aéreo, com uma equipe de mecânicos à espera de qualquer ocorrência: logo fica claro que o piloto é um kamikaze que mudou de ideia na hora, e com essa vergonha ele vai ter que viver. Naquela mesma noite, Godzilla surge na ilha, e devasta a tudo e a todos, menos o piloto e o chefe dos mecânicos. É, entretanto, uma versão bem menor do titã a que estamos acostumados, ainda maior que um tiranossauro, mas também nem tanto. Eles sobrevivem e rumam para Tóquio, ainda arruinada pelo fim da guerra, onde perdem contato por alguns anos e boa parte do filme, que agora foca no piloto. Anos mais tarde, após a Operação Crossroads, de testes nucleares americanos conduzidos no atol de Bikini, Godzilla se torna o que esperamos ver e, pobre Tóquio. 

Ok, realmente maior que um tiranossauro...

O filme acaba sendo mais sobre a redenção do piloto, focando em um drama pessoal de reconstrução, nessa mesma Tóquio e Japão em seus difíceis anos do pós-guerra.

Estilosaaaaaço!

SG se passa nos dias de hoje, em uma moderna Tóquio onde, na baía, uma forma de vida gigantesca e desconhecida começa a atazanar a vida do cidadão comum. Ela saí do mar e começa a se empurrar pela superfície, molenga como é, pois é uma vida marinha, ganhando sustância através de uma das suas duas ou três "evoluções" ao longo do filme. Godzilla, aqui, é parte de um mistério biológico, tanto de onde ele veio (fundo do mar, alterado por detritos radioativos lançados no fundo do oceano), até como ele realmente "funciona": pois há períodos onde ele "desliga" ou desiste de avançar, o que dá uma pausa para a cidade respirar e procurar evacuar; e é nisso que o filme se destaca. 

A seguir, em Ultraman

Ao contrário do anterior, bastante linear e convencional, aqui temos em cortes rápidos e sequências banais reuniões, reuniões e mais reuniões de escritórios, desde os do Primeiro Ministro até entre cientistas, técnicos e mesmo teóricos da conspiração: Godzilla agora se revela um problema político (o que pra mim foi um take originalíssimo). Não há um protagonista (humano) propriamente dito, embora dois personagens, com agendas próprias, talvez possam ser apontados assim.

Godthiccla

Ambos os filmes tratam os EUA como um problema, na hora de solucionar Godzilla: em G-1, uma operação militar em larga escala - o Japão está sem nenhuma capacidade militar - pode deixar os soviéticos nervosos. Em SG, a solução americana é a do tacão, incluindo aí bombardear Tóquio com bombas H, tentando gerar mais calor, radioatividade e destruição do que o monstro consegue absorver - e não há certeza se vai dar certo. Tóquio, é claro, adeus.

Os dois filmes também tratam o próprio governo com desconfiança. Em G-1, há um governo excessivamente submisso aos EUA, e em SG, um onde, afinal, Godzilla virou um problema político e o qual leva muito tempo para decidir o próximo curso. 

Let's go dieselpuuu-unk!

Por final, ambos coincidem em duas coisas: no tratamento dado "rebuild from scraps", reconstruir a partir dos restos, das sobras, especialmente em G-1, mostrando o Japão que se reconstrói ano após ano, refletido na vizinhança onde o ex-piloto passa a morar (vale destacar, a família que ele passa a ter). Em SG não há muita oportunidade de demonstrar isso, uma vez que a devastação final foi impressionante, mas nada em escala nacional: porém, esse espírito é mais citado nas falas de personagens. É algo que parece ser consciente, no imaginário daquele país. Adiciona-se a isso o espírito voluntário: em G-1, com a inabilidade do governo, a esperança está no voluntariado das pessoas comuns, especialmente quem serviu na guerra. Em SG, a ideia da "sociedade unida" é mais sutil, mostrando os grupos de trabalho e a ideia da participação de companhias, quando uma solução não - tão - destrutiva é tentada,

O que leva à segunda coisa em comum: a derrota - será? - de Godzilla pela inteligência, e não pela truculência: deixado claro, isto como preferiam os americanos.

Vai. Irrita mesmo.

O ritmo de SG pode não ser o mais frenético, e ainda o mistério bioquímico de Godzilla foi um pouco demais pra mim, mas ainda considero um bom filme. Sob um certo aspecto, pareceu que arrisca mais do que G-1 que, como disse, é uma narrativa mais convencional. Mas gostei de ambos.

domingo, 26 de novembro de 2023

Resistência (The Creator)


Gareth Edwards e todos os nossos finais felizes mediante o apocalipse.

SPOILERS ABAIXO

Podemos pensar em uma escola de direção de hardware militar, da qual os decanos do curso certamente seriam James Cameron e Michael Bay. Mas, provavelmente beneficiado pela liberdade do roteiro de "apenas" 80 milhões de dólares, o mesmo Gareth Edwards que dirigiu Rogue One consegue em Resistência contar uma história talvez mais ao seu gosto, do que sofrendo interferências como no outro caso, e manter o 'military porn' em níveis satisfatórios - embora me pareça que não sejam poucas as correlações entre ambos os filmes.

Temas e estéticas do filme podem ser encontrados em uma genealogia que inclui "criancinhas mágicas" hi-tech que inclui I.A. (Spielberg) e Metrópolis (Otomo); o reconhecimento de direitos de robôs/inteligências artificiais como base para levante social e motivo pra guerra no pano de fundo do universo de The Matrix, assim como os replicantes de Blade Runner (uma das referências declaradas do autor).

No aspecto do aprimoramento da robótica, o filme também meio que é uma História Alternativa, com o avanço da pesquisa de inteligência artificial já deixando robôs participarem das tripulações do ônibus espacial nos 1980, conforme a "recapitulação histórica" do início. as inteligências artificiais são um fato comum na vida do planeta. Há robôs e simulantes, que são robôs de aspecto externo bastante humanos (a FC costuma chamá-los de andróides), inclusive com "aparências doadas" por seres humanos, em todos os setores da sociedade.

No meio do caminho, entretanto, uma bomba atômica atinge Los Angeles matando um milhão de pessoas, e a responsabilidade recai sobre as IAs (isso é esclarecido depois como um acidente, mas para nenhum efeito prático) que deveriam defender o país. Isso deixa os EUA, em nome do 'ocidente' (lá pelas tantas deixam de usar 'ocidente'), uma vez eleito um novo inimigo, um país vilanesco e agressivo.

Military porn: hardware e a estética futurista da opressão.

Enquanto isso, no oriente, nas nações da tal "Nova Ásia", as IAs eram rotineiramente mantidas em segurança e integradas à sociedade, sofrendo com os ataques contínuos americanos. A capacidade tecnológica deixa os robôs auto-conscientes e, no processo, capazes de tanto afeto quanto o ser humano. Há robôs que ocupam o cargo de sacerdotes e monges, como é demonstrado, havendo encontrado inclusive significado na espiritualidade: é isso ou "é tudo programação", como se insiste que seja pelos olhos dos ocidentais?

O filme, portanto, tem diversos componentes do leste asiático, entre cenário e elenco, enriquecendo a disposição futurista da trama, ao se passar em 2070 e não se limitando a um cenário totalmente americano, idealizado no progresso ou na derrota. Há um quê de "paraíso tropical conspurcado por ações militares" que também está em Rogue One, o que me faz perguntar se não é uma preferência também do diretor - embora, claro, não seja o único a abordar esse tipo de contraste.

Ken Watanabe e uma espécie de Caminho do Meio: o retrato da última guerra, antes da Singularidade?

A retratação dos "povos asiáticos" sem definição, mas assim mostrados, é a tolerância e complacência  (mesmo quando pegando em armas e lutando para sobreviver) com as quais, afinal, atraíram a ira americana ao receberem sem reservas os robôs em seu meio. Na insistência de um EUA vilanesco e agressivo, talvez se compense o que talvez seja uma forma elogiosa de orientalismo? Cartas para a redação.

A história em si passa pela terceira variação que assisti esse ano, após O Mandaloriano e The Last of  Us, do cara truculento que tem que proteger uma criança desconhecida durante um trajeto e vai amolecendo no processo por causa do elo que, a contragosto, desenvolve com a criança. Ao menos, dessa vez, não foi com Pedro Pascal. :) Igualmente, foi a terceira criancinha mágica do ano (ela é a escolhida/tem em sua biologia um segredo/é híbrida de partes improváveis e/ou opostas/etc).

Criancinhas mágicas: a forma das coisas que virão.

A trama é mais complexa do que isso, com um soldado ocidental infiltrado entre guerrilheiros orientais para encontrar um grande projetista de IAs para assassiná-lo mas que se afeiçoa àquela gente e uma mulher em especial, então "going native" (Avatar, Pocahontas). Após um ataque onde está e sua gente ser obliterada, é retirado da aposentadoria, convencendo-o a retomar a missão quando vendem a ideia de que sua favorita - morta quando estava grávida do filho deles - ainda estaria viva. Encontre-a, e encontraremos o tal arquiteto misterioso. 

O trecho final - onde para se resolver as coisas depende-se da decolagem de um voo clandestino - é meio corrido, o que é curioso, pois são mais do que duas horas de filme. Mas é o problema quando, ao lado da ação desenfreada, ainda se procura tempo para desenvolvimento de personagens e suas tramas mais pessoais, sentimentais - e inevitavelmente mais lentas. 

O elenco está muito bom, com John  David Washington (filho de Denzel, aliás), fazendo com Gemma Chan (desde 2015 às voltas com direitos de robôs) muito bem um casal trágico, e, em ótima estreia, a criancinha mágica de Madeleine Yuna Voyles.

terça-feira, 4 de julho de 2023

Filmografia das ExoMigrações

Disclaimer: SPOILERS a seguir.

A ideia de naves espaciais levando tripulantes inertes, sob alguma forma de animação suspensa, através de décadas ou séculos até um outro sistema estelar - devido à impossibilidade do voo mais veloz do que a luz - data pelo menos de Far Centaurus (1944), conto de A. E. Van Vogt, em que o autor aproveita e dá também a solução de "e no meio do caminho, enquanto dormiam, o voo FTL é descoberto e quando chegam ta-daaa já tá tudo habitado". O destino era a estrela mais próxima depois do Sol, o sistema triplo de Alfa Centauri (Alfa Centauri A, B e C - esta última é tbm conhecida por Proxima Centauri).

Há uma certa solenidade no conceito, pois envolve um respeito e temor pelas forças da Natureza, e da vastidão de um cosmos letal e indiferente, ao mesmo tempo em que coragem face a um provável sacrifício de suas próprias vidas são valorizados: o conceito do "martírio pela Ciência" data da virada para o século XX e nunca desapareceu por completo.

Uma variação do tema é a nave geracional, em que se não se preserva os tripulantes pois tal tecnologia é impossível ou ineficiente, mas supõe-se que eles vivam, tenham filhos e faleçam em tempo de voo, até que futuramente se chegue ao destino (um planeta habitável, via de regra). Teóricos da Astronáutica como Robert Goddard, J. D. Bernal e Konstantin Tsiolkovsky já propunham isso lá pelos 1920s.

Não é à toa que se denomina esse tipo de nave, em geral, como "arca": para a nossa cultura ocidental, a referência óbvia é a bíblica, em que na Arca de Noé a esperança de sobrevivência dos últimos humanos (e das espécies animais) persistiam após a destruição do mundo anterior. Outros povos ao redor do mundo apresentam histórias semelhantes em seus imaginários, como Deucalião e Pirra dos antigos gregos. 

Tem uma bela lista do Goodreads onde várias obras literárias do subgênero são apresentadas, incluindo-se aí Encontro com Rama, de Arthur C. Clarke (1973), Aurora (1980), de Kim Stanley Robinson e Herdeiros do Tempo (2015), de Adrian Tchaikovsky.

Abaixo, alguns exemplos nas telas.

Originalmente, a missão a bordo da Júpiter II de Perdidos no Espaço (1965-1968) incluia sua tripulação em animação suspensa, até o ato de sabotagem do Dr. Smith. Ambas as séries, a original e a de 2018, têm Alfa Centauri como seu destino, embora o filme (1998) se refira a um planeta chamado Alpha Prime - seja onde lá isso for. Tal recurso não foi adotado mais, entre as viagens nos episódios para o planeta da semana.

A nave Júpiter 2 original.

Semente do Espaço (1x22) é um dos mais famosos episódios da Star Trek original, pois apresenta o vilão Khan Noonian Singh, que vinte anos depois volta em Jornada nas Estrelas II - A Ira de Khan (1982), assim sedimentando a ideia de continuidade em um show que prima em ser episódico, dado o formato de época. Após terem sido derrotados nas Guerras Eugênicas dos anos 1990s, Khan e os seus são julgados e exilados em uma nave sem capacidade FTL, sendo mantidos em animação suspensa - até serem encontrados pela tripulação da USS Enterprise.

A Enterprise e a Botany Bay: não uma, mas duas naus de insensatos...

O Mundo Infinito (3x08, 1968) é outro episódio da série clássica, em que os habitantes de Yonada, um asteroide oco, já se esqueceram até mesmo que estão em um lar provisório, com sua jornada havendo  começado com seus antepassados milênios antes.

A Enterprise e o asteroide-mundo Yonada.

A Estrela Perdida (1973) no Brasil, Starlost foi uma série de curta duração, com base em história de Harlan Ellison e com a atuação de Keir Dulea, o Dave Bowman de 2001 - Uma Odisseia no Espaço. Nela, a nave Ark, de (fontes divergem, mas são muitos quilômetros) de comprimento, carrega diversos ambientes estanques em uma longa viagem interestelar (fontes divergem, mas por muitos) séculos, mas está em curso de colisão com uma estrela. Cabe os personagens trafegar entre os diferentes ambientes (onde, via de regra, seus ocupantes também se esqueceram de suas origens), um por episódio, até o comando para tentar consertar a coisa. Após uma temporada, entretanto, a série foi cancelada sem que houvesse uma solução ao dilema central.

Earthship Ark: vagando incerta até hoje.

Wall-E (2008) conta a história em uma Terra arruinada ecologicamente pelo consumismo exacerbado, deixada sob os cuidados de robôs lixeiros enquanto ela volta a se tornar habitável, e que o que restou da Humanidade nasce, vive e morre a bordo dos Starliners da corporação BNL: aqui, a história se passa a bordo da Axiom, em que todo o dia é uma mistura de country club com shopping center, e seus moradores mantidos em ignorância e consumismo, conforme o desejo do verdadeiro comandante da nave, que não deseja voltar à Terra. Uma sociedade mantida estável, na ignorância e pelo consumo de bens materiais não é novidade na FC: adicione drogas e teremos, pelo menos, Admirável Mundo Novo (1932).

 

Axiom: a distopia simpática.

Pandorum (2009) apresenta a tragédia da Elysium, que parte com 60.000 almas para colonizar um mundo em uma viagem de 123 anos, pondo todos em hibernação. Mas quando alguns dos colonos despertam, descobrem haver toda uma nova situação a bordo, com mutantes canibais descendentes de quem devia estar dormindo tocando o terror. O filme foi muito mal na bilheteria, o que interrompeu suas pretensões de ser uma trilogia.

Elysium: mais para Hades.

Ascension (2014) envolve o Projeto Órion, uma estimativa do governo americano para lançar uma nave que pudesse alcançar até 10% da velocidade da luz, utilizando como propulsão sucessivas detonações nucleares à popa do veículo, protegido por um escudo resistente. O projeto foi proposto ainda nos anos 60 e, na vida real, engavetado: esta minissérie propõe que ele não somente foi construído como lançado secretamente, com a trama se desenrolando tanto lá quanto cá, em clima de conspiração. A bordo, ainda é uma espécie de sociedade americana dos anos 60, com moda e visual congelados no tempo, já na terceira geração - além de problemas, conspirações e estranhezas ocorrendo a bordo. 

Ascension: nem tudo é o que parece ser...

Passageiros (2016) investe no drama pessoal de um solitário colono que, por defeito de sua unidade de criogenia, desperta antes da chegada, o que ocorrerá apenas em 90 anos. Sem a possibilidade de entrar novamente em animação suspensa, ele percorre os amplos salões e corredores da Avalon e resolve despertar outra passageira, por quem passa a nutrir sentimentos, possivelmente a condenando a um destino semelhante ao dele.

Esquemas da Avalon.

Smile (10x02, 2017) é um episódio de Doctor Who onde a ação transcorre em uma colônia extrassolar (é dito ser Gliese 581d, off-screen) com uma nave de hibernação já havendo aterrissado, a Erewhon.

Se as Estrelas aparecessem (1x04, 2017) é um episódio da série The Orville, inspirada em Star Trek. Apesar do clima de paródia que permeia a série, ela consegue por diversas vezes ser extremamente fiel ao material original. Neste episódio, de forma semelhante a O Mundo Infinito, descrito acima, uma arca transporta seus habitantes há tanto tempo que eles já se esqueceram de suas origens: no caso, uma viagem para colonizar outro planeta se torna uma jornada de 2.000 anos, após uma tempestade iônica danificar o controle de voo, levando ao esquecimento e regresso da tecnologia e civilização.

A gigantesca bionave: perdidinha ali no meio, creiam, está a Orville.

The Ark (2023) é uma série que conta sobre uma malograda expedição a Próxima Centauri b, cujos futuros colonos são despertados de sua criogenia porque sua nave está caindo aos pedaços, e ninguém sabe direito o motivo. O elenco, como já é moda há algum tempo, constitui-se de desconhecidos entre si com diversas origens, capacidades - e motivações - que não exatamente gostam uns dos outros, mas precisam trabalhar juntos para sobreviverem a um desastre

Ark 1, onde problemas não faltam.

Das amostras acima, interessante ver alguns flertes com hard science-fiction, antes de sucumbirem às necessidades do drama, alguns erros conceituais e franco não-tô-nem-aí.

Nos onze casos acima, cinco adotaram destinos cientificamente embasados (seis, se contarmos o da Axiom). O sistema tríplice de Alfa Centauri foi lembrado quatro vezes: Perdidos no Espaço original e de 2108, Ascension e Ark 1. É normal que Alfa Centauri tenha uma boa presença em nosso imaginário: é o sistema estelar mais próximo do nosso, distando a 4,3 anos-luz: uma lonjura desgraçada que, ao mesmo tempo, é um "logo ali" em distâncias astronômicas. Com a confirmação de planetas ao redor de Proxima Centauri (Alfa Centauri A e B, mais semelhantes ao nosso Sol, não estão apresentando evidência até agora), é normal que a ficção científica renove o interesse ultimamente - especialmente com Proxima Centauri b, orbitando na distância certa de sua estrela para ter água em estado líquido em sua superfície, se lá houver. Já Gliese 581d, no episódio de Doctor Who, orbita uma estrela a 20,4 anos-luz de nós, com sua posição aparente próxima à de Beta de Libra.

Passageiros cita um mundo-alvo apenas chamado Homestead II, em uma viagem que durará 120 anos, e o filme de Perdidos no Espaço menciona o tal Alpha Prime. O destino foi esquecido ou não era importante nos demais casos. 

As viagens retratadas levando aproximadamente 5 a 6 anos (Ark 1, na 1a. temporada), 50 anos (Ascension), 120 anos (Avalon), 123 anos (Elysium) 270 anos (Botany Bay), 405 anos (Earthship Ark), 750 anos (Axiom), 2.000 anos (bionave), 10.000 anos (Yonada) e três temporadas (Júpiter II).

Alguns dos motivos para os êxodos são semelhantes: a falência do ecossistema lança a flotilha com Earthship Ark, Júpiter II (1998), Axiom, Elysium e Ark 1; a superpopulação global lança o Júpiter II original, enquanto um evento de impacto na Terra motiva a partida dos expedicionários no Perdidos do Espaço de 2018; pelo ensejo por colonização em outro sistema estelar decola a bionave em The Orville; a explosão da estrela natal em nova lança o asteroide Yonadu, e uma sentença penal encarrega a Botany Bay de levar Khan e seus asseclas para sabe-se lá para onde.

Dos veículos retratados, além da barreira da velocidade da luz (mesmo se o universo ficcional permitir), algo que que se pretende que dê peso (piscadinha, piscadinha) ao cenário é a gravidade induzida por setores rotatórios, como em The Ark e Passageiros. Ascension parte (mais ou menos) do princípio de que a nave tem alguma aceleração para explicar sua gravidade a bordo. Semelhantemente, nas séries Babylon 5 e The Expanse temos uma aplicação mais cuidadosa disto, assim como as necessidades da inércia sempre que possível: o problema primeiro é que, via de regra, gente flutuando significa encarecer a produção. Em segundo, levar em conta a inércia significa ações calmas e leeentas - assim como em 2001 e alguns filmes inspirados por ele ao longo dos anos 70 -, o que pra fins de drama não interessa a (quase) ninguém. Acaba sendo um equilíbrio nem sempre fácil de se obter entre ambas as necessidades, ao se fazer esse tipo de história.

Proxima b: from 'eyeball planet' to full Alderaan...

No final, o que sobra é a solenidade mencionada, e que na curta experiência humana, podemos relacionar somente com o período das Grandes Navegações que, independente de seus motivos e consequências, inspira até hoje se imaginamos a ousadia e engenhosidade do enfrentamento do mar aberto, ambiente eminentemente hostil, por quem somente dispunha de navios à vela e nenhuma possibilidade de navegação eletrônica, muito menos de comunicação com terra. Quando a ficção científica se estabelece, ao pensar no futuro da exploração espacial, inevitavelmente vai atrás das referências históricas e, como tal, traça paralelos com os 1400s-1600s.

Como será que faremos isso, na real? Só estando lá para saber. Tecnologia, ciência e sociedade às vezes dão saltos ou tomam caminhos inesperados de qualquer projeção que façamos: e ficção científica inevitavelmente reflete o agora.

Mas eu gostaria de estar lá para ver.

sábado, 17 de junho de 2023

Para uma Cinematografia do Retardo das Massas, ou: o Apocalipse Cognitivo será Televisionado

 Comecei essa postagem em 2021, logo após ter assistido Não Olhe para Cima, e vi que já havia exemplares que justificavam uma comparação. Mas acabei me esquecendo de concluir, e meio que perdi o timing do lançamento do filme. A situação política - ainda bem - minimamente voltou a um QI positivo (espero), mas... fica pelo registro. 

Dependendo, posso vir a adicionar mais entradas aqui, a futuro.

***

Don't Look Up - Altas Aventuras de Impacto Profundo no Armageddon.

Não Olhe para Cima (Netflix, 2021), quase encerrando o ano, enquanto começo a digitar este texto, conseguiu chamar a atenção nos dias que passam, por suas provocações, elenco estelar, e - como vem andando o mundo - pela capacidade de polarizar entre quem o ama e quem o odeia - note-se ainda, surpreendentemente, que a orientação ideológica ou partidária não é garantia deste posicionamento, ainda que certas carapuças certamente estejam descendo até os tornozelos. E não é à toa.

Quando começou a ser planejado, a ideia era contrastar o negacionismo científico a respeito da mudança do clima - longa e gradativa - com a da vinda de um cometa em curso de colisão com a Terra dentro de seis meses, em um evento resultante similar ao da extinção dos dinossauros, obliterando o ecossistema. Porém, ao longo da produção, veio a pandemia, e a ideia serviu para ambos os casos: na verdade, serve para qualquer caso onde os fatos e suas averiguações científicas - já incluído a verificação por outros cientistas - são tratados com o mesmo peso e descaso da opinião tanto do zé mané da esquina quanto da conveniência política do demagogo eleito da vez e interesse financeiro de uma elite econômica predatória.

A administração Trump (destaque para Meryl Streep), com seus tipos vulgares, obcecados por imagem na mídia e, pior de tudo: completamente inadequados para qualquer cargo que ocupavam; além da submissão aos interesses que financiaram suas campanhas eleitorais, fora campanhas sujas envolvendo fake news e factoides sempre que uma nova inconveniência surgia. Nova prova de universalidade do filme, pois tudo isso poderia ser um retrato dos EUA hoje em dia, não fosse a terrível sensação de familiaridade muito, mas muito mais próxima de nós aqui, no Brasil.

Ao mesmo tempo, lembram quando filme-de-meteoro (MeteoroImpacto ProfundoArmageddon) implicava em governos e sociedade sossegarem o facho e trabalharem juntos em um esforço focado para se livrar da ameaça de aniquilação total? Pois é: esqueçam. Agora que aquelas peculiares teorias da conspiração viraram mainstream (imagino que, inclusive, graças à 'aceitação e normalização' da figura do nerd, que também virou um mercado cobiçado), tudo é relativizável, todas as opiniões passaram a ter o peso de estudos feitos e revistos por especialistas. 

E aquilo que desagrade é simplesmente desconsiderado - assim como cientistas despedidos por não concordarem com a 'linha do Partido', ou melhor, a 'linha da Companhia', contestando a forma que a já citada elite empresarial resolveu que queria lucrar. Em geral no papel da Cassandra do mito grego em filmes assim, o cientista agora não somente ninguém dá bola, mas também é ameaçado no emprego.

No filme, essa elite, incorporada na figura de um 'Elon Jobs' da vida, é tão predatória que dado momento decide sacrificar uma missão que poderia potencialmente salvar o mundo após descobrir que o astro se aproximando contém trilhões de dólares em metais comercialmente estratégicos, lançando uma segunda missão que fragmentaria o cometa mas não o destruiria: pondo ainda assim em risco a vida sobre a Terra. 

Tal decisão entra no mecanismo de polarização da sociedade, com pessoas dispostas a arriscar tudo porque 'o cometa gerará empregos'. 

Mas não é a primeira vez em que crítica ácida em comédia às custas do que é o próprio público médio - ei, claaaro que não a você, mas aos outros, aos outros... - é feita.

Space Force (Netflix, 2020) tem semelhanças com Não Olhe Para Cima, havendo se iniciado durante o governo Trump, contra o qual não faltam farpas, em termos de irracionalidade e jequice apresentadas. Para a segunda temporada (2022), havendo mudado a administração americana para algo minimamente racional, talvez exatamente por isso certo tom de crítica arrefeceu, e a série se tornou mais um programa sobre colegas disfuncionais de trabalho que acabam tendo uns nos outros uma espécie de família: meio que um The Office orientado ao espaço, não à toa com o mesmo Steve Carell,  Um ótimo preço a ser pago, tudo considerado...

Avenue 5 (Amazon, 2020) coloca a opinião do zé mané, especialmente a do zé mané com dinheiro, no real valor que ela tem, quando o assunto é ciência. O Avenue 5 do título é o nome de uma nave espacial de turismo, dando uma volta interplanetária em nosso sistema solar, e que acaba ficando sem controle. O reduzido staff técnico do cruzeiro tem que lidar com o "bom senso" prevalecente de bordo, dos passageiros e do patrão, que difere da maioria apenas por ter mais dinheiro - de saída, o atraso entre as comunicações nave-Terra devido à enorme distância lhe é um incômodo, não resolvido apenas porque ninguém está sendo criativo ou propositivo o suficiente. O episódio 8 é particularmente enervante, em que por votação querem abandonar a nave, apostando que nunca saíram da Terra.

Idiocracy (2006) talvez seja o marco moderno dessa cinematografia, tendo um olho na sociedade contemporânea de consumo, da época da Internet. Do mesmo Mike Judge que nos deu O Rei do Pedaço e, claro, Beavis e Butthead (1993-2011), com seu olho para a mediocridade humana fez de Idiocracy um filme tido como de, desnecessariamente exagerado em sua época a, simplesmente, profético. Meu medo é que, nesse ritmo, algum dia passe a ser desatualizado e mesmo otimista. Mas, que a cafonice de mau gosto da presidência Camacho e sua associação com a mídia e cultura pop lembram os tempos obsessivos com o assunto de Trump e, por tabela, a da presidenta Orlean: sem dúvida. 


Com a palavra, o excelentíssimo senhor presidente Dwayne Elizondo Mountain Dew Herbert Camacho. 

Os Simpsons (1989- ) Essa lista, claro, não poderia ficar sem eles. Não obstante os personagens principais e recorrentes já terem um viés simplório da dita típica família americana, o common sense das multidões é alvo dos roteiristas com alguma rotina.

"Nós continuaremos tentando fortalecer a família americana. Para fazer com que elas se pareçam mais com Os Waltons e menos com Os Simpsons." - sim, este senhor mandou essa na convenção nacional do Partido Republicano, 1992.

A Vida de Brian (1979), do grupo britânico Monty Python, mira na cegueira religiosa defendida como fé, ou em nome dela. O Brian do título nasce na mesma noite e na manjedoura ao lado da de Jesus Cristo, e com ele por vezes é confundido ao longo da vida. Seus idealizadores pretenderam que fosse um filme a respeito da estupidez pela cegueira religiosa.

Network - Rede de Intrigas (1976) conta sobre manipulação de índices de audiência através de um apresentador de jornal que apenas diz, ao vivo, que vai se matar, depois que sabe será demitido em breve. A ideia é como manter o interesse do público no auge, enquanto se dá voz a alguém precisando de tratamento. O protagonista passa a dizer o que o "cidadão médio sente" e com o que se indigna, antecipando (?) o demagogo moderno, e sendo contemporâneo de um tipo de midiático como Howard Stern, que inicia sua carreira como locutor em 1976 ainda em uma rádio universitária e que acrescenta baixaria sem culpa ao repertório.

Doutor Fantástico (1964), clássico de Stanley Kubrick, talvez fuja um pouco da ideia dessa postagem, uma vez que é focado no idiota no poder - o idiota com o gatilho da bomba atômica, capaz de começar o fim do mundo. Mas fica como referência e, temo, um conto cautelar imorredouro...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Caminhos da Memória (Reminiscence)


SPOILERS adiante. Estejam avisados.

Cyberpunk e noir são dois gêneros que se comunicam desde antes o estabelecimento do primeiro, conforme qualquer um que tenha lido Blade Runner - o Caçador de Andróides (1968) sabe disso. De Rick Deckard a Nick Bannister há uma árvore genealógica que, é claro, precede o romance de Philip K. Dick em décadas.

Uma interação recente entre ambos os gêneros é o filme Os Caminhos da Memória (Reminiscence, 2021), que foi escrito, dirigido e produzido por Lisa Joy, que recentemente se envolveu em projetos como as séries Westworld e Periféricos: (ir)realidades virtuais é um tema com que já está acostumada.

Então, do lado noir, temos: 

Hugh Jackman como o detetive. No caso, é especializado em guiar pessoas por uma tecnologia de reavivamento de memórias (que, é contado, começa como um sistema de interrogatório policial, mas em breve ganha o gosto como tecnologia de lazer*), trabalhando ocasionalmente com o departamento de justiça, mas os achados de seus casos estão na memória de seus clientes.

Tanques high-tech: servindo Hugh Jackman desde X-Men (2000).

Rebecca Ferguson - mais recentemente Lady Jessica no novo Duna (2021) - é a "mulher fatal" desse tipo de narrativa, que entra no escritório do detetive alegando um motivo para contratá-lo quando, na verdade, começa uma trama conspiratória que irá tragá-lo, e vai caber à obsessão e um bocado de sorte por parte do detetive sobreviver, até os motivos de tudo serem revelados.

Thandiwe Newton como a secretária/confidente/apaixonada secretamente pelo detetive. Há um desenvolvimento interessante do que seja a figura dessa parceira, aproveitando o peso da atriz.

Ainda do noir, temos a corrupção extrema das elites, sob a velha capa da respeitabilidade, e decifrar seus motivos escusos faz parte do resultado final. Mas com o cyberpunk trazendo a tecnologia de registro, cópia e edição de pensamentos e memórias, discernir o fato se tornar ainda mais complicado. Um take bem fascistoide da análise desse tipo de subjetividade está na polícia pré-crime de outra adaptação de P. K. Dick, Minority Report: A Nova Lei (2002) (a série de 2015 que não foi muito adiante era mais interessante); O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança 

Do cyberpunk, temos portanto alguma forma de realidade virtual, abuso de tecnologia, diferenças sociais alarmantes e, no caso aqui, um mundo pós-aquecimento global em que o nível dos mares elevou-se drasticamente, com cidades como Miami e Nova Orleans - onde se passa a ação - semi submersas: terra seca, natural ou artificial, é objeto de status e cobiça, trazendo a especulação imobiliária de novo como vilã da história e assim se reencontrando com o noir. Os cenários alagados ou inundados compõem o grosso da ambientação de ficção científica, que não prima aqui pela presença maior de gadgets ou veículos futuristas, a não ser quando necessário.

Thandiwe Newton como a fiel Watts - é, sutileza não foi o caso, aqui... :)

O filme custou R$54 milhões e flopou globalmente ao arrecadar 16 milhões somente: muitos podem ser os motivos pra isso, como mau timing ao lançá-lo ou algum outro aspecto da campanha de marketing. Ou talvez porque o combo 'realidade virtual', 'identificação e identidade' e 'história de detetive' já sejam meio que derivação da derivação, a essa altura do campeonato. Navegar por memórias duras revividas ou se esconder em uma doce mentira? Algo assim consta, pelo menos, desde Nirvana (1997). O final, feliz, pode ser ilusório como a natureza dessa história: não é à toa que a lenda de Orfeu e Eurídice é contada do jeito que foi.

Gostei de ver Angela Joy trabalhando com rostos que lhe são familiares: Thandie Newton e Angela Sarafayan estão em Westworld, que é criação sua com o marido e também roteirista Jonathan Nole.  

Se recomendo? Achei interessante o bastante pra tentar me desenferrujar e escrever esta resenha, compor o texto e tal. Não pareço muito entusiasmado? É, acontece...

Disponível no Amazon Prime.

14/02/2023

* a ideia do tanque em casa de tecnologia avançada que serve apenas para sustentar um vício em vez de apenas cumprir uma devida função aparece na série francesa Ad Vitam, já resenhada no blog, mas o mote é a juventude eterna. Procurando aqui, infelizmente não está mais no catálogo Netflix.

terça-feira, 29 de março de 2022

Zona de Combate

Soldado e o Falcão Invernal.

Spoilers abaixo. Be warned.

 Zona de Combate (2021) estrela Anthony Mackie e uma cara conhecida que nunca sei o nome mais gente que não faço ideia. Entre quem não conheço, Damson Idris, no papel do protagonista, o tenente Harp, um piloto de drones que desobedece a cadeia de comando ao tomar a iniciativa de atacar, gerando a morte de dois soldados americanos.

Nas suas duas horas, é um filme com alguns temas e mensagens, ao menos que eu tenha percebido.

Por uma, tem o militar americano que aprende em primeira mão a brutalidade da guerra, após uma carreira como piloto de drones vendo tudo 'como um videogame': talvez essa 'história de redenção' cole se você for americano, não me admiraria se fosse uma forma de amortecer alguma sensação contínua de vilania que as massas possam estar ou vir a sentir - nem é o primeiro filme a abordar essa premissa.

Afinal, situado no futuro próximo de 2039, é em plena Ucrânia, envolvendo invasões russas, movimento de resistência, zonas desmilitarizadas, terroristas e etc.

Um outro tema é a IA que sai do controle, manipulando e passando a perna em seus criadores, que é um tema que tem surgido ultimamente em filmes como Ex_Machina: Instinto Artificial (2014), Archive (2020) e I Am Mother (2019). Complexo de Frankenstein, como nos alertava Asimov (o clichê, em sua época já, de 'homem cria robô, robô mata homem')? Provavelmente sim, mas cada filme tem o seu próprio take no que faz o filho rebelde da Humanidade.

... muitas e mais palavras desde aquela época.

No caso, a IA em questão (Leo, papel do antagonista interpretado pelo Falcão) de fato quer partir da pra grosseria em larga escala, manipulando toda uma complexa situação para provocar um ataque nuclear que só a Resistência quer em cidades americanas, desejando que isso pare a principal nação guerreira do mundo de suas práticas - levando em conta a própria criação, uma máquina tão sofisticada que sua inteligência consegue enrolar seres humanos, não bastasse ainda ser uma lean mean killing machine: o próximo passo de drones de combate, que já não estão somente no ar, mas também em terra.

Temos aqui, inclusive, o tema de drones na guerra, com a ideia de que eles não são nenhuma resposta ideal: de novo, a ideia de 'perdas aceitáveis' vira e mexe permeia e assombra.

From Russia, with love.

O problema é, que apesar da parte mais interessante do filme seja justamente a - presumível - mudança de pensamento de um Harp conflitado (a respeito do que sejam "perdas aceitáveis"), enquanto vai sendo manipulado a cada cena por Leo e um grande debate ético entre eles (comprimido entre cenas de ação e outras cenas da história), a linha de argumentos de Leo é tão convincente que o argumento de Harp ao final do filme parece batido demais como clichê, talvez apenas colando... se você for americano.

Ou, porque não há outra forma de se pensar/almejar: se por esperança ou conformação, bem...

No final, considerando tudo, o filme é interessante e bem recheado até, para suas duas horas. Mas eu não priorizaria.

Perdas aceitáveis, ou: no dos outros é refresco.

domingo, 20 de março de 2022

Caranguejo Negro

A Garota Com Tatuagem De Não F*** Meu Juízo

Aviso: Spoilers abaixo.

Caranguejo Negro (2022) é um filme sueco disponível na Netflix e se passa em um futuro próximo (o filme é considerado pós-apocalíptico) - na verdade, poderia ser nos dias de hoje - onde uma guerra civil aflige um país nórdico - supõe-se, a própria Suécia.

Claro que, em tempos de invasão russa na Ucrânia, é difícil pensar em acaso, nessas horas. Mas talvez para não piorar qualquer pré-disposição; o fato é que a trama é econômica nas descrições: há nós, e há eles, os inimigos. Nenhuma pista é dada, salvo uma breve menção a uma guerra civil logo no início, um passado ao qual se volta de vez em quando em flashes e sonhos: após longos e dolorosos anos, tudo o que há é a guerra, retratada no presente.

Às vésperas da derrota certa pelo lado dos seis protagonistas, eles recebem a missão de alcançar uma ilha distante de onde estão, alcançável pelo gelo não por veículos ou barcos, mas patinando, para entregar um pacote misterioso, e com isso, vencer a guerra de uma vez por todas.

É um clima sombrio, onde motivações apresentadas podem levar a atitudes de desconfiança o tempo todo. 

Ao seu modo, talvez não deixe de ser um 'road movie'...

A viagem dos seis soldados pelo arquipélago congelado é o grande atrativo do filme. O gelo é repensado como só alguém, creio, de uma cultura que convive com o fenômeno poderia. Ligando ao estresse e os horrores da guerra, a passagem sobre o gelo e sob uma lua e céus nublados e cinzentos revela paisagens em geral não representadas, com deques de madeira abandonados, barcos e navios tombados, restos mortais de outra época nem tão distante assim - tudo saindo de debaixo do gelo, além de uma (nem que involuntária) assombrosa repaginação do Pântano dos Mortos em As Duas Torres

Nesse breve aspecto, o filme pode lembrar até mesmo de Apocalypse Now, e a viagem da lancha canhoeira rio acima, pelas selvas do Vietnã e encontros e ocorridos ao longo do caminho sendo perigosos e inusitados.

Fotografia que impressiona.

Do elenco, conheço somente Noomi Rapace, cuja personagem é obcecada em encontrar sua filha, separadas por soldados anos atrás. A moral cambiante dos tempos extremos é medida por sua motivação. Os demais atores não conheço ou reconheci de outros papeis, alguns deixando sua breve marca em personagens, como nesse tipo de filme e trama ocorre, descartáveis.

Recomendo.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Estranho Passageiro

Estranho Passageiro - Sputnik. No Netflixkaya.

Filme russo de 2020, Estranho Passageiro (Sputnik) conta uma história passada nos anos 80, ainda no regime soviético, quando uma cápsula Soyuz retorna com dois cosmonautas - um deles está morto e o outro carrega um alienígena que induz amnésia no hospedeiro.

De cara pode-se pensar, com o resumo acima, em Alien - o Oitavo Passageiro ou em alguma iteração sem maiores talentos (dentro ou fora da franquia): mas não se trata aqui desse tipo de filme, que a essa altura é padrão, com sustos, vísceras e nojeira (mostly...) - mas antes é sobre a construção de confianças. Há detalhes que contribuem para a questão das tais construções, que há de se ficar ficar atento.

Motivações e mentiras passam pela protagonista, a médica e estudiosa de comportamento Tatyana Klimova, trazida à trama e ao centro de pesquisas secreto, onde ocorrem os estudos com o cosmonauta sobrevivente, quando as opções sobre como tirar o alienígena do cosmonauta começam a escassear e o tempo urge, para mais de um propósito.

Fiquei com a sensação que algumas dessas construções foram apressadas, mas pode ser impressão minha e, mesmo assim, não compromete o resultado do filme.

Destaque para o personagem do Coronel Semiradov.

Recomendo. 

sábado, 25 de setembro de 2021

Live de Duna (edit: + resenha)

 Domingo amanhã, 26/09/21, às 16h, participarei de uma live sobre Duna organizado pelo Clube de Leitura Zona Oeste, aproveitando o mote da estreia da refilmagem recente.

Desencavei minha velha cópia da ed. Nova Fronteira e reli nos últimos dias, após longos anos sem revê-lo. Reler com olhos de quem, hoje em dia, procura escrever se revelou uma grata surpresa.

Mais comentários depois de amanhã. Para quem quiser assistir, eis o link.


Duna, em edição de 1984 da ed. Nova Fronteira. Por Frank Herbert.

EDIT

Em vez de gerar mais um post, preferi ampliar este, uma espécie de resenha tardia (com spoilers) de Duna.
 
Como eu disse, grata surpresa ao reler depois de sei lá quanto tempo. Mais cedo neste ano ou em 2020 eu tentei, mas sem sucesso. Dessa vez fui até o final, e ainda no gás embiquei em O Messias de Duna, que deixarei pra um próximo post.

Na live eu digo tudo o que talvez tivesse a dizer aqui: há quem saliente que nunca se lê (relê) o mesmo liveo duas vezes, indicando a maturidade do leitor e seus momentos diferentes de vida. 

No meu caso, havendo entre lá e cá iniciado uma modesta carreira de autor, prestei atenção no texto que, de outra forma, talvez não tivesse.

Identifiquei trechos que me lembrava, que mais ou menos me lembrava, e passagens que para mim foram completamente inéditas. 

Foi muito bacana rever - ou ver - a construção das tramas, e os raciocínios que levarão Paul Atreides a ser o messias da Humanidade: não somente o plano das Bene Gesserit estava para acontecer, mas a força das circunstâncias leva Lady Jessica, sua mãe, a ativar "protocolos de emergência" psico-culturais, deixados pelas BG, que levam a uma população supersticiosa a acolhê-los como figuras profetizadas; e ainda sem que ninguém mais soubesse, paiava a promessa lançada pelo primeiro Planetólogo Imperial local para, junto à mesma população, trabalhar em um método para transformar o escaldante planeta desértico Arrakis em um paraíso ecológico nos séculos que viriam.

Duna é a primeira grande obra da new wave/'soft science fiction' abordando religião, política, cultura e ecologia como temas centrais, e não meras curiosidades secundárias, sendo da mesma geração que trouxe autores como Michael Moorcock, Ursula K. Le Guin e Philip K. Dick às prateleiras.

Seu worldbuilding impressiona, sendo também central à trama, conferindo ao planeta Arrakis toda uma identidade própria e senso de pertencimento dos personagens, sem o qual a proposta oferecida por um autor pode enfraquecer. O feito deixa Duna considerado também como tendo o primeiro grande worldbuilding da ficção científica, comparável ao da Terra-Média de Tolkien, do lado da fantasia.

Ao longo de suas 669 páginas dividas em três livros internos (mais apêndices), entretanto, senti que certos personagens apresentados ficaram "de menos" em seu desenvolvimento e potencial, tamanha a carga de informação - e não estou falando de nenhum infodump, percebam - que o livro apresenta. Não é um livro perfeito, mas não quer dizer que seja um livro ruim, longe, bem longe disso. O fã de ficção científica deve sempre dar uma chance para ler - quando não, reler - Duna.

Agora é esperar para ver o novo filme que, segundo soube, será divido em duas partes. Imagino que seja o certo a fazer, pois, como foi dito, são 669 páginas de muita informação que deixou o filme de 1984, de David Lynch, como problemático, para se dizer o mínimo.

Por último, cabe notar que Frank Herbert escreveu meia dúzia de livros a partir do primeiro, em sua carreira como escritor de ficção científica. Seu filho Brian e o escritor Kevin J. Anderson ainda expandiram o universo bem além, com base nas anotações do pai. No Brasil, que eu saiba apenas os livros do pai foram publicados. Uma página da wiki sobre a franquia de Duna aqui, para quem se interessar. Devo ler os primeiros livros em breve comentar por aqui, a futuro.

Duna
669 p.
Editora Nova Fronteira (para fins desta resenha. Edições atuais pela ed. Aleph)