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domingo, 17 de outubro de 2021

O Messias de Duna


O Messias de Duna: capa da edição antiga pela Nova Fronteira.

Tenho que confessar que levei este tempo todo para finalmente ler inteiro. Achei simplesmente um livro chato, da primeira vez que li, e consequentemente, não avancei nos demais - apesar de conselhos dizendo que valia à pena. 

Mas, exatamente por causa da live que participei (e que comentei aqui), eu me vi entusiasmado para dar uma chance com um livro que, afinal, é mais ou menos um terço do original. E consegui terminá-lo, de fato, em poucos dias. 

O Messias de Duna (1969) é um livro muito centrado em conspirações - mais do que o livro anterior - e com isso um certo andamento pode ficar comprometido, de acordo com os gostos da audiência. Mas se você conseguir vencer os primeiros trechos ou o estilo, ganha uma ótima sequência ao livro original. 

Gênero

Messias de Duna originalmente foi publicado como noveleta na Galaxy Magazine, e depois ampliado para a forma de romance. Foi a primeira de mais quatro sequências que ele escreveu, valendo ainda Filhos de DunaO Imperador-Deus de DunaHereges de Duna e As Herdeiras de Duna. Os links anteriores vão pras edições atuais pela Aleph, que dispensou os artigos no título. 

Cenário

A mudança ambiental em Arrakis vai de vento em popa, conforme as ordens do Muad'Dib. Mas com a mudança, a sensação de ao se obter o que tanto se ansiava se mostra algo com um viés indesejável para os Fremen, que, apesar do sucesso em levar a palavra do Muad'Dib pelos mundos galáxia afora, veem seu modo de vida se diluir com os novos costumes e as novas gerações, ao mesmo tempo em que o ecossistema se torna mais generoso - subitamente, é como Arrakis não fosse mais o mundo feito por Deus "para testar os fiéis".

Trama

Passando-se 12 anos depois do livro original, Paul Atreides é não só o senhor de Arrakis mas o novo imperador do Universo Conhecido. Controlando a especiaria, ele controla o universo, e seus Fremen, como foi dito, são a base da mais nova jihad galáctica, que nesse meio tempo leva a palavra de seu autêntico messias aonde for. 

Ao mesmo tempo, ele já entendeu que sua presciência turbinada pela genética e a Água da Vida é antes uma prisão do que algo que consiga eficazmente controlar: e como poderá ficar o futuro para seu herdeiro? 

Personagens

De saída, somos apresentados aos conspiradores contra Paul Atreides, em um primeiro capítulo que me foi responsável, devo advertir e mesmo confessar, por minha desistência do livro da primeira vez que tentei de ler.

Entre os velhos os novos inimigos temos a CHOAM e as Bene Gesserit - na participação da Reverenda Madre Gaius Helena Mohiam assim como da própria esposa do imperador, a Princesa Irulan, além do Dançarino Facial Scyatle pelos Bene Tleilax e Edric, Navegador da CHOAM. Os BT ainda oferecem um presente duvidoso, na forma de Duncan Idaho redivivo, no que é chamado ghola.

O personagem central é, sem dúvida, Paul Atreides. Não obstante, doze anos depois dos eventos finais de Duna, sua jihad é vitoriosa, resultando em, de acordo com o próprio, 61 bilhões de mortos, 90 planetas esterilizados, 500 outros "totalmente desmoralizados" e no extermínio de seguidores de mais de 40 religiões diferentes - em uma "estimativa conservadora". 

Não precisamos chegar na página onde estão esses números para entendermos que a relutância de Paul em seguir esse caminho não o impediu de fazê-lo, exatamente antecipando o massacre que iria acontecer, ainda no primeiro livro, consciente ainda que o pior ainda poderia acontecer, caso não intereferisse. Em um enorme resumo: como ele atua dentro desse turbilhão é que é a intenção central deste volume.

Santa Alia da Faca, agora em sua adolescência, é alguém que teve a consciência desperta pela Água da Vida cedo demais, ainda sendo um feto em gestação: alguém tido como Aberração pelas Bene Gesserit, nela temos o embrião da tragédia que a consumirá no próximo livro, Os Filhos de Duna

Em edição atual pela Aleph.

Com um terço aproximadamente do livro original, mas sem precisar ambientar o leitor com todas as novidades trazidas pelo cenário rico e complexo como em Duna, esta sequência deixou alguns nomes conhecidos de fora: Gurney Halleck e Lady Jessica estão em Arrakis, mas somente dela só sabemos e através de uma carta enviada, em que ela alerta sobre os perigos da religião se unindo ao Estado, deixando Alia preocupada - e, de quebra, gerando um daqueles trechos cuja atualidade para nós, leitores, sempre é perturbadora. Tais perigos são melhor demonstrados, aliás, na sequência Os Filhos de Duna, em que ela volta a protagonizar.

Se não de fora, de menos na história: especialmente perto do fim, as coisas pareceram estar meio corridas quanto ao destino do elenco de conspiradores - nem que por bons serviços prestados, a gentil Reverenda Madre merecia uma última cena. 

O volume encerra com uma ótima saída de palco do protagonista, tanto em forma como motivações, e abrindo espaço para se sair da vida para entrar na lenda, ao mesmo tempo evitando muito do que o destino da civilização ele temia vir a se tornar.

O Messias de Duna 
283 p.
Editora Nova Fronteira (para fins de resenha)

sábado, 25 de setembro de 2021

Live de Duna (edit: + resenha)

 Domingo amanhã, 26/09/21, às 16h, participarei de uma live sobre Duna organizado pelo Clube de Leitura Zona Oeste, aproveitando o mote da estreia da refilmagem recente.

Desencavei minha velha cópia da ed. Nova Fronteira e reli nos últimos dias, após longos anos sem revê-lo. Reler com olhos de quem, hoje em dia, procura escrever se revelou uma grata surpresa.

Mais comentários depois de amanhã. Para quem quiser assistir, eis o link.


Duna, em edição de 1984 da ed. Nova Fronteira. Por Frank Herbert.

EDIT

Em vez de gerar mais um post, preferi ampliar este, uma espécie de resenha tardia (com spoilers) de Duna.
 
Como eu disse, grata surpresa ao reler depois de sei lá quanto tempo. Mais cedo neste ano ou em 2020 eu tentei, mas sem sucesso. Dessa vez fui até o final, e ainda no gás embiquei em O Messias de Duna, que deixarei pra um próximo post.

Na live eu digo tudo o que talvez tivesse a dizer aqui: há quem saliente que nunca se lê (relê) o mesmo liveo duas vezes, indicando a maturidade do leitor e seus momentos diferentes de vida. 

No meu caso, havendo entre lá e cá iniciado uma modesta carreira de autor, prestei atenção no texto que, de outra forma, talvez não tivesse.

Identifiquei trechos que me lembrava, que mais ou menos me lembrava, e passagens que para mim foram completamente inéditas. 

Foi muito bacana rever - ou ver - a construção das tramas, e os raciocínios que levarão Paul Atreides a ser o messias da Humanidade: não somente o plano das Bene Gesserit estava para acontecer, mas a força das circunstâncias leva Lady Jessica, sua mãe, a ativar "protocolos de emergência" psico-culturais, deixados pelas BG, que levam a uma população supersticiosa a acolhê-los como figuras profetizadas; e ainda sem que ninguém mais soubesse, paiava a promessa lançada pelo primeiro Planetólogo Imperial local para, junto à mesma população, trabalhar em um método para transformar o escaldante planeta desértico Arrakis em um paraíso ecológico nos séculos que viriam.

Duna é a primeira grande obra da new wave/'soft science fiction' abordando religião, política, cultura e ecologia como temas centrais, e não meras curiosidades secundárias, sendo da mesma geração que trouxe autores como Michael Moorcock, Ursula K. Le Guin e Philip K. Dick às prateleiras.

Seu worldbuilding impressiona, sendo também central à trama, conferindo ao planeta Arrakis toda uma identidade própria e senso de pertencimento dos personagens, sem o qual a proposta oferecida por um autor pode enfraquecer. O feito deixa Duna considerado também como tendo o primeiro grande worldbuilding da ficção científica, comparável ao da Terra-Média de Tolkien, do lado da fantasia.

Ao longo de suas 669 páginas dividas em três livros internos (mais apêndices), entretanto, senti que certos personagens apresentados ficaram "de menos" em seu desenvolvimento e potencial, tamanha a carga de informação - e não estou falando de nenhum infodump, percebam - que o livro apresenta. Não é um livro perfeito, mas não quer dizer que seja um livro ruim, longe, bem longe disso. O fã de ficção científica deve sempre dar uma chance para ler - quando não, reler - Duna.

Agora é esperar para ver o novo filme que, segundo soube, será divido em duas partes. Imagino que seja o certo a fazer, pois, como foi dito, são 669 páginas de muita informação que deixou o filme de 1984, de David Lynch, como problemático, para se dizer o mínimo.

Por último, cabe notar que Frank Herbert escreveu meia dúzia de livros a partir do primeiro, em sua carreira como escritor de ficção científica. Seu filho Brian e o escritor Kevin J. Anderson ainda expandiram o universo bem além, com base nas anotações do pai. No Brasil, que eu saiba apenas os livros do pai foram publicados. Uma página da wiki sobre a franquia de Duna aqui, para quem se interessar. Devo ler os primeiros livros em breve comentar por aqui, a futuro.

Duna
669 p.
Editora Nova Fronteira (para fins desta resenha. Edições atuais pela ed. Aleph)


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

As Canções da Terra Distante

 As Canções da Terra Distante, por Arthur C. Clarke (1986)

Ler um romance de Arthur C. Clarke que me seja inédito é prazer cada vez mais raro. As Canções da Terra Distante foi lançado no Brasil em 86 pela Nova Fronteira, mas só agora consegui ler. Havia já lido o conto original, de mesmo nome, que saiu na coletânea O Outro Lado do Céu (NF, 1984).

De saída, antes de engrossar com os spoilers, há de notar uma agradável melancolia das saudades de tudo que um dia já foi, e daquilo e daqueles que se passa a conhecer, amar, mas que terão que ser deixados para trás. Sendo ainda uma história de navegação, a perda sentida embala também nas canções apresentadas da Terra distante. Ouço um distante eco com sotaque lusitano?

No Quarto Milênio, na expectativa do fim do sistema solar com a explosão do Sol em nova, a Humanidade monta grandes naves-arca com milhares de refugiados e parte para as estrelas, em busca de, como chamam hoje em dia, exoplanetas de ambiente compatíveis com o organismo humano.

A última dessas naves, por questões técnicas, para em uma colônia já estabelecida séculos antes, batizada com o nome de nome da antiga deusa do mar grega, Thalassa, um mundo primariamente oceânico com pouca superfície de terra firme onde a pequena colônia humana prospera.

Os visitantes passarão dois anos nos reparos (a reconstrução de um escudo de gelo, destruído, para absorver o impacto de matéria interestelar), antes de seguir viagem: e o choque cultural entre ambos os grupos, por mais diminuto que fosse a tripulação desperta do longo sono para a missão, é inevitável - isso, em um grande resumo.

Os thalassianos são de uma geração de naves semeadoras anteriores a recém-chegada Magalhães, quando material embrionário era despachado para as estrelas, em vez de refugiados congelados por criogenia como com a Magalhães: a ideia era um processo de desenvolvimento levado primariamente por máquinas, antes que pudessem ter os thalassianos seus próprios filhos e seguir adiante com a civilização humana. Foram duas gerações de naves semeadoras, a segunda passando a levar gente viva congelada, depois que o processo de criogenia se provou viável.

Entretanto, a colônias como a de Thalassa eram fruto de uma experiência social, com a História e Literatura da Terra severamente editadas, extirpando o conceito de religião, Deus e quetais: dos livros que conheço de Clarke, assim como sua opinião a respeito do assunto, este é o mais severo com religião - a despeito de uma generosidade talvez excessiva com o budismo, que também está presente aqui.

Havendo então uma colônia de seres criados ao mesmo tempo com as exatas mesmas condições de educação - e, intui-se, sociais/financeiras -, além de um vasto e pelo novo mundo, o sistema político que segue vem como um futuro desdobramento de uma república democrática, criando uma sociedade quase perfeita, jovial, com gosto pela vida, embora nem tão engajada em uma certa pressa com avanços tecnológicos. Quase como se fossem uma espécie de nobres selvagens do espaço, embora explicitamente tenham uma sociedade tecnológica. Mas são um povo amistoso e feliz com o que tem, e, como tal: sem pressa. Como resultado, um certo grau de pureza e ingenuidade emana dos thalassianos, Adões e Evas em seu Éden caribenho do espaço.

Thalassa - ou Scarif, se preferirem...

O contraste é com o recém-chegado: seres humanos completos, adultos, que viram o Sol explodir, após um último meio milênio conturbado, com sociedades em crise, levando consigo traumas e amarguras em geral dos últimos dias do sistema solar. Foram expostos a guerras, religião, levantes e decisões terríveis.

Infelizmente, o conflito, como em boa parte da obra de Clarke, não chega a realmente acontecer. Seu otimismo frequentemente vence o drama. A primeira metade do livro, mais ou menos, é para apresentar o cenário, a tecnologia e a situação, os personagens, os laços entre si, assim como as novas amizades e novos amores, e alguma rivalidade. Só para a segunda metade é que a promessa de conflito surge, mas mesmo assim, ela não desenvolve. Clarke simplesmente não consegue. Havendo ainda que desenvolver a descoberta de uma espécie própria thalassiana que, pelo jeito, demonstra sinais de inteligência.

E o que resta de um livro assim? O que parece restar sempre dos livros do Clarke: tudo. Todas as possibilidades. Todas as descrições acachapantes. Todas as ideias inovadoras e poderosas. Todas as promessas.

Só para ficar no que já foi descrito: é lícito uma sociedade tecnologicamente superior - os viajantes da Magalhães, no caso - interferir, ainda que da maneira mais gentil que encontrasse, em outra menos avançada? Sim? Não? Caso não, isso valeria a vida de um milhão de futuros colonos a bordo da nave, em uma expedição que ainda duraria 300 anos e 98% de chances de sucesso em um planeta descrito como similar a Marte, em vez de uma aposta garantida ali mesmo?

Obviamente que um livro bem maior seria necessário para explorar todas as implicações sugeridas aqui. A minha favorita é encontrar um subtexto que remete ao que chamo de "a geração de Moisés": no relato do Êxodo, nenhum dos escravos libertos do Egito viveu para entrar na Terra Prometida, devido ao pecado do Bezerro de Ouro - mas seus filhos não carregariam a mácula de seus pais, assim podendo entrar em Canaã.

Tal é o contraste entre thalassianos e viajantes. Os primeiros foram ideológica e biologicamente formados para ser uma Humanidade melhor. Os segundos são a promessa dos velhos maus hábitos retornando de um passado deixado para trás de todas as formas possíveis, e mesmo alguns dentre os viajantes têm ciência disso.

Em tempos de pré-ida a Marte, torna-se um questionamento atual: quem irá para outros corpos do sistema solar? E como pretendemos nos comportar lá fora?


As Canções da Terra Distante
336 p.
Editora Nova Fronteira

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Frankenstein ou o Prometeu Moderno


Frankenstein ou o Prometeu Moderno - Editora Nova Fronteira (2011)

Já foi dito que, se Julio Verne e H. G. Wells foram os pais da Ficção-Científica, Mary Shelley foi a mãe.

A moça em questão escreveu Frankenstein ou o Prometeu Moderno, que acabei de ler pela primeira vez. Mil coisas na cabeça... a primeira sendo: esqueçam os filmes, a viagem do livro é uma própria. Como bem me disseram, talvez seja a diferença entre "baseado em" e "inspirado por". Os elementos que se associaram ao imaginário popular se deve aos filmes da Universal, onde em um castelo isolado um cientista desprezado pelos seus pares, tendo como único assistente um corcunda abrutalhado, desafia o que ele chama de convenções engessadas contra o progresso da Ciência e, em uma noite tempestuosa usa os relâmpagos para reanimar um corpo composto de diferentes cadáveres, em uma das mais antológicas cenas do cinema. Seu sucesso acaba se tornando sua ruína.

A ruína e a eletricidade estão presentes. Mas, salvo a solidão, esqueçam o resto. Pode ser um pouco decepcionante: anos atrás eu lera O Diário de Frankenstein (1980), que se baseia mais no universo composto do cinema do que na obra de Shelley. Todas as referências vão pelo cinema, onde quer se vire - mesmo o filme com Robert deNiro toma suas liberdades.

Young Frankenstein' and Gene Wilder's Neighing Legacy - PopMatters
Não este Frankenstein.

Então, privado do histrionismo eletrodinâmico, castelos decrépitos e turba enfurecida, o que nós temos?

Uma história sensacional, com diversas possibilidades de leitura e interpretação.

Existe um fascínio todo próprio, ao meu ver, na figura de Frankenstein - Victor, não a Criatura, esta nunca teve um nome, na verdade - enquanto homem de Ciência. É contado como ele, jovem, deixa-se inspirar pelos livros de filosofia natural de Cornellius Agripa, Paracelsus e Albertus Magnus: sábios medievais que, apesar da falta de tecnologia da época, nunca deixaram de investigar fenômenos naturais, ponderando sobre o que causava, recheando as explicações que davam com uma boa dose de observação, intuição e tremenda imaginação.

Ao prosseguir para a Academia, Victor se vê despojado de seus heróis do conhecimento, ao ser ridicularizado por um dos professores, enquanto que outro, mais atento às sensibilidades e sede por conhecimento, orientou-lhe mais gentilmente no Bom Caminho. Já havia tido uma certa perda de fé anterior, quando um relâmpago destrói um grande carvalho próximo de onde morava, e o fenômeno foi-lhe devidamente explicado por um naturalista mais atualizado em como o mundo funcionava; Victor mergulhou em seus estudos, fascinado pela ideia da relação entre tecidos animados e galvanização. Dado o tempo e obsessão no que acaba se envolvendo, ele acaba criando sua forma de vida particular.

É essa transição entre o mago e o cientista, para mim, um dos aspectos mais fascinantes do livro. No Século XVIII, a Ciência mais e mais se calcava em fatos obtidos através de experimentações, ao invés de observação e especulação dos períodos anteriores: a tecnologia havia progredido, para tal. E eu acho que Victor Frankenstein desempenha estes dois papeis.

Victor, o cientista, aprende a instrumentação e inteira-se sobre o mundo da Química qual havia na época, em que sua educação superior podia ter acesso. Em nenhum momento ele discute teorias radicais - como, nos filmes, é dado a crer - com seus pares, nem é expulso da Academia. Entretanto, Victor, o mago, o discípulo dos filósofos naturalistas do passado, que em sua adolescência chegou a tentar evocar espíritos e realizar rituais, consegue o impossível.

Boris Karloff: icônico, se por mais nada.

Uma coisa que notei foi a presença de diversos cenários naturais ao longo da história. Penso se não há  outra dualidade presente aqui: a Natureza é retratada como eco do estado de espírito dos personagens, tanto na alegria quanto na tristeza, e sobretudo, na solidão (há uma ótima passagem assim logo antes de Victor reencontrar Criatura em Genebra, onde a majestosa vastidão ao seu redor ecoa em sua solidão, elevando seu espírito).

Da mesma forma, ela é retratada tanto em sua beleza (os lagos e montanhas suíços) quanto em sua fúria (as vastidões geladas e traiçoeiras do Pólo Norte), mas mesmo na pior tempestade, de alguma forma ela pode vir a ser fonte de inspiração: mas quando se cruza certos limites, e força-se o controle das leis Naturais a um tal ponto, as coisas realmente ficam feias.

Futurama nails it again.

Em um terceiro ponto, parece notar que a vida natural, sob um certo ponto, é mais saudável, mais feliz. Conhecimento obtido gera angústias, dor e inquietações: Frankenstein era feliz com seu pseudo-aprendizado científico, e a Criatura não sabia o quão miserável realmente era até se ilustrar, e as interações fracassadas com a Humanidade minam-lhe a índole e a boa vontade. Está aí, vejo eu, o debate nature x nurture, ou: o Homem é bom, por natureza? A vivência o corrompe? Ou a medida está entre algo instalado na ROM de cada um e as escolhas que se faz, dia a dia?

Apesar de um tom sombrio que o romance lança sobre a Ciência, é dito que Mary Shelley era bastante otimista sobre o assunto, ainda que desaprovasse o que ela via como excessos de cientistas, isoladamente. Dentro da alusão mitológica de Prometeu, o titã que deu o fogo à Humanidade, há ainda relacionado a ele Pandora, a primeira mulher, que em uma caixa trazia todos os males do mundo: havendo sido aberta, os males escaparam, mas a tampa foi fechada a tempo de conter a esperança, ou ainda, a providência, a capacidade de raciocinar sobre o futuro, causas e consequências. Omitir-se ou renegar, qual o que Frankenstein fez com sua paternidade, não é opção.

E isso vale em qualquer época.

Frankenstein ou o Prometeu Moderno
248 p.
Editora Nova Fronteira - Coleção Saraiva de Bolso.


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A Cidade e as Estrelas


A Cidade e as Estrelas (1956), por Arthur C. Clarke

Spoilers zone ahead.

Reli, após uns quinze anos ou mais, A Cidade e as Estrelas (em edição de 1979 da Ed. Nova Fronteira), de Arthur C. Clarke. Bom ver que muito do que eu havia admirado ainda está lá. Entretanto, confesso que não foi a leitura fácil que eu acreditava ser. Tantos anos depois, alguns trechos me soaram meio chatos, fora uma certa datação do texto em si (ou terá sido da tradução?), não necessariamente das idéias apresentadas.

Curiosamente, procurando material para estes comentários, eu me deparei com este artigo na wikipedia que conta que The City and the Stars é a reescrita do mesmo autor de Against the Fall of the Night, que eu não conhecia. Apesar das muitas mudanças, a primeira versão nunca deixou de cair no gosto dos fãs.

A história é passada em alguns bilhões de anos no futuro, e nos apresenta Diaspar, a última cidade da raça Humana, fisicamente bastante similar tudo considerado, um modelo de ambiente de perfeição auto-sustentada. Diaspar é totalmente - salvo por túneis de ventilação - isolada do mundo ao redor, do qual só um imenso deserto pode ser visto, protegida por um enorme domo opaco. Dentro, o conforto material e intelectual dos estáveis dez milhões de habitantes vem sido mantido com perfeição pelas máquinas criadas há tanto tempo, especialmente pelo Computador Central - e como em toda a utopia, sempre tem um chato.

E ele é Alvin, que nunca não se satisfaz com tudo dado de mão aberta em Diaspar: desde cedo, ele quer ir além de suas fronteiras, mesmo que o que demonstra existir do lado de fora não seja exatamente encorajador.

Entra em cena Khedron, o Bufão de Diaspar, sempre disposto a agitar um pouco da ordem pública da cidade, dando a Alvin ferramentas para ir adiante com sua inusitada e preocupante mania. No que resulta disso, nem Khedron consegue enfrentar.

Ocorre que um bilhão de anos de Diaspar são montados em premissas falsas, que começam a cair quando Alvin descobre uma outra cidade, bastante diferente de Diaspar, Lys (que é mais uma região com diversas vilas), situada bem além do deserto ao redor de sua cidade.

A sociedade em Lys é bastante diferente da projetada em Diaspar. Lys não só conhece a presença de Diaspar, como a monitora. Em Lys, as pessoas levam um modo de vida voltado ao cultivo do solo (há uma natureza exuberante naquele terreno), com alguma vantagem tecnológica: mas são todos hábeis telepatas, fruto do planejamento genético e evolução após um bilhão de anos, sendo ainda grandes geneticistas e biólogos; enquanto que em Diaspar vivem dez milhões de diletantes ("todos são artistas"), dependendo inteiramente de máquinas para o que for. Os habitantes de Lys nascem e morrem em cerca de dois séculos, os de Diaspar são gerados já crescidos pelo Computador Central e tutorados por casais dispostos a ajudar nos primeiros vinte anos, para ajuste social e enquanto suas memórias não florescem - é como se já nascessem sabendo, resultado de inúmeras vidas com circuitos de memória armazenados após mil anos por vida, quando em geral decidem que já "está bom" e têm os corpos desmanchados pelo sistema da cidade. Sim: sexo, somente, para recreação. Utopia, pois. O critério de reinserção dos que já morreram na sociedade é de acordo com uma estatística de perfil de compatibilidade.

É óbvio que ambas as sociedades estão em isolamento e estagnação, devido a um grande temor do passado, e que precisam romper isto: a arcadiana Lys e a tecnológica Diaspar.

Há uma forte semelhança entre Alvin e Neo, da - por enquanto - trilogia The Matrix: ambos vêm de uma última cidade do Homem, criada por temor a um inimigo externo. E, principalmente: ambos são variações únicas de seus respectivos meios criadas pela máquina de tempos em tempos para testar o sistema, e levar tudo e todos a um novo patamar.

Para retratar o quão longe o ser Humano foi, Clarke abusa dos números: as estimativas mais modestas são na casa de mil anos. Seres e eventos de milênios, milhões e bilhões de anos perambulam pela história - grandiosidade que faz parte do sense of wonder que o autor é um mestre.

No final, A Cidade e as Estrelas acaba sendo uma história sobre eternidade - uma que mostra que nada dura para sempre.

244 p.
Editora Nova Fronteira