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quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Video-resenha: Não Existem Macacos Inteligentes!

Vídeo-resenha pelo canal Livros & E-Books de Não Existem Macacos Inteligentes (2021), antologia baseada no livro O Planeta dos Macacos (1963), de Pierre Boullet, assim como também nas séries e demais filmes derivados com o tempo da obra original.

A antologia é organizada por Lu Evans e Saulo Adami, da qual participo eu com o conto Radiumgami MechaniKong, Go! Pra baixar o e-book gratuito, clique aqui. Para comprar a edição física, clique aqui.

  



sábado, 15 de agosto de 2020

Metanfetaedro



Metanfetaedro – Ficção Científica Brasileira
Vizinhanças do estranho: Metanfetaedro, de Vic Vieira/Alliah (Tarja Editorial, 2012)

Metanfetaedro é uma coletânea de Vic Vieira, então assinando como Alliah. Saiu pela extinta editora Tarja, dedicada à publicação de literatura fantástica. O livro tem oito contos independentes, dois deles interligados no sentido de terem as mesmas protagonistas. Acompanham os contos ilustrações de capa e miolo de sua própria autoria.

Os escritos se propõem a seguir a corrente do New Weird, tornando-se até então uma das poucas publicações assim aqui no Brasil.

Pessoalmente, eu tenho a impressão que, do New Weird, há a tentação de cair em um rococó de adjetivos e nonsense que pode facilmente suplantar a própria história sendo contada: o que, conforme se apresenta, não é o caso aqui. Eu e Gerson Lodi-Ribeiro chegamos a receber um conto do autor em 2012 para a antologia que coordenamos, Super-Heróis (Draco, 2013), mas que infelizmente não pudemos aproveitar, e era completamente da mesma safra.

A Tarja, aliás, publicou obras dentro do subgênero até então inéditas no Brasil, como Alquimia da Pedra, de Ekaterina Sedia e a primeira tradução de China Miéville no Brasil de Rei Rato, ao contrário do que erroneamente já se pôde ler por aí.

O autor é ativista trans, havendo sido um dos proponentes do Manifesto Irradiativo, destinado à promoção da visibilidade das identidades não-mainstream étnicas, religiosas ou de gênero. Junte isso com sua formação inicial em oceanografia e posterior em artes plásticas, pensamento político mais puro tesão de quem então estava em seus 20 anos e obtemos um mosaico cinético de ações e referências explodindo de si mesmo por todo o livro.

E porque só se tem 20 anos uma vez, temos um dos meus dois contos favoritos do livro, por destoar de um discurso de ação espetaculosa de descrições ao usar o estranho para basear para uma história de cunho pessoal e de perda. Em O Jardim de Nenúfares Suspensos, a situação envolve a perda de alguém marcante ainda na fase universitária, daquela sensação de vida interrompida testemunhada bem antes do que "deveria ser", isto é, somente no devido tempo e idade de nossos avós: esperança revelada falsa, por motivo súbito e irracional, e a prontificação da saudade que muito provavelmente não irá embora... impressões que só aumentam com a narração em primeira pessoa.

Contemplafantasiação é um dos poucos escritos que li na vida que eu gostaria de ver animados. Não filmados: animados. Elementos e paletas diferentes voam, sucedem-se e se mesclam, em uma história trágica de um amor proibido, como são essas histórias. Tabus sociais e culturais impedem a felicidade das protagonistas de povos distintos, onde a homoafetividade do relacionamento é o de menos - não obstante uma oposição masculina, brutal e predominante.

Morgana Memphis contra a Irmandade Gravibramânica e Morgana Memphis Dividindo por Zero estrelam o mesmo par de personagens amorais, a citada Morgana Memphis e Amadahy, protagonistas de ação contra o excesso de desmandos do mundo em que se vive. O primeiro conto ganhou nos dias que passam uma pequena e perturbadora atualidade, com um populista de extrema direita no poder com vias de ser reeleito, além de religiões organizadas reacionárias que se acham detentoras de todos os motivos para oprimir o outro: sim, se as personagens são amorais como eu disse acima, podendo provocar a morte e acidente de passantes ocasionais sem sequer piscar o olho, quem elas enfrentam são coisas muito piores.

O outro, no caso, são uma população marginalizada de alienígenas assexuados que culturalmente adotaram para si a biologia mainstream, procurando se integrar e para isso buscando cirurgias de modificação corporal. Mas tudo o que conseguem é brutalidade e repulsa: "Grupos conservadores radicais, que havia pouco tempo habituarem-se a tolerar ciberorganiformes e animorfos, ficaram entusiasmados com o surgimento de uma nova identidade na praça e puseram-se imediatamente a protestar contra os novos translienígenas." (p. 91)

Mas isso é uma coisa em comum pelos mundos apresentados nos contos: a crueldade, extrapolação das injustiças do mundo real elevadas à enésima potência. Isso fica especialmente claro em Tupac Amarú III, onde o massacre do que seriam povos nativos andinos não encontra limites, macerando sua carne e espírito através de gerações, e Escolhidos ou deuses manifestados terão que cortar um dobrado para salvar ou vingar seu povo, com baixas chances de sucesso.

Tema recorrente é a cidade, a paisagem urbana, não apenas decadente mas futurista, arruinada porém não por isso menos viva e, se bobear, com intenções próprias. Do chão que absorve o sangue e o resto dos tombados para gerar energia para si a planos de fuga interdimensionais, a cidade está lá, um deus onipresente que se acostuma a não pensar nele, embora nos seja inescapável vê-lo ao nosso redor, a cidade tem seus próprios planos - e, à maneira dos deuses, planos insondáveis: em Uma Cidade Sonhando Seus Metais, a cidade é praticamente a personagem principal, ou assim pode ser lido. O tipo de conto que poderia facilmente constar na antologia Cidades Indizíveis (Llyr Editorial, 2011), por exemplo - e que, certamente, enriqueceria o livro.

O descaso pela vida do outro tornado mau hábito corriqueiro é fotografado especialmente nos contos envolvendo crianças. Como na vida real, são as que mais sofrem, nos escritos, não há porque ser diferente. Não há quem as salve, nem quem vele por elas. Suas vidas são breves, abandonadas e com fins violentos. Moleque é o conto que abre o livro, descrevendo dois irmãos separados por um oceano e unidas por tudo o que há contra sua existência. Uma delas ainda tem o conforto da companhia gentil de uma Iara, Mãe D'Água, porém em fim de carreira quando os mares e rios estão completamente poluídos. Mas é uma exceção.

Por último, Metanfetaedro, o conto que deu nome ao livro. Este foi reeditado na Fractais Tropicais (SESI-SP Editora, 2018), importante antologia coordenada por Nelson de Oliveira que caracteriza autores das ditas três diferentes ondas da ficção científica brasileira. Seu texto foi reescrito, em uma nova versão, no caso, beneficiando-se de um polimento. A história trata - se entendi - a respeito de bloqueio criativo, envolvendo ainda hipergeometria e drogas transcendentais - bem, metanfetaedro já está no título, afinal: e mais é tentar explicar o que deve ser curtido, sentido e viajado.

Espero que essa coletânea, algum dia, possa ser republicada, e que o autor possa ter o destaque que, definitivamente, merece.

Metanfetaedro
232 p
Tarja Editorial

sábado, 21 de janeiro de 2012

Dieselpunk - Arquivos Confidenciais de uma Bela Época


Dieselpunk - Arquivos confidenciais de uma bela época, editora Draco (2011)


Terminei a coletânea Dieselpunk - Arquivos confidenciais de uma bela época, da editora Draco.

Dieselpunk, para os não-iniciados, é um sub-gênero dentro da Ficção Científica que escolhe como época a primeira metade do Século XX, seguindo-se ao Steampunk, focalizado na Era Vitoriana, a Revolução Industrial e o impacto da tecnologia da época. O dieselpunk reflete o entre-guerras e a ascensão do motor a combustão e o uso do petróleo ao invés do carvão como base da indústria. Dirigíveis, muito art deco, aviões à hélice mas a nova era se anuncia, com mochilas-foguete e mesmo pistolas de raios - qualquer semelhança com o filme SkyCaptain and the World of Tomorrow não é mera coincidência.

Com 9 contos e quase 380 páginas, este pequeno tijolo de literatura fantástica é uma "continuação temática" da coletânea steampunk da mesma Draco, em 2010, chamada Vaporpunk - Relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades. Não li esta ainda, mas pelo resultado da Dieselpunk, fiquei realmente curioso para ler.

O nível das histórias é surpreendentemente... denso, para dizer o mínimo. Não se trata somente de literatura de entretenimento, como poderia se esperar, embora ação e aventura certamente estejam lá. Mas há, claramente, duas vertentes - em que nenhuma escolha pese para desmerecer uma ou outra, percebam, ou estancá-las de uma maneira binária: as histórias são ótimas -, uma puxando mais para o lado da ação e outra nem tanto. Um show à parte são as ambientações criadas para estas histórias, onde não só a tecnologia, mas a História e a sociedade divergiram bastante, também.

Modo geral, sem apontar dedos, parece-me que a tentação em mostrar ora a pesquisa feita, ora o trabalho de world-building, para que o leitor entenda e participe do tesão que foi montar estas histórias pode acabar por ameaçar o fruir do que é contado.

A Fúria do Escorpião Azul, de Carlos Orsi, abre o livro com uma história de ação e espionagem, com um protagonista-título nos moldes dos vingadores mascarados como o Sombra, Spyder, etc., que permeavam os folhetins americanos de 70-80 anos atrás. Passado em um Brasil onde a revolução comunista se deu, envolve pesquisas extra-sensoriais soviéticas e o sequestro de bebês... para fins inomináveis!

Grande G, de Tibor Moricz, fala sobre duas cidades imaginárias, uma movida a diesel e outra a vapor, em constante conflito, quase como imaginando as duas vertentes - steampunk e dieselpunk - dialogassem em maus termos.

Impávido Colosso, de Hugo Vera, conta uma história de guerra - tema inevitável para o gênero e o livro - entre Brasil e Argentina, com nuestros hermanos nos invadindo com exércitos de robôs teleguiados e nós resistindo com colossais robôs tripulados!

Cobra de Fogo, de Sid Castro, é dos meus favoritos. Em um mundo pós-Grande Guerra, os conflitos internacionais são mediados pela Liga das Nações, e resolvidos por corridas intercontinentais utilizando gigantescos veículos chamados locomotivas, capazes inclusive de voar à maneira dos ekroplanos. A história em si é sobre a disputa da Região Amazônica, reivindicada para ser uma área internacional pelos países, ponto contestado prontamente pelo Império Brasileiro. Cabe à tripulação da M'Boitata defender nossas cores. Eu não sei quanto aos demais leitores nem quanto ao autor, mas esta história de corrida intercontinental com carros estrambóticos e um pano de fundo político não me é mais nada senão que Speed Racer - e aqui, feita com carros-mamute! Sensacional! Destaque para o sombrio Primeiro-Ministro do Império, o Conde de São Borges... Getúlio Vargas.

O Dia em que Virgulino cortou o Rabo da Cobra Sem Fim com o Chuço Excomungado, de Octavio Aragão, aqui retrata um encontro que não houve na História: Virgulino Ferreira, mais conhecido como o rei do cangaço Lampião, e Luis Carlos Prestes, em plena marcha de sua Quinta Coluna. Estes dois e outros personagens históricos são apresentados, sendo que, até o encontro, pessoas e coisas estranhas acontecem, decidindo eventos que podem afetar o Brasil... e o mundo.

O País da Aviação, do meu camarada antologista Gerson Lodi-Ribeiro - e organizador desta coletânea -, é mais um de seus escritos de História Alternativa, partindo do princípio desta vez que o engenheiro norte-americano Robert Fulton, ao contrário da vida real, consegue vender seu motor a vapor para Napoleão Bonaparte, inaugurando uma nova fase da Marinha décadas antes do suposto, mudando o destino da decisiva batalha de Trafalgar. A Hegemonia Europeia se estabelece, e expande-se pelas Américas. O conto salta pelas décadas do processo (contado em datas da Revolução Francesa), e em dado momento mostra o encontro dos Pais da Aviação: os irmãos Wright, Santos Dumont, - e os menos conhecidos - Otto Lilenthal e Karl Jatho sob uma mesma bandeira.

Ao perdedor, as baratas, de Luiz Antonio M. C. Costa, trabalha pelo lado da conspiração política, em um cenário histórico revirado ao avesso, em que no panorama ideológico mundial, consta um predomínio holandês, e não inglês, versus uma monarquia dos trópicos que se vê obrigada a aceitar a diversidade étnica e cultural - simbolizada em um casal inter-étnico de personagens, união repudiada ocultamente pelo protagonista, um agente secreto que irá causar um evento capaz de transformar o mundo. Filosofia, política, sociedade, Kafka e Lovecraft são discutidos ou apresentados na trama, montando um dos mais complexos cenários presentes no livro.

O Auto do Extermínio, de Cirilo S. Lemos também trabalha com monarquias claudicantes e conspirações políticas, loucura, espionagem, tiroteio, robôs e ação. É o fim dos dias de Dom Pedro III (baseado no Príncipe Pedro Augusto de Alcântara, personagem da vida real, retratado no livro O Príncipe Maldito - Loucura e Traição na Família Real, da historiadora Maria Lúcia del Priore), e o Brasil vive um clima tenso politicamente, com Integralistas de um lado e Socialistas do outro esquentando o panorama, à espera da apresentação do herdeiro real - uma possibilidade que ninguém deseja. É um conto muito interessante, com toques místicos envolvendo a loucura presciente do protagonista.

Só a morte te resgata, do português Jorge Candeias, talvez seja a mais madura das obras apresentadas. Levanta uma questão interessante: se o lar é onde está o coração, o que pode ocorrer quando seu coração não está em lugar algum? Encerrando o livro com um tom melancólico, apesar do mundo alternativo apresentado, conta a história de um piloto de biplanos de guerra, após sua unidade ter sido massacrada no meio do deserto, tentando voltar para casa, lançando mão de recursos pouco honrados, até o retorno. De certa forma, este retorno é tão solitário quanto seus voos.

Em suma, ótima e criativa leitura. Parabéns aos envolvidos!
Editora Draco

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Antologia SUPER-HERÓIS

Pois é. Virei antologista.

Uma empreitada completamente nova para mim, em uma ideia junto à editora Draco e ainda de quebra tendo meu prezadíssimo Gerson Lodi-Ribeiro a bordo.

A Draco, para quem não conhece ainda, especializou-se em seus já dois anos de existência, em coletâneas de literatura fantástica, ficção científica e suas variantes.

Seguem as guidelines, presentes no blog do Gerson e no da editora. Divulguem, divulguem... :)

Antologia SUPER-HERÓIS
Guidelines


O.k., nem todo mundo curte os filmes e quadrinhos de super-heróis. Porém, se você gosta de escrever literatura fantástica e não se inclui nessa minoria, gostaríamos de convidá-lo a submeter um conto para apreciação na antologia que estamos organizando para a Editora Draco, cujo título provisório (imaginativo) é Super-Heróis.

Nossa proposta é organizar uma antologia de contos bem escritos que abordem as aventuras de super-heróis de forma criativa, original e preferencialmente com tempero lusófono. Tanto faz se seu herói é humano ou alienígena, se possui superpoderes ou não, se é um bom sujeito ou nem tanto — embora, em princípio, prefiramos que nossos autores deixem os vilões do tipo sociopata mascarado para uma eventual Super-Heróis II: Supervilões. Tampouco importa se você mostrará a gênese do seu herói ou se ele cairá de paraquedas no meio de uma grande aventura. O importante é que seu(s) protagonistas sejam psicologicamente bem delineados e que suas aventuras / desventuras constituam uma leitura instigante e divertida.

Fanfiction? No que se pese ser difícil reinventar a roda, no quesito originalidade, não desejamos receber fanfictions. Nada contra trabalhos escritos por fãs para homenagear seus heróis favoritos no âmbito amador dos blogues e e-zines. Contudo, no âmbito profissional, a história é outra. Daí, no intuito de evitar a possibilidade de nos tornarmos (autores, antologistas e editores, não necessariamente neste ordem) réus em processos judiciais movidos pelos detentores legítimos dos direitos autorais sobre super-heróis criados por terceiros, incentivamos com empenho os autores que pretendem participar deste projeto a criar seus próprios heróis em vez de “tomar emprestado” personagens da Marvel, DC ou outras empresas. Para evitar riscos desse gênero, rejeitaremos pronta e inapelavelmente sem apreciação do mérito literário qualquer trabalho que nos pareça fanfiction.

Tamanho: Desejamos apreciar trabalhos entre 3.000 e 12.000 palavras. Isto não significa que submissões fora deste intervalo serão sumariamente rejeitadas. Se o conto analisado possuir qualidade literária e se enquadrar na temática proposta, essa qualidade será considerada em nossa apreciação, mesmoque o texto seja menor ou maior do que o limite proposto. Noentanto, a bem da sinceridade, deixamos claro que apreciaremoscom maior simpatia trabalhos dentro do intervalo referido.

Filosofia de trabalho: Analogamente, gostaríamos dereceber trabalhos criativos e originais cujos enredos mostrassem heróis ou super-heróis inseridos direta ou indiretamente na cultura brasileira e/ou portuguesa, mostrando o impacto socialda existência e das proezas desses personagens e de seus superpoderes nessa cultura. Não se trata de uma exigênciaestrita. Trabalhos que nada tenham a ver com o Brasil ou comPortugal serão apreciados com a atenção devida e poderão sereventualmente aceitos. Porém, cumpre frisar nossa predileçãopor contos lusófonos de corpo (i.e, escritos por autoresportugueses e brasileiros) e espírito (enredo, personagens, ambientação lusófonos).

Deadline: 31 de março de 2012.

Data de lançamento (provável): Fantasticon 2012.

Eis aqui a oportunidade ímpar do autor lusófono de literatura fantástica criar seu próprio super-herói e imortalizá-lo nas páginas impressas da Super-Heróis.

As submissões devem ser enviadas apenas em versão eletrônica, formato rich text file (.RTF), para os e-mailslfvasques@gmail.com e glodir@unisys.com.br, com cópia de segurança para o e-mail ericksama@gmail.com. Confirmaremos a recepção de todos os trabalhos recebidos.

Dúvidas? Não hesite em contatar os seus antologistas de plantão.

Gostaria de discutir sua trama ou linha de enredo conosco? Não se acanhe. A casa é sua! Estamos aqui para isto.

Aguardamos ansiosamente a submissão do seu trabalho.

Luiz Felipe Vasques & Gerson Lodi-Ribeiro (antologistas)

Erick Sama (editor).

Setembro de 2011.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Selecionados da Coletânea 'Dieselpunk'

Do blog de Gérson Lodi-Ribeiro, eis os participantes:

  • “Ao Perdedor, as Baratas” [Antonio Luiz da Costa];
  • “Auto do Extermínio” [Cirilo Lemos];
  • “Cobra de Fogo” [Sidemar Castro];
  • “O Dia em que Virgulino Cortou o Rabo da Cobra sem Fim com o Chuço Excomungado” [Octavio Aragão];
  • “A Fúria do Escorpião Azul” [Carlos Orsi Martinho];
  • “Grande G” [Tibor Moricz];
  • “Impávido Colosso” [Hugo Vera];
  • “Pais da Aviação” [Gerson Lodi-Ribeiro]; e
  • “Só a Morte te Resgata” [Jorge Candeias].

Parabéns aos escolhidos!

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Eu Sou a Lenda

Eu Sou o Smith? Não, creiam: é muito melhor!

Prosseguindo no meu périplo sanguíneo, li Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson, que recebeu três adaptações cinematográficas: uma de 1964, com Vincent Price, outra de 1971, com Charlton Heston, e uma mais recente, com Will Smith. Não assisti a primeira, mas a impressão que se colhe é que há uma ordem decrescente em termos de qualidade do texto desde a primeira adaptação. Havendo visto as outras duas, posso concordar que estes dois pontos formam uma reta.

Matheson é um escritor e roteirista que escreve até hoje, desde os tempos do Além da Imaginação original. É seu o que talvez seja o mais famoso episódio, Nightmare at 20000 feet, refilmado no longametragem do cinema de 1986, e mesmo parodiado nos Simpsons. Para a série original de Jornada nas Estrelas, escreveu The Enemy Within, uma ótima história sobre a necessidade do equilíbrio entre o Bem e o Mal em um ser humano. Os ótimos contos que acompanham no livro a história-título dão uma boa idéia de seu talento como roteirista, é fácil vê-los como algum episódio de Além da Imaginação, The Alfred Hitchcock Hour, ou congêneres.

A edição é da Novo Século, 296 páginas, e traz a história-título do livro, e ainda mais dez contos de Matheson. Para quem não conhecia nada, é uma oportunidade ótima de conhecer a obra do autor.

O livro abre com a própria, e é uma história fascinante de loucura, dor e desespero. Em resumo, Robert Nelville é o último Homo sapiens da Terra, após uma epidemia ter se alastrado pelo planeta e transformado, quem não morreu (de vez), em criaturas movidas pelo desejo de sangue. Ele se aquartela, noite após noite, em sua casa, fortificada contra ataques daqueles que, toda a noite, surgem para tentar pegá-lo. De dia, faz a manutenção dos estragos externos da noite anterior, procura novos víveres, e sai à procura de vampiros, dormindo, para liquidá-los. A sanidade de Nelville é corroída dia após dia, entrando em uma espiral auto-destrutiva envolvendo álcool e ataques de fúria, uma vez que parte de si se questiona, continuar para quê?

Talvez essa exploração do comportamento de Nelville seja o ponto alto do livro. Ele se torna alguém que qualquer um temeria, só de se deparar - conquistar a confiança de alguém como ele (e verdade seja dita, em um mundo como aquele), só se um pouco de força física estiver envolvido - leiam, e entenderão: como em Frankenstein, monstro quer afeto.

Por monstro, percebam: nem a civilização que ele se faz cercar - sua casa é o último baluarte disto, com luz elétrica, carro, música clássica à noite entre outros confortos e necessidades - o impede de se brutalizar. Era, afinal, alguém sozinho, que mesmo na ameaça noturna cotidiana, liderada por um conhecido quando vivo, podia encontrar o conforto da familiaridade.

Essa inversão de papéis progride até um final surpreendente, com questionamentos a respeito de normalidade.

Meus únicos poréns cercam a respeito de uma certa lógica interna - que não vou explicar para não estragar ainda mais - assim como um andamento entre a parte 3 e parte 4 da história: pareceu-me que há um salto no tempo indevido. Mas não é nada que desfigure essa grande história.

Para quem não conhece Matheson, o livro ainda traz dez contos, como disse acima:

Talentos Enterrados é simplesmente estranho, uma estranheza que desafia gêneros pré-estabelecidos.

O Quase Defunto e O Funeral são as histórias mais bem-humoradas - e se passam em funerárias.

Dança dos Mortos conta, em um futuro pós-apocalíptico, uma perturbadora história de mortos-vivos e um quê de "juventude transviada". Recebeu uma adaptação para a tela pequena alguns anos atrás.

Casa Louca se aproxima da história-título, ao enfocar um protagonista viciado em seu mau-temperamento, ao ponto de se infligir machucados inconscientes ou quase - fora como ele influencia o ambiente ao redor. Aproxima-se bastante da história-título, no aspecto da fúria autodestrutiva.

Dos Lugares Sombrios contrasta o que há de mais primitivo com o que há de mais civilizado, interna ou externamente. Sexo e magia negra do bom.

De Pessoa para Pessoa encerra o livro, com outra história que facilmente podemos visualizar em preto e branco, como em um episódio de uma série antiga. Loucura, vozes na cabeça, e um toque de humor negro.

São estes histórias que giram em torno de desespero, angústia, fúria, dor física e sangue. A prosa é rápida, como convém a um roteirista.

Uma última ressalva é que o livro merecia ser melhor cuidado. A edição da Novo Século derrapa com a tradução ("Fácil como uma torta!") e a revisão ("Begone, Van Helsing e Mina e Johnathan e os olhos injetados do Conde Drácula!") aqui e ali.