Mostrando postagens com marcador Ficção Científica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ficção Científica. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Worldbuilding: Universos Ficcionais Brasileiros

 Estou com um questionário dedicado a universos ficcionais feitos no Brasil e suas autorias, quem quiser preencher / puder divulgar, agradeço muito: https://forms.gle/73QDsgtdHLihXHug6

A ideia é lançar os resultados de qualquer modo até fim do ano. Se houver interesse e procura o bastante, divulgo em novembro, em um simpósio.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Dollhouse

Tipologia desconjuntada: antes de virar clichê em capa de livros, creio: mas aqui, está no tema.

Aviso: sujeito a SPOILERS.

 Dollhouse (2009) foi uma série menos conhecida, das criadas por Joss Whedon. Ele já tinha feito seus mega-sucessos Buffy e Angel, fracassado gloriosamente em Firefly, ainda estava a 3 anos de despontar como nerd god no primeiro filme d'Os Vingadores - e ainda não sabíamos de seu comportamento extremamente problemático em ambiente de trabalho.

A essa altura, Dollhouse é uma série que, para ele, talvez seja melhor continuar a ser esquecida: a premissa é a de uma organização secreta com tecnologia de ponta que, através de lavagem cerebral futurista adormece a personalidade de adultos e cola em seus cérebros quase vazios novas personalidades, com habilidades próprias, ou por vezes um remendão de ambos os conceitos, para o melhor desempenho. Desempenho em...? Pois é. Para o que quer que um cliente que muito bem pague assim precise.

Ou seja, esses 'frankensteins cognitivos' agem como desde médicos, ladrões sofisticados, cantores ou artistas marciais, até escorts ou namorada/os por um fim de semana, para depois serem devolvidos e terem as memórias apagadas - e aqui está o óbvio problema do conceito, desde antes que se mostre a primeira cena de Eliza Dushku na cama com alguém que, em coisa de um ou dois dias, ela jamais irá se lembrar do que, onde e com quem: na Dollhouse, eles não estão em um papel, eles são o papel que lhes é imposto. A presença de bonecOs, além de bonecas, não convence muito, ao meu ver, em caso de uma alegada equiparação: prostituição masculina, via de regra, é muito menos debatida na sociedade do que a feminina (e nem precisamos mencionar prostituição gay).

No final das contas, é uma série não só sobre exploração sexual de pessoas vulneráveis, mas sobretudo, de controle: cabe a leitura de um artigo do Mary Sue sobre como Dollhouse é a visão discriminatória que Whedon tem a respeito de mulheres, debaixo de uma capa de progressismo. Me é difícil discordar.

Do ponto de vista da Ficção Científica, a ideia do espião sem memórias que tem um jeito de compensar com habilidades que jamais teve não é novidade desde, ao menos, O Super Espião. Conceitos similares podem ser vistos em John Doe e mesmo na comédia Chuck (a impressão que tenho é que acabaram derivando do conceito da reunião de talentos geniais com personalidades e backgrounds singulares para uma dada missão, agora é uma espécie de "exército de um homem só" de habilidades múltiplas). 

A ideia de personalidades vestindo corpos que não são seus também é uma noção manjada, mais recentemente vista em Carbono Alterado (livro original de 2003; cuja ideia de estocagem em mídia física de memórias e personalidades reaproveitadas em um corpo posterior aparece em Dollhouse no ep. 1x10). Na recente Severance, a ideia da separação da vida no trabalho da de fora do trabalho é elevada a um novo patamar. A escravização/servidão de seres humanos de maneiras futuristas, vistas em filmes como A Ilha (clones para peças sobressalentes), o que faz lembrar a HQ O Mundo de Krypton (a versão de Byrne & Mignola, 1987-1988), em que clones eram mantidos inconscientes, também como depósitos de peças sobressalentes para seus originais, em caso de necessidade médica - em uma sociedade avançada e hedonista.

... mas não é novidade, mesmo...

Claro que a Dollhouse em si não é, possivelmente, uma organização 'do Bem', mas também não é apenas uma startup de cafetinagem high-tech. Conspirações com motivos sombrios são hit desde, pelo menos, Arquivo X

Os eps tendem a sempre dar um motivo, aleatório ou não, para a programação instalada nos 'Ativos' dar um pifa, especialmente em Echo, a protagonista de Dushku. Apesar da repetição da premissa, isso é uma forma de progredir o próprio plot, especialmente dado o número reduzido de episódios (já faziam 12 por temporada, na época, logo após a greve de roteiristas de '07-'08). 

Cabe dizer que tecnologias inventadas em FC não raro se tornam fonte de episódios inteiros, quando começam a funcionar de maneiras inesperadas, uma vez determinados - para o público, especialmente - os parâmetros sob os quais elas devem operar: ou, deveriam. A franquia de Star Trek tem seu quinhão de problemas com o teletransportador e, claro, o holodeck, para ficarmos em um exemplo manjado - inclusive, um sobre como não usar este tipo de artifício. 

Em Dollhouse, o imprevisto é sobre a capacidade de absorver e esquecer as memórias e personalidades implantadas, além de variações que não necessariamente os personagens desenvolvedores não conhecem, o que é válido, já que a tecnologia é inteiramente nova: e brincar sobre variações imprevisíveis de uma tecnologia inexistente não é novidade desde Isaac Asimov e suas 3 Leis da Robótica.

A primeira temporada serve para então apresentar os personagens, a trama, a tecnologia de impressão mental e seus imprevistos, episódio por episódio, sendo os imprevistos parte da fórmula do 'caso/monstro da semana', como em tantas outras séries. O finale quebra com o formato, jogando a trama 10 anos no futuro, no distante ano de 2019 (pois é...) e o elenco quase só com outros personagens, apenas para o episódio. Muita coisa deu errado até então, com a sociedade reduzida a escombros, uma vez que aquela tecnologia desenvolvida para a Dollhouse saiu do controle (eis uma cronologia do universo da série).

E tome de causar impressões...

A segunda temporada começa no tempo normal, com Echo/Caroline (Dushku) ciente de cada impressão de personalidade que ela já recebeu (após eventos perto do fim da temporada passada), após passar a 1a. temporada dando indícios que ela se esquecia cada vez menos dos ocorridos de suas identidades temporárias. 

Os personagens ao redor ganham mais espaço para serem desenvolvidos, mostrando lados mais humanos do que como foram estabelecidos na primeira, e o alvo é a matriz da conspiração, a corporação Rossum (uma referência assumida), por trás das Dollhouses. Goste ou não, há algumas reviravoltas aqui, é bom se preparar. Os cenários se diversificam mais, de situações ou localidades (a Dollhouse de Washington aparece, e os planos para a futura 23a. em Dubai são parte de uma trama): destaque para o episódio 2x10, "The Attic", onde finalmente tão citado e temido "Sótão" da casa é mostrado, sendo uma espécie de 'The Matrix' mas feito da maneira certa, e que ainda remete ao final da 1a. temporada.

Os dilemas apresentados ganham vários contornos, dentro das limitações de tempo por episódio/temporada: mas para o final da segunda (que se firma com o finale da primeira), temos a discussão sobre quem teria mais direitos de se ser: uma personalidade original, ou outra desenvolvida com o tempo, após passar pelas remodelagens impressas - algo nem tão diferente de Douglas Quaid de O Vingador do Futuro (1990).

Problemas no deck de voo da Galáctica...

Múltiplas interpretações pelo mesmo ator ou atriz sempre são divertidos de ver, e se o trabalho é bom, de se admirar, apostando na versatilidade de suas atuações. Os exemplos são vários, mas só pra citar dois de cabeça, Eddie Murphy vira e mexe faz isso em um de seus filmes, e Tatiana Maslany impressionou muito bem em Orphan Black. O elenco de 'Ativos' tem a oportunidade de fazer isto várias vezes e, francamente, achei divertido comparar. Falando no elenco, vários rostos com quem Whedon trabalha surgem, além de outros conhecidos, especialmente se você assistia séries da Fox daquele período.


Rostos whedonianos se reencontrando.

Conclusões finais? A série merecia mais. Merecia mais tempo para desenrolar e deixar um pouco mais claro os desenvolvimentos da tecnologia de impressão de personalidades, assim como toda a trama em si. Merecia ter seus atores com melhor disposição para trabalhar o alcance de papeis, por exemplo. Merecia, também, um pensar mais cuidadoso quanto às questões acima colocadas - em 2009 certos simancóis talvez já devessem estar melhor tomados.

domingo, 16 de julho de 2023

Simbiontes

Capa da edição impressa.

SPOILERS ABAIXO

Simbiontes, de Gerson Lodi-Ribeiro, é um romance de ficção científica militar, em um raro caso brasileiro deste subgênero, passado em seu universo ficcional da Aeternum Sidus Bellum, em que uma situação de primeiro contato leva a Humanidade a desenvolver uma cultura eminentemente guerreira. Os escritos acompanham as guerras travadas através dos séculos contra os Ry’whax, primeiro em um império estelar, depois reformados em uma república - nada dura para sempre com as civilizações descritas por Gerson, a não ser a própria guerra em si.

É o segundo texto que leio deste universo, o primeiro sendo a noveleta No Amor e na Guerra (situada 400 anos antes deste romance), publicada na antologia Space Opera: Aventuras fabulosas por universos extraordinários e republicada na coletânea Os Humanos Estão Chegando.  

Como de hábito, o worldbuilding do autor é caprichado, como visto em outros trabalhos. Neste livro, há dois apêndices, um com a cronologia através de alguns séculos da ASB e outro com a biologia da raça Ry’whax.

A história versa a respeito de um projeto secreto vital para a Humanidade e seus aliados, que devido à guerra começam a enfrentar escassez de matéria prima sendo executado na estrela Rigel, e o sacrifício necessário para tirar a atenção do inimigo de lá quando eles descobrem suas atividades. A batalha espacial encarniçada que se segue, desafiando todas as probabilidades, termina nas cercanias de um planeta em outro sistema estelar que, a princípio parece desabitado - enganosas aparências que levam à segunda parte da trama.

Capa do e-book.

Os personagens, especialmente os humanos e seus aliados, têm um ponto de vista mais centralizado na história e, por isso, são melhores desenvolvidos que os oponentes, presos em um comportamento de terríveis conquistadores espaciais que, pessoalmente, não tenho nada contra em uma trama assim. O desenvolvimento dos personagens é interessante, embora em algumas cenas e diálogos eu tenha achado um pouco deslocados, especialmente em meio a um frenesi de batalhas espaciais. Mas isso não impede em nada a fruição do livro. 

O título é interessante, pois oferece algumas leituras: os simbiontes citados tanto podem ser os implantes no cérebro dos Humanos e aliados, que se comportam como entidades inteligentes à parte com personalidade própria; da relação belicosa entre Humanidade e Ry’whax e mesmo uma ocorrendo no mundo em que ambos os oponentes irão parar.

Para os entusiastas de cenários de guerra espacial e, ainda, promessas de grandiloquência cósmica, é recomendado. Quero ver como se desenrola nos demais escritos. :)

Termino aqui com uma pequena lista fornecida pelo autor dos escritos, dentro da cronologia interna de ASB: 

1) Decisão em Capella

2) Simbiontes

3) Germes Mortais

(*) Os Humanos Estão Chegando: coletânea com várias narrativas, desde anteriores a Decisão em Capella a posteriores a Simbiontes.

Simbiontes (2022)
259 pp. (edição física)
autopub.

terça-feira, 4 de julho de 2023

Filmografia das ExoMigrações

Disclaimer: SPOILERS a seguir.

A ideia de naves espaciais levando tripulantes inertes, sob alguma forma de animação suspensa, através de décadas ou séculos até um outro sistema estelar - devido à impossibilidade do voo mais veloz do que a luz - data pelo menos de Far Centaurus (1944), conto de A. E. Van Vogt, em que o autor aproveita e dá também a solução de "e no meio do caminho, enquanto dormiam, o voo FTL é descoberto e quando chegam ta-daaa já tá tudo habitado". O destino era a estrela mais próxima depois do Sol, o sistema triplo de Alfa Centauri (Alfa Centauri A, B e C - esta última é tbm conhecida por Proxima Centauri).

Há uma certa solenidade no conceito, pois envolve um respeito e temor pelas forças da Natureza, e da vastidão de um cosmos letal e indiferente, ao mesmo tempo em que coragem face a um provável sacrifício de suas próprias vidas são valorizados: o conceito do "martírio pela Ciência" data da virada para o século XX e nunca desapareceu por completo.

Uma variação do tema é a nave geracional, em que se não se preserva os tripulantes pois tal tecnologia é impossível ou ineficiente, mas supõe-se que eles vivam, tenham filhos e faleçam em tempo de voo, até que futuramente se chegue ao destino (um planeta habitável, via de regra). Teóricos da Astronáutica como Robert Goddard, J. D. Bernal e Konstantin Tsiolkovsky já propunham isso lá pelos 1920s.

Não é à toa que se denomina esse tipo de nave, em geral, como "arca": para a nossa cultura ocidental, a referência óbvia é a bíblica, em que na Arca de Noé a esperança de sobrevivência dos últimos humanos (e das espécies animais) persistiam após a destruição do mundo anterior. Outros povos ao redor do mundo apresentam histórias semelhantes em seus imaginários, como Deucalião e Pirra dos antigos gregos. 

Tem uma bela lista do Goodreads onde várias obras literárias do subgênero são apresentadas, incluindo-se aí Encontro com Rama, de Arthur C. Clarke (1973), Aurora (1980), de Kim Stanley Robinson e Herdeiros do Tempo (2015), de Adrian Tchaikovsky.

Abaixo, alguns exemplos nas telas.

Originalmente, a missão a bordo da Júpiter II de Perdidos no Espaço (1965-1968) incluia sua tripulação em animação suspensa, até o ato de sabotagem do Dr. Smith. Ambas as séries, a original e a de 2018, têm Alfa Centauri como seu destino, embora o filme (1998) se refira a um planeta chamado Alpha Prime - seja onde lá isso for. Tal recurso não foi adotado mais, entre as viagens nos episódios para o planeta da semana.

A nave Júpiter 2 original.

Semente do Espaço (1x22) é um dos mais famosos episódios da Star Trek original, pois apresenta o vilão Khan Noonian Singh, que vinte anos depois volta em Jornada nas Estrelas II - A Ira de Khan (1982), assim sedimentando a ideia de continuidade em um show que prima em ser episódico, dado o formato de época. Após terem sido derrotados nas Guerras Eugênicas dos anos 1990s, Khan e os seus são julgados e exilados em uma nave sem capacidade FTL, sendo mantidos em animação suspensa - até serem encontrados pela tripulação da USS Enterprise.

A Enterprise e a Botany Bay: não uma, mas duas naus de insensatos...

O Mundo Infinito (3x08, 1968) é outro episódio da série clássica, em que os habitantes de Yonada, um asteroide oco, já se esqueceram até mesmo que estão em um lar provisório, com sua jornada havendo  começado com seus antepassados milênios antes.

A Enterprise e o asteroide-mundo Yonada.

A Estrela Perdida (1973) no Brasil, Starlost foi uma série de curta duração, com base em história de Harlan Ellison e com a atuação de Keir Dulea, o Dave Bowman de 2001 - Uma Odisseia no Espaço. Nela, a nave Ark, de (fontes divergem, mas são muitos quilômetros) de comprimento, carrega diversos ambientes estanques em uma longa viagem interestelar (fontes divergem, mas por muitos) séculos, mas está em curso de colisão com uma estrela. Cabe os personagens trafegar entre os diferentes ambientes (onde, via de regra, seus ocupantes também se esqueceram de suas origens), um por episódio, até o comando para tentar consertar a coisa. Após uma temporada, entretanto, a série foi cancelada sem que houvesse uma solução ao dilema central.

Earthship Ark: vagando incerta até hoje.

Wall-E (2008) conta a história em uma Terra arruinada ecologicamente pelo consumismo exacerbado, deixada sob os cuidados de robôs lixeiros enquanto ela volta a se tornar habitável, e que o que restou da Humanidade nasce, vive e morre a bordo dos Starliners da corporação BNL: aqui, a história se passa a bordo da Axiom, em que todo o dia é uma mistura de country club com shopping center, e seus moradores mantidos em ignorância e consumismo, conforme o desejo do verdadeiro comandante da nave, que não deseja voltar à Terra. Uma sociedade mantida estável, na ignorância e pelo consumo de bens materiais não é novidade na FC: adicione drogas e teremos, pelo menos, Admirável Mundo Novo (1932).

 

Axiom: a distopia simpática.

Pandorum (2009) apresenta a tragédia da Elysium, que parte com 60.000 almas para colonizar um mundo em uma viagem de 123 anos, pondo todos em hibernação. Mas quando alguns dos colonos despertam, descobrem haver toda uma nova situação a bordo, com mutantes canibais descendentes de quem devia estar dormindo tocando o terror. O filme foi muito mal na bilheteria, o que interrompeu suas pretensões de ser uma trilogia.

Elysium: mais para Hades.

Ascension (2014) envolve o Projeto Órion, uma estimativa do governo americano para lançar uma nave que pudesse alcançar até 10% da velocidade da luz, utilizando como propulsão sucessivas detonações nucleares à popa do veículo, protegido por um escudo resistente. O projeto foi proposto ainda nos anos 60 e, na vida real, engavetado: esta minissérie propõe que ele não somente foi construído como lançado secretamente, com a trama se desenrolando tanto lá quanto cá, em clima de conspiração. A bordo, ainda é uma espécie de sociedade americana dos anos 60, com moda e visual congelados no tempo, já na terceira geração - além de problemas, conspirações e estranhezas ocorrendo a bordo. 

Ascension: nem tudo é o que parece ser...

Passageiros (2016) investe no drama pessoal de um solitário colono que, por defeito de sua unidade de criogenia, desperta antes da chegada, o que ocorrerá apenas em 90 anos. Sem a possibilidade de entrar novamente em animação suspensa, ele percorre os amplos salões e corredores da Avalon e resolve despertar outra passageira, por quem passa a nutrir sentimentos, possivelmente a condenando a um destino semelhante ao dele.

Esquemas da Avalon.

Smile (10x02, 2017) é um episódio de Doctor Who onde a ação transcorre em uma colônia extrassolar (é dito ser Gliese 581d, off-screen) com uma nave de hibernação já havendo aterrissado, a Erewhon.

Se as Estrelas aparecessem (1x04, 2017) é um episódio da série The Orville, inspirada em Star Trek. Apesar do clima de paródia que permeia a série, ela consegue por diversas vezes ser extremamente fiel ao material original. Neste episódio, de forma semelhante a O Mundo Infinito, descrito acima, uma arca transporta seus habitantes há tanto tempo que eles já se esqueceram de suas origens: no caso, uma viagem para colonizar outro planeta se torna uma jornada de 2.000 anos, após uma tempestade iônica danificar o controle de voo, levando ao esquecimento e regresso da tecnologia e civilização.

A gigantesca bionave: perdidinha ali no meio, creiam, está a Orville.

The Ark (2023) é uma série que conta sobre uma malograda expedição a Próxima Centauri b, cujos futuros colonos são despertados de sua criogenia porque sua nave está caindo aos pedaços, e ninguém sabe direito o motivo. O elenco, como já é moda há algum tempo, constitui-se de desconhecidos entre si com diversas origens, capacidades - e motivações - que não exatamente gostam uns dos outros, mas precisam trabalhar juntos para sobreviverem a um desastre

Ark 1, onde problemas não faltam.

Das amostras acima, interessante ver alguns flertes com hard science-fiction, antes de sucumbirem às necessidades do drama, alguns erros conceituais e franco não-tô-nem-aí.

Nos onze casos acima, cinco adotaram destinos cientificamente embasados (seis, se contarmos o da Axiom). O sistema tríplice de Alfa Centauri foi lembrado quatro vezes: Perdidos no Espaço original e de 2108, Ascension e Ark 1. É normal que Alfa Centauri tenha uma boa presença em nosso imaginário: é o sistema estelar mais próximo do nosso, distando a 4,3 anos-luz: uma lonjura desgraçada que, ao mesmo tempo, é um "logo ali" em distâncias astronômicas. Com a confirmação de planetas ao redor de Proxima Centauri (Alfa Centauri A e B, mais semelhantes ao nosso Sol, não estão apresentando evidência até agora), é normal que a ficção científica renove o interesse ultimamente - especialmente com Proxima Centauri b, orbitando na distância certa de sua estrela para ter água em estado líquido em sua superfície, se lá houver. Já Gliese 581d, no episódio de Doctor Who, orbita uma estrela a 20,4 anos-luz de nós, com sua posição aparente próxima à de Beta de Libra.

Passageiros cita um mundo-alvo apenas chamado Homestead II, em uma viagem que durará 120 anos, e o filme de Perdidos no Espaço menciona o tal Alpha Prime. O destino foi esquecido ou não era importante nos demais casos. 

As viagens retratadas levando aproximadamente 5 a 6 anos (Ark 1, na 1a. temporada), 50 anos (Ascension), 120 anos (Avalon), 123 anos (Elysium) 270 anos (Botany Bay), 405 anos (Earthship Ark), 750 anos (Axiom), 2.000 anos (bionave), 10.000 anos (Yonada) e três temporadas (Júpiter II).

Alguns dos motivos para os êxodos são semelhantes: a falência do ecossistema lança a flotilha com Earthship Ark, Júpiter II (1998), Axiom, Elysium e Ark 1; a superpopulação global lança o Júpiter II original, enquanto um evento de impacto na Terra motiva a partida dos expedicionários no Perdidos do Espaço de 2018; pelo ensejo por colonização em outro sistema estelar decola a bionave em The Orville; a explosão da estrela natal em nova lança o asteroide Yonadu, e uma sentença penal encarrega a Botany Bay de levar Khan e seus asseclas para sabe-se lá para onde.

Dos veículos retratados, além da barreira da velocidade da luz (mesmo se o universo ficcional permitir), algo que que se pretende que dê peso (piscadinha, piscadinha) ao cenário é a gravidade induzida por setores rotatórios, como em The Ark e Passageiros. Ascension parte (mais ou menos) do princípio de que a nave tem alguma aceleração para explicar sua gravidade a bordo. Semelhantemente, nas séries Babylon 5 e The Expanse temos uma aplicação mais cuidadosa disto, assim como as necessidades da inércia sempre que possível: o problema primeiro é que, via de regra, gente flutuando significa encarecer a produção. Em segundo, levar em conta a inércia significa ações calmas e leeentas - assim como em 2001 e alguns filmes inspirados por ele ao longo dos anos 70 -, o que pra fins de drama não interessa a (quase) ninguém. Acaba sendo um equilíbrio nem sempre fácil de se obter entre ambas as necessidades, ao se fazer esse tipo de história.

Proxima b: from 'eyeball planet' to full Alderaan...

No final, o que sobra é a solenidade mencionada, e que na curta experiência humana, podemos relacionar somente com o período das Grandes Navegações que, independente de seus motivos e consequências, inspira até hoje se imaginamos a ousadia e engenhosidade do enfrentamento do mar aberto, ambiente eminentemente hostil, por quem somente dispunha de navios à vela e nenhuma possibilidade de navegação eletrônica, muito menos de comunicação com terra. Quando a ficção científica se estabelece, ao pensar no futuro da exploração espacial, inevitavelmente vai atrás das referências históricas e, como tal, traça paralelos com os 1400s-1600s.

Como será que faremos isso, na real? Só estando lá para saber. Tecnologia, ciência e sociedade às vezes dão saltos ou tomam caminhos inesperados de qualquer projeção que façamos: e ficção científica inevitavelmente reflete o agora.

Mas eu gostaria de estar lá para ver.

domingo, 11 de junho de 2023

Corrosão

 

Corrosão (2018), de Ricardo Labuto Gondim: finalista do Argos e vencedor do Odisseia em 2019

Aviso: SPOILERS abaixo.

Candidato a se tornar um clássico dentro do subgênero de FC hard brasileira, o que torna o livro em si é um raro exemplar, Corrosão é aquele tipo de ficção científica que nos inspira e deslumbra, um filho da tradição clarkeana de sense of wonder regado a música erudita, mesmo que em um mundo primariamente de máquinas e seres humanos destas não muito distintos: ao mesmo tempo, apresenta ao leitor aspirações, inspirações e outras pirações filosóficas e metafísicas que me levam a mais do que encaixá-la sob um subgênero, mas a arriscar dizer que esta é a lua de platina da FCB.

O futuro dos 2150s descrito por Gondim é, do nosso ponto do primeiro quarto do século XXI, perfeitamente crível: não bastasse questões ambientais, a sociedade é descrita como uma mesma grande massa global conformada e alienada sob drogas recreativas - a referência a Huxley não está lá à toa - com Estados nacionais dissolvidos e política de pouca força ou ilusória importância, sob a batuta de um mesmo  monopólio econômico, um conglomerado conhecido como apenas como a Corporação, resultando em "uma sociedade sem aspirações, corroída de baixo para cima". 

Essa credibilidade acaba dando um tom cautelar ao livro, uma leitura extra como por vezes Ficção Científica assume e exibe.

A história segue a trajetória do Nikola Tesla e seus tripulantes, encarregados de seguir até a lonjura de Plutão atrás de um asteroide contendo "vastas reservas de um óxido extraordinário, capaz de manter propriedades supercondutoras sob altíssimas temperaturas sem entrar em fusão", podendo mesmo "apresentar propriedades antigravitacionais 'voláteis' ou 'coisa similar'"; alcançá-lo, mineirá-lo e retornar com o butim para a citada Corporação. A nave foi construída para a missão em específico, sendo um ápice de tecnologia. Mas ao contrário do que foi a ida do Homem à Lua, os primeiros seres humanos a irem tão longe assim da Terra não são retratados com o glamour das primeiras décadas da exploração espacial tripulada, antes havendo mais uma atmosfera de apenas um outro dia de trabalho, apenas sendo mais longe dessa vez: o que é par com o tipo de sociedade que não se deixa exclamar com o que acha ser pouco, o que significa deixar de passar oportunidades assim.

No caminho, surge o inesperado: uma anomalia eletromagnética em espaço já devidamente cartografado, de intensidade e tamanho que jamais deixariam de ter sido notadas anteriormente, com a tecnologia vigente já há tempos. Despertado de seu sono em animação suspensa pela IA de bordo, o comandante da missão decide então investigar, acordando o resto de sua tripulação. A partir daí, somos apresentados aos demais e como reagem, no crescendo em que a investigação se dá até o centro da anomalia, e o inesperado revela conter o impensável: nada menos que o HMS Titanic - sim, o próprio, toneladas de aço, inteiro ainda que sob muita, muita ferrugem.

O astronauta e a ostentação de época: Memories - The Magnetic Rose, de Otomo (animação de 1995) também me lembrou.

As personagens, seguindo a tradição hard s.f., são de curto ou difícil desenvolvimento, já que FC normalmente é um tipo de história orientado à uma trama, quanto mais FC hard. Mas, mesmo assim, temos indícios do que esperar de cada um dos tripulantes do Tesla: são oriundos de uma sociedade onde há baixo envolvimento de pessoas com o que quer que seja além de suas atividades profissionais, e o ser humano que resta é pouco mais do que uma engrenagem em uma sistema maior, havendo pouco interesse na construção de uma poética pessoal, mesmo em uma época onde assuntos e oportunidades não faltem, parecendo se tornar cada vez mais difícil convencer as pessoas disto: não obstante, dois deles procuram quebrar esta fôrma, olhando para os demais com uma certa condescendência.

Dois personagens mantêm uma relação conflituosa devido às suas personalidades, e no processo um ajuda o outro a se delinear: o comandante da nave, Kiril Alexandrovich Mravisnky, e a geofísica espacial Sandrine Mercier divergem diametralmente sobre a investigação inesperada. Ele, em último caso por não ter outra saída em termos do dever; ela, deixando-se levar pelo medo do desconhecido, uma vez que fica claro que a tal anomalia não pode ter uma fonte natural. 

Mravinsky é um comandante de astronave como se espera que os comandantes sejam, autênticas rochas de salvação, nem tão aprofundados em um dado campo de conhecimento como os demais, mas capaz de liderá-los, ouvir as considerações e tomar a decisão que tiver que tomar. Já Mercier se mostra frágil e desequilibrada, e com outros atributos que, quando comparados, até pelo texto se torna fácil gostar de um e desgostar da outra. Apesar do que, entendemos Mercier, uma vez que ela é alguém que se permite sentir medo do desconhecido.

Corrosão, indeed...

Dos demais personagens, contamos com a astrofísica de bordo, Anitra Nordraak, como ótimo exemplo desse tipo de super-especialista gerado por esta sociedade - e um tipo ideal para a importância da missão. Daniel Martinu, projetista da Tesla e engenheiro de bordo, é o outro personagem que consegue 'quebrar a fôrma', permitindo-se um nível de conjectura filosófica enquanto vivencia o insólito - apenas para, dado momento, igualar-se a Mercier, ao ser o primeiro a, in loco, constatar o nome do transatlântico. Ambos, poética pessoal ou não, sucumbem ao medo face o irracional. Temos ainda Oleg Koslov, o piloto da nave e uma sexta tripulante que misteriosamente não se ergue do sono criônico, Anca Kertész. Ela é a profissional de comunicações, e descrita como tendo uma personalidade catalisadora, ajudando a aproximar o grupo de trabalho - e tendo "uma curiosidade incomum naquele tempo". Olhando em retrospecto, pode-se supor que sua ausência pode ter sido sentida no desenrolar do drama.

E há o sétimo tripulante: ANNA, a IA de bordo, uma personalidade construída que trabalha com estatísticas do comportamento humano para o que esperar das reações dos demais, e mesmo antecipar. Ao mesmo tempo, ela está simultaneamente em cada canto da nave e da missão, zelando pelo sucesso da própria. A comparação inevitável é com Hal 9000, ainda que ANNA seja mais sutil em garantir o cumprimento da diretiva que obriga a investigação em caso de possibilidade de um primeiro contato com inteligências alienígenas, como saberemos mediante o destino de uma das personagens.

MOTHER, o computador da Nostromo em Alien - o 8o. Passageiro, também pode ser lembrado.

.As comparações com 2001 - Uma Odisseia no Espaço, são inevitáveis. Ao contrário do Monolito, que é a total ausência de significado possível para quem o investiga, o insólito apresentado pelo Titanic trabalha com algo plenamente reconhecível e que, por isso mesmo, fica ainda mais indecifrável. Os momentos de pânico passados por Martinu e a reação de Mercier são completamente justficáveis. Cenas como o encontro a bordo do Titanic e a desativação de parte das capacidades cerebrais de Anna igualmente remetem, assim como os momentos extemporâneos do epílogo.

Os detalhes técnicos permeiam a narrativa como os fragmentos da corrosão que o transatlântico sofre, e da mesma forma que as demais interferências nublam a visão clara do que ocorre aos personagens, trafegar pelos parágrafos pode ser de uma navegação incerta. Em outra narrativa, ou por outro autor, isso poderia ser um problema, mas Gondim toca o barco com habilidade o bastante para que isso, voluntariamente ou não, funcione como uma meta-narrativa. Navegar é preciso, tudo mais é impreciso, e prosseguimos, noite adentro, no encalço do mistério, atrás do farol de luzes suspeitas.

Por último; se o Titanic, ápice tecnológico naval, é lembrado como uma espécie de arauto do fim da 'Era Dourada' do moderno capitalismo inicial, penso se, por paralelo, sua reaparição e contribuição com o naufrágio do Nikola Tesla - ápice tecnológico aeroespacial - não poderia simbolizar o fim de outra era, também bem capitalista, ainda que elite de agora zele por prudência e discrição. Portanto, resta aguardar por uma continuação, e o ICG7-51 - com seu conteúdo cheio de promessas, econômicas e narrativas - possa ser finalmente alcançado.

Recomendo.

Corrosão
292 p.
Caligari

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Caminhos da Memória (Reminiscence)


SPOILERS adiante. Estejam avisados.

Cyberpunk e noir são dois gêneros que se comunicam desde antes o estabelecimento do primeiro, conforme qualquer um que tenha lido Blade Runner - o Caçador de Andróides (1968) sabe disso. De Rick Deckard a Nick Bannister há uma árvore genealógica que, é claro, precede o romance de Philip K. Dick em décadas.

Uma interação recente entre ambos os gêneros é o filme Os Caminhos da Memória (Reminiscence, 2021), que foi escrito, dirigido e produzido por Lisa Joy, que recentemente se envolveu em projetos como as séries Westworld e Periféricos: (ir)realidades virtuais é um tema com que já está acostumada.

Então, do lado noir, temos: 

Hugh Jackman como o detetive. No caso, é especializado em guiar pessoas por uma tecnologia de reavivamento de memórias (que, é contado, começa como um sistema de interrogatório policial, mas em breve ganha o gosto como tecnologia de lazer*), trabalhando ocasionalmente com o departamento de justiça, mas os achados de seus casos estão na memória de seus clientes.

Tanques high-tech: servindo Hugh Jackman desde X-Men (2000).

Rebecca Ferguson - mais recentemente Lady Jessica no novo Duna (2021) - é a "mulher fatal" desse tipo de narrativa, que entra no escritório do detetive alegando um motivo para contratá-lo quando, na verdade, começa uma trama conspiratória que irá tragá-lo, e vai caber à obsessão e um bocado de sorte por parte do detetive sobreviver, até os motivos de tudo serem revelados.

Thandiwe Newton como a secretária/confidente/apaixonada secretamente pelo detetive. Há um desenvolvimento interessante do que seja a figura dessa parceira, aproveitando o peso da atriz.

Ainda do noir, temos a corrupção extrema das elites, sob a velha capa da respeitabilidade, e decifrar seus motivos escusos faz parte do resultado final. Mas com o cyberpunk trazendo a tecnologia de registro, cópia e edição de pensamentos e memórias, discernir o fato se tornar ainda mais complicado. Um take bem fascistoide da análise desse tipo de subjetividade está na polícia pré-crime de outra adaptação de P. K. Dick, Minority Report: A Nova Lei (2002) (a série de 2015 que não foi muito adiante era mais interessante); O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança 

Do cyberpunk, temos portanto alguma forma de realidade virtual, abuso de tecnologia, diferenças sociais alarmantes e, no caso aqui, um mundo pós-aquecimento global em que o nível dos mares elevou-se drasticamente, com cidades como Miami e Nova Orleans - onde se passa a ação - semi submersas: terra seca, natural ou artificial, é objeto de status e cobiça, trazendo a especulação imobiliária de novo como vilã da história e assim se reencontrando com o noir. Os cenários alagados ou inundados compõem o grosso da ambientação de ficção científica, que não prima aqui pela presença maior de gadgets ou veículos futuristas, a não ser quando necessário.

Thandiwe Newton como a fiel Watts - é, sutileza não foi o caso, aqui... :)

O filme custou R$54 milhões e flopou globalmente ao arrecadar 16 milhões somente: muitos podem ser os motivos pra isso, como mau timing ao lançá-lo ou algum outro aspecto da campanha de marketing. Ou talvez porque o combo 'realidade virtual', 'identificação e identidade' e 'história de detetive' já sejam meio que derivação da derivação, a essa altura do campeonato. Navegar por memórias duras revividas ou se esconder em uma doce mentira? Algo assim consta, pelo menos, desde Nirvana (1997). O final, feliz, pode ser ilusório como a natureza dessa história: não é à toa que a lenda de Orfeu e Eurídice é contada do jeito que foi.

Gostei de ver Angela Joy trabalhando com rostos que lhe são familiares: Thandie Newton e Angela Sarafayan estão em Westworld, que é criação sua com o marido e também roteirista Jonathan Nole.  

Se recomendo? Achei interessante o bastante pra tentar me desenferrujar e escrever esta resenha, compor o texto e tal. Não pareço muito entusiasmado? É, acontece...

Disponível no Amazon Prime.

14/02/2023

* a ideia do tanque em casa de tecnologia avançada que serve apenas para sustentar um vício em vez de apenas cumprir uma devida função aparece na série francesa Ad Vitam, já resenhada no blog, mas o mote é a juventude eterna. Procurando aqui, infelizmente não está mais no catálogo Netflix.