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quinta-feira, 21 de junho de 2012

Os Dentes do Inspetor

Os Dentes do Inspetor - Editora Francisco Alves (1976)


Terminei de ler Os Dentes do Inspetor, em edição de 1976 da saudosa Francisco Alves através de sua coleção Mundo Fantástico. A edição brasileira foi dividida em dois volumes, seguindo-se a este Os Construtores de Continentes. O original (1953) se chama The Continent Makers (and other tales of the Viagens).

Foi o primeiro livro de L. Sprague de Camp que li. O otimismo da FC daquela época está presente, onde o mundo, apesar de uma III Guerra Mundial, triunfou e se lançou ao espaço, encontrando raças alienígenas para contactar e negociar. Há uma peculiaridade aqui, com os EUA e URSS, após a conflagração, terem perdido o status de grandes potências (Europa nem é citada), e quem dá as cartas na Federação Mundial é nenhum outro que... o Brasil. Nomes e expressões em brasilo-português são apresentados ao longo dos seis contos deste volume, e revertendo mentalmente o texto original para o inglês, parece que ficou bom. Isaac Asimov apresenta o volume, e garante que o autor é um pesquisador fanático. Pois, pois. Não deixa de ser uma concepção engraçada.

Os contos vão do ano 2.054 até 2.148, abarcando dois sistemas solares vizinhos com meia dúzia de planetas habitados com suas raças próprias. Os dinossauros inteligentes de Osíris, Prócion, contrastam com os semi selvagens dzlierianos, uma raça de aspecto centauroide habitando Vishnu, um dos três mundos ao redor de Tau Ceti.

E nesses cenários exóticos, ao invés de contar feitos heroicos de seres Humanos em ambientes semi desconhecidos, as narrativas se focam em presepadas e pequenos golpistas querendo tirar alguma vantagem de alguém em algum dado momento. É montada uma pequena galeria de adoráveis - ou nem tanto assim - patifes, refletindo um fenômeno típico americano, o pequeno empreendedor, small-time hustler, que gera lucros a partir de fontes não muito lá éticas ou salutares, triunfando (ou tomando corridas homéricas) em territórios onde leis e regulamentações ainda não estão exatamente claras - ou, se estão, não é nada que os impeça (o meu favorito é o monarca que desenvolve um esquema para importar tecnologia restrita para o seu reino, envolvendo a múmia de um rei ancestral - não dá pra antipatizar totalmente com o cara!). E, se é que não aparece no segundo volume, só falta um comerciante de tônico das mil maravilhas produzido sabe-se lá como em uma banheira, viajando de carroção puxado por bois, de vilarejo em vilarejo...

... e não, é o caso de "só podia dar nisso com brasileiro nas estrelas", e de Camp não antecipou a Lei de Gérson em 30 anos. Francamente.

O livro tem um quê de FC "mais antiga", não sei se a tradução ajuda a denotar isto, e pareceu-me que o autor não era exatamente alguém de maiores estilos. Mas é bem divertido, e espero conseguir obter a continuação em breve.

Os Dentes do Inspetor
144 p.
Editora Francisco Alves

domingo, 16 de janeiro de 2011

Os Filhos de Matusalém

Os Filhos de Matusalém (1958)

Aviso: spoilers abaixo.

Terminei Os Filhos de Matusalém, de Robert Heinlein, em edição da extinta Francisco Alves de 1978.

É, até onde entendi, o primeiro livro onde figura um dos principais personagens, senão o principal, do autor, chamado Lazarus Long.

A história é sobre o drama passado pelas ditas Famílias Howard, que vivem séculos antes de morrer, por terem começado um processo de escolha de parceiros conjugais baseados na longevidade de seus antepassados. Em 2125, eles resolvem ir à público e revelar sua condição, e a reação popular é a pior possível: ninguém acredita que não haja uma "Fonte da Vida Eterna", e logo eles perdem seus direitos civis mais básicos, como coerção para que entreguem o segredo. Dissecação está à vista. O jeito é fugir do sistema solar, roubando a primeira nave construída pela Humanidade a destinada a explorar as estrelas, vencendo os anos-luz, e torcer para encontrar um mundo adequado. 100 mil pessoas reunidas em um autêntico campo de concentração se atulham na nave, e fogem.

Alguns tantos anos se passam, e eles se deparam com dois planetas com possibilidade para a vida.

No primeiro, há uma raça que os acolhe bem, e apesar das diferenças de linguagem e mentalidade, a situação é bastante pacífica - até que fica claro que os deuses dos nativos existem, e na verdade estes são como os animais de estimação de entidades que não se revelam, ou não podem ser reveladas. Fica claro que os humanos não são material para serem animais de estimação, e o poder dos deuses faz com que os 100 mil partam em sua nave, sem conflito algum.

No segundo sistema solar, uma raça com grandes poderes telepáticos também os acolhe, e oferece uma bela paisagem verdejante onde não há falta de alimento ou de nada: a aparente falta de cidades ou tecnologia oculta uma raça que conhece matemática e biologia a tal ponto que a mera vontade canalizada consegue originar novas espécies a partir do que é existente. E ainda, suas consciências são coletivas - algo que aterroriza os protagonistas, especialmente quando uma humana, longeva porém preocupada com a morte, resolve se deixar levar pela coletividade e se funde mentalmente com a raça.

Estabelecido ainda que o paraíso é uma chatice quando não há nada a fazer, a volta para casa é planejada. Nem todos vão, é da escolha de cada um, e os que retornam o fazem 75 anos depois que fugiram. Entre a longevidade e questões relativísticas, para eles não passou tanto tempo assim.

Spoilers o suficiente depois, então, questões...

Heinlein, de formação de Exatas, passa algum tempo com os personagens em cogitações técnicas e científicas a respeito de velocidades acima à da luz. Sendo tudo novo para o gênio de bordo (Andrew Jackson "Slipstick" Libby, outro personagem recorrente de Heinlein), que constrói o mecanismo de navegação FTL - algo inédito ainda para a Humanidade -, dúvidas e elocubrações sobre a natureza do que estavam fazendo surgem o tempo todo. Sob um certo aspecto, o personagem está só (ainda que não sintamos, como leitores, esta solidão), pois suas dúvidas podem ser apenas expressas aos demais em linguagem cotidiana, o que, é claro, não faz ninguém entender realmente o problema. Como me disse um amigo, aliás físico, 'o mapa não é o território'. Não me meti a querer entender os problemas propostos por Heinlein, e fui adiante. Mas isto não atravanca a leitura, nem se torna assunto recorrente ou que se dependa a compreensão para usufruirmos a história.

O triunfo do indivíduo genial, parte da filosofia típica americana e que Heinlein adota sem o menor problema, está lá - especialmente na figura de Lazarus Long. O velho individualismo humano faz com que 'deuses' expulsem os homens de um planeta, e o conformismo aparente de um paraíso material e a diluição em uma mente coletiva são anátema para tal... olha, até aqui eu sou capaz de entender. Mas ai vem o final.

O final me incomoda. Porque mostra que essa mesma mentalidade, tão desafiadora a princípio, na verdade junta-se com uma visão bastante conservadora. Então, a noção de viajantes que fogem para sobreviver e que passam pelo ineditismo de dois primeiro-contatos com inteligências alienígenas (experimentando ainda situações de convívio) terminarem a viagem, quando de volta à Terra, preocupados em exigir seus direitos e recuperar sua propriedade privada... parece-me de uma mediocridade sem par.

Tirando isso, é um livro que diverte, oferece idéias poderosas por trás de tudo, a descrição dos alienígenas como algo realmente alienígena e como tentar lidar com diferenças insolúveis é bastante inspirador... o leitor brasileiro poderia ser beneficiado com uma futura edição com nova tradução, a deste volume eu acho que já caducou, assim como a mentalidade de quando foi escrita.

Os Filhos de Matusalém
216 p.
Ed. Francisco Alves