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sexta-feira, 13 de junho de 2025

Herdeiros do Tempo

Uma boa primeira impressão.

Aviso: SPOILERS adiante. TW: aracnofobia (e pensar que os direitos foram adquiridos em 2017 para uma possível adaptação cinematográfica...).

Do autor inglês Adrian Tchaikovsky, Os Herdeiros do Tempo é uma obra de algumas camadas. Mais simplesmente, podemos dizer que é a respeito de exocolonização, em um processo absolutamente caótico para todos os envolvidos, uma lembrança que dificilmente planos a longo prazo duram tanto quanto nossas melhores intenções.

Em um futuro mais ou menos distante - datas nunca são exatas na história, o que aumenta uma sensação geral de insegurança, mesmo entre os personagens, que poderiam ter acesso a isso, o ano não é revelado ao leitor -, a Humanidade alcança as estrelas e alguns de seus exoplanetas, começando trabalhos de terraformação e implementação de espécimes terráqueas, preparando o lugar para a futura chegada de seres Humanos: mesmo a evolução dessas espécies animais agora estava influenciada por um nanovírus artificial que acelerava diversos processos cognitivos, possibilitando que, em suma, espécimes "nascessem sabendo" a partir de seus antepassados diretos, assim gerando futuros bons ajudantes para a Humanidade. Mas radicais anti-colonização entram em ação, e, ao menos um desses mundos, as coisas se desconfiguram do programado, com consequências fatais para a maioria dos envolvidos.

Passados alguns séculos onde a Terra sofre com a ganância humana e o ecossistema colapsa - passando ainda por uma nova glaciação -, os sobreviventes do "Antigo Império", o auge da civilização humana, reviram a tecnologia deixada séculos atrás para construir uma nave-arca, onde porão milhares de pessoas em sono criogênico e, atrávés de séculos indeterminados, tentarão alcançar um desses mundos prometidos - e o problema começa quando lá eles chegam.

Portia, em fan art por: Neil Richards/Zephusees. Fonte: Twitter

A história se divide em duas situações, o planeta onde as aranhas estão e a Gilgamesh. Para os viajantes, a Gilgamesh é todo o seu mundo, em uma viagem de séculos, onde não é por falta de agitação, apesar de ser uma nave-dormitório: capitães com complexo de Deus, sucessivos despertares por parte da tripulação a cada tantos séculos para um novo problema, motim a bordo, sociedades tribais, e a iminência da entropia final que já tarda em desintegrar a nave.

Já a segunda ambientação construída por Tchaikovsky não se limita ao planeta em questão, na verdade, descritivamente temos bem pouco dele, a não ser que fora refeito para ser um gêmeo da Terra, com espécies vegetais e animais transplantadas e inseridas com sucesso: é na sociedade das aranhas que essa ambientação brilha. Capítulo após capítulo, acompanhamos a sofisticação progressiva quando elas emergem de uma sociedade - o que já é, em si, um progresso... - de caçadoras e, por meios bioquímicos, montam uma civilização com suas próprias respostas à necessidade de industrialização, enquanto as histórias da geração retratada ocorrem; sempre motivadas pela ação do nanovírus e, mais tarde, para obter a graça e as respostas de seu deus criador em órbita. A exploração do mundo natural, a conquista e manipulação de outras espécies, questões religiosas, papéis de gênero: tudo existe e tudo muda, por mais resistente que se seja a essas mudanças. Vanguarda e tradição ainda se digladiam, mesmo entre uma sociedade de aranhas.

Em comum, a passagem do tempo para momentos críticos em ambas as histórias, a do planeta pela geração da vez, a da nave pelos olhos do historiador Mason, notando mais História do que seria prudente se fazendo ao seu redor.

Araaaanhas no espaço! - Primórdios...

Os humanos são contados principalmente pelo ponto de vista do acadêmico de bordo, Holsten, uma figura mais passiva do que realmente se espera, em geral, de um protagonista: a engenheira-chefe Lain é a personagem mais indicada para isso. O capitão Guyen toma para si o destino solene de conduzir a Humanidade para um novo mundo, não importa o rastro de cadáveres deixados no caminho: ele se revela como uma das oposições ao longo da trama, e até podemos entender como isso começou... temos a oposição maior aos humanos, na figura da implementadora do projeto de adaptação das espécies, a Doutora Avrana Kern, de genialidade comparável a sua irrascibilidade: grande candidata a vilã de FC dos últimos tempos, seja em qualquer de suas versões, da humana à digital e, hum... orgânica, novamente. 

Um problema, me parece, é que os humanos não são, no geral, tão interessantes assim, apesar do drama ter seu apelo: mas minhas cenas favoritas são no Mundo de Kern e as gerações de aranhas, um recorte de momentos críticos em épocas diferentes, repetindo nomes para funcionarem como uma espécie de arquétipo, acompanhando sempre o leitor.

Lados e lealdades obedecem a uma dança própria, a cada recorte de época, seja a bordo da Gilgamesh, seja com os personagens-arquétipos na sociedade aracnídea. Os dois núcleos são, portanto, separados o tempo todo, apenas se unindo ao final, após um puta dum conflito de clímax.  Mas não temos as impressões dos personagens humanos a respeito das aranhas e sua civilização, e tampouco temos a geração presente de Bianca, Viola e Portia deixando opiniões sobre os recém-chegados: eu achei que era como se "fosse hora de acabar", afinal, estamos já em nossas 500 páginas. Ao mesmo tempo, mais importava a jornada do que o "felizes para sempre" - falando no que, o final me surpreendeu, apesar de crer poderia ter um pouquinho mais de desenvolvimento. Mas isso não compromete o desempenho da história.

O livro tem um feeling de Arthur C. Clarke qualquer, não só em certas expectativas cósmicas, mas também em parte do enredo: as aranhas tentando entender seu deus lembram os antropoides diante do Monolito em 2001, e a descoberta do segundo Monolito na Lua me lembra quando as aranhas finalmente alcançam a coisa mais próxima da órbita planetária e se comunicam com seu deus: isso me lembra, particularmente, o conto A Sentinela, do próprio Clarke, que mais tarde o inspirou a fazer o romance.

Aranhas e mais aranhas...

Uma coisa que gostei de notar e que ressalto é a questão da memória, nesse livro. Como acontece com temas que beiram o cyberpunk e o transhumanismo, evidencia-se a fragilidade da memória e, por tabela, a da personalidade. A dualidade Kern/Eliza e os homúnculos digitais de Guyen, em uma pálida tentativa de replicar o processo de imortalidade digital completamente subcompreendido, geram transtorno em personalidades já instáveis e cobram seu preço depois. As aranhas, beneficiadas pelo nanovírus, têm seus processos cognitivos acelerados, capazes de transformar conhecimentos adquiridos por prática ou aprendizado em bens preciosos, uma espécie de patrimônio que as ajuda - se entendi - mesmo a obter certo status em sua sociedade. Na Gilgamesh, pela deterioração contínua dos sistemas, havia o risco de se perder a História da própria Humanidade, a saber das próprias pessoas que não eram mais acordadas, mas que nasciam a bordo, em condições mínimas para algum aprendizado técnico, chegando a tanto. 

Se não pelo fardo - por vezes, insustentável -, então pela simples vontade de perseverar e continuar. Com alguma sorte, recomeçar.

A ambientação deste livro ainda se desenvolve em Children of Ruin (2019) e Children of Memory (2023) que, juntas, valeram ao autor o Hugo de Melhor Série em 2023: Morro Branco, POR FAVOR, lance suas continuações!

Herdeiros do Tempo
520 p.
Morro Branco

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Devoradores de Estrelas


Debulhadores de Explicações

AVISO: SPOILERS ABAIXO

Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary - link pra wikipedia aqui), de Andy Weir, é passado em um futuro próximo, quando a energia emitida pelo Sol enfraquece rapidamente e o bastante para ameaçar a existência do ser Humano. Colônias de incontáveis seres unicelulares batizados astrofágicos (do neologismo original astrophage - o que significa que deveria ser astrófago, não?) são as responsáveis por isso, e percebe-se que é um problema de dimensões interestelares: outras estrelas vizinhas estão com o mesmo problema. O protagonista é o sobrevivente de uma tripulação internacional elencada para a primeira viagem interestelar da espécie Humana, para descobrir porque a estrela de destino - Tau Ceti, a cerca de 12 anos-luz de nós - não está sendo afetada e, uma vez lá, descobrir a solução para o nosso problema.

A narrativa se alterna entre o tempo presente da missão, no momento em que o dr. Grace desperta de seu sono após anos em coma induzida, e a sequência de eventos, na Terra, que aos poucos o levou a estar naquela missão. Essa quebra em dois momentos serve para mostrar diversos motivos por trás do momento do presente, e é dado, narrativamente, um motivo pra isso: Grace enfrenta uma amnésia severa, a que se atribui como efeito colateral do coma. É algo bem crível, dado que ao número de coisas erradas se acrescenta a morte dos dois outros astronautas que viajavam com ele, e que, a princípio, não sabe quem são - apesar de um sentimento forte de familiaridade com eles. É um despertar envolto em mistérios, um tipo de trama presente em games e filmes, em que encontrar objetos e descobrir seu funcionamento ativa sequências de flashback. A essa altura um recurso manjado, na verdade se tornou um ponto alto da história, ao meu ver. Porém...

Andy Weir começa, com um terceiro romance, a soar como um autor de um truque só: a voz do protagonista é a mesma. 

Não vejo maiores diferenças entre o Ryland Grace daqui e Mark Watney de Perdido em Marte, e mesmo Jasmine 'Jazz' Bashara, de Artemis: não somente fica tudo nas costas da protagonista, com pouco uso para coadjuvantes (ok, debatível aqui, conforme mais abaixo), como temos o indivíduo x meio ambiente repetido pela terceira vez (sim, pondo Artemis nessa, um ambiente social), no qual novamente tal indivíduo, para resolver o dilema em que está metido, terá que "science the shit out of this", conforme no roteiro do filme Perdido em Marte (em uma fala que não foi do autor). 

Em tempos de boçalidade naturalizada, um protagonista inteligente tem sua vez? Mas especialmente em tempos assim. Mas isso, em si, não é o problema. O problema - meu, ao menos... - é a sensação de repetição de como o personagem é estilizado por Weir: três vezes é um padrão.

Este indivíduo é genial, com um pé menor ou maior fora da sociedade/sociabilidade, no melhor estilo "inteligente demais para seu próprio bem". As descrições técnicas, tecnológicas e científicas que sempre lhe vêm com facilidade, mas que podem pesar o texto para o leitor, são contrabalançadas pelo mesmo humor que adiciona uma piada, palavrão ou outra informalidade para quebrar com esse peso. 

E Devoradores de Estrelas tem descrições. Aos montes. Tive a impressão que mais do que Perdido, mais do que Artemis, em que ele tem que montar a cidade lunar inteira. Parece que Weir se deu ao trabalho de explicar tudo o que conseguiu pensar sobre cada princípio teórico a respeito de seus astrófagos, do método desenvolvido para conhecê-los melhor, das descrições materiais da tecnologia desenvolvida para isto, como chegar a uma tecnologia de combustível - e nem chegamos ainda à parte em que a história vai para Tau Ceti, e encontra uma segunda forma de vida alienígena. O resultado, infelizmente, é - ou me foi - cansativo.

São poucos os personagens de monta. No passado, há Eva Stratter, coordenadora "carta branca" para solucionar da maneira que for o problema da ameaça mundial. Ela se opõe a Grace, não de uma maneira ideológica, mas enquanto postura. Grace, vamos aprendendo, não é exatamente um personagem gostável, nem vai demonstrar a iniciativa (ainda que em nome da sobrevivência) de Watney ou Jazz. É como se fosse uma variante whinny bitch de ambos, ao ponto de poder pôr tudo a perder, se dele dependesse - e, adivinha? Depende. 

A redenção de Grace vem pelo convívio enquanto náufragos interestelares dele e do alienígena vindo da estrela 40 Eridani, ali por Tau Ceti pelo mesmíssimo problema. Apresenta-se como algo similar a uma aranha de cinco patas do tamanho de um cão labrador, cujo contato se mostra parte do desafio a ser superado: ambos têm que se entender para poder superar seus problemas. A personalidade do alienígena, apelidado Rocky, serve como alívio cômico na estratégia de diluição de infodump do autor. Mas não é algo irritante, muito pelo contrário, torna-se - sem maiores competições - o personagem mais gostável da história. Apesar de ser uma aranha de cinco patas vivendo em um ambiente intolerável para humanos, ele é dotado de virtudes que o tornam facilmente gostável, e, acima delas, uma solicitude que é o que falta em Grace. Rocky acredita piamente no que deve fazer, o que somos levados a pensar sobre Grace - quando finalmente as memórias de logo antes da decolagem lhe são destravadas.


Algo contra o universo sendo salvo através do poder do bromance da amizade em uma obra de hard s.f.? Nem um pouco! (fonte)

Em termos de ficção científica, Weir nos brinda com mais um livro de hard science fiction: o mínimo possível de ficção antes que escape dos dedos de nosso entendimento das leis da Física. Ele parece continuar, pelos motivos acima, repetir com o que deveria ser um erro: a tentação em mostrar uma pesquisa que certamente lhe foi fascinante ao leitor.

Os cenários em si não são de maiores arroubos. O futuro poderia ser ainda nessa década (Weir parece gostar de near future, se considerarmos Perdido em Marte se passando em 2035 e Artemis em 2080), e o mundo de Tau Ceti e, além de 'belas nuvens verdes', não demonstra muito, com a ação se passando mais em sua órbita, quando chega sua vez. Outros exoplanetas, até por terem perfil semelhante, de espessas camadas de nuvens de dióxido de carbono, oferecem pouco para um sense of wonder. O cenário insólito melhor apresentado - até porque, descrições... - é a Hail Mary, a nave que leva Grace e seus companheiros desafortunados. Assim como em Artemis (aliás, resenhado aqui) há diagramas da cidade no início do livro, um esquema do funcionamento da nave é apresentado.

Tau Ceti é um velho rosto conhecido da ficção científica, figurando em romances de Harry Turtledove (o sistema natal da Raça da série Warworld), Kim Stanley Robinson (Aurora) e Ursula K. LeGuin (Os Despossuídos), entre outras obras e autorias: ocorre que, em uma distância de "modestos" 12 anos-luz, chama ainda atenção pelas similaridades com nosso Sol, o que poderia sugerir planetas próprios, semelhantes ao nosso (ainda que nenhuma primeira detecção de exoplanetas por lá tenha ainda sido confirmada). 40 Eridani é um sistema estelar triplo distando de nós 16 anos-luz, e - salvo até nova mudança - onde orbita Vulcano, lar do Sr. Spock e sua raça paterna. Estranhamente, Weir parece pular as duas estrelas extras, apesar de tratar o - provável - exoplaneta local com algum cuidado.

Mas não é nem perto do que ele resolve pular, enquanto construção de uma psique e sociedades inumanas, como a dos eridianis, apesar do investimento em sua biologia. Obviamente que isso estouraria o limite de qualquer livro, e imagino que, nos agradecimentos, a ausência de alguém ligado às ciências humanas e sociais denotaria onde realmente ele preferiu priorizar a pesquisa. 

De qualquer maneira, os eridianis podem ser lido como detentores das virtudes - do ponto de vista ocidental - perdidas pelos humanos, de seu indivíduo ao seu comportamento coletivo. Penso se não pode haver uma reciclagem de alguma espécie de nobre selvagem, a quem falta a malícia do 'homem moderno'... ainda, o final escolhido por Grace não o tornaria um 'gone native white savior'? 

Cartas para a redação.

Em suma: achei muito imaginativo, mas que o excesso de descrições pode deixar o resultado um pouco aquém. O melhor exemplo que ainda conheço de escritor de hard s.f. é Arthur C. Clarke, que nem nos damos conta que ele é um escritor versado nesse subgênero. Fica a dica?

Devoradores de Estrelas
424 p.

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Paradoxo de Theséus

 

Paradoxo de Theséus (2022)

AVISO: SPOILERS ABAIXO

Um romance curto, Paradoxo de Theséus recheia bem suas 129 páginas com ideias e considerações sobre sobre a autenticidade de uma pessoa, levando em conta ética e filosofia, às vésperas de um grande salto tecnológico que irá dar à Humanidade a vida eterna - ou a possibilidade de sua extinção.

Passado no ano 2071, é uma ficção científica near future, que pode nos lembrar de séries recentes como Years and Years e Extrapolations - Futuro Inquietante, Mesmo se deixarmos a tecnologia mais avançada  - e (ainda/por enquanto) mais fantasiosa - do romance de lado, sobra uma bela apresentação sobre como a percepção/ponto de vista é influenciado pela intermediação digital, quando se torna comum o uso de lentes de contato que captam sinais que todos passam a emitir como cartões de visita sempre online, informando nomes, pronomes e diversos dados biográficos - levando alguns à necessidade de hackear o sistema e, com isso, tornar-se invisível. Segue o trecho da página 35:

A informação metavérsica sempre haveria de sobrepujar o mundo dos fatos. Se as lentes dissessem que uma árvore é uma pedra, levaria alguns segundos até que a mente fosse capaz de contestar a informação errada. Por isso, o truque de Barbara funcionava tão bem. Com a maquiagem capaz de obstruir o reconhecimento facial, ela era ninguém para o metaverso e, sendo ninguém, poderia transitar quase invisível.

Em uma sociedade onde tudo era tão exposto e a cognição média - e inteligência nada tendo a ver com isso - tão afetada e dependente de tal intermediação, as possibilidades de cancelamento e perseguição são amplas, como as que sofre o protagonista.

Deixando claro, isto ocorre principalmente onde a maior parte da trama se desenrola, Utreque, na Holanda: a "evasão de privacidade" é dita não ser tão cultural assim quanto na Turquia como é na Europa, quando temos uma cena em Istambul.

Importante notar que, todo esse modo de viver e de ver é detalhado ao longo das 120 páginas do romance, sendo a informação bem distribuída e relevante a cada ponto. 

Podemos ter Paradoxo de Theséus como também uma história sobre ficção científica transhumanista, o que lembra outro romance da mesma coleção Dragão Mecânico, Silêncios Infinitos de Nikelen Witter (resenhado aqui), indicando a atenção de algumas de nossas autorias nesses temas.

A desconhecida série Century City: casos legais sobre direitos de clones e afins.

A trama gira ao redor do acionamento do Basilisco, uma máquina constituída de "um trilhão e setecentos e vinte bilhões de robôs de 0,05 micrômetros de diâmetro", capazes de captar e copiar as memórias, personalidades e quaisquer outras informações de um indivíduo, levando-as, teoricamente, para a posteridade digital. Mas, já se contando 23 personalidades copiadas, entre as intelectual, ética e artisticamente mais relevantes para o planeta, fica a pergunta: por que o Basilisco não se manifesta?

Este acionamento é seguido de opiniões fortes e divididas, permeando a sociedade, especialmente sobre quem se opõe: tanto o Humanismo Radical quanto a Frente de Libertação Animal rejeitam o experimento. O HR, por rígidas questões da identidade em se ser Humano, enquanto a FLA, devido a um experimento da tecnologia do Basilisco em animais, com fins horrendos.

No momento do livro, o das 23 personalidades já copiadas, de pessoas notáveis e - esta agora, condição indiscutível para o armazenamento - às portas da morte, os ânimos se acirram no campo do debate e da miltância, com ações cada vez mais agressivas ocorrendo: em breve, "cultura do cancelamento" não será o suficiente. 

Missão Garatéa - gentis menções assim como a fé na ciência made in BR, como de praxe na obra do autor.

Os personagens se colocam, diante de tudo isso, dentro do papel que lhes cabe: o criador do projeto, seu irmão, sua aliada, sua antagonista e seu assistente. Há uma rede entre eles, especialmente os 3 primeiros, de amparo por afeto genuíno. A antagonista, ligada a uma das facções radicais, opera dentro de uma hipocrisia, usando os meios de seu grupo para satisfazer motivações pessoais contra o projeto do Basilisco. É uma personagem fácil de se antipatizar (mesmo ao se compreender suas motivações), embora o protagonista seja também difícil de simpatizar: não só pela natureza de seu projeto e mas por seu compromisso com o mesmo é que o levam não só para um demorado passeio pelo quintal do Cientista Louco, mas a ameaças extremas para remover qualquer oposição - o que lhe salva, o que lhe puxa para o pé-no-chão e apela ao seu lado humano são o carinho e preocupação por seu irmão, portador de Síndrome de Angelman, que mesmo a ciência da metade do século XXI apenas pode aliviar muito pouco. Obstinação do tipo, "até as últimas consequências, aproximam protagonista e antagonista. O quinto personagem, o assistente do protagonista, é peça fundamental para a trama, com suas próprias motivações.

Cabe dizer que protagonista e aliada também têm transtornos, dentro do espectro autista, com suas peculiaridades. Ela ainda sofre de agorafobia, combatível sob pesados medicamentos - mas também ama o irmão do protagonista, genuinamente se preocupando com ele. Sendo assim, construídos sobre seus erros, os personagens navegam pela história, dando o que creem ser o melhor de si.

O que me leva ainda pensar: antes de algum desejo por representatividade por parte do autor; ao desenvolver assim seus personagens, consideremos a noção da Humanidade, no amplo sentido biológico, histórico e geográfico da coisa. Ao falarmos assim da espécie humana, temos uma ideia geral e difusa sobre pessoas que, a princípio, parecem ditas normais: mas, como cantava Gal ou Caetano (e antes, talvez comentasse Picasso), de perto ninguém é normal. Neurodivergente é o novo normal? Talvez. Mas para salvar - ou condenar - de vez essa Vaca Profana, é o que tem pra hoje.

Saros 136: autor multimídia, e alguns temas comuns a ambas as obras.

A expectativa do "Despertar da Máquina" lembra filmes como Colossus (1970), A Geração Proteus (1977) ou os contos Disque F Para Frankenstein, de Arthur C. Clarke, e o micro-conto de Frederic Brown, Resposta: o 'complexo de Frankenstein', que Asimov nos advertia contra - Homem cria Robô, Robô mata Homem. Claro que a midiografia aqui vai longe (de cabeça, franquias e filmes como O Exterminador do Futuro, The Matrix, Lucy, etc.), mas uma coisa legal do livro é que se passa no momento da expectativa da ativação daquilo que, se não for nos extinguir e ponto, pode extinguir nosso modo de vida/ver as coisas.

O "paradoxo de Teseu" do título se refere a um exercício de pensamento, sobre, se após anos e anos de manutenção e substituição de partes gastas, defeituosas, de um navio, ao ponto em que não há mais uma única peça original da embarcação: ainda é o mesmo navio? E, sendo possível montar um segundo navio só com as peças antigas, qual dos dois navios é "o tal"? 

Sendo assim, se uma consciência é alçada além de seu corpo orgânico original para um 'estado de graça' sintético: ele ainda é a mesma pessoa, mesmo se a versão digital for a única que estiver sobrando? E, caso ainda sobre a original, quem é o verdadeiro pai das crianças? Quem é a autêntica pessoa amada? Quem é o autor dessa obra? Quem é o dono do imóvel? Quem é o verdadeiro Slim Shady? E, provavelmente acima de tudo: quem vai pagar os impostos?


"Eu era Dave Bowman."

Em Saros 136, uma graphic novel de seu roteiro, Alexey propõe uma passagem de tocha entre o Homo Sapiens e cetáceos por nós modificados: há, em ambas as obras, um preservar do conhecimento assim como a geração de novos seres sencientes, porém existências díspares que, devido a isso, reluta-se em reconhecê-las em pé de igualdade como gente.

Essa validação do Outro como gente talvez seja admitir, de uma vez por todas, que apenas ser Humano não é algo tão especial como tantos e tantos milênios de religiões e tradições antigas nos fizeram crer. E talvez inclua, nesse desapego, uma dose cavalar de generosidade que, como sociedade, talvez não obtenhamos tão cedo.

Paradoxo de Theséus
129 p
Draco

sábado, 16 de março de 2024

Autorias BR na gringa... :)

Em um curto período de tempo, dois eventos legais no campo da literatura fantástica brasileira: os autores Renan Bernardo (seu site aqui) e Clara Madrigano conseguiram destaque no mercado americano. Ele, ao ser indicado na categoria Melhor Noveleta do Prêmio Nebula deste ano, um dos maiores prêmios do campo. Ela, conseguindo ser publicada na revista de contos Fantasy & Science Fiction (já saíra na Clarkesworld), e como destaque da edição.


Parabéns aos dois, espero ver mais disso ocorrendo - com eles, e com mais autorias brasileiras, assim como do dito Sul Global! 


quinta-feira, 7 de março de 2024

A Curva do Sonho

Deliciosamente PKDickiano.

AVISO: SPOILERS A SEGUIR

A Curva do Sonho (The Lathe of Heaven, 1971), de Ursula K. Le Guin, foi premiado com o Locus (1972) e indicado ao Hugo ('72) e Nebula ('71). 

No distante ano de 2004, em um mundo de escassez de recursos dado a superpopulação; George Orr é acometido de sonhos capazes de transformar a realidade. Temendo sempre o próximo sonho e uma mudança para (ainda) pior, ele infringe a lei tomando mais remédios do que uma prescrição legal permite, e, após uma overdose, vai parar em tratamento de sonhos. Lá conhece o Dr. William Haber, especialista no assunto, com uma tecnologia adaptada para influenciar sonhos negativos. A princípio Haber inevitavelmente duvida do que Orr alega sofrer, mas após lhe induzir e monitorar um sonho, ele próprio testemunha a mudança na paisagem ao redor, tendo em mente agora duas versões conflitantes do mundo-como-ele-sempre-foi. 

Não demora para Haber entender que a chance para um mundo melhor - e uma certa dose de benefício próprio - está à mão, e ele passa a usar as sessões de tratamento que Orr legalmente deve cumprir para alterar a realidade, conforme crê o que virá a ser para o bem geral. Mas para cada nova melhoria, um desastre adicional: a superpopulação "historicamente" é combatida com uma praga que matou bilhões; o fim das doenças gerou uma mentalidade eugência; o fim da guerra entre os povos se dá com uma invasão espacial; e o fim do racismo significa o fim das identidades étnicas. Mas, na cabeça de Haber, a próxima mudança sempre será melhor - assim como maior será sua própria importância para o mundo. 

Filosofias entram em contraste na narrativa, especialmente visões de mundo taoísta versus positivista: o render-se às infinitas possibilidades do mundo versus a ânsia míope em melhorá-lo, não indo além de um controle extremamente limitado de uma situação. O artigo na wiki ainda menciona crítica a psicologia behaviorista quanto o utilitarianismo.

Capa da edição original.

As descrições de cenário primam pelo estabelecimento em poucas páginas, entre um sonho e o próximo. Mas tudo gira ao redor da cidade de Portland, no Oregon (EUA), indo desde uma versão com superpopulação, poluição e miséria até algo com poucas centenas de milhares de habitantes, com ecossistema recuperado, e dotada agora de uma importância global. Alguns marcos na paisagem são citados como referência, entre estilos arquitetônicos e necessidades urbanística que permanecem, mudam ou somem - mesmo o onipresente Monte Hood, vulcão a uma certa distância de Portland, pode ser avistado ou não, entrar em atividade ou continuar adormecido, de acordo com o momento. Nessas poucas páginas, Le Guin dá a vivacidade necessária para se entender o alcance do poder, o novo estilo presente e a miopia que se segue dos proponentes de cada novo mundo.

James Caan: boa escolha para o dr. Haber (adaptação de 2002).

O contraste entre os antagonistas é um dos pontos altos da trama. George Orr e Willam Haber são marcantemente opostos. Haber é um tipo grande e espaçoso, e além de extrovertido, é cheio de assertividades. Orr é tímido, com a personalidade 'certa' para se ter um poder tão terrível como aquele, pois, antes de mais nada, não quer tê-lo. Orr é dito ter a personalidade mais mediana já encontrada, pouco dado a arroubos ou frieza: entretanto, é forte para não se entregar à tentação de construir um mundo melhor, tão ambicionada por Haber. Le Guin explora bem as diferenças entre ambos, a cada cena que interagem, dando um domínio total do médico sobre seu paciente - que, no entanto, resiste como pode.

A terceira personagem de destaque é Heather Lelache, que me pareceu um pouco deslocada. Ela também é testemunha da mudança dos sonhos de Orr, e a princípio havia entrado na trama para - impressão minha, ao menos - ajudar Orr a se opor contra Haber, uma vez que ele sempre é descrito muito como passivo e ela, dotada de uma agressividade nata. Mas seu papel fica como interesse romântico de Orr, sem apitar maiores coisas no final das contas. Mesmo em dado momento, quando ela passa a nunca existir, Orr se mantém estável e controlado, como sempre se indicou como ele é: entretanto, isso não exatamente ajuda a importância de Lelache para a trama... ao menos, ao meu ver.

A história ganhou 2 adaptações para TV (1980 e 2002) e uma para o teatro.

Esse é um livro que lembra muito as histórias típicas de Philip K. Dick, e isto é proposital, sendo na verdade um tributo à uma velha amizade. 

Permitindo-me um pouco de especulação da minha parte... me parece que a crítica ao positivismo afeta uma visão tradicional vista na FC, quando alude ao progresso tecnológico em si a chance de redenção da sociedade: por tabela, uma crítica à própria FC, então tradicionalmente falando. Seria interessante saber se essa crítica encontrou eco ou mesmo fez vestir algumas carapuças...

The Late of Heaven foi já traduzido para o português (nos dois lados do Atlântico) algumas vezes, e Do Outro Lado do Sonhos gerou esta resenha por Marcello S. Branco. 

Parabéns à Morro Branco por mais essa.

A Curva do Sonho
224 p
Morro Branco

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Hyperion

Hyperion, de Dan Simmons: antes tarde do que nunca!

 AVISO: SPOILERS ABAIXO

Recém-publicado pela Aleph, este clássico de 1990 inédito em terras brasis - ainda, terras lusófonas - passou batido pelos nossos radares por tempo demais. Muitos aclamam como um dos grandes clássicos da literatura de ficção científica, merecendo seu lugar junto a sagas como Fundação ou Duna.

A tradução pode ser vista como sendo problemática, do título do livro - o titã Hipérion é velho conhecido da língua portuguesa - até a escolha do nome do grande antagonista da trama (até aí, Artemis - pitaqueado aqui - continuou sem acento na capa de sua edição BR pela Arqueiro: mais discreto, porém não menos estranho. Coisas do 'reforço de marca'?). Mas qualquer outro estranhamento que caso se possa ter é francamente diluível pela alta qualidade desta história.

Quem melhor conhece a obra me diz que é uma versão d'Os Cantos de Cantuária (Geoffrey Chaucer, sec. XIV), com a mesma estrutura de uma história sendo composta pelo contar dos personagens de suas próprias histórias pessoais. O que não é de se admirar, dado a formação acadêmica do autor ser de Letras. Uma outra obra dele, a duologia Illium e Olympus é a respeito de uma reencenação da Guerra de Tróia em Marte, por inteligências artificiais.

Como podemos ver, com Simmons nada é simples. 

Hyperion, portanto, é composto de uma história base que leva a bojo as histórias de seis dos sete protagonistas, em peregrinação para o planeta-título. Na medida em que a peregrinação ocorre, os personagens contam suas histórias pessoais e porque estão lá, para contar o tempo e talvez conseguir um insight de toda uma situação que os envolve, recheada de mistérios.

Na medida em que contam, percebem que, direta ou indiretamente, todos estão relacionados com  o remoto Hyperion e seu mais conhecido habitante, um monstro mitológico conhecido por empalar suas vítimas. Há todo um culto organizado por seres humanos ao redor do mito, que dadas horas lembra algo tirado de Hellraiser.

O futuro de Hyperion se passa no ano 2.732 (uma data modesta, perto de algumas antecipações mais hiperbólicas da ficção científica), e a Humanidade se espalha pelas estrelas sob sua Hegemonia, em centenas de mundos conectados por tecnologia de portais (chamada teleprojeção), também fazendo uso de naves subluz (com efeitos de dilatação do tempo contados como peso para a vida dos personagens).

Não é, apesar disso, um futuro gentil. Diferenças sociais abismais existem, potencializadas pela própria tecnologia, com ultra-ricos dispondo de casas em diversos mundos interligadas via portais, e massas de miseráveis vivendo de limpar canais de esgoto industrial como o descrito no planeta Portão Celestial, ou trabalhadores e operários vivendo em colmeias cinzentas em um ambiente esmagador como Lusus. Além disso, é citada a baixa alfabetização dessa mesma Humanidade pelas estrelas, e a singela falta da vontade de ler, como fica explícito na história contada pelo poeta: não bastasse, ainda uma parte da Humanidade, especializando-se em ambientes zero g, destacou-se e fugiu pelas estrelas, ameaçando voltar como uma força hostil contra a Hegemonia do Homem. Ainda, na última história, entendemos porque o espaço conhecido só apresenta relíquias alienígenas antigas ou o Homo sapiens: a 'hegemonia' assim é, pois descarta qualquer possibilidade de vida inteligente, antecipando uma concorrência.

A dupla duologia.

As histórias apresentadas se desenrolam bem, mesmo em sua complexidade, com focos em suas vidas pessoais alternando com as grandes questões e decisões que podem "abalar a galáxia", para ficar em um velho e preferido clichê, enquanto paisagens de diversos mundos são apresentadas, pelas memórias contadas ou durante a viagem dos peregrinos. Uma adaptação em minisérie seria realmente fascinante, pelos resultados.

No processo da escrita, vemos a qualidade do autor ao dar uma voz diferente (pessoal ou onisciente) para cada uma das histórias contadas, e aqui temos qualquer desenvolvimento de personagens: nesse primeiro volume, ao menos, ainda não li a sequência. Nenhum deles é particularmente simpático, salvo o professor, com o resto oscilando entre o mecânico e o insuportável.

As histórias pessoais são:

A história do sacerdote: "A fábula do homem e do deus"

Acompanhando a história prévia de um missionário, com seus pecados a pagar e sua crise de fé, a história contada por outro religioso que o conheceu, o padre Hoyt, bem descreve o afastar-se gradativo da civilização, mesmo uma com traços bem desagradáveis, cada vez mais dentro de lugares selvagens e inóspitos, exatamente como um evangelizador veria - apesar da conversão não ser a meta do missionário citado.

Por isso, essa história me fez lembrar de O Coração das Trevas (1899), em que se adentrava em um território cada vez mais longe, desconhecido e ameaçador a quem fosse de fora, como se fosse um personagem vivo. Ainda, as descrições das ruínas de tempos perdidos do Labirinto de Hyperion, assim como sua difícil acessibilidade, evoca facilmente as cidades perdidas de H. P. Lovecraft.

A relação com o povo Bikura de certa forma lembra o povo Pirahã, em seu isolacionismo e simplicidade (e com um missionário que saiu de seu contato com uma crise de fé), o que torna o contato pela linguagem outro tipo de desafio. Da mesma forma, os Bikuras são uma espécie de "neo-tribo": seres humanos que, no futuro, perdem o contato com a civilização tecnológica originária e forçosamente se readaptam a um estilo de vida tribal, ainda que à sua própria maneira (o "Povo Científico" de Estrelas, o meu destino sendo um exemplo). 

A história do soldado: "Os amantes da guerra"

A versatilidade de Simmons é vista logo no contraste aqui com a primeira história, melancólica e biográfica: agora vemos um thriller de sobrevivência sci-fi-militar taquicárdico, enquanto que a força hostil dos desterros é apresentada, assim como algum contexto. Poderia ser facilmente uma história no cinema estrelando, digamos, Tom Cruise ou qualquer outro 'action hero' que se queira elencar: o que significa que não há tempo para reflexão aqui, o oposto da história anterior. Há o mistério, entretanto, com que o soldado - cel. Fedmahn Kassad - se depara: a presença fantasmagórica de uma mulher nas simulações de batalha que, no final, levam ao monstro de Hyperion, e um pouco de seus planos.

Fan-arte inspirada. “The Lord and the Colonel”, por Alex Ries (fonte: Reddit) 

A história do poeta: "Cantos de Hyperion"

Aqui, temos outro depoimento pessoal, ainda que em uma história radicalmente diferente da do sacerdote, e talvez a que mais ofereça insights do cenário do romance. O poeta Martin Silenus, detestável até por seus companheiros de viagem, é uma extrapolação de ser escritor - especialmente quando quase ninguém lê -, eternamente em crise, seja porque não consegue público para sua 'alta literatura', enquanto que contratos milionários que lhe sustentam o luxo que tanto aprecia obrigam-no a escrever ficção rasa e escapista; seja porque luta para reencontrar sua musa: e quando a reencontra, tanto pior para todos.

O bônus aqui é um personagem secundário: há como não simpatizar pelo Triste Rei Billy e sua Cidade de Poetas.

A história do acadêmico: "O sabor do rio Lete é amargo"

O rio Lete, um dos rios do Inferno na mitologia grega, é o rio do qual as almas humanas, antes de renascerem, devem beber as águas, para que se esqueça da vida anterior. A citação do rio é o que ocorre com a filha de Sal Weintraub, como contado por este, É, disparado, a mais humana das histórias, 

Arqueóloga, a personagem vasculha as Tumbas Temporais de Hyperion, ruínas de sabe-se lá quando, para ser afetada de maneira única por suas 'marés temporais', revertendo sua idade rumo a seu nascimento, dia após dia. A agonia dos seus é desenrolada pela narrativa. E a peregrinação de seu pai, que tem nas mãos um bebê, é o que lhe resta como esperança - mesmo que em busca de um deus terrível.

A história da detetive: "O longo adeus"

Uma das mais famosas histórias de detetive dá o nome a este segmento, e aqui temos uma história seca, noir e cyberpunk para contar a participação das inteligências artificiais do cenário, especialmente seus esquemas velados: tudo começa com uma bela cliente - na verdade, um belo cliente - entrando pela porta do escritório chinelo de Brawne Lamia, investigadora particular, sem poder contar com a polícia, pedindo para que investigue um assassinato: o dele próprio.

A história do cônsul: "a história de Siri"

A ação da Hegemonia e uma pequena lição sobre como colonialismo funciona está nessa história, assim como as consequências da resistência armada. Ao mesmo tempo, ouvi ecos de Canções da Terra Distante, o último romance de Arthur C. Clarke (pitaqueado aqui), com longas despedidas entre amantes, separados pela dilatação do tempo por velocidades relativísticas. A dualidade - e oposição - dos mundos originais de ambos é uma resposta à proposta "E se Romeu e Julieta houvessem sobrevivido?".

***

Outra evidência da qualidade de Hyperion é que, apesar de recheado de referências literárias (o poeta inglês John Keats é paixão do autor), não conhecê-las não estraga a leitura: escritores, com suas pesquisas elaboradas, têm muito a aprender aqui.

Hyperion é seguido por Fall of Hyperion, Endymion e Rise of Endymion (trabalham como duas duologias), que estão ainda sem tradução publicada. Tomara que o primeiro venda o suficiente para a editora se interessar em lançar as sequências: é lastimável que, por exemplo, Anno Dracula - pela mesma editora - tenha ficado só no romance de estreia, por este exato motivo.

Recomendo altamente. Imperdível.

Hyperion
560 p
Aleph

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Lebre da Madrugada e Príncipe Partido

Livro 1

AVISO: SPOILERS A SEGUIR

Lebre da Madrugada e Príncipe Partido formam a duologia Senhores de Sombra e Prata, romances de estreia de Arthur Malvavisco, autor sul-mato-grossense, publicados pela editora Corvus. Participei do financiamento coletivo, o que me deu acesso aos livros físicos. O formato digital também está disponível no site da editora (que, se entendi, deve lançar uma versão física regularmente).

A obra é de fantasia, com elementos medievais europeus no cenário, enfatizado pela sonoridade de nomes próprios e de lugares. Temos, no início de ambos os livros, um "Mapa da Região Norte de Solária", onde se passa a trama de interesse, embora não haja maiores conexões com o que existe ainda por aí, ou uma sensação de escala - como convém, ao meu ver, em tempos de dúbia cartografia. O mundo é rico, que ente o trabalho de pesquisa do autor e de pesquisador do autor, da área de biologia, trabalhando com répteis, resgate florestal e educação ambiental. Seu repertório é bem utilizado na construção e em causas-e-consequências do mundo e de ações, sempre bem descritas e em uma prosa fluída. Adiciona-se à trama elementos de identidade e sexualidade, que também fazem parte do universo pessoal do autor.

A trama se passa na Solária do mapa, onde seres humanos reconhecíveis como tal vivem, e que sofrem a cada dez anos com o Eclipse, um evento onde um outro mundo/plano chamado Ilúria colidem. O evento, a cada dez anos, é traumáticos, pois tanto o Umbral (a grande força mística que rege o entre-mundos) insiste em sangrar para outros planos com consequências nefastas; quanto os ilurianos (uma raça humanoide agressiva, de cultura belicista) aproveita para invadir Solária, cujas pessoas não são tão fortes assim. A saída em Solária foi montar uma igreja baseada em uma figura messiânica, e correr atrás de indivíduos capazes de canalizar as forças do Umbral e pô-los sob domínio orientação desta Igreja.

A partir disto, temos descrições que nos deixam à vontade nos diferentes ambientes de Solária, sobrando Ilúria em retrospecto nas lembranças de Aeselir. Especialmente em Lebre, em que muito de uma road trip acaba acontecendo, com o casal protagonista em fuga, após um início urbano e arredores. Apesar de Ilúria (e todos os seus dramas próprios) sempre ter um aspecto mais sombrio, mesmo isto é presente em Solária e suas paisagens, mesmo as mais agrestes: pontos extras pela abandonada Val Loire, vítima de um Eclipse em tempos anteriores.

Dois livros foram necessários para contar a história que Malvavisco queria contar, de 312 e 448 páginas respectivamente, sendo bem slow burn. Nelas, temos as histórias que se entrelaçam de Andras e Aeselir Hrád, que seguem a lógica enemies to lovers: mas reduzi-la a isso é subestimar toda essa construção. E prefiro não me alongar, porque julgo que essa resenha de Lebre da Madrugada, na Amazon em 17 de fevereiro último, já comentou de forma brilhante essa relação, e da mesma forma outros aspectos do primeiro livro.

Livro 2

Em Príncipe Partido temos o desenvolvimento das situações apresentadas em Lebre e às conclusões possíveis, da bagagem emocional dos personagens - especialmente Aeselir, que o segundo livro o torna protagonista de toda a história, em um sentido mais amplo - ao que fazer quanto ao apocalipse iminente.

A complexidade da trama e dos personagens em transformação aqui se mantém, e realmente leva o excedente de páginas para desenvolvê-las como bem merece. Entendendo que é o primeiro texto longo publicado do autor, o resultado me deu a impressão de um tour de force que talvez tenha sido um desafio para o escritor, especialmente se iniciante: tanto quanto d/escrever as informações necessárias (cenário ou do que for), há que se saber quando não. A duologia é rica em todos os traços a que se propõe, mas nem sempre me pareceu - notem, me pareceu - algo totalmente às claras; mas assim considero que possa, ou mesmo deva, ser a literatura: há um tanto para se deixar claro, e há outro tanto para se deixar a cargo dos próprios leitores. 

E, no caso dos Senhores de Sombra e Prata, ou de mundos que vivem à sombra um do outro, nada mais adequado.

Na loja da editora pode-se baixar gratuitamente o conto A Corrida dos Lobos, do autor, passando-se no mesmo universo.

Em suma: recomendo. Foi muito bom encerrar o ano com uma leitura assim, e esta como minha última resenha. É seguir o autor daqui por diante, e esperar o que ele ainda trará aos seus leitores.


Lebre da Madrugada
312 p
Príncipe Partido
448 p.
Corvus

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

O Planeta do Exílio

Saudades de pockets assim...


Mês passado ainda conclui O Planeta do Exílio (1966), de Ursula K. LeGuin, nessa edição mesmo, da foto. 

Não tenho nada para falar que a Cristina Lasatis tenha dito em uma resenha de seu blog, que descobri no skoobs. Vale a leitura.

Acrescento que, ao que nos parece, a ideia da colônia da Humanidade que perde laços com sua origem, regredindo tecnologicamente era uma ideia vigente no período. Temos pelo menos o ciclo de Darkover, de Marion Zimmer Bradley, e Dragonriders of Pern, de Anne McCaffrey. 

Não deixa de ser uma forma de lamento do Éden perdido, presente no desencantar de um mundo como a Terra Média de Tolkien, onde as coisas eram definitivamente mais agitadas do que antes da Terceira Era.

Mas anoto aqui pelo registro.


O Planeta do Exílio

224 p.

Ediouro

domingo, 10 de setembro de 2023

Silêncios Infinitos

Anong Us - o Livro

AVISO: SPOILERS A SEGUIR.

O sistema tríplice de Alfa Centauri, distando de nós "apenas" 4,3 anos-luz, vem sendo uma constante na Ficção Científica, e a descoberta de um planeta ao redor de Alfa Centauri C (mais conhecida como Proxima Centauri), em 2016, apenas agitou ainda mais nossos sonhos de exploração espacial: rochoso e do tamanho da Terra, Proxima Centauri b (em minúsculo) está na distância certa para que, caso haja água em sua superfície, ser encontrada em estado líquido, o que por sua vez sugere a possibilidade de haver vida (nem que um pouco como a que conhecemos) ou, pelo menos, viabilizar alguma sobrevivência nossa: e é lá que a trama de Silêncios Infinitos se desenrola. Passando-se no século XXVI, temos a história da expedição que lá chegou, e sua tarefa é preparar o planeta para a futura colonização.

Próxima Centauri b é retratado como um mundo de luz eternamente vermelha e imutável, como convém a um planeta que sempre mantém uma mesma face voltada à uma anã vermelha, e de vegetação escura, negra - para a máxima captação da luz solar. A atmosfera ainda é irrespirável e os níveis de radiação são problemáticos. Na verdade, temos muito pouco do planeta (há um mapa-mundi no início do livro, junto com uma breve cronologia do futuro), com a ação se passando entre os módulos da estação em que vivem e trabalham as personagens. Há descrições de sua organização, assim como as IAs presentes, e como isso acaba sendo importante a todos e à trama.


Concepção artística da vista de Próxima Centauri b e seus três sóis, no céu.

Isso por si me lembra de séries e filmes como Espaço 1999, Projeto UFO e 2001 - Uma Odisseia no Espaço: ambientes altamente tecnológicos, a única possibilidade de sobrevivência entre um exterior vazio e letal e um interior seguro porém estéril. Sob um certo aspecto, toda a tecnologia presente e o isolamento fazem com que esse tipo de cenário, em si, seja uma espécie de idealização de um laboratório onde o humano não deixa também de ser um experimento: o que, para a trama, faz sentido.

Os personagens são 26 clones adultos de especialistas em suas áreas que ficaram na Terra. Os clones mantêm alguma memória pessoal e traços da personalidade, realçados ou enfraquecidos conforme edição prévia desses originais e tratamento com remédios. Eles são peças dum grande mecanismo que preza a máxima eficiência dado a ambição da missão, e é curioso ver como, mesmo assim, o fator humano dá um jeito de se imiscuir, pelos clones ou seus originais.

A trama é contada a partir do ponto de vista de Liu, um clone que, ao despertar quando a expedição chega, recebe a carga mnemônica de dois clones: a que se destinava, a partir de seu original, e a de uma colega, Dira, cujo clone não acorda, e o sono é um enigma durante o ano que se segue, antecedendo o relato do livro. A personalidade de Liu é dominante, mas a de Dira não é apenas no plano da memória: e suprimir essa presença é de um grande transtorno para Liu: e aqui nós temos a grande sacada, representada na capa do livro, que é a apresentação da transgeneridade em um ambiente futurista e sua percepção como um erro, e o armário que disso gera -- uma vez que não há protocolos, naquela ordem perfeita, para aquela situação. O que fazer? O sentimento de inadequação de Liu lhe é avassalador.

Mas não demora muito, e o drama pessoal narrado por Liu, como já não lhe bastasse, é confrontado por outro problema: o líder da expedição morre assassinado. E há pouco tempo para descobrir, uma vez que uma tempestade gigantesca se aproxima da base.

Ao final das contas, o livro apresenta uma atualização da indefinição de se ser quem é a partir de memórias implantadas -- conforme Philip K. Dick trabalha tão bem em sua obra, desde os anos 60 -- trazendo para uma questão atual, da identidade de transgeneridade - com um twist todo próprio, como bem cabe à ficção científica. Witter também apresenta questões de ética - a eutanásia planejada para Dira, uma vez que a preservação de seu corpo apenas consome recursos - e, novamente, recontextualiza no ambiente futurista que preparou. A ideia da descarte de um ser humano, ou seu clone, não termina com a questão da eutanásia: ao meu ver, todos os clones presentes são descartáveis, e confesso que esperava dada altura do livro isso seria revelado, em mais uma menção a PKD - agora, com o tempo de vida útil dos replicantes. São questões, ainda, que valem a tag para este post de transhumanismo.

E isso, agora, me leva a ler uma nova versão de um tema que gosto muito, que chamo de "pecados dos pais": como a geração subsequente à de outra, em seu tempo protagonista, sofre com os erros cometidos por esta - no caso, os clones sofrem pelos atos de seus orginais orgânicos. Há uma lembrança aqui, pelo conceito somente, do filme A Ilha, com Ewan McGregor e Scarlett Johansson, em que clones devem - falando em termos amplos - pagar pelos erros de seus originais. 

Não é à toa que os clones, no livro, recebem seus nomes baseados em um deus de alguma cultura ao redor do mundo que tenha a ver com sua função, especialmente Hebe, "especialista em medicina de prevenção, cuidado e bem-estar", recebendo o nome da "deusa grega da juventude"; Naga é devido a uma "entidade guardiã entre os tailandeses", sendo "especialista em engenharia de segurança, com habilidades de luta e sobrevivência", etc. A nave que os transportou é chamada Vímana, e foi pilotada até lá pela IA cujo acrônimo se lê AGNI, também uma divindade hindu, do fogo, e ligada aos mitos de criação. Há uma bela descrição, no início do capítulo 3 (p. 27) comparativa entre o desmantelamento da nave para novas funções e a liberação de sua carga como a nova vida que se fará no planeta com mitos cosmogônicos, de onde dos restos mortais de um ser primordial surge a vida e o próprio mundo. Nada mais mitológico - ou, ao menos, grego-mitológico - que os erros antigos também sejam transmitidos nas novas oportunidades.

Terra: Próxima b não está impressionado.

Por último, gostaria de notar que foi com certa surpresa, pouco tempo depois de ter lido Corrosão, de ter me deparado tão cedo com outro livro brasileiro de ficção científica hard, ainda que tomando mais liberdades quanto ao cenário do que seria Próxima Centauri b - se bem entendi. Mas, ao contrário dos dilemas cósmicos de Gondim, Witter foca no dilema interno da personagem central, apesar do nível detalhado de uma missão de contornos épicos executada em ambiente altamente tecnológico, porém igualmente sem lançar mão de soluções mágicas, como convêm à space opera ou outros subgêneros da ficção científica: percebam, não tenho nada contra isto, mas reitero que é bom ver autores nacionais com a segurança de conduzir suas tramas dentro desse tipo de regra do jogo.

E assim como o livro de Gondim, gostaria de ver mais - particularmente, ainda mais que Corrosão, Silêncios Infinitos (um romance curto) termina sugerindo fortemente que pode haver uma parte 2 em algum lugar do hd da autora.

O livro faz parte da coleção Dragão Mecânico, da editora Draco. O capricho gráfico que lhes são peculiares está lá.

Recomendo.

Silêncios Infinitos
130 p
Draco

domingo, 16 de julho de 2023

Simbiontes

Capa da edição impressa.

SPOILERS ABAIXO

Simbiontes, de Gerson Lodi-Ribeiro, é um romance de ficção científica militar, em um raro caso brasileiro deste subgênero, passado em seu universo ficcional da Aeternum Sidus Bellum, em que uma situação de primeiro contato leva a Humanidade a desenvolver uma cultura eminentemente guerreira. Os escritos acompanham as guerras travadas através dos séculos contra os Ry’whax, primeiro em um império estelar, depois reformados em uma república - nada dura para sempre com as civilizações descritas por Gerson, a não ser a própria guerra em si.

É o segundo texto que leio deste universo, o primeiro sendo a noveleta No Amor e na Guerra (situada 400 anos antes deste romance), publicada na antologia Space Opera: Aventuras fabulosas por universos extraordinários e republicada na coletânea Os Humanos Estão Chegando.  

Como de hábito, o worldbuilding do autor é caprichado, como visto em outros trabalhos. Neste livro, há dois apêndices, um com a cronologia através de alguns séculos da ASB e outro com a biologia da raça Ry’whax.

A história versa a respeito de um projeto secreto vital para a Humanidade e seus aliados, que devido à guerra começam a enfrentar escassez de matéria prima sendo executado na estrela Rigel, e o sacrifício necessário para tirar a atenção do inimigo de lá quando eles descobrem suas atividades. A batalha espacial encarniçada que se segue, desafiando todas as probabilidades, termina nas cercanias de um planeta em outro sistema estelar que, a princípio parece desabitado - enganosas aparências que levam à segunda parte da trama.

Capa do e-book.

Os personagens, especialmente os humanos e seus aliados, têm um ponto de vista mais centralizado na história e, por isso, são melhores desenvolvidos que os oponentes, presos em um comportamento de terríveis conquistadores espaciais que, pessoalmente, não tenho nada contra em uma trama assim. O desenvolvimento dos personagens é interessante, embora em algumas cenas e diálogos eu tenha achado um pouco deslocados, especialmente em meio a um frenesi de batalhas espaciais. Mas isso não impede em nada a fruição do livro. 

O título é interessante, pois oferece algumas leituras: os simbiontes citados tanto podem ser os implantes no cérebro dos Humanos e aliados, que se comportam como entidades inteligentes à parte com personalidade própria; da relação belicosa entre Humanidade e Ry’whax e mesmo uma ocorrendo no mundo em que ambos os oponentes irão parar.

Para os entusiastas de cenários de guerra espacial e, ainda, promessas de grandiloquência cósmica, é recomendado. Quero ver como se desenrola nos demais escritos. :)

Termino aqui com uma pequena lista fornecida pelo autor dos escritos, dentro da cronologia interna de ASB: 

1) Decisão em Capella

2) Simbiontes

3) Germes Mortais

(*) Os Humanos Estão Chegando: coletânea com várias narrativas, desde anteriores a Decisão em Capella a posteriores a Simbiontes.

Simbiontes (2022)
259 pp. (edição física)
autopub.

terça-feira, 27 de junho de 2023

O Auto da Maga Josefa

 

O Auto da Maga Josefa (2018). Editora Gutenberg.

O Auto da Maga Josefa é um romance fix-up por Paola Siviero*, ganhador dos Prêmios LeBlanc e Odisseia (Fantasia), e ainda finalista do Argos. Por mais que as premiações de literatura fantástica sejam recentes esse placar ainda não foi igualado por outro romance (do mesmo ano, só a antologia Fractais Tropicais, organizada por Nelson de Oliveira, ganhou dois prêmios em sua categoria, o LeBlanc e o Argos). Se só por isso já significa alguma coisa, ao mesmo tempo é um breve jus ao mérito demonstrado.

É um romance de fantasia, tendo como base folclore nacional, seja um tradicional, seja o contemporâneo, havendo espaço para alienígenas e chupacabras. E, na ausência de divindades intermediárias entre os polos absolutos, Deus e o diabo são tratados com relativa intimidade, como também vemos no folclore e na literatura de cordel. Respeitando esta base, temos ilustrações ao estilo, que abrem cada capítulo.

As histórias se passam no interior do Nordeste no início dos 1960s, ainda que a ruralidade do ambiente possa sugerir períodos anteriores. O Açude de Orós (1961), presente em uma das histórias, é mostrado como novidade. Mas de resto, o que se espera de cidades pequenas em meio à habitual seca compõem a maioria dos cenários pelos capítulos. 

Kenshin/Samurai X se não uma referência, uma boa lembrança.

Esse Brasil mágico, rural, que se cria à margem do Brasil que se industrializa, especialmente pós-Vargas, me faz lembrar de duas referências: tanto Samurai X, o anime, em que durante a Era Meiji (a industrialização japonesa à ocidental) o Japão medieval e mitológico, representado pelas bruxas, demônios e criaturas sobrenaturais é posto contra os corners do ringue pela modernização do país - mas deixam claro que não irão sem luta -; quanto a da obra do cineasta brasileiro, pré-Cinema Novo, Nelson de Oliveira, pai de uma proposta de gênero que infelizmente nunca emplacou, o Nordestern, e que alia o mágico com o Brasil rural e às vezes urbano por volta dos anos 60-70.

Por trás dos capítulos-episódios, há duas motivações simples: Toninho é um caçador de monstros sobrenaturais, filho de caçadores, e levar o legado da família adiante lhe basta. Como entrega o título, Josefa é uma maga, o que significa que sua alma está prometida ao diabo, em troca de poder: será que ela consegue escapar desta situação?

Na medida em que as histórias se passam, os personagens crescem, assim como se atenua sua difícil relação a princípio - nada de enemies to lovers, entretanto, o que é bom (com o perdão de quem se amarra em soluções assim).

Um auto, literariamente falando, originalmente é uma peça teatral curta, um só ato dedicado a alguma lição de moral, sátira ou outra mensagem (explicação bacana aqui), caracterizando-se por uma linguagem fácil. O livro apresenta essa prosa ágil, onde a leitura desliza, gostosa, por episódios curtos em um resultado que eu não canso de recomendar. Gostaria de ver mais, bem mais.

E tome de andanças...!

Por último, me dei à pachorra de ver o percurso dos personagens no google maps :) Ou, pelo menos, cidades próximas de onde a ação é citada.

* Aliás, quase publicando esses pitacos, foi anunciada a capa do próximo romance da autora no twitter, confiram!

O Auto da Maga Josefa
221 p.
Gutenberg

domingo, 11 de junho de 2023

Corrosão

 

Corrosão (2018), de Ricardo Labuto Gondim: finalista do Argos e vencedor do Odisseia em 2019

Aviso: SPOILERS abaixo.

Candidato a se tornar um clássico dentro do subgênero de FC hard brasileira, o que torna o livro em si é um raro exemplar, Corrosão é aquele tipo de ficção científica que nos inspira e deslumbra, um filho da tradição clarkeana de sense of wonder regado a música erudita, mesmo que em um mundo primariamente de máquinas e seres humanos destas não muito distintos: ao mesmo tempo, apresenta ao leitor aspirações, inspirações e outras pirações filosóficas e metafísicas que me levam a mais do que encaixá-la sob um subgênero, mas a arriscar dizer que esta é a lua de platina da FCB.

O futuro dos 2150s descrito por Gondim é, do nosso ponto do primeiro quarto do século XXI, perfeitamente crível: não bastasse questões ambientais, a sociedade é descrita como uma mesma grande massa global conformada e alienada sob drogas recreativas - a referência a Huxley não está lá à toa - com Estados nacionais dissolvidos e política de pouca força ou ilusória importância, sob a batuta de um mesmo  monopólio econômico, um conglomerado conhecido como apenas como a Corporação, resultando em "uma sociedade sem aspirações, corroída de baixo para cima". 

Essa credibilidade acaba dando um tom cautelar ao livro, uma leitura extra como por vezes Ficção Científica assume e exibe.

A história segue a trajetória do Nikola Tesla e seus tripulantes, encarregados de seguir até a lonjura de Plutão atrás de um asteroide contendo "vastas reservas de um óxido extraordinário, capaz de manter propriedades supercondutoras sob altíssimas temperaturas sem entrar em fusão", podendo mesmo "apresentar propriedades antigravitacionais 'voláteis' ou 'coisa similar'"; alcançá-lo, mineirá-lo e retornar com o butim para a citada Corporação. A nave foi construída para a missão em específico, sendo um ápice de tecnologia. Mas ao contrário do que foi a ida do Homem à Lua, os primeiros seres humanos a irem tão longe assim da Terra não são retratados com o glamour das primeiras décadas da exploração espacial tripulada, antes havendo mais uma atmosfera de apenas um outro dia de trabalho, apenas sendo mais longe dessa vez: o que é par com o tipo de sociedade que não se deixa exclamar com o que acha ser pouco, o que significa deixar de passar oportunidades assim.

No caminho, surge o inesperado: uma anomalia eletromagnética em espaço já devidamente cartografado, de intensidade e tamanho que jamais deixariam de ter sido notadas anteriormente, com a tecnologia vigente já há tempos. Despertado de seu sono em animação suspensa pela IA de bordo, o comandante da missão decide então investigar, acordando o resto de sua tripulação. A partir daí, somos apresentados aos demais e como reagem, no crescendo em que a investigação se dá até o centro da anomalia, e o inesperado revela conter o impensável: nada menos que o HMS Titanic - sim, o próprio, toneladas de aço, inteiro ainda que sob muita, muita ferrugem.

O astronauta e a ostentação de época: Memories - The Magnetic Rose, de Otomo (animação de 1995) também me lembrou.

As personagens, seguindo a tradição hard s.f., são de curto ou difícil desenvolvimento, já que FC normalmente é um tipo de história orientado à uma trama, quanto mais FC hard. Mas, mesmo assim, temos indícios do que esperar de cada um dos tripulantes do Tesla: são oriundos de uma sociedade onde há baixo envolvimento de pessoas com o que quer que seja além de suas atividades profissionais, e o ser humano que resta é pouco mais do que uma engrenagem em uma sistema maior, havendo pouco interesse na construção de uma poética pessoal, mesmo em uma época onde assuntos e oportunidades não faltem, parecendo se tornar cada vez mais difícil convencer as pessoas disto: não obstante, dois deles procuram quebrar esta fôrma, olhando para os demais com uma certa condescendência.

Dois personagens mantêm uma relação conflituosa devido às suas personalidades, e no processo um ajuda o outro a se delinear: o comandante da nave, Kiril Alexandrovich Mravisnky, e a geofísica espacial Sandrine Mercier divergem diametralmente sobre a investigação inesperada. Ele, em último caso por não ter outra saída em termos do dever; ela, deixando-se levar pelo medo do desconhecido, uma vez que fica claro que a tal anomalia não pode ter uma fonte natural. 

Mravinsky é um comandante de astronave como se espera que os comandantes sejam, autênticas rochas de salvação, nem tão aprofundados em um dado campo de conhecimento como os demais, mas capaz de liderá-los, ouvir as considerações e tomar a decisão que tiver que tomar. Já Mercier se mostra frágil e desequilibrada, e com outros atributos que, quando comparados, até pelo texto se torna fácil gostar de um e desgostar da outra. Apesar do que, entendemos Mercier, uma vez que ela é alguém que se permite sentir medo do desconhecido.

Corrosão, indeed...

Dos demais personagens, contamos com a astrofísica de bordo, Anitra Nordraak, como ótimo exemplo desse tipo de super-especialista gerado por esta sociedade - e um tipo ideal para a importância da missão. Daniel Martinu, projetista da Tesla e engenheiro de bordo, é o outro personagem que consegue 'quebrar a fôrma', permitindo-se um nível de conjectura filosófica enquanto vivencia o insólito - apenas para, dado momento, igualar-se a Mercier, ao ser o primeiro a, in loco, constatar o nome do transatlântico. Ambos, poética pessoal ou não, sucumbem ao medo face o irracional. Temos ainda Oleg Koslov, o piloto da nave e uma sexta tripulante que misteriosamente não se ergue do sono criônico, Anca Kertész. Ela é a profissional de comunicações, e descrita como tendo uma personalidade catalisadora, ajudando a aproximar o grupo de trabalho - e tendo "uma curiosidade incomum naquele tempo". Olhando em retrospecto, pode-se supor que sua ausência pode ter sido sentida no desenrolar do drama.

E há o sétimo tripulante: ANNA, a IA de bordo, uma personalidade construída que trabalha com estatísticas do comportamento humano para o que esperar das reações dos demais, e mesmo antecipar. Ao mesmo tempo, ela está simultaneamente em cada canto da nave e da missão, zelando pelo sucesso da própria. A comparação inevitável é com Hal 9000, ainda que ANNA seja mais sutil em garantir o cumprimento da diretiva que obriga a investigação em caso de possibilidade de um primeiro contato com inteligências alienígenas, como saberemos mediante o destino de uma das personagens.

MOTHER, o computador da Nostromo em Alien - o 8o. Passageiro, também pode ser lembrado.

.As comparações com 2001 - Uma Odisseia no Espaço, são inevitáveis. Ao contrário do Monolito, que é a total ausência de significado possível para quem o investiga, o insólito apresentado pelo Titanic trabalha com algo plenamente reconhecível e que, por isso mesmo, fica ainda mais indecifrável. Os momentos de pânico passados por Martinu e a reação de Mercier são completamente justficáveis. Cenas como o encontro a bordo do Titanic e a desativação de parte das capacidades cerebrais de Anna igualmente remetem, assim como os momentos extemporâneos do epílogo.

Os detalhes técnicos permeiam a narrativa como os fragmentos da corrosão que o transatlântico sofre, e da mesma forma que as demais interferências nublam a visão clara do que ocorre aos personagens, trafegar pelos parágrafos pode ser de uma navegação incerta. Em outra narrativa, ou por outro autor, isso poderia ser um problema, mas Gondim toca o barco com habilidade o bastante para que isso, voluntariamente ou não, funcione como uma meta-narrativa. Navegar é preciso, tudo mais é impreciso, e prosseguimos, noite adentro, no encalço do mistério, atrás do farol de luzes suspeitas.

Por último; se o Titanic, ápice tecnológico naval, é lembrado como uma espécie de arauto do fim da 'Era Dourada' do moderno capitalismo inicial, penso se, por paralelo, sua reaparição e contribuição com o naufrágio do Nikola Tesla - ápice tecnológico aeroespacial - não poderia simbolizar o fim de outra era, também bem capitalista, ainda que elite de agora zele por prudência e discrição. Portanto, resta aguardar por uma continuação, e o ICG7-51 - com seu conteúdo cheio de promessas, econômicas e narrativas - possa ser finalmente alcançado.

Recomendo.

Corrosão
292 p.
Caligari