domingo, 11 de junho de 2023

Corrosão

 

Corrosão (2018), de Ricardo Labuto Gondim: finalista do Argos e vencedor do Odisseia em 2019

Aviso: SPOILERS abaixo.

Candidato a se tornar um clássico dentro do subgênero de FC hard brasileira, o que torna o livro em si é um raro exemplar, Corrosão é aquele tipo de ficção científica que nos inspira e deslumbra, um filho da tradição clarkeana de sense of wonder regado a música erudita, mesmo que em um mundo primariamente de máquinas e seres humanos destas não muito distintos: ao mesmo tempo, apresenta ao leitor aspirações, inspirações e outras pirações filosóficas e metafísicas que me levam a mais do que encaixá-la sob um subgênero, mas a arriscar dizer que esta é a lua de platina da FCB.

O futuro dos 2150s descrito por Gondim é, do nosso ponto do primeiro quarto do século XXI, perfeitamente crível: não bastasse questões ambientais, a sociedade é descrita como uma mesma grande massa global conformada e alienada sob drogas recreativas - a referência a Huxley não está lá à toa - com Estados nacionais dissolvidos e política de pouca força ou ilusória importância, sob a batuta de um mesmo  monopólio econômico, um conglomerado conhecido como apenas como a Corporação, resultando em "uma sociedade sem aspirações, corroída de baixo para cima". 

Essa credibilidade acaba dando um tom cautelar ao livro, uma leitura extra como por vezes Ficção Científica assume e exibe.

A história segue a trajetória do Nikola Tesla e seus tripulantes, encarregados de seguir até a lonjura de Plutão atrás de um asteroide contendo "vastas reservas de um óxido extraordinário, capaz de manter propriedades supercondutoras sob altíssimas temperaturas sem entrar em fusão", podendo mesmo "apresentar propriedades antigravitacionais 'voláteis' ou 'coisa similar'"; alcançá-lo, mineirá-lo e retornar com o butim para a citada Corporação. A nave foi construída para a missão em específico, sendo um ápice de tecnologia. Mas ao contrário do que foi a ida do Homem à Lua, os primeiros seres humanos a irem tão longe assim da Terra não são retratados com o glamour das primeiras décadas da exploração espacial tripulada, antes havendo mais uma atmosfera de apenas um outro dia de trabalho, apenas sendo mais longe dessa vez: o que é par com o tipo de sociedade que não se deixa exclamar com o que acha ser pouco, o que significa deixar de passar oportunidades assim.

No caminho, surge o inesperado: uma anomalia eletromagnética em espaço já devidamente cartografado, de intensidade e tamanho que jamais deixariam de ter sido notadas anteriormente, com a tecnologia vigente já há tempos. Despertado de seu sono em animação suspensa pela IA de bordo, o comandante da missão decide então investigar, acordando o resto de sua tripulação. A partir daí, somos apresentados aos demais e como reagem, no crescendo em que a investigação se dá até o centro da anomalia, e o inesperado revela conter o impensável: nada menos que o HMS Titanic - sim, o próprio, toneladas de aço, inteiro ainda que sob muita, muita ferrugem.

O astronauta e a ostentação de época: Memories - The Magnetic Rose, de Otomo (animação de 1995) também me lembrou.

As personagens, seguindo a tradição hard s.f., são de curto ou difícil desenvolvimento, já que FC normalmente é um tipo de história orientado à uma trama, quanto mais FC hard. Mas, mesmo assim, temos indícios do que esperar de cada um dos tripulantes do Tesla: são oriundos de uma sociedade onde há baixo envolvimento de pessoas com o que quer que seja além de suas atividades profissionais, e o ser humano que resta é pouco mais do que uma engrenagem em uma sistema maior, havendo pouco interesse na construção de uma poética pessoal, mesmo em uma época onde assuntos e oportunidades não faltem, parecendo se tornar cada vez mais difícil convencer as pessoas disto: não obstante, dois deles procuram quebrar esta fôrma, olhando para os demais com uma certa condescendência.

Dois personagens mantêm uma relação conflituosa devido às suas personalidades, e no processo um ajuda o outro a se delinear: o comandante da nave, Kiril Alexandrovich Mravisnky, e a geofísica espacial Sandrine Mercier divergem diametralmente sobre a investigação inesperada. Ele, em último caso por não ter outra saída em termos do dever; ela, deixando-se levar pelo medo do desconhecido, uma vez que fica claro que a tal anomalia não pode ter uma fonte natural. 

Mravinsky é um comandante de astronave como se espera que os comandantes sejam, autênticas rochas de salvação, nem tão aprofundados em um dado campo de conhecimento como os demais, mas capaz de liderá-los, ouvir as considerações e tomar a decisão que tiver que tomar. Já Mercier se mostra frágil e desequilibrada, e com outros atributos que, quando comparados, até pelo texto se torna fácil gostar de um e desgostar da outra. Apesar do que, entendemos Mercier, uma vez que ela é alguém que se permite sentir medo do desconhecido.

Corrosão, indeed...

Dos demais personagens, contamos com a astrofísica de bordo, Anitra Nordraak, como ótimo exemplo desse tipo de super-especialista gerado por esta sociedade - e um tipo ideal para a importância da missão. Daniel Martinu, projetista da Tesla e engenheiro de bordo, é o outro personagem que consegue 'quebrar a fôrma', permitindo-se um nível de conjectura filosófica enquanto vivencia o insólito - apenas para, dado momento, igualar-se a Mercier, ao ser o primeiro a, in loco, constatar o nome do transatlântico. Ambos, poética pessoal ou não, sucumbem ao medo face o irracional. Temos ainda Oleg Koslov, o piloto da nave e uma sexta tripulante que misteriosamente não se ergue do sono criônico, Anca Kertész. Ela é a profissional de comunicações, e descrita como tendo uma personalidade catalisadora, ajudando a aproximar o grupo de trabalho - e tendo "uma curiosidade incomum naquele tempo". Olhando em retrospecto, pode-se supor que sua ausência pode ter sido sentida no desenrolar do drama.

E há o sétimo tripulante: ANNA, a IA de bordo, uma personalidade construída que trabalha com estatísticas do comportamento humano para o que esperar das reações dos demais, e mesmo antecipar. Ao mesmo tempo, ela está simultaneamente em cada canto da nave e da missão, zelando pelo sucesso da própria. A comparação inevitável é com Hal 9000, ainda que ANNA seja mais sutil em garantir o cumprimento da diretiva que obriga a investigação em caso de possibilidade de um primeiro contato com inteligências alienígenas, como saberemos mediante o destino de uma das personagens.

MOTHER, o computador da Nostromo em Alien - o 8o. Passageiro, também pode ser lembrado.

.As comparações com 2001 - Uma Odisseia no Espaço, são inevitáveis. Ao contrário do Monolito, que é a total ausência de significado possível para quem o investiga, o insólito apresentado pelo Titanic trabalha com algo plenamente reconhecível e que, por isso mesmo, fica ainda mais indecifrável. Os momentos de pânico passados por Martinu e a reação de Mercier são completamente justficáveis. Cenas como o encontro a bordo do Titanic e a desativação de parte das capacidades cerebrais de Anna igualmente remetem, assim como os momentos extemporâneos do epílogo.

Os detalhes técnicos permeiam a narrativa como os fragmentos da corrosão que o transatlântico sofre, e da mesma forma que as demais interferências nublam a visão clara do que ocorre aos personagens, trafegar pelos parágrafos pode ser de uma navegação incerta. Em outra narrativa, ou por outro autor, isso poderia ser um problema, mas Gondim toca o barco com habilidade o bastante para que isso, voluntariamente ou não, funcione como uma meta-narrativa. Navegar é preciso, tudo mais é impreciso, e prosseguimos, noite adentro, no encalço do mistério, atrás do farol de luzes suspeitas.

Por último; se o Titanic, ápice tecnológico naval, é lembrado como uma espécie de arauto do fim da 'Era Dourada' do moderno capitalismo inicial, penso se, por paralelo, sua reaparição e contribuição com o naufrágio do Nikola Tesla - ápice tecnológico aeroespacial - não poderia simbolizar o fim de outra era, também bem capitalista, ainda que elite de agora zele por prudência e discrição. Portanto, resta aguardar por uma continuação, e o ICG7-51 - com seu conteúdo cheio de promessas, econômicas e narrativas - possa ser finalmente alcançado.

Recomendo.

Corrosão
292 p.
Caligari

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Caminhos da Memória (Reminiscence)


SPOILERS adiante. Estejam avisados.

Cyberpunk e noir são dois gêneros que se comunicam desde antes o estabelecimento do primeiro, conforme qualquer um que tenha lido Blade Runner - o Caçador de Andróides (1968) sabe disso. De Rick Deckard a Nick Bannister há uma árvore genealógica que, é claro, precede o romance de Philip K. Dick em décadas.

Uma interação recente entre ambos os gêneros é o filme Os Caminhos da Memória (Reminiscence, 2021), que foi escrito, dirigido e produzido por Lisa Joy, que recentemente se envolveu em projetos como as séries Westworld e Periféricos: (ir)realidades virtuais é um tema com que já está acostumada.

Então, do lado noir, temos: 

Hugh Jackman como o detetive. No caso, é especializado em guiar pessoas por uma tecnologia de reavivamento de memórias (que, é contado, começa como um sistema de interrogatório policial, mas em breve ganha o gosto como tecnologia de lazer*), trabalhando ocasionalmente com o departamento de justiça, mas os achados de seus casos estão na memória de seus clientes.

Tanques high-tech: servindo Hugh Jackman desde X-Men (2000).

Rebecca Ferguson - mais recentemente Lady Jessica no novo Duna (2021) - é a "mulher fatal" desse tipo de narrativa, que entra no escritório do detetive alegando um motivo para contratá-lo quando, na verdade, começa uma trama conspiratória que irá tragá-lo, e vai caber à obsessão e um bocado de sorte por parte do detetive sobreviver, até os motivos de tudo serem revelados.

Thandiwe Newton como a secretária/confidente/apaixonada secretamente pelo detetive. Há um desenvolvimento interessante do que seja a figura dessa parceira, aproveitando o peso da atriz.

Ainda do noir, temos a corrupção extrema das elites, sob a velha capa da respeitabilidade, e decifrar seus motivos escusos faz parte do resultado final. Mas com o cyberpunk trazendo a tecnologia de registro, cópia e edição de pensamentos e memórias, discernir o fato se tornar ainda mais complicado. Um take bem fascistoide da análise desse tipo de subjetividade está na polícia pré-crime de outra adaptação de P. K. Dick, Minority Report: A Nova Lei (2002) (a série de 2015 que não foi muito adiante era mais interessante); O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança 

Do cyberpunk, temos portanto alguma forma de realidade virtual, abuso de tecnologia, diferenças sociais alarmantes e, no caso aqui, um mundo pós-aquecimento global em que o nível dos mares elevou-se drasticamente, com cidades como Miami e Nova Orleans - onde se passa a ação - semi submersas: terra seca, natural ou artificial, é objeto de status e cobiça, trazendo a especulação imobiliária de novo como vilã da história e assim se reencontrando com o noir. Os cenários alagados ou inundados compõem o grosso da ambientação de ficção científica, que não prima aqui pela presença maior de gadgets ou veículos futuristas, a não ser quando necessário.

Thandiwe Newton como a fiel Watts - é, sutileza não foi o caso, aqui... :)

O filme custou R$54 milhões e flopou globalmente ao arrecadar 16 milhões somente: muitos podem ser os motivos pra isso, como mau timing ao lançá-lo ou algum outro aspecto da campanha de marketing. Ou talvez porque o combo 'realidade virtual', 'identificação e identidade' e 'história de detetive' já sejam meio que derivação da derivação, a essa altura do campeonato. Navegar por memórias duras revividas ou se esconder em uma doce mentira? Algo assim consta, pelo menos, desde Nirvana (1997). O final, feliz, pode ser ilusório como a natureza dessa história: não é à toa que a lenda de Orfeu e Eurídice é contada do jeito que foi.

Gostei de ver Angela Joy trabalhando com rostos que lhe são familiares: Thandie Newton e Angela Sarafayan estão em Westworld, que é criação sua com o marido e também roteirista Jonathan Nole.  

Se recomendo? Achei interessante o bastante pra tentar me desenferrujar e escrever esta resenha, compor o texto e tal. Não pareço muito entusiasmado? É, acontece...

Disponível no Amazon Prime.

14/02/2023

* a ideia do tanque em casa de tecnologia avançada que serve apenas para sustentar um vício em vez de apenas cumprir uma devida função aparece na série francesa Ad Vitam, já resenhada no blog, mas o mote é a juventude eterna. Procurando aqui, infelizmente não está mais no catálogo Netflix.

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

5o. Prêmio LeBlanc - Votações Abertas

Do dia 1o. até 22 de Agosto nós estamos com as votações abertas para o V Prêmio LeBlanc. Assim como com o Argos, a ideia é premiar a produção nacional do ano anterior, com obras concorrendo ao serem apresentadas na hora de preencher seu voto: mas nosso escopo vai além da literatura fantástica, abarcando ainda Quadrinhos, Animação e Games, cada categoria com subcategorias correspondentes.

As instruções estão nas próprias cédulas, de acordo com os links :)

Games: https://forms.gle/Yb3Jv95At3dFGiSTA
Quadrinhos: https://forms.gle/7Mav7aCAoLsjXGNZ6
Literatura fantástica: https://forms.gle/1TbCKEGtcCMFgdz58
Animação: https://forms.gle/z72QCFzu6yaLnqtd6

Aproveitem e, quem não respondeu ainda, quem puder responda ao Censo LeBlanc, estamos mapeando quem é o nosso público. :)


Participem, divulguem! 

Prêmio Odisseia Literária - Finalistas

Parabéns a todos que chegaram nesta etapa, e boa sorte com as finais. 

https://odisseialitfan.wordpress.com/premio-odisseia-de-literatura-fantastica-2022/

Evento de premiação ocorrerá virtualmente via Canal Odisseia de Literatura Fantástica no dia 09 de outubro (18 horas).

https://www.youtube.com/channel/UCEjkueW_uBIjVDnMsJSoOdg

FINALISTAS DO PRÊMIO ODISSEIA DE LITERATURA FANTÁSTICA 2022

CAPA E PROJETO GRÁFICO

Assombra Contos – Kikomics

Farras Fantásticas – Editora Corvus

O Novo Horror – O Grifo

QUADRINHOS FANTÁSTICOS

Alexey Dodsworth e Ioannis Fiore – Saros 136 – Editora Draco

Felipe Cagno e Fabiano Neves – The Few and cursed – AVEC Editora.

Guilherme Smee e Danilo Aroeira de Pinho Tavares – Mandinga – Add Art Studio.

NARRATIVA LONGA LITERATURA JUVENIL

Jim Anotsu – O serviço de entregas monstruosas – Editora Intrínseca

Simone Saueressig – O último continente – Independente.

Thiago Lee – O mistério do carneiro de ouro – Editora Rocco

NARRATIVA CURTA HORROR

Irka Barrios – A parte de dentro – O Grifo

Nikelen Witter – O título é um grito – O Grifo

Paula Febbe – Tudo que é vermelho – DarkSide Books

NARRATIVA CURTA FANTASIA

Andrea Ormond – O aquário da cabeça – Editora Estronho

Auryo Jotha – Miolo de boi – Editora Corvus

Rodrigo Ortiz Vinholo – Hóspedes – Editora Lendari

NARRATIVA CURTA FICÇÃO CIENTÍFICA

Clarice França – Oculi – Independente

Kinaya Black – Eu conheço UZOMI – Editora Kitembo

Sabine Mendes Moura – Você Unlimited – Lendari

NARRATIVA LONGA HORROR

Oscar Nestarez – Claroscuro – Editora Draco

Daniel Gruber – A floresta – O Grifo

Iza Artagão – Breu – Independente

NARRATIVA LONGA FANTASIA

Heitor Vasconcelos Serpa – Vitória no inferno – Independente.

Lucas Viapiana – A torre do tempo – Independente.

Marina Denser Mainardi – A única certeza é a morte – Editora Metamorfose

NARRATIVA LONGA FICÇÃO CIENTÍFICA

Lucas Motta – Olhos de pixel – Editora Plutão

Sandra Menezes – O céu entre mundos – Editora Malê

Waldson Souza – O homem que não transbordava – Editora Plutão

ARTIGOS FANTÁSTICOS

Marcello Simão Branco e Cesar Silva – A literatura de FC&F brasileira na segunda década do século XXI – AVEC Editora

Rafael Eisinger Guimarães – Os limites do fantástico na escrita de Silvina Ocampo – EDUCS (Universidade de Caxias do Sul)

Rodolfo Stancki – A zona crepuscular – Editora Estronho

Jurados do Prêmio em 2022: Luciana Minuzzi, Nathália Xavier Thomaz, Ana Lúcia Merege, Amanda Leonardi, Camila B. Kaihatsu, Lu Ain-Zaila, Lupus Wolfgang, Gustavo Melo Czekster, Luiz Maurício de Azevedo e Duda Falcão.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Censo LeBlanc...

 Povo mui amado,

estamos lançando o Censo Prêmio LeBlanc 2022, com o objetivo de conhecer melhor quem participa de nossas premiações escolhendo e votando nas obras nacionais das categorias de Literatura Fantástica, Quadrinhos, Animação e Games: https://forms.gle/Xk8xFfEgDKdsPvZ6A

Sentimos que, na ausência de dados mais concretos a respeito de quem são nossos fandoms, o Prêmio poderia contribuir também nessa etapa de desenvolvimento do mercado de nossas indústrias criativas.

A divulgação dos resultados será feita, a posteriori, para quem se interessar.

Portanto, se você que estiver lendo não se importar, fornecemos o link acima para que possa nos contar um pouquinho sobre você. Desde já esclarecemos que não há perguntas obrigatórias, muito menos respostas certas.

E se puder, também compartilhe.

Último aviso: em setembro estamos de volta com o Prêmio LeBlanc! https://www.facebook.com/PremioLeBlanc

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Links para Pesquisar...

 O Canal Fantasticursos veio com um ótimo vídeo hoje sobre 'onde pesquisar para escrever', cujos links apresentados - de origem acadêmica - porei na lateral. São eles o Dicionário Digital do Insólito Ficcional (UERJ), o E-Dicionário de Termos Literários, Editora Dialogarts (UERJ) e Revista Abusões (UERJ).

quarta-feira, 30 de março de 2022

Os Pilares de Melkart: financiamento coletivo

É com muita alegria que eu ajudo a divulgar esse projeto, todo da Ana Lúcia Merege : Os Pilares de Melkart! Para mais detalhes, vejam a descrição. Quem puder dar aquela força, pelo menos divulgue - a autora agradece. :)

https://www.catarse.me/pilares

Os Pilares de Melkart, no catar.se


Gente amiga, chegou a hora de compartilhar algo que venho preparando há muito tempo.
Vocês devem saber como sou fascinada por Mitologia e pelos épicos antigos. Alguns já devem conhecer os personagens que criei em cenários da Antiguidade e trouxe para os meus contos: Balthazar, o pirata e capitão mercante fenício, e o sonhador heleno Lísias. Agora, estou pronta para publicar um primeiro volume contendo as histórias da dupla, que vai levá-los a diferentes épocas e cenários do Mundo Antigo, desde a Creta de Minos à Jerusalém do Ano Um, passando por Tartessos e pelos bastidores do teatro grego.
Junto com a Editora Draco, preparei uma campanha onde explico tudo sobre o projeto. Vocês poderão perceber que é um trabalho bem elaborado, que requereu muita pesquisa, mas também contou com a minha imaginação e o meu desejo de, antes de tudo, contar boas histórias repletas de fantasia, aventura e um pouco de humor.
Convido vocês a visitar nossa página no Catarse e, se curtirem, a apoiar, não apenas com a aquisição do livro ou dos combos (o que, claro, seria fantástico!), mas também com divulgação, compartilhamentos, boca a boca... Tudo para levar nossos navegadores o mais longe possível!
Vou deixar o link nos comentários, e desde já agradeço, de coração, todo o apoio, carinho e boas vibrações. Que as Musas nos sorriam, pois aqui vamos nós!

terça-feira, 29 de março de 2022

Zona de Combate

Soldado e o Falcão Invernal.

Spoilers abaixo. Be warned.

 Zona de Combate (2021) estrela Anthony Mackie e uma cara conhecida que nunca sei o nome mais gente que não faço ideia. Entre quem não conheço, Damson Idris, no papel do protagonista, o tenente Harp, um piloto de drones que desobedece a cadeia de comando ao tomar a iniciativa de atacar, gerando a morte de dois soldados americanos.

Nas suas duas horas, é um filme com alguns temas e mensagens, ao menos que eu tenha percebido.

Por uma, tem o militar americano que aprende em primeira mão a brutalidade da guerra, após uma carreira como piloto de drones vendo tudo 'como um videogame': talvez essa 'história de redenção' cole se você for americano, não me admiraria se fosse uma forma de amortecer alguma sensação contínua de vilania que as massas possam estar ou vir a sentir - nem é o primeiro filme a abordar essa premissa.

Afinal, situado no futuro próximo de 2039, é em plena Ucrânia, envolvendo invasões russas, movimento de resistência, zonas desmilitarizadas, terroristas e etc.

Um outro tema é a IA que sai do controle, manipulando e passando a perna em seus criadores, que é um tema que tem surgido ultimamente em filmes como Ex_Machina: Instinto Artificial (2014), Archive (2020) e I Am Mother (2019). Complexo de Frankenstein, como nos alertava Asimov (o clichê, em sua época já, de 'homem cria robô, robô mata homem')? Provavelmente sim, mas cada filme tem o seu próprio take no que faz o filho rebelde da Humanidade.

... muitas e mais palavras desde aquela época.

No caso, a IA em questão (Leo, papel do antagonista interpretado pelo Falcão) de fato quer partir da pra grosseria em larga escala, manipulando toda uma complexa situação para provocar um ataque nuclear que só a Resistência quer em cidades americanas, desejando que isso pare a principal nação guerreira do mundo de suas práticas - levando em conta a própria criação, uma máquina tão sofisticada que sua inteligência consegue enrolar seres humanos, não bastasse ainda ser uma lean mean killing machine: o próximo passo de drones de combate, que já não estão somente no ar, mas também em terra.

Temos aqui, inclusive, o tema de drones na guerra, com a ideia de que eles não são nenhuma resposta ideal: de novo, a ideia de 'perdas aceitáveis' vira e mexe permeia e assombra.

From Russia, with love.

O problema é, que apesar da parte mais interessante do filme seja justamente a - presumível - mudança de pensamento de um Harp conflitado (a respeito do que sejam "perdas aceitáveis"), enquanto vai sendo manipulado a cada cena por Leo e um grande debate ético entre eles (comprimido entre cenas de ação e outras cenas da história), a linha de argumentos de Leo é tão convincente que o argumento de Harp ao final do filme parece batido demais como clichê, talvez apenas colando... se você for americano.

Ou, porque não há outra forma de se pensar/almejar: se por esperança ou conformação, bem...

No final, considerando tudo, o filme é interessante e bem recheado até, para suas duas horas. Mas eu não priorizaria.

Perdas aceitáveis, ou: no dos outros é refresco.

domingo, 20 de março de 2022

Caranguejo Negro

A Garota Com Tatuagem De Não F*** Meu Juízo. 

Aviso: Spoilers abaixo.

Caranguejo Negro (2022) é um filme sueco disponível na Netflix e se passa em um futuro próximo (o filme é considerado pós-apocalíptico) - na verdade, poderia ser nos dias de hoje - onde uma guerra civil aflige um país nórdico - supõe-se, a própria Suécia.

Claro que, em tempos de invasão russa na Ucrânia, é difícil pensar em acaso, nessas horas. Mas talvez para não piorar qualquer pré-disposição; o fato é que a trama é econômica nas descrições: há nós, e há eles, os inimigos. Nenhuma pista é dada, salvo uma breve menção a uma guerra civil logo no início, um passado ao qual se volta de vez em quando em flashes e sonhos: após longos e dolorosos anos, tudo o que há é a guerra, retratada no presente.

Às vésperas da derrota certa pelo lado dos seis protagonistas, eles recebem a missão de alcançar uma ilha distante de onde estão, alcançável pelo gelo não por veículos ou barcos, mas patinando, para entregar um pacote misterioso, e com isso, vencer a guerra de uma vez por todas.

É um clima sombrio, onde motivações apresentadas podem levar a atitudes de desconfiança o tempo todo. 

Ao seu modo, talvez não deixe de ser um 'road movie'...

A viagem dos seis soldados pelo arquipélago congelado é o grande atrativo do filme. O gelo é repensado como só alguém, creio, de uma cultura que convive com o fenômeno poderia. Ligando ao estresse e os horrores da guerra, a passagem sobre o gelo e sob uma lua e céus nublados e cinzentos revela paisagens em geral não representadas, com deques de madeira abandonados, barcos e navios tombados, restos mortais de outra época nem tão distante assim - tudo saindo de debaixo do gelo, além de uma (nem que involuntária) assombrosa repaginação do Pântano dos Mortos em As Duas Torres. 

Nesse breve aspecto, o filme pode lembrar até mesmo de Apocalypse Now, e a viagem da lancha canhoeira rio acima, pelas selvas do Vietnã e encontros e ocorridos ao longo do caminho sendo perigosos e inusitados.

Fotografia que impressiona.

Do elenco, conheço somente Noomi Rapace, cuja personagem é obcecada em encontrar sua filha, separadas por soldados anos atrás. A moral cambiante dos tempos extremos é medida por sua motivação. Os demais atores não conheço ou reconheci de outros papeis, alguns deixando sua breve marca em personagens, como nesse tipo de filme e trama ocorre, descartáveis.

Recomendo.

sábado, 19 de março de 2022

Duas lives recentes...

 ... para se assistir, em comum abordando as agruras do mercado editorial brasileiro de literatura fantástica, são as do Eduardo Kasse entrevistando Ogan N'thanda e o Nana Conversa com Octavio Aragão - ambas além de outros assuntos, bem elaborados e desenvolvidos por anfitriões e convidados. 


Reomendo. 

quarta-feira, 2 de março de 2022

Mundo Punk: financiamento coletivo

  Ok, a antologia Mundo Punk, da qual participo com A Voz do Brazil está no catar.se... é uma antologia com diversos modos de retrofuturismo em seus escritos. O meu aborda - espero - o dieselpunk, um sucessor estético e espiritual do mais famoso steampunk... 



É isso. Espero que gostem.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

2021 - Balanços...

2021 fechando, obviamente que me sinto nostálgico. Ainda não executei nenhum dos meus projetos de romance, muito em parte por meu atual envolvimento com o Mestrado. Acabei reduzindo ao máximo minhas participações por aí, e é legal ver que editais de contos de literatura fantástica têm se tornado frequentes.

Portanto, acabei escrevendo alguns contitos... em Fevereiro, dias 3 e 5 (uma sexta e um domingo) escrevi Radiumgami MechaniKong, Go! (3.498 palavras) e Shangri La, Ao Luar de Verão (2.304).

O primeiro saiu na Não Existem Humanos Inteligentes, pela Selo Nebula de Lu Evans, que tomou como base o universo de O Planeta dos Macacos: valia tudo, de qualquer um dos filmes à série de desenho animado, etc. Fiz um conto recheado de referências pop sobre macaquices além e acima do dever se passando em uma espécie de II Guerra Mundial (ao menos como era na minha cabeça) só que com um King Kong turbinado. Lu e Saulo Adami organizaram esta.

Já o segundo foi para uma antologia de 'song fic' que infelizmente não saiu, o que foi uma pena, pois havia escolhido uma de minhas músicas favoritas, Kashmir, do Led Zepelin (o título é um de seus versos). Apesar de também ser referencial, a pegada é mais contemplativa e nostálgica. Mas foi bom conhecer o organizador João de Lucca, espero que futuramente possa haver novos projetos que eu possa participar.

Escrevi ambos em 48h, e são bem diferentes um do outro. Trabalhar com essa diferença foi parte da minha diversão.

Em Maio um grupo de jogadores e fãs de Vampiro - A Máscara resolveram fazer um concurso de contos. Participei com O Passageiro (2.156 palavras). A publicação ainda não saiu. Foi divertido voltar a um universo que eu não vi ainda neste século, salvo uma partida de sua 5a edição em 2019.

Nestes últimos dias de Dezembro resolvi participar de uma antologia aberta pela nova revista online, Prosaika, que procurava "ficção científica espacial". Espanei um conto quietinho aqui na gaveta virtual chamado A Vigília do Astronauta (3.961 palavras), e mandei dia 27 último. Ação e aventura, passado em um universo ficcional de Medistelara, criado e desenvolvido com Ana Lúcia Merege. Dois astronautas caçam um planeta fantasma, que tem o estranho hábito de surgir e desaparecer em pontos variados ao longo da História.

E hoje, dia 30, respondi a um edital atrás de contos retrofuturistas pela editora Cyberus. A Voz do Brazil (2.989 palavras) veio de um arremedo de conto que cheguei a assentar em algum lugar uns, talvez, dois anos atrás e nunca mais encontrei. Reescrevi o que lembro que era a ideia básica e procurei desenvolver até arranjar um fim, dentro do limite de 3.000 palavras. Eu prefiro que seja visto como dieselpunk, estética que gosto muito, mas entendo se quiserem reconsiderar. 

Ao todo conto aqui 10.677 (Vigília não conta, pois é de alguns anos atrás) palavras. Para 2022, vamos ver. Há pelo menos um conto meu de anos recentes que será recauchutado para poder participar de uma antologia de 'fantasia histórica'. Talvez duas antologias eu consiga vir a co-organizar, uma com Gerson Lodi-Ribeiro dentro do alcance da space opera e outra com Ludmila Hashimoto, de contos de inspiração em Philip K. Dick. Corona Chronicles, com minha prezadíssima Ju Berlim, ainda aguarda decisões.

E tudo dando certo, ao fim de 2022 encerro meu Mestrado escrevendo um livro... vamos ver.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Estranho Passageiro

Estranho Passageiro - Sputnik. No Netflixkaya.

Filme russo de 2020, Estranho Passageiro (Sputnik) conta uma história passada nos anos 80, ainda no regime soviético, quando uma cápsula Soyuz retorna com dois cosmonautas - um deles está morto e o outro carrega um alienígena que induz amnésia no hospedeiro.

De cara pode-se pensar, com o resumo acima, em Alien - o Oitavo Passageiro ou em alguma iteração sem maiores talentos (dentro ou fora da franquia): mas não se trata aqui desse tipo de filme, que a essa altura é padrão, com sustos, vísceras e nojeira (mostly...) - mas antes é sobre a construção de confianças. Há detalhes que contribuem para a questão das tais construções, que há de se ficar ficar atento.

Motivações e mentiras passam pela protagonista, a médica e estudiosa de comportamento Tatyana Klimova, trazida à trama e ao centro de pesquisas secreto, onde ocorrem os estudos com o cosmonauta sobrevivente, quando as opções sobre como tirar o alienígena do cosmonauta começam a escassear e o tempo urge, para mais de um propósito.

Fiquei com a sensação que algumas dessas construções foram apressadas, mas pode ser impressão minha e, mesmo assim, não compromete o resultado do filme.

Destaque para o personagem do Coronel Semiradov.

Recomendo. 

sábado, 4 de dezembro de 2021

Cerimônias do Argos: 2020 e 2021

 Em 2020 não pudemos realizar a cerimônia de entrega do Prêmio Argos de Literatura Fantástica, devido a pandemia. Hoje realizamos uma entrega simbólica com os vencedores, Gilson L. Cunha (Melhor Conto e Melhor Romance) e Cirilo S. Lemos (Melhor Antologia, org.). O resultado vocês podem ver abaixo:


E amanhã Domingo dia 5/12, às 17h, teremos a entrega do Argos 2021, disponível em:


Parabéns aos participantes e vencedores! 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Trevisan

 

Trevisan por [Lúcio Manfredi]


Por enquanto somente em formato kindle, Trevisan (2020) é o novo romance de Lúcio Manfredi, após cinco anos desde seu Encruzilhada (ed. Draco), e com o qual dialoga com o estilo do que é contado: uma rápida sucessão de ambientes e situações onde o personagem busca - ou foge - entre outras coisas de uma própria identidade. 

Mas aqui o estilo é ainda mais radical, visceral, desnorteante e atordoante, adverborreia aditijetivada da caopédia piscou-perdeu leitura tântalo-tântrica que não dá alento nem respiração fôlego como resfôlegos gastos numa gaita de foles -- okaaaaaaay, isso vicia e isto é somente uma resenha. 

Enfim. Trevisan. Leiam.


Trevisan
96 p.
autopublicação

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Video-resenha: Não Existem Macacos Inteligentes!

Vídeo-resenha pelo canal Livros & E-Books de Não Existem Macacos Inteligentes (2021), antologia baseada no livro O Planeta dos Macacos (1963), de Pierre Boullet, assim como também nas séries e demais filmes derivados com o tempo da obra original.

A antologia é organizada por Lu Evans e Saulo Adami, da qual participo eu com o conto Radiumgami MechaniKong, Go! Pra baixar o e-book gratuito, clique aqui. Para comprar a edição física, clique aqui.

  



terça-feira, 9 de novembro de 2021

Jabuti 2021 - Romance de Entretenimento

 Saiu a correlação dos finalistas. A literatura fantástica representada, pelo menos, com Eneias Tavares, Cesar Bravo e Carol Chiovatto em:

Romance de Entretenimento

Título: Amanhã eu morro | Autor(a): Hugo Ribas | Editora(s): Patuá

Título: Apocalipse segundo Fausto | Autor(a): Marcos de Brito | Editora(s): Coerência

Título: Corpos secos | Autor(a): Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado | Editora(s): Alfaguara

Título: Descanso | Autor(a): Rafaela Riera | Editora(s): Penalux

Título: Desmemória | Autor(a): Thalita Saldanha Coelho | Editora(s): Jandaíra

Título: DVD: devoção verdadeira a D. | Autor(a): Cesar Bravo | Editora(s): DarkSide Books

Título: Parthenon Místico | Autor(a): Enéias Tavares | Editora(s): DarkSide Books

Título: Senciente nível 5 | Autor(a): Carol Chiovatto | Editora(s): Avec Editora

Título: Tortura Branca | Autor(a): Victor Bonini | Editora(s): Coerência

Título: Velhos demais para morrer | Autor(a): Vinícius Neves Mariano | Editora(s): Malê

Fonte: Fantasticursos no Telegram.



domingo, 17 de outubro de 2021

O Messias de Duna


O Messias de Duna: capa da edição antiga pela Nova Fronteira.

Tenho que confessar que levei este tempo todo para finalmente ler inteiro. Achei simplesmente um livro chato, da primeira vez que li, e consequentemente, não avancei nos demais - apesar de conselhos dizendo que valia à pena. 

Mas, exatamente por causa da live que participei (e que comentei aqui), eu me vi entusiasmado para dar uma chance com um livro que, afinal, é mais ou menos um terço do original. E consegui terminá-lo, de fato, em poucos dias. 

O Messias de Duna (1969) é um livro muito centrado em conspirações - mais do que o livro anterior - e com isso um certo andamento pode ficar comprometido, de acordo com os gostos da audiência. Mas se você conseguir vencer os primeiros trechos ou o estilo, ganha uma ótima sequência ao livro original. 

Gênero

O Messias de Duna originalmente foi publicado como noveleta na Galaxy Magazine, e depois ampliado para a forma de romance. Foi a primeira de mais quatro sequências que ele escreveu, valendo ainda Filhos de Duna, O Imperador-Deus de Duna, Hereges de Duna e As Herdeiras de Duna. Os links anteriores vão pras edições atuais pela Aleph, que dispensou os artigos no título. 

Cenário

A mudança ambiental em Arrakis vai de vento em popa, conforme as ordens do Muad'Dib. Mas com a mudança, a sensação de ao se obter o que tanto se ansiava se mostra algo com um viés indesejável para os Fremen, que, apesar do sucesso em levar a palavra do Muad'Dib pelos mundos galáxia afora, veem seu modo de vida se diluir com os novos costumes e as novas gerações, ao mesmo tempo em que o ecossistema se torna mais generoso - subitamente, é como Arrakis não fosse mais o mundo feito por Deus "para testar os fiéis".

Trama

Passando-se 12 anos depois do livro original, Paul Atreides é não só o senhor de Arrakis mas o novo imperador do Universo Conhecido. Controlando a especiaria, ele controla o universo, e seus Fremen, como foi dito, são a base da mais nova jihad galáctica, que nesse meio tempo leva a palavra de seu autêntico messias aonde for. 

Ao mesmo tempo, ele já entendeu que sua presciência turbinada pela genética e a Água da Vida é antes uma prisão do que algo que consiga eficazmente controlar: e como poderá ficar o futuro para seu herdeiro? 

Personagens

De saída, somos apresentados aos conspiradores contra Paul Atreides, em um primeiro capítulo que me foi responsável, devo advertir e mesmo confessar, por minha desistência do livro da primeira vez que tentei de ler.

Entre os velhos os novos inimigos temos a CHOAM e as Bene Gesserit - na participação da Reverenda Madre Gaius Helena Mohiam assim como da própria esposa do imperador, a Princesa Irulan, além do Dançarino Facial Scyatle pelos Bene Tleilax e Edric, Navegador da CHOAM. Os BT ainda oferecem um presente duvidoso, na forma de Duncan Idaho redivivo, no que é chamado ghola.

O personagem central é, sem dúvida, Paul Atreides. Não obstante, doze anos depois dos eventos finais de Duna, sua jihad é vitoriosa, resultando em, de acordo com o próprio, 61 bilhões de mortos, 90 planetas esterilizados, 500 outros "totalmente desmoralizados" e no extermínio de seguidores de mais de 40 religiões diferentes - em uma "estimativa conservadora". 

Não precisamos chegar na página onde estão esses números para entendermos que a relutância de Paul em seguir esse caminho não o impediu de fazê-lo, exatamente antecipando o massacre que iria acontecer, ainda no primeiro livro, consciente ainda que o pior ainda poderia acontecer, caso não intereferisse. Em um enorme resumo: como ele atua dentro desse turbilhão é que é a intenção central deste volume.

Santa Alia da Faca, agora em sua adolescência, é alguém que teve a consciência desperta pela Água da Vida cedo demais, ainda sendo um feto em gestação: alguém tido como Aberração pelas Bene Gesserit, nela temos o embrião da tragédia que a consumirá no próximo livro, Os Filhos de Duna. 

Em edição atual pela Aleph.

Com um terço aproximadamente do livro original, mas sem precisar ambientar o leitor com todas as novidades trazidas pelo cenário rico e complexo como em Duna, esta sequência deixou alguns nomes conhecidos de fora: Gurney Halleck e Lady Jessica estão em Arrakis, mas somente dela só sabemos e através de uma carta enviada, em que ela alerta sobre os perigos da religião se unindo ao Estado, deixando Alia preocupada - e, de quebra, gerando um daqueles trechos cuja atualidade para nós, leitores, sempre é perturbadora. Tais perigos são melhor demonstrados, aliás, na sequência Os Filhos de Duna, em que ela volta a protagonizar.

Se não de fora, de menos na história: especialmente perto do fim, as coisas pareceram estar meio corridas quanto ao destino do elenco de conspiradores - nem que por bons serviços prestados, a gentil Reverenda Madre merecia uma última cena. 

O volume encerra com uma ótima saída de palco do protagonista, tanto em forma como motivações, e abrindo espaço para se sair da vida para entrar na lenda, ao mesmo tempo evitando muito do que o destino da civilização ele temia vir a se tornar.

O Messias de Duna 
283 p.
Editora Nova Fronteira (para fins de resenha)

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Kirk in spaaaace!

Ok, várias coisas aqui...

Por um lado, tudo parece ser brincadeira entre multimilionários, com pouco ou nenhum recurso dizendo a respeito da sociedade. Como se apontando um futuro estilo Elysium, aliás corroborável aqui... 

Mas... MAS... há que se lembrar que a aviação começou também como algo para poucos, entre multimilionários de época e Estados.

O que aconteceu hoje foi um golpe publicitário? Duh. Double duh. Ao brincar de Cabhum orbital, isso demonstra que mesmo um nonagenário com histórico de alcoolismo pode peitar 5,5 G de arranque.

Notem: isso não apenas soa como um presente inventivo para o níver do sogrão ou do vovô do Homem que Tem Tudo, mas contradiz a imagem que, para se estar em órbita, há que se estar no ápice da forma física e intelectual, ser o melhor da espécie Humana: não, o vovô cachaça também pode estar lá. Por tabela, você - sim, você, lendo isso aqui, que em termos olímpicos é meio esquisito e, pior: você, que não tem neto ou genro bilionário, também pode estar lá: pois a impressão que fica é a de acessibilidade, e isso conta.

O homem comum no espaço: para mais detalhes dessa ótima ideia, assistam Avenue 5.

William Shatner aos 90 anos se torna a pessoa mais idosa a ir ao espaço, recorde anterior sendo da turista espacial Wally Funk (83 anos, em julho de 2021). Ambos foram pela Blue Origin de Bezos, e são voos suborbitais, atingindo 80 km de altitude (o que os americanos chamam de espaço por questões políticas, mas nem entremos nessa pendenga). Mas antes, houve John Glenn.


Vets in space: Caubóis do Espaço (2000)

John Glenn (1921 - 2016), o primeiro astronauta americano a orbitar a Terra em 1962, pilotando uma cápsula Mercury. Havia sido fuzileiro, piloto de aviação de caça condecorado, na II GM e na Coréia; e no devido tempo, senador. Em 1998 ele volta ao espaço pelo ônibus espacial Discovery, como participante de uma pesquisa sobre reações do organismo humano de uma pessoa idosa naquelas condições. Neste seu último voo ao espaço ele tinha 77 anos. 

Bom, vamos lá: não vamos nos enganar que ninguém é imune às necessidades da publicidade. Mesmo a NASA precisa disso: li certa vez que a miopia do Hubble teria se dado pelo lançamento antecipado do próprio, comprometendo um dos espelhos refletores de fundo; antecipação forçada pelo desastre da Challenger de anos antes, e a empresa precisava de algo que demostrasse a necessidade do programa espacial para o grande público. Mas aqui, o dinheiro é público, e se por um lado satisfações nunca são de menos, por outra o Homer Simpson que se ajuda a ser também não colabora.

Ainda, não precisamos lembrar de Jeff Bezos e sua "Sue" Origin, ou do quão "polêmica" é a figura de William Shatner.

A questão, portanto, é sobre quantos mais irão se beneficiar dessa indústria nascente. Pessoalmente eu desconfio, e muito, de interesses particulares dessa monta porque, bolas, eles são PARTICULARES, e o benefício social é algo a se adivinhar, uma bola enviesa para a qual você pode apenas torcer. 

I'm a rock-it man...!

A não ser que você seja como Santos-Dumont, com fortuna de família, que nunca se importou em patentear nada, fornecendo cópias de projetos a quem assim quisesse: sua ideia era, vamos todos voar juntos. Como consequência, mais pessoas conseguiram bolar seus próprios empreendimentos aéreos, ao passo que os irmãos Wright procuraram processar cada um que surgisse com um mais-pesado-do-que-o-ar (e perderam TODOS os processos). O resultado? Bem, os irmãos Wright podem ter sido os verdadeiros pais do avião, mas da Aviação? Esse foi Dumont. Seu legado não é somente tecnológico.

Temos algum Dumont, com esse tipo de visão, na praça?

Eu acho que não. Dumont já era uma mentalidade velha, em seu tempo, um romantismo-idealismo que se apagava com o Século XIX. O novo século era da mentalidade dos Wright.

Só que tem o seguinte, depois de tudo contextualizado e desconstruído, ainda tem o seguinte:

Oh, yeah, that's the good stuff!

É a porra do Capitão Kirk.

Os caras meteram o Capitão Kirk no espaço. 

Cês têm ideia prum certo tipo de nerd - especialmente um certo tipo de nerd de meia-idade - o que isso significa? 50 shades of putaquipariu, mano! 

Todo aquele otimismo gerado em plena guerra fria, que apesar dos riscos, das fictícias Guerras Eugênicas, da certeza da III (e nuclear) Guerra Mundial, que tudo ia valer a pena! Porque sobreviveríamos, e seríamos uma versão melhor de nós mesmos, como pessoa ou sociedade! E ia - não, e vai ser do caralho!

Shatner passou alguns minutos sob ausência de peso e vendo o escuro do espaço acima e o azul da Terra embaixo. Bastou. Entre suas primeiras declarações de volta disse a Bezos, "O que você me deu foi a mais profunda experiência que eu posso imaginar. Eu estou repleto de emoção por tudo o que acabou de acontecer".

A vida nunca é simples. Como todo ator que sofre de typecasting por um papel de sucesso - Basil Rathbone, sob a sombra de Sherlock Holmes, que o diga -, sua tendência era de rejeitar identificação com algo que lhe fechava portas. As décadas passaram, conseguiu dar a volta por cima, houveram por fim outros papéis e oportunidades - inclusive, novamente, como James T. Kirk. 

E, cinquenta anos depois, isto.

Se por mais nada, isto.

Imagino se Elon Musk, capaz de realmente por pessoas não-qualificadas em órbita por alguns dias, não está ligando para Patrick Sewart.

Sci-Fi Tropical

 Sci-Fi Tropical é o blog de ficção científica de meu prezado Rubens Angelo, designer e escritor, já na coluna ao lado. Destacam-se seus minibooks editados com contos de muita gente boa, além do resgate de parte da memória da FCB. 

Já na coluna ao lado.

sábado, 25 de setembro de 2021

Live de Duna (edit: + resenha)

 Domingo amanhã, 26/09/21, às 16h, participarei de uma live sobre Duna organizado pelo Clube de Leitura Zona Oeste, aproveitando o mote da estreia da refilmagem recente.

Desencavei minha velha cópia da ed. Nova Fronteira e reli nos últimos dias, após longos anos sem revê-lo. Reler com olhos de quem, hoje em dia, procura escrever se revelou uma grata surpresa.

Mais comentários depois de amanhã. Para quem quiser assistir, eis o link.


Duna, em edição de 1984 da ed. Nova Fronteira. Por Frank Herbert.

EDIT

Em vez de gerar mais um post, preferi ampliar este, uma espécie de resenha tardia (com spoilers) de Duna.
 
Como eu disse, grata surpresa ao reler depois de sei lá quanto tempo. Mais cedo neste ano ou em 2020 eu tentei, mas sem sucesso. Dessa vez fui até o final, e ainda no gás embiquei em O Messias de Duna, que deixarei pra um próximo post.

Na live eu digo tudo o que talvez tivesse a dizer aqui: há quem saliente que nunca se lê (relê) o mesmo liveo duas vezes, indicando a maturidade do leitor e seus momentos diferentes de vida. 

No meu caso, havendo entre lá e cá iniciado uma modesta carreira de autor, prestei atenção no texto que, de outra forma, talvez não tivesse.

Identifiquei trechos que me lembrava, que mais ou menos me lembrava, e passagens que para mim foram completamente inéditas. 

Foi muito bacana rever - ou ver - a construção das tramas, e os raciocínios que levarão Paul Atreides a ser o messias da Humanidade: não somente o plano das Bene Gesserit estava para acontecer, mas a força das circunstâncias leva Lady Jessica, sua mãe, a ativar "protocolos de emergência" psico-culturais, deixados pelas BG, que levam a uma população supersticiosa a acolhê-los como figuras profetizadas; e ainda sem que ninguém mais soubesse, paiava a promessa lançada pelo primeiro Planetólogo Imperial local para, junto à mesma população, trabalhar em um método para transformar o escaldante planeta desértico Arrakis em um paraíso ecológico nos séculos que viriam.

Duna é a primeira grande obra da new wave/'soft science fiction' abordando religião, política, cultura e ecologia como temas centrais, e não meras curiosidades secundárias, sendo da mesma geração que trouxe autores como Michael Moorcock, Ursula K. Le Guin e Philip K. Dick às prateleiras.

Seu worldbuilding impressiona, sendo também central à trama, conferindo ao planeta Arrakis toda uma identidade própria e senso de pertencimento dos personagens, sem o qual a proposta oferecida por um autor pode enfraquecer. O feito deixa Duna considerado também como tendo o primeiro grande worldbuilding da ficção científica, comparável ao da Terra-Média de Tolkien, do lado da fantasia.

Ao longo de suas 669 páginas dividas em três livros internos (mais apêndices), entretanto, senti que certos personagens apresentados ficaram "de menos" em seu desenvolvimento e potencial, tamanha a carga de informação - e não estou falando de nenhum infodump, percebam - que o livro apresenta. Não é um livro perfeito, mas não quer dizer que seja um livro ruim, longe, bem longe disso. O fã de ficção científica deve sempre dar uma chance para ler - quando não, reler - Duna.

Agora é esperar para ver o novo filme que, segundo soube, será divido em duas partes. Imagino que seja o certo a fazer, pois, como foi dito, são 669 páginas de muita informação que deixou o filme de 1984, de David Lynch, como problemático, para se dizer o mínimo.

Por último, cabe notar que Frank Herbert escreveu meia dúzia de livros a partir do primeiro, em sua carreira como escritor de ficção científica. Seu filho Brian e o escritor Kevin J. Anderson ainda expandiram o universo bem além, com base nas anotações do pai. No Brasil, que eu saiba apenas os livros do pai foram publicados. Uma página da wiki sobre a franquia de Duna aqui, para quem se interessar. Devo ler os primeiros livros em breve comentar por aqui, a futuro.

Duna
669 p.
Editora Nova Fronteira (para fins desta resenha. Edições atuais pela ed. Aleph)


sábado, 5 de junho de 2021

Não Existem Humanos Inteligentes...

... é o nome da antologia co-organizada por Lu Evans e Saulo Adami, baseada no imaginário de 'O Planeta dos Macacos', de Pierre Boulle. Participo com Radiumgami MechaniKong, Go!

É a segunda antologia que participo sob a batuta de Evans, a anterior sendo 'Sob As Luzes de Yule'.

Disponível em Google play books (GRÁTIS), Uiclap (Cupom de desconto: UAC3867CYTLVFLH1R ), Goodreads e Skoob.




domingo, 11 de abril de 2021

Prêmio Le Blanc 2021

 Já temos uma semana de votações abertas, e vamos até dia 23 de Abril. Os links vão aqui, no apoio da Bossa Criativa. O Prêmio Le Blanc é dedicado às obras nacionais do ano anterior nas áreas de Animação, Games, Literatura Fantástica e Quadrinhos.



Retrato de Le Blanc, fonte: Bossa Criativa

sábado, 3 de abril de 2021

Aniquilação

Capa da edição brasileira de Aniquilação.

Aniquilação (2014), de Jeff Vandermeer, é o primeiro de sua trilogia (ainda composta de Autoridade e Aceitação, já foram publicadas no Brasil pela mesma editora), que conta sobre a "Área X", uma região do território norte-americano desabitada sob influência alienígena, mudando fauna e flora. 

As quatro personagens são a 12a. expedição para este território, sob o comando de uma agência governamental conhecida apenas como "Comando Sul". Não há nomes, mas cada uma é chamada pela sua profissão, pela qual foram escolhidas para compor esta empreitada.

A prosa é densa e minuciosa em seus detalhes, enquanto a narradora-protagonista e suas colegas se aventuram na região, com amplas descrições do mundo natural pelos olhos dela, logo a bióloga, portanto mais apta a descrever a vida selvagem do lugar. O desenvolvimento da personagem, seu passado e presente, e suas tensões e questões próprias, resolvíveis ou insolúveis, são apresentadas, construindo uma personagem bem interessante.

É uma obra lovecraftiana, com direito a horror cósmico e o indizível em suas extensas descrições - que para mim soaram inovadoras, entretanto, fazendo uso criativo de sinestesia -, trazidas até nós por uma narrativa em primeira pessoa deixada em um diário. Impossível, dado ponto, não lembrar de A Cor que Veio do Espaço (1927), que, aliás, ganhou filme em 2019.

Trailer do filme de 2018, com Natalie Portman. Netflix

Como toda boa obra lovecraftiana, não há real explicação para o indizível - mas não deixa de ocorrer uma ou duas respostas para a narradora-protagonista, dando-lhe a possibilidade de encontrar termos com o marido desaparecido, e tudo aquilo que faltou dizer durante os anos de um casamento que se encontrava no final, quando ele partiu na expedição anterior à Área X: em meio a tanta dissolução orgânica e pessoal, algumas certezas nos bastarão - e isso não é a indicação de um final feliz, percebam.

Recomendo.

Aniquilação - Livro 1 da Trilogia Comando Sul

200 p.

Ed. Intrínseca

sábado, 27 de março de 2021

Justiça Ancilar

Capa da edição brasileira.

Aviso: Spoilers abaixo.

Ancillary Justice (2013) é o romance de estreia da autora Ann Leckie, que começou já ganhando os badalados prêmios Hugo e Nebula, além de outros: nada mal, mesmo, para uma iniciante. No Brasil, uma tradução foi publicada pela ed. Aleph em 2018.

Gênero

A história é uma space opera bem próxima à "FC Militar", passando-se dentro de alguns tantos milhares de anos, com a Humanidade espalhada pela galáxia e algumas raças alienígenas, porém mais focada em povos humanos que já cultivam suas próprias culturas e ancestralidades. Apesar do que, há a presença do indefectível império galáctico, contra o qual não há escapatória, um governo humano que "traz a civilização" às estrelas e povos conquistados.

A autora investe ainda em transhumanismo, apresentando conceitos e sequências muito boas, com pontos de vista - literais - de uma mesma Inteligência Artificial alternando-se através dos diversos corpos que comanda, de parágrafo em parágrafo, às vezes mesmo diálogos. A protagonista um dia foi uma nave, sendo ao mesmo tempo a gerenciadora de suas funções e coordenadora da força de ancilares - corpos humanos sem direito à identidade conservados criogenicamente e despertos para receberem implantes onde a vontade da IA se manifestará.

Há ainda a presença de pós-humanos, os que se modificaram tanto que comunicar-se com o resto da Humanidade se torna um desafio cognitivo. Mas infelizmente eles são apresentados de relance.

Cenário:

Humanos e não-humanos sofrem o domínio do Império Radchaai, uma nação humana que se expande e assimila povos há alguns milhares de anos, contra quem não há resistência possível, impondo padrões de sociedade e cultura, em um processo de dominação contínuo, sob a justificativa e crença que "traz a civilização" ao conquistado. 

As imperfeições da sociedade futurista se revelam no discurso classista entre a nobreza de bem-nascidos e que nascem 'líderes naturais' contra quem, por esforço próprio, galga posições, um conflito social diretamente relacionado com a trama. 

A galáxia de Leckie é rica, portanto, em pontos de vista e questões culturais sempre indicados, especialmente as imprecisões da tradução de dados termos e intenções em diferentes idiomas, constantes na narrativa.

Trama:

A trama se dá em dois momentos de História, separados por séculos, mas mantendo o ponto de vista narrativo - ou múltiplos pontos de vista - sempre de Breq, contado em primeira pessoa. Ambos os tempos são apresentados por serem o início e o final da história, havendo a autora preferido alternar os momentos, em vez de uma abordagem linear em duas partes, 'passado e presente', para todo o conteúdo. Essa alternância é bem interessante, especialmente no passado, quando pontos de vista físicos eram trocados a cada parágrafo, com os vários olhos e ouvidos controlados por Breq, quando era a IA de uma nave militar.

Personagens:

É uma história de vingança, onde os dois protagonistas assumem o papel de "parceiros improváveis": Breq, movido por uma vingança pessoal, encontra Seivarden, um viciado em droga, e acaba o ajudando sem nem saber ao certo por que. Com o passar do livro, a identidade de ambos vai se tornando clara ao leitor, assim como as motivações e histórias, especialmente a de Breq, pela qual as coisas andam. 

Confesso que achei Seivarden não tão desenvolvido quanto poderia, sendo mais um acessório para Breq, no final das contas: no mais, sua recuperação do vício de drogas, apesar da tecnologia existente, ainda era algo para se preocupar ao nível da confiança - o que, efetivamente, leva à cena da ponte. Mas, a partir daí, as coisas se encaminham funcionais demais, ao meu ver. 

Ancillary Trilogy.

Forma:

Tomando como base a inexistência de gêneros na linguagem do dominador Radchaai, a autora fez uma outra experiência estilística (além da de alternância de pontos de vista) e retirou qualquer referência a homens ou mulheres, quando as coisas eram descritas ou ditas do ponto de vista de quem falasse ou pensasse em radchaai, deixando gênero para alguns poucos momentos em outros idiomas. A tradução do livro para o português, sob autorização da autora, pôs como gênero default o feminino, para salientar, à sua maneira, uma tentativa de estranheza da obra. 

Pessoalmente, pra mim funcionou, e foi divertido imaginar um elenco all-female pela história e galáxia afora.

A alternância de períodos de época e entre pontos de vista de localização pode ser um pouco confuso, mas é o que eu chamo de um bom confuso. Dá a sensação de novidade, senão conceitual, ao menos estilística que cabe perfeitamente em uma obra de ficção científica.

Entretanto, se não tivesse chamado a atenção para a questão de gênero no idioma, eu sinto que tanto faria como tanto fizesse ser assim como seus personagens serem todos homens, como em um romance mais antigo: não há definições, redefinições dos papeis de gênero, ou qualquer debate aqui. Talvez eu esteja perdendo o ponto proposto, mas não acho que isso deixe o livro com uma "sacada genial" ou similar, como parecem insistir: um mundo que, se por um lado há a louvável equivalência entre ambos os sexos em qualquer função - e é o mínimo que se espera em sociedades humanas daqui para frente, ao ponto que em si não é a primeira obra a pensar isto -, não me parece que salientar a ausência de gênero no vocabulário confira algum valor extra à obra.

Comparemos, por exemplo, com A Mão Esquerda da Escuridão (1969), de Ursula K. Le Guin, onde tanto há a questão de gênero é algo influente tanto para a história quanto para as culturas apresentadas: aqui, parece mais uma curiosidade exótica, que sempre é lembrada, mas não parece realmente importar para mais nada.

O filminho na minha cabeça: Breq e Seivarden, com a licença das descrições.

Achei o texto, por vezes, um pouco arrastado, com o ritmo melhorando pela metade do livro: em suas inúmeras sutilezas, a autora não se furta em salientá-las, o que talvez comprometa uma fluidez melhor.  Pode ser que tenha ocorrido por ter sido o primeiro livro de uma série, vendo-se na obrigação de apresentar o máximo de informação possível a um leitor, com uma escrita mais ágil nos volumes posteriores. 

Mas não só de poréns e entretantos vive a história: na busca por vingança pessoal contra o imperador galáctico, a ex-nave de guerra que é a protagonista promove uma guerra de uma pessoa só, apenas para descobrir que o imperador também está em uma guerra de uma pessoa só - civil, no caso, que já dura séculos e produz suas vítimas: pois em seus múltiplos corpos, o imperador não concorda sempre consigo mesmo,  mergulhado em um dilema insolúvel provocado por uma potência alienígena ameaçadora maior do que o Radch...

... e isso é uma história que vale à pena ler. 

Sendo parte de uma trilogia, espero que a Aleph venha a publicá-la por inteiro.

Recomendo.

Justiça Ancilar

384 p.

Editora Aleph

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

O Império dos Mutantes

 

Ficção-Científica Gótica?

Alerta: Spoilers abaixo.

O Império dos Mutantes (La Mort Vivante, 1958) é o primeiro livro que li deste autor, o francês Stefan Wul (1922-2003), do qual descubro ter sido dentista e apaixonado por ficção científica. Figura atuante no meio de seu país, sua obra mais famosa talvez seja a adaptação de animação O Planeta Fantástico (1973), a partir de Oms en série (1957).

Em um futuro onde a Humanidade vive em "planetas-paraísos de sistemas longínquos", nosso sistema solar original ficou apenas com Marte e Vênus habitados por sociedades onde a tecnologia se retraíra, e a Terra era proscrita e virtualmente inabitável, após catástrofes provocadas pela capacidade destrutiva dos seres humanos. O único lugar na Terra, descrito, são o que um dia foram os Montes Pirineus, erguendo-se do oceano que engloba quase toda a superfície do planeta junto com outros pontos mais altos.

A história começa em Vênus (sendo escrita em uma época em que se podia ainda crer em Vênus e Marte habitáveis sem forçar muito a barra), onde o protagonista, um biólogo, é censurado pela religião por seus experimentos com óvulos de anfíbios, deixando claro que é uma sociedade que não gosta de ciência e tecnologia, exatamente pelas desgraças do passado. A religião aqui, que sugere alguma vertente de cristianismo neste futuro não determinado, apela sempre a uma prudência a um ponto estagnante.

A fustração do biólogo é captada muito oportunamente por um contrabandista de artefatos - livros e microscópios - da Terra que, com o tempo, acaba cooptando-o para trabalhar para sua chefe na Terra, onde todos são proibidos de ir.

O trabalho envolve a clonagem da filha morta desta chefe, com resultados bastante perturbadores.

Achei a história com uma pegada distante de Frankenstein (resenha minha aqui), de Mary Shelley, de onde se acostumou com a ideia de que a ciência é uma vilã - quando o correto seria, a falta de ética é a vilã, como o é em qualquer campo. Dado momento, o protagonista, defronte os horrores que ajudou a criar, passa a culpar a religião por manter a ciência na rédea curta, em vez de na verdade estimulá-la, podendo então combater conhecimento com conhecimento.

Mas há outras ligações: se o autor estava pensando especialmente no Frankenstein do cinema, acabou gerando uma curiosa mistura de ficção científica com gótico, em um cenário pós-apocalíptico. Há o castelo decadente, tão isolado quanto arruinado, criptas por perto, um laboratório onde pesquisas jamais tentadas antes ou há muito tempo são executadas, um pequeno elenco de pessoas excêntricas ou de aspecto repugnante por este ou aquele motivo. Há também um grande pecado pairando no ar, que atormenta a todos os envolvidos e será a fonte da ruína. É um mundo doente, onde todos precisam se precaver contra a radiação, havendo poucos lugares habitáveis e nenhum sendo de conforto.

Há ainda noções como uma máquina auto-replicante que, consumindo os recursos ao redor, acabaria por ocupar - ou substituir - o planeta inteiro, sendo que ainda no caso esta criatura é um organismo, do qual pendem descrições de mutações voláteis de órgãos, feições e formas orgânicas dignas de animes que ainda seriam vistos décadas adiante - ou talvez já tivessem sido lidas em alguma escrito ou autor lovecraftiano. A evolução do estágio inicial até este resultado reforça a ideia de um namoro, senão com o gótico, com o terror, incluindo aí gêmeas com poderes telepáticos e a capacidade para maldade, lembrando um pouco The Midwich Cuckoos (1957), de John Wydham, que gerou duas adaptações para o cinema (1960 e 1995).

Dos pontos baixos, pensei no desenvolvimento de personagens. Só dois ali realmente contam, tanto o protagonista quanto a chefe, e esta mesmo assim pouco se fala sobre ela ou mesmo a operação de contrabando que comanda. O pai da criança não é sugerido, do que eu tivesse lido, por exemplo. Dado momento, ela se torna pouco mais do que uma donzela em apuros, embora isso me pareça que também a questão do gótico: sendo a mãe do monstro, viver o pesadelo que passam a se encontrar especialmente a destrói por dentro. 

Apesar do que, achei o livro interessante, pelos motivos acima.

O Império dos Mutantes
184 p.
Colecção Argonauta