quinta-feira, 7 de julho de 2022

Censo LeBlanc...

 Povo mui amado,

estamos lançando o Censo Prêmio LeBlanc 2022, com o objetivo de conhecer melhor quem participa de nossas premiações escolhendo e votando nas obras nacionais das categorias de Literatura Fantástica, Quadrinhos, Animação e Games: https://forms.gle/Xk8xFfEgDKdsPvZ6A

Sentimos que, na ausência de dados mais concretos a respeito de quem são nossos fandoms, o Prêmio poderia contribuir também nessa etapa de desenvolvimento do mercado de nossas indústrias criativas.

A divulgação dos resultados será feita, a posteriori, para quem se interessar.

Portanto, se você que estiver lendo não se importar, fornecemos o link acima para que possa nos contar um pouquinho sobre você. Desde já esclarecemos que não há perguntas obrigatórias, muito menos respostas certas.

E se puder, também compartilhe.

Último aviso: em setembro estamos de volta com o Prêmio LeBlanc! https://www.facebook.com/PremioLeBlanc

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Links para Pesquisar...

 O Canal Fantasticursos veio com um ótimo vídeo hoje sobre 'onde pesquisar para escrever', cujos links apresentados - de origem acadêmica - porei na lateral. São eles o Dicionário Digital do Insólito Ficcional (UERJ), o E-Dicionário de Termos Literários, Editora Dialogarts (UERJ) e Revista Abusões (UERJ).

quarta-feira, 30 de março de 2022

Os Pilares de Melkart: financiamento coletivo

É com muita alegria que eu ajudo a divulgar esse projeto, todo da Ana Lúcia Merege : Os Pilares de Melkart! Para mais detalhes, vejam a descrição. Quem puder dar aquela força, pelo menos divulgue - a autora agradece. :)

https://www.catarse.me/pilares

Os Pilares de Melkart, no catar.se


Gente amiga, chegou a hora de compartilhar algo que venho preparando há muito tempo.
Vocês devem saber como sou fascinada por Mitologia e pelos épicos antigos. Alguns já devem conhecer os personagens que criei em cenários da Antiguidade e trouxe para os meus contos: Balthazar, o pirata e capitão mercante fenício, e o sonhador heleno Lísias. Agora, estou pronta para publicar um primeiro volume contendo as histórias da dupla, que vai levá-los a diferentes épocas e cenários do Mundo Antigo, desde a Creta de Minos à Jerusalém do Ano Um, passando por Tartessos e pelos bastidores do teatro grego.
Junto com a Editora Draco, preparei uma campanha onde explico tudo sobre o projeto. Vocês poderão perceber que é um trabalho bem elaborado, que requereu muita pesquisa, mas também contou com a minha imaginação e o meu desejo de, antes de tudo, contar boas histórias repletas de fantasia, aventura e um pouco de humor.
Convido vocês a visitar nossa página no Catarse e, se curtirem, a apoiar, não apenas com a aquisição do livro ou dos combos (o que, claro, seria fantástico!), mas também com divulgação, compartilhamentos, boca a boca... Tudo para levar nossos navegadores o mais longe possível!
Vou deixar o link nos comentários, e desde já agradeço, de coração, todo o apoio, carinho e boas vibrações. Que as Musas nos sorriam, pois aqui vamos nós!

terça-feira, 29 de março de 2022

Zona de Combate

Soldado e o Falcão Invernal.

Spoilers abaixo. Be warned.

 Zona de Combate (2021) estrela Anthony Mackie e uma cara conhecida que nunca sei o nome mais gente que não faço ideia. Entre quem não conheço, Damson Idris, no papel do protagonista, o tenente Harp, um piloto de drones que desobedece a cadeia de comando ao tomar a iniciativa de atacar, gerando a morte de dois soldados americanos.

Nas suas duas horas, é um filme com alguns temas e mensagens, ao menos que eu tenha percebido.

Por uma, tem o militar americano que aprende em primeira mão a brutalidade da guerra, após uma carreira como piloto de drones vendo tudo 'como um videogame': talvez essa 'história de redenção' cole se você for americano, não me admiraria se fosse uma forma de amortecer alguma sensação contínua de vilania que as massas possam estar ou vir a sentir - nem é o primeiro filme a abordar essa premissa.

Afinal, situado no futuro próximo de 2039, é em plena Ucrânia, envolvendo invasões russas, movimento de resistência, zonas desmilitarizadas, terroristas e etc.

Um outro tema é a IA que sai do controle, manipulando e passando a perna em seus criadores, que é um tema que tem surgido ultimamente em filmes como Ex_Machina: Instinto Artificial (2014), Archive (2020) e I Am Mother (2019). Complexo de Frankenstein, como nos alertava Asimov (o clichê, em sua época já, de 'homem cria robô, robô mata homem')? Provavelmente sim, mas cada filme tem o seu próprio take no que faz o filho rebelde da Humanidade.

... muitas e mais palavras desde aquela época.

No caso, a IA em questão (Leo, papel do antagonista interpretado pelo Falcão) de fato quer partir da pra grosseria em larga escala, manipulando toda uma complexa situação para provocar um ataque nuclear que só a Resistência quer em cidades americanas, desejando que isso pare a principal nação guerreira do mundo de suas práticas - levando em conta a própria criação, uma máquina tão sofisticada que sua inteligência consegue enrolar seres humanos, não bastasse ainda ser uma lean mean killing machine: o próximo passo de drones de combate, que já não estão somente no ar, mas também em terra.

Temos aqui, inclusive, o tema de drones na guerra, com a ideia de que eles não são nenhuma resposta ideal: de novo, a ideia de 'perdas aceitáveis' vira e mexe permeia e assombra.

From Russia, with love.

O problema é, que apesar da parte mais interessante do filme seja justamente a - presumível - mudança de pensamento de um Harp conflitado (a respeito do que sejam "perdas aceitáveis"), enquanto vai sendo manipulado a cada cena por Leo e um grande debate ético entre eles (comprimido entre cenas de ação e outras cenas da história), a linha de argumentos de Leo é tão convincente que o argumento de Harp ao final do filme parece batido demais como clichê, talvez apenas colando... se você for americano.

Ou, porque não há outra forma de se pensar/almejar: se por esperança ou conformação, bem...

No final, considerando tudo, o filme é interessante e bem recheado até, para suas duas horas. Mas eu não priorizaria.

Perdas aceitáveis, ou: no dos outros é refresco.

domingo, 20 de março de 2022

Caranguejo Negro

A Garota Com Tatuagem De Não F*** Meu Juízo

Aviso: Spoilers abaixo.

Caranguejo Negro (2022) é um filme sueco disponível na Netflix e se passa em um futuro próximo (o filme é considerado pós-apocalíptico) - na verdade, poderia ser nos dias de hoje - onde uma guerra civil aflige um país nórdico - supõe-se, a própria Suécia.

Claro que, em tempos de invasão russa na Ucrânia, é difícil pensar em acaso, nessas horas. Mas talvez para não piorar qualquer pré-disposição; o fato é que a trama é econômica nas descrições: há nós, e há eles, os inimigos. Nenhuma pista é dada, salvo uma breve menção a uma guerra civil logo no início, um passado ao qual se volta de vez em quando em flashes e sonhos: após longos e dolorosos anos, tudo o que há é a guerra, retratada no presente.

Às vésperas da derrota certa pelo lado dos seis protagonistas, eles recebem a missão de alcançar uma ilha distante de onde estão, alcançável pelo gelo não por veículos ou barcos, mas patinando, para entregar um pacote misterioso, e com isso, vencer a guerra de uma vez por todas.

É um clima sombrio, onde motivações apresentadas podem levar a atitudes de desconfiança o tempo todo. 

Ao seu modo, talvez não deixe de ser um 'road movie'...

A viagem dos seis soldados pelo arquipélago congelado é o grande atrativo do filme. O gelo é repensado como só alguém, creio, de uma cultura que convive com o fenômeno poderia. Ligando ao estresse e os horrores da guerra, a passagem sobre o gelo e sob uma lua e céus nublados e cinzentos revela paisagens em geral não representadas, com deques de madeira abandonados, barcos e navios tombados, restos mortais de outra época nem tão distante assim - tudo saindo de debaixo do gelo, além de uma (nem que involuntária) assombrosa repaginação do Pântano dos Mortos em As Duas Torres

Nesse breve aspecto, o filme pode lembrar até mesmo de Apocalypse Now, e a viagem da lancha canhoeira rio acima, pelas selvas do Vietnã e encontros e ocorridos ao longo do caminho sendo perigosos e inusitados.

Fotografia que impressiona.

Do elenco, conheço somente Noomi Rapace, cuja personagem é obcecada em encontrar sua filha, separadas por soldados anos atrás. A moral cambiante dos tempos extremos é medida por sua motivação. Os demais atores não conheço ou reconheci de outros papeis, alguns deixando sua breve marca em personagens, como nesse tipo de filme e trama ocorre, descartáveis.

Recomendo.

sábado, 19 de março de 2022

Duas lives recentes...

 ... para se assistir, em comum abordando as agruras do mercado editorial brasileiro de literatura fantástica, são as do Eduardo Kasse entrevistando Ogan N'thanda e o Nana Conversa com Octavio Aragão - ambas além de outros assuntos, bem elaborados e desenvolvidos por anfitriões e convidados. 


Reomendo. 

quarta-feira, 2 de março de 2022

Mundo Punk: financiamento coletivo

  Ok, a antologia Mundo Punk, da qual participo com A Voz do Brazil está no catar.se... é uma antologia com diversos modos de retrofuturismo em seus escritos. O meu aborda - espero - o dieselpunk, um sucessor estético e espiritual do mais famoso steampunk... 



É isso. Espero que gostem.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

2021 - Balanços...

2021 fechando, obviamente que me sinto nostálgico. Ainda não executei nenhum dos meus projetos de romance, muito em parte por meu atual envolvimento com o Mestrado. Acabei reduzindo ao máximo minhas participações por aí, e é legal ver que editais de contos de literatura fantástica têm se tornado frequentes.

Portanto, acabei escrevendo alguns contitos... em Fevereiro, dias 3 e 5 (uma sexta e um domingo) escrevi Radiumgami MechaniKong, Go! (3.498 palavras) e Shangri La, Ao Luar de Verão (2.304).

O primeiro saiu na Não Existem Humanos Inteligentes, pela Selo Nebula de Lu Evans, que tomou como base o universo de O Planeta dos Macacos: valia tudo, de qualquer um dos filmes à série de desenho animado, etc. Fiz um conto recheado de referências pop sobre macaquices além e acima do dever se passando em uma espécie de II Guerra Mundial (ao menos como era na minha cabeça) só que com um King Kong turbinado. Lu e Saulo Adami organizaram esta.

Já o segundo foi para uma antologia de 'song fic' que infelizmente não saiu, o que foi uma pena, pois havia escolhido uma de minhas músicas favoritas, Kashmir, do Led Zepelin (o título é um de seus versos). Apesar de também ser referencial, a pegada é mais contemplativa e nostálgica. Mas foi bom conhecer o organizador João de Lucca, espero que futuramente possa haver novos projetos que eu possa participar.

Escrevi ambos em 48h, e são bem diferentes um do outro. Trabalhar com essa diferença foi parte da minha diversão.

Em Maio um grupo de jogadores e fãs de Vampiro - A Máscara resolveram fazer um concurso de contos. Participei com O Passageiro (2.156 palavras). A publicação ainda não saiu. Foi divertido voltar a um universo que eu não vi ainda neste século, salvo uma partida de sua 5a edição em 2019.

Nestes últimos dias de Dezembro resolvi participar de uma antologia aberta pela nova revista online, Prosaika, que procurava "ficção científica espacial". Espanei um conto quietinho aqui na gaveta virtual chamado A Vigília do Astronauta (3.961 palavras), e mandei dia 27 último. Ação e aventura, passado em um universo ficcional de Medistelara, criado e desenvolvido com Ana Lúcia Merege. Dois astronautas caçam um planeta fantasma, que tem o estranho hábito de surgir e desaparecer em pontos variados ao longo da História.

E hoje, dia 30, respondi a um edital atrás de contos retrofuturistas pela editora Cyberus. A Voz do Brazil (2.989 palavras) veio de um arremedo de conto que cheguei a assentar em algum lugar uns, talvez, dois anos atrás e nunca mais encontrei. Reescrevi o que lembro que era a ideia básica e procurei desenvolver até arranjar um fim, dentro do limite de 3.000 palavras. Eu prefiro que seja visto como dieselpunk, estética que gosto muito, mas entendo se quiserem reconsiderar. 

Ao todo conto aqui 10.677 (Vigília não conta, pois é de alguns anos atrás) palavras. Para 2022, vamos ver. Há pelo menos um conto meu de anos recentes que será recauchutado para poder participar de uma antologia de 'fantasia histórica'. Talvez duas antologias eu consiga vir a co-organizar, uma com Gerson Lodi-Ribeiro dentro do alcance da space opera e outra com Ludmila Hashimoto, de contos de inspiração em Philip K. Dick. Corona Chronicles, com minha prezadíssima Ju Berlim, ainda aguarda decisões.

E tudo dando certo, ao fim de 2022 encerro meu Mestrado escrevendo um livro... vamos ver.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Estranho Passageiro

Estranho Passageiro - Sputnik. No Netflixkaya.

Filme russo de 2020, Estranho Passageiro (Sputnik) conta uma história passada nos anos 80, ainda no regime soviético, quando uma cápsula Soyuz retorna com dois cosmonautas - um deles está morto e o outro carrega um alienígena que induz amnésia no hospedeiro.

De cara pode-se pensar, com o resumo acima, em Alien - o Oitavo Passageiro ou em alguma iteração sem maiores talentos (dentro ou fora da franquia): mas não se trata aqui desse tipo de filme, que a essa altura é padrão, com sustos, vísceras e nojeira (mostly...) - mas antes é sobre a construção de confianças. Há detalhes que contribuem para a questão das tais construções, que há de se ficar ficar atento.

Motivações e mentiras passam pela protagonista, a médica e estudiosa de comportamento Tatyana Klimova, trazida à trama e ao centro de pesquisas secreto, onde ocorrem os estudos com o cosmonauta sobrevivente, quando as opções sobre como tirar o alienígena do cosmonauta começam a escassear e o tempo urge, para mais de um propósito.

Fiquei com a sensação que algumas dessas construções foram apressadas, mas pode ser impressão minha e, mesmo assim, não compromete o resultado do filme.

Destaque para o personagem do Coronel Semiradov.

Recomendo. 

sábado, 4 de dezembro de 2021

Cerimônias do Argos: 2020 e 2021

 Em 2020 não pudemos realizar a cerimônia de entrega do Prêmio Argos de Literatura Fantástica, devido a pandemia. Hoje realizamos uma entrega simbólica com os vencedores, Gilson L. Cunha (Melhor Conto e Melhor Romance) e Cirilo S. Lemos (Melhor Antologia, org.). O resultado vocês podem ver abaixo:


E amanhã Domingo dia 5/12, às 17h, teremos a entrega do Argos 2021, disponível em:


Parabéns aos participantes e vencedores! 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Trevisan

 

Trevisan por [Lúcio Manfredi]


Por enquanto somente em formato kindle, Trevisan (2020) é o novo romance de Lúcio Manfredi, após cinco anos desde seu Encruzilhada (ed. Draco), e com o qual dialoga com o estilo do que é contado: uma rápida sucessão de ambientes e situações onde o personagem busca - ou foge - entre outras coisas de uma própria identidade. 

Mas aqui o estilo é ainda mais radical, visceral, desnorteante e atordoante, adverborreia aditijetivada da caopédia piscou-perdeu leitura tântalo-tântrica que não dá alento nem respiração fôlego como resfôlegos gastos numa gaita de foles -- okaaaaaaay, isso vicia e isto é somente uma resenha. 

Enfim. Trevisan. Leiam.


Trevisan
96 p.
autopublicação

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Video-resenha: Não Existem Macacos Inteligentes!

Vídeo-resenha pelo canal Livros & E-Books de Não Existem Macacos Inteligentes (2021), antologia baseada no livro O Planeta dos Macacos (1963), de Pierre Boullet, assim como também nas séries e demais filmes derivados com o tempo da obra original.

A antologia é organizada por Lu Evans e Saulo Adami, da qual participo eu com o conto Radiumgami MechaniKong, Go! Pra baixar o e-book gratuito, clique aqui. Para comprar a edição física, clique aqui.

  



terça-feira, 9 de novembro de 2021

Jabuti 2021 - Romance de Entretenimento

 Saiu a correlação dos finalistas. A literatura fantástica representada, pelo menos, com Eneias Tavares, Cesar Bravo e Carol Chiovatto em:

Romance de Entretenimento

Título: Amanhã eu morro | Autor(a): Hugo Ribas | Editora(s): Patuá

Título: Apocalipse segundo Fausto | Autor(a): Marcos de Brito | Editora(s): Coerência

Título: Corpos secos | Autor(a): Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado | Editora(s): Alfaguara

Título: Descanso | Autor(a): Rafaela Riera | Editora(s): Penalux

Título: Desmemória | Autor(a): Thalita Saldanha Coelho | Editora(s): Jandaíra

Título: DVD: devoção verdadeira a D. | Autor(a): Cesar Bravo | Editora(s): DarkSide Books

Título: Parthenon Místico | Autor(a): Enéias Tavares | Editora(s): DarkSide Books

Título: Senciente nível 5 | Autor(a): Carol Chiovatto | Editora(s): Avec Editora

Título: Tortura Branca | Autor(a): Victor Bonini | Editora(s): Coerência

Título: Velhos demais para morrer | Autor(a): Vinícius Neves Mariano | Editora(s): Malê

Fonte: Fantasticursos no Telegram.



domingo, 17 de outubro de 2021

O Messias de Duna


O Messias de Duna: capa da edição antiga pela Nova Fronteira.

Tenho que confessar que levei este tempo todo para finalmente ler inteiro. Achei simplesmente um livro chato, da primeira vez que li, e consequentemente, não avancei nos demais - apesar de conselhos dizendo que valia à pena. 

Mas, exatamente por causa da live que participei (e que comentei aqui), eu me vi entusiasmado para dar uma chance com um livro que, afinal, é mais ou menos um terço do original. E consegui terminá-lo, de fato, em poucos dias. 

O Messias de Duna (1969) é um livro muito centrado em conspirações - mais do que o livro anterior - e com isso um certo andamento pode ficar comprometido, de acordo com os gostos da audiência. Mas se você conseguir vencer os primeiros trechos ou o estilo, ganha uma ótima sequência ao livro original. 

Gênero

Messias de Duna originalmente foi publicado como noveleta na Galaxy Magazine, e depois ampliado para a forma de romance. Foi a primeira de mais quatro sequências que ele escreveu, valendo ainda Filhos de DunaO Imperador-Deus de DunaHereges de Duna e As Herdeiras de Duna. Os links anteriores vão pras edições atuais pela Aleph, que dispensou os artigos no título. 

Cenário

A mudança ambiental em Arrakis vai de vento em popa, conforme as ordens do Muad'Dib. Mas com a mudança, a sensação de ao se obter o que tanto se ansiava se mostra algo com um viés indesejável para os Fremen, que, apesar do sucesso em levar a palavra do Muad'Dib pelos mundos galáxia afora, veem seu modo de vida se diluir com os novos costumes e as novas gerações, ao mesmo tempo em que o ecossistema se torna mais generoso - subitamente, é como Arrakis não fosse mais o mundo feito por Deus "para testar os fiéis".

Trama

Passando-se 12 anos depois do livro original, Paul Atreides é não só o senhor de Arrakis mas o novo imperador do Universo Conhecido. Controlando a especiaria, ele controla o universo, e seus Fremen, como foi dito, são a base da mais nova jihad galáctica, que nesse meio tempo leva a palavra de seu autêntico messias aonde for. 

Ao mesmo tempo, ele já entendeu que sua presciência turbinada pela genética e a Água da Vida é antes uma prisão do que algo que consiga eficazmente controlar: e como poderá ficar o futuro para seu herdeiro? 

Personagens

De saída, somos apresentados aos conspiradores contra Paul Atreides, em um primeiro capítulo que me foi responsável, devo advertir e mesmo confessar, por minha desistência do livro da primeira vez que tentei de ler.

Entre os velhos os novos inimigos temos a CHOAM e as Bene Gesserit - na participação da Reverenda Madre Gaius Helena Mohiam assim como da própria esposa do imperador, a Princesa Irulan, além do Dançarino Facial Scyatle pelos Bene Tleilax e Edric, Navegador da CHOAM. Os BT ainda oferecem um presente duvidoso, na forma de Duncan Idaho redivivo, no que é chamado ghola.

O personagem central é, sem dúvida, Paul Atreides. Não obstante, doze anos depois dos eventos finais de Duna, sua jihad é vitoriosa, resultando em, de acordo com o próprio, 61 bilhões de mortos, 90 planetas esterilizados, 500 outros "totalmente desmoralizados" e no extermínio de seguidores de mais de 40 religiões diferentes - em uma "estimativa conservadora". 

Não precisamos chegar na página onde estão esses números para entendermos que a relutância de Paul em seguir esse caminho não o impediu de fazê-lo, exatamente antecipando o massacre que iria acontecer, ainda no primeiro livro, consciente ainda que o pior ainda poderia acontecer, caso não intereferisse. Em um enorme resumo: como ele atua dentro desse turbilhão é que é a intenção central deste volume.

Santa Alia da Faca, agora em sua adolescência, é alguém que teve a consciência desperta pela Água da Vida cedo demais, ainda sendo um feto em gestação: alguém tido como Aberração pelas Bene Gesserit, nela temos o embrião da tragédia que a consumirá no próximo livro, Os Filhos de Duna

Em edição atual pela Aleph.

Com um terço aproximadamente do livro original, mas sem precisar ambientar o leitor com todas as novidades trazidas pelo cenário rico e complexo como em Duna, esta sequência deixou alguns nomes conhecidos de fora: Gurney Halleck e Lady Jessica estão em Arrakis, mas somente dela só sabemos e através de uma carta enviada, em que ela alerta sobre os perigos da religião se unindo ao Estado, deixando Alia preocupada - e, de quebra, gerando um daqueles trechos cuja atualidade para nós, leitores, sempre é perturbadora. Tais perigos são melhor demonstrados, aliás, na sequência Os Filhos de Duna, em que ela volta a protagonizar.

Se não de fora, de menos na história: especialmente perto do fim, as coisas pareceram estar meio corridas quanto ao destino do elenco de conspiradores - nem que por bons serviços prestados, a gentil Reverenda Madre merecia uma última cena. 

O volume encerra com uma ótima saída de palco do protagonista, tanto em forma como motivações, e abrindo espaço para se sair da vida para entrar na lenda, ao mesmo tempo evitando muito do que o destino da civilização ele temia vir a se tornar.

O Messias de Duna 
283 p.
Editora Nova Fronteira (para fins de resenha)

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Kirk in spaaaace!

Ok, várias coisas aqui...

Por um lado, tudo parece ser brincadeira entre multimilionários, com pouco ou nenhum recurso dizendo a respeito da sociedade. Como se apontando um futuro estilo Elysium, aliás corroborável aqui... 

Mas... MAS... há que se lembrar que a aviação começou também como algo para poucos, entre multimilionários de época e Estados.

O que aconteceu hoje foi um golpe publicitário? Duh. Double duh. Ao brincar de Cabhum orbital, isso demonstra que mesmo um nonagenário com histórico de alcoolismo pode peitar 5,5 G de arranque.

Notem: isso não apenas soa como um presente inventivo para o níver do sogrão ou do vovô do Homem que Tem Tudo, mas contradiz a imagem que, para se estar em órbita, há que se estar no ápice da forma física e intelectual, ser o melhor da espécie Humana: não, o vovô cachaça também pode estar lá. Por tabela, você - sim, você, lendo isso aqui, que em termos olímpicos é meio esquisito e, pior: você, que não tem neto ou genro bilionário, também pode estar lá: pois a impressão que fica é a de acessibilidade, e isso conta.

O homem comum no espaço: para mais detalhes dessa ótima ideia, assistam Avenue 5.

William Shatner aos 90 anos se torna a pessoa mais idosa a ir ao espaço, recorde anterior sendo da turista espacial Wally Funk (83 anos, em julho de 2021). Ambos foram pela Blue Origin de Bezos, e são voos suborbitais, atingindo 80 km de altitude (o que os americanos chamam de espaço por questões políticas, mas nem entremos nessa pendenga). Mas antes, houve John Glenn.


Vets in space: Caubóis do Espaço (2000)

John Glenn (1921 - 2016), o primeiro astronauta americano a orbitar a Terra em 1962, pilotando uma cápsula Mercury. Havia sido fuzileiro, piloto de aviação de caça condecorado, na II GM e na Coréia; e no devido tempo, senador. Em 1998 ele volta ao espaço pelo ônibus espacial Discovery, como participante de uma pesquisa sobre reações do organismo humano de uma pessoa idosa naquelas condições. Neste seu último voo ao espaço ele tinha 77 anos. 

Bom, vamos lá: não vamos nos enganar que ninguém é imune às necessidades da publicidade. Mesmo a NASA precisa disso: li certa vez que a miopia do Hubble teria se dado pelo lançamento antecipado do próprio, comprometendo um dos espelhos refletores de fundo; antecipação forçada pelo desastre da Challenger de anos antes, e a empresa precisava de algo que demostrasse a necessidade do programa espacial para o grande público. Mas aqui, o dinheiro é público, e se por um lado satisfações nunca são de menos, por outra o Homer Simpson que se ajuda a ser também não colabora.

Ainda, não precisamos lembrar de Jeff Bezos e sua "Sue" Origin, ou do quão "polêmica" é a figura de William Shatner.

A questão, portanto, é sobre quantos mais irão se beneficiar dessa indústria nascente. Pessoalmente eu desconfio, e muito, de interesses particulares dessa monta porque, bolas, eles são PARTICULARES, e o benefício social é algo a se adivinhar, uma bola enviesa para a qual você pode apenas torcer. 

I'm a rock-it man...!

A não ser que você seja como Santos-Dumont, com fortuna de família, que nunca se importou em patentear nada, fornecendo cópias de projetos a quem assim quisesse: sua ideia era, vamos todos voar juntos. Como consequência, mais pessoas conseguiram bolar seus próprios empreendimentos aéreos, ao passo que os irmãos Wright procuraram processar cada um que surgisse com um mais-pesado-do-que-o-ar (e perderam TODOS os processos). O resultado? Bem, os irmãos Wright podem ter sido os verdadeiros pais do avião, mas da Aviação? Esse foi Dumont. Seu legado não é somente tecnológico.

Temos algum Dumont, com esse tipo de visão, na praça?

Eu acho que não. Dumont já era uma mentalidade velha, em seu tempo, um romantismo-idealismo que se apagava com o Século XIX. O novo século era da mentalidade dos Wright.

Só que tem o seguinte, depois de tudo contextualizado e desconstruído, ainda tem o seguinte:

Oh, yeah, that's the good stuff!

É a porra do Capitão Kirk.

Os caras meteram o Capitão Kirk no espaço. 

Cês têm ideia prum certo tipo de nerd - especialmente um certo tipo de nerd de meia-idade - o que isso significa? 50 shades of putaquipariu, mano! 

Todo aquele otimismo gerado em plena guerra fria, que apesar dos riscos, das fictícias Guerras Eugênicas, da certeza da III (e nuclear) Guerra Mundial, que tudo ia valer a pena! Porque sobreviveríamos, e seríamos uma versão melhor de nós mesmos, como pessoa ou sociedade! E ia - não, e vai ser do caralho!

Shatner passou alguns minutos sob ausência de peso e vendo o escuro do espaço acima e o azul da Terra embaixo. Bastou. Entre suas primeiras declarações de volta disse a Bezos, "O que você me deu foi a mais profunda experiência que eu posso imaginar. Eu estou repleto de emoção por tudo o que acabou de acontecer".

A vida nunca é simples. Como todo ator que sofre de typecasting por um papel de sucesso - Basil Rathbone, sob a sombra de Sherlock Holmes, que o diga -, sua tendência era de rejeitar identificação com algo que lhe fechava portas. As décadas passaram, conseguiu dar a volta por cima, houveram por fim outros papéis e oportunidades - inclusive, novamente, como James T. Kirk. 

E, cinquenta anos depois, isto.

Se por mais nada, isto.

Imagino se Elon Musk, capaz de realmente por pessoas não-qualificadas em órbita por alguns dias, não está ligando para Patrick Sewart.

Sci-Fi Tropical

 Sci-Fi Tropical é o blog de ficção científica de meu prezado Rubens Angelo, designer e escritor, já na coluna ao lado. Destacam-se seus minibooks editados com contos de muita gente boa, além do resgate de parte da memória da FCB. 

Já na coluna ao lado.

sábado, 25 de setembro de 2021

Live de Duna (edit: + resenha)

 Domingo amanhã, 26/09/21, às 16h, participarei de uma live sobre Duna organizado pelo Clube de Leitura Zona Oeste, aproveitando o mote da estreia da refilmagem recente.

Desencavei minha velha cópia da ed. Nova Fronteira e reli nos últimos dias, após longos anos sem revê-lo. Reler com olhos de quem, hoje em dia, procura escrever se revelou uma grata surpresa.

Mais comentários depois de amanhã. Para quem quiser assistir, eis o link.


Duna, em edição de 1984 da ed. Nova Fronteira. Por Frank Herbert.

EDIT

Em vez de gerar mais um post, preferi ampliar este, uma espécie de resenha tardia (com spoilers) de Duna.
 
Como eu disse, grata surpresa ao reler depois de sei lá quanto tempo. Mais cedo neste ano ou em 2020 eu tentei, mas sem sucesso. Dessa vez fui até o final, e ainda no gás embiquei em O Messias de Duna, que deixarei pra um próximo post.

Na live eu digo tudo o que talvez tivesse a dizer aqui: há quem saliente que nunca se lê (relê) o mesmo liveo duas vezes, indicando a maturidade do leitor e seus momentos diferentes de vida. 

No meu caso, havendo entre lá e cá iniciado uma modesta carreira de autor, prestei atenção no texto que, de outra forma, talvez não tivesse.

Identifiquei trechos que me lembrava, que mais ou menos me lembrava, e passagens que para mim foram completamente inéditas. 

Foi muito bacana rever - ou ver - a construção das tramas, e os raciocínios que levarão Paul Atreides a ser o messias da Humanidade: não somente o plano das Bene Gesserit estava para acontecer, mas a força das circunstâncias leva Lady Jessica, sua mãe, a ativar "protocolos de emergência" psico-culturais, deixados pelas BG, que levam a uma população supersticiosa a acolhê-los como figuras profetizadas; e ainda sem que ninguém mais soubesse, paiava a promessa lançada pelo primeiro Planetólogo Imperial local para, junto à mesma população, trabalhar em um método para transformar o escaldante planeta desértico Arrakis em um paraíso ecológico nos séculos que viriam.

Duna é a primeira grande obra da new wave/'soft science fiction' abordando religião, política, cultura e ecologia como temas centrais, e não meras curiosidades secundárias, sendo da mesma geração que trouxe autores como Michael Moorcock, Ursula K. Le Guin e Philip K. Dick às prateleiras.

Seu worldbuilding impressiona, sendo também central à trama, conferindo ao planeta Arrakis toda uma identidade própria e senso de pertencimento dos personagens, sem o qual a proposta oferecida por um autor pode enfraquecer. O feito deixa Duna considerado também como tendo o primeiro grande worldbuilding da ficção científica, comparável ao da Terra-Média de Tolkien, do lado da fantasia.

Ao longo de suas 669 páginas dividas em três livros internos (mais apêndices), entretanto, senti que certos personagens apresentados ficaram "de menos" em seu desenvolvimento e potencial, tamanha a carga de informação - e não estou falando de nenhum infodump, percebam - que o livro apresenta. Não é um livro perfeito, mas não quer dizer que seja um livro ruim, longe, bem longe disso. O fã de ficção científica deve sempre dar uma chance para ler - quando não, reler - Duna.

Agora é esperar para ver o novo filme que, segundo soube, será divido em duas partes. Imagino que seja o certo a fazer, pois, como foi dito, são 669 páginas de muita informação que deixou o filme de 1984, de David Lynch, como problemático, para se dizer o mínimo.

Por último, cabe notar que Frank Herbert escreveu meia dúzia de livros a partir do primeiro, em sua carreira como escritor de ficção científica. Seu filho Brian e o escritor Kevin J. Anderson ainda expandiram o universo bem além, com base nas anotações do pai. No Brasil, que eu saiba apenas os livros do pai foram publicados. Uma página da wiki sobre a franquia de Duna aqui, para quem se interessar. Devo ler os primeiros livros em breve comentar por aqui, a futuro.

Duna
669 p.
Editora Nova Fronteira (para fins desta resenha. Edições atuais pela ed. Aleph)


sábado, 5 de junho de 2021

Não Existem Humanos Inteligentes...

... é o nome da antologia co-organizada por Lu Evans e Saulo Adami, baseada no imaginário de 'O Planeta dos Macacos', de Pierre Boulle. Participo com Radiumgami MechaniKong, Go!

É a segunda antologia que participo sob a batuta de Evans, a anterior sendo 'Sob As Luzes de Yule'.

Disponível em Google play books (GRÁTIS), Uiclap (Cupom de desconto: UAC3867CYTLVFLH1R ), Goodreads e Skoob.




domingo, 11 de abril de 2021

Prêmio Le Blanc 2021

 Já temos uma semana de votações abertas, e vamos até dia 23 de Abril. Os links vão aqui, no apoio da Bossa Criativa. O Prêmio Le Blanc é dedicado às obras nacionais do ano anterior nas áreas de Animação, Games, Literatura Fantástica e Quadrinhos.



Retrato de Le Blanc, fonte: Bossa Criativa

sábado, 3 de abril de 2021

Aniquilação

Capa da edição brasileira de Aniquilação.

Aniquilação (2014), de Jeff Vandermeer, é o primeiro de sua trilogia (ainda composta de Autoridade e Aceitação, já foram publicadas no Brasil pela mesma editora), que conta sobre a "Área X", uma região do território norte-americano desabitada sob influência alienígena, mudando fauna e flora. 

As quatro personagens são a 12a. expedição para este território, sob o comando de uma agência governamental conhecida apenas como "Comando Sul". Não há nomes, mas cada uma é chamada pela sua profissão, pela qual foram escolhidas para compor esta empreitada.

A prosa é densa e minuciosa em seus detalhes, enquanto a narradora-protagonista e suas colegas se aventuram na região, com amplas descrições do mundo natural pelos olhos dela, logo a bióloga, portanto mais apta a descrever a vida selvagem do lugar. O desenvolvimento da personagem, seu passado e presente, e suas tensões e questões próprias, resolvíveis ou insolúveis, são apresentadas, construindo uma personagem bem interessante.

É uma obra lovecraftiana, com direito a horror cósmico e o indizível em suas extensas descrições - que para mim soaram inovadoras, entretanto, fazendo uso criativo de sinestesia -, trazidas até nós por uma narrativa em primeira pessoa deixada em um diário. Impossível, dado ponto, não lembrar de A Cor que Veio do Espaço (1927), que, aliás, ganhou filme em 2019.

Trailer do filme de 2018, com Natalie Portman. Netflix

Como toda boa obra lovecraftiana, não há real explicação para o indizível - mas não deixa de ocorrer uma ou duas respostas para a narradora-protagonista, dando-lhe a possibilidade de encontrar termos com o marido desaparecido, e tudo aquilo que faltou dizer durante os anos de um casamento que se encontrava no final, quando ele partiu na expedição anterior à Área X: em meio a tanta dissolução orgânica e pessoal, algumas certezas nos bastarão - e isso não é a indicação de um final feliz, percebam.

Recomendo.

Aniquilação - Livro 1 da Trilogia Comando Sul

200 p.

Ed. Intrínseca

sábado, 27 de março de 2021

Justiça Ancilar

Capa da edição brasileira.

Aviso: Spoilers abaixo.

Ancillary Justice (2013) é o romance de estreia da autora Ann Leckie, que começou já ganhando os badalados prêmios Hugo e Nebula, além de outros: nada mal, mesmo, para uma iniciante. No Brasil, uma tradução foi publicada pela ed. Aleph em 2018.

Gênero

A história é uma space opera bem próxima à "FC Militar", passando-se dentro de alguns tantos milhares de anos, com a Humanidade espalhada pela galáxia e algumas raças alienígenas, porém mais focada em povos humanos que já cultivam suas próprias culturas e ancestralidades. Apesar do que, há a presença do indefectível império galáctico, contra o qual não há escapatória, um governo humano que "traz a civilização" às estrelas e povos conquistados.

A autora investe ainda em transhumanismo, apresentando conceitos e sequências muito boas, com pontos de vista - literais - de uma mesma Inteligência Artificial alternando-se através dos diversos corpos que comanda, de parágrafo em parágrafo, às vezes mesmo diálogos. A protagonista um dia foi uma nave, sendo ao mesmo tempo a gerenciadora de suas funções e coordenadora da força de ancilares - corpos humanos sem direito à identidade conservados criogenicamente e despertos para receberem implantes onde a vontade da IA se manifestará.

Há ainda a presença de pós-humanos, os que se modificaram tanto que comunicar-se com o resto da Humanidade se torna um desafio cognitivo. Mas infelizmente eles são apresentados de relance.

Cenário:

Humanos e não-humanos sofrem o domínio do Império Radchaai, uma nação humana que se expande e assimila povos há alguns milhares de anos, contra quem não há resistência possível, impondo padrões de sociedade e cultura, em um processo de dominação contínuo, sob a justificativa e crença que "traz a civilização" ao conquistado. 

As imperfeições da sociedade futurista se revelam no discurso classista entre a nobreza de bem-nascidos e que nascem 'líderes naturais' contra quem, por esforço próprio, galga posições, um conflito social diretamente relacionado com a trama. 

A galáxia de Leckie é rica, portanto, em pontos de vista e questões culturais sempre indicados, especialmente as imprecisões da tradução de dados termos e intenções em diferentes idiomas, constantes na narrativa.

Trama:

A trama se dá em dois momentos de História, separados por séculos, mas mantendo o ponto de vista narrativo - ou múltiplos pontos de vista - sempre de Breq, contado em primeira pessoa. Ambos os tempos são apresentados por serem o início e o final da história, havendo a autora preferido alternar os momentos, em vez de uma abordagem linear em duas partes, 'passado e presente', para todo o conteúdo. Essa alternância é bem interessante, especialmente no passado, quando pontos de vista físicos eram trocados a cada parágrafo, com os vários olhos e ouvidos controlados por Breq, quando era a IA de uma nave militar.

Personagens:

É uma história de vingança, onde os dois protagonistas assumem o papel de "parceiros improváveis": Breq, movido por uma vingança pessoal, encontra Seivarden, um viciado em droga, e acaba o ajudando sem nem saber ao certo por que. Com o passar do livro, a identidade de ambos vai se tornando clara ao leitor, assim como as motivações e histórias, especialmente a de Breq, pela qual as coisas andam. 

Confesso que achei Seivarden não tão desenvolvido quanto poderia, sendo mais um acessório para Breq, no final das contas: no mais, sua recuperação do vício de drogas, apesar da tecnologia existente, ainda era algo para se preocupar ao nível da confiança - o que, efetivamente, leva à cena da ponte. Mas, a partir daí, as coisas se encaminham funcionais demais, ao meu ver. 

Ancillary Trilogy.

Forma:

Tomando como base a inexistência de gêneros na linguagem do dominador Radchaai, a autora fez uma outra experiência estilística (além da de alternância de pontos de vista) e retirou qualquer referência a homens ou mulheres, quando as coisas eram descritas ou ditas do ponto de vista de quem falasse ou pensasse em radchaai, deixando gênero para alguns poucos momentos em outros idiomas. A tradução do livro para o português, sob autorização da autora, pôs como gênero default o feminino, para salientar, à sua maneira, uma tentativa de estranheza da obra. 

Pessoalmente, pra mim funcionou, e foi divertido imaginar um elenco all-female pela história e galáxia afora.

A alternância de períodos de época e entre pontos de vista de localização pode ser um pouco confuso, mas é o que eu chamo de um bom confuso. Dá a sensação de novidade, senão conceitual, ao menos estilística que cabe perfeitamente em uma obra de ficção científica.

Entretanto, se não tivesse chamado a atenção para a questão de gênero no idioma, eu sinto que tanto faria como tanto fizesse ser assim como seus personagens serem todos homens, como em um romance mais antigo: não há definições, redefinições dos papeis de gênero, ou qualquer debate aqui. Talvez eu esteja perdendo o ponto proposto, mas não acho que isso deixe o livro com uma "sacada genial" ou similar, como parecem insistir: um mundo que, se por um lado há a louvável equivalência entre ambos os sexos em qualquer função - e é o mínimo que se espera em sociedades humanas daqui para frente, ao ponto que em si não é a primeira obra a pensar isto -, não me parece que salientar a ausência de gênero no vocabulário confira algum valor extra à obra.

Comparemos, por exemplo, com A Mão Esquerda da Escuridão (1969), de Ursula K. Le Guin, onde tanto há a questão de gênero é algo influente tanto para a história quanto para as culturas apresentadas: aqui, parece mais uma curiosidade exótica, que sempre é lembrada, mas não parece realmente importar para mais nada.

O filminho na minha cabeça: Breq e Seivarden, com a licença das descrições.

Achei o texto, por vezes, um pouco arrastado, com o ritmo melhorando pela metade do livro: em suas inúmeras sutilezas, a autora não se furta em salientá-las, o que talvez comprometa uma fluidez melhor.  Pode ser que tenha ocorrido por ter sido o primeiro livro de uma série, vendo-se na obrigação de apresentar o máximo de informação possível a um leitor, com uma escrita mais ágil nos volumes posteriores. 

Mas não só de poréns e entretantos vive a história: na busca por vingança pessoal contra o imperador galáctico, a ex-nave de guerra que é a protagonista promove uma guerra de uma pessoa só, apenas para descobrir que o imperador também está em uma guerra de uma pessoa só - civil, no caso, que já dura séculos e produz suas vítimas: pois em seus múltiplos corpos, o imperador não concorda sempre consigo mesmo,  mergulhado em um dilema insolúvel provocado por uma potência alienígena ameaçadora maior do que o Radch...

... e isso é uma história que vale à pena ler. 

Sendo parte de uma trilogia, espero que a Aleph venha a publicá-la por inteiro.

Recomendo.

Justiça Ancilar

384 p.

Editora Aleph

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

O Império dos Mutantes

 

Ficção-Científica Gótica?

Alerta: Spoilers abaixo.

O Império dos Mutantes (La Mort Vivante, 1958) é o primeiro livro que li deste autor, o francês Stefan Wul (1922-2003), do qual descubro ter sido dentista e apaixonado por ficção científica. Figura atuante no meio de seu país, sua obra mais famosa talvez seja a adaptação de animação O Planeta Fantástico (1973), a partir de Oms en série (1957).

Em um futuro onde a Humanidade vive em "planetas-paraísos de sistemas longínquos", nosso sistema solar original ficou apenas com Marte e Vênus habitados por sociedades onde a tecnologia se retraíra, e a Terra era proscrita e virtualmente inabitável, após catástrofes provocadas pela capacidade destrutiva dos seres humanos. O único lugar na Terra, descrito, são o que um dia foram os Montes Pirineus, erguendo-se do oceano que engloba quase toda a superfície do planeta junto com outros pontos mais altos.

A história começa em Vênus (sendo escrita em uma época em que se podia ainda crer em Vênus e Marte habitáveis sem forçar muito a barra), onde o protagonista, um biólogo, é censurado pela religião por seus experimentos com óvulos de anfíbios, deixando claro que é uma sociedade que não gosta de ciência e tecnologia, exatamente pelas desgraças do passado. A religião aqui, que sugere alguma vertente de cristianismo neste futuro não determinado, apela sempre a uma prudência a um ponto estagnante.

A fustração do biólogo é captada muito oportunamente por um contrabandista de artefatos - livros e microscópios - da Terra que, com o tempo, acaba cooptando-o para trabalhar para sua chefe na Terra, onde todos são proibidos de ir.

O trabalho envolve a clonagem da filha morta desta chefe, com resultados bastante perturbadores.

Achei a história com uma pegada distante de Frankenstein (resenha minha aqui), de Mary Shelley, de onde se acostumou com a ideia de que a ciência é uma vilã - quando o correto seria, a falta de ética é a vilã, como o é em qualquer campo. Dado momento, o protagonista, defronte os horrores que ajudou a criar, passa a culpar a religião por manter a ciência na rédea curta, em vez de na verdade estimulá-la, podendo então combater conhecimento com conhecimento.

Mas há outras ligações: se o autor estava pensando especialmente no Frankenstein do cinema, acabou gerando uma curiosa mistura de ficção científica com gótico, em um cenário pós-apocalíptico. Há o castelo decadente, tão isolado quanto arruinado, criptas por perto, um laboratório onde pesquisas jamais tentadas antes ou há muito tempo são executadas, um pequeno elenco de pessoas excêntricas ou de aspecto repugnante por este ou aquele motivo. Há também um grande pecado pairando no ar, que atormenta a todos os envolvidos e será a fonte da ruína. É um mundo doente, onde todos precisam se precaver contra a radiação, havendo poucos lugares habitáveis e nenhum sendo de conforto.

Há ainda noções como uma máquina auto-replicante que, consumindo os recursos ao redor, acabaria por ocupar - ou substituir - o planeta inteiro, sendo que ainda no caso esta criatura é um organismo, do qual pendem descrições de mutações voláteis de órgãos, feições e formas orgânicas dignas de animes que ainda seriam vistos décadas adiante - ou talvez já tivessem sido lidas em alguma escrito ou autor lovecraftiano. A evolução do estágio inicial até este resultado reforça a ideia de um namoro, senão com o gótico, com o terror, incluindo aí gêmeas com poderes telepáticos e a capacidade para maldade, lembrando um pouco The Midwich Cuckoos (1957), de John Wydham, que gerou duas adaptações para o cinema (19601995).

Dos pontos baixos, pensei no desenvolvimento de personagens. Só dois ali realmente contam, tanto o protagonista quanto a chefe, e esta mesmo assim pouco se fala sobre ela ou mesmo a operação de contrabando que comanda. O pai da criança não é sugerido, do que eu tivesse lido, por exemplo. Dado momento, ela se torna pouco mais do que uma donzela em apuros, embora isso me pareça que também a questão do gótico: sendo a mãe do monstro, viver o pesadelo que passam a se encontrar especialmente a destrói por dentro. 

Apesar do que, achei o livro interessante, pelos motivos acima.

O Império dos Mutantes
184 p.
Colecção Argonauta

domingo, 4 de outubro de 2020

Prêmio Argos 2020

O Prêmio Argos 2020 de Literatura Fantástica está oficialmente aberto.

Através dele, os sócios do Clube de Leitores de Ficção Científica escolherão suas obras favoritas lidas no ano de 2019, obras originais em Português, nas categorias Conto, Antologia/Coletânea e Romance favoritos.

Para poder votar, apenas mediante ingresso no Clube via clfc.com.br E participação da lista de e-mail oficial.

A votação vai até Domingo, 22 de Novembro de 2020, 23:59.

Lembrem-se:

* as obras candidatas serão as que vocês sugerirem na cédula, DESDE QUE

* sejam obras originais de 2019 e em língua portuguesa. Reescritas e traduções do estrangeiro não contam.

Bons votos!


quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Silicone XXI

Purgatório da beleza e do caos: Silicone XXI, de Alfredo Sirkis (Record, 1985)

A morte recente de Alfredo Sirkis (1950-2020), político e ativista ambiental, acabou me fazendo finalmente ler seu único romance no campo da ficção científica, lançado em 1985 e situado em um Rio de Janeiro no distante ano de 2019.

A obra é claramente influenciada por Blade Runner: o Caçador de Androides (1982), com uma investigação policial, androides para fins sexuais, arranha-céus e carros aéreos, mas estes elementos levam à criação de um "romance policial futurista", consta na capa da frente ("seu primeiro roman noir", conforme informação da quarta capa): em vez de se tornar apenas uma cópia, afasta-se da referência original e traz questões próprias nossas.

E como bom noir, uma investigação policial encontra em seu caminho uma conspiração de alcance apocalíptico e nacional, no caso. Personagens no escuro, nem sempre as peças se encaixam a princípio, uma galeria de tipos singulares: Sirkis talvez - talvez - aqui tenha problemas de timing de apresentação e caracterização dos personagens. Pareceu-me que alguns personagens mais saem da cartola do que são realmente apresentados. Tive a impressão, ainda, que só pela metade do livro que a história, de fato, engrena - e engrena bem.

Costumo dizer que ficção científica envelhece rápido e envelhece mal, e aqui não é exceção. Claro, toda obra e autor são frutos de seu tempo, e talvez seja por isso que a FC padeça em especial por causa disso: suas extrapolações - conceituais ou tecnológicas - são calcadas no que o autor tem ao seu redor, entre a vivência cotidiana e hipóteses científicas de então.

Mas Silicone XXI é engraçado: há aquilo que envelheceu, há aquilo que se manteve atual e há aquilo inesperadamente atual. A saber:

Naquele futuro eletrônico sem ser digital; este Rio de 2019 não chegou nem perto de ocorrer, assim como aquela Los Angeles de 2017. Mas é mais do que armas laser, robôs, androides sexuais e aerocarros que, até aqui, nunca existiram, convivendo com a VARIG e micro-disquetes de computador que, se existiram, já se foram há tempos: há uma malandragem carioca como é descrita e escrita que nos faz pensar em algum filme de Hugo Carvana, entre os ditos tipos cariocas e seus diálogos... eu não sei se ainda valeria.

O clima noir não parece resistir muito ao otimismo do ideário do autor: o Rio retratado dispõe de metrô, monotrilho, calçadas rolantes e aerotransporte: para travessias sossegadas mais longas, dirigíveis a hélio. Na Avenida Rio Branco há um calçadão volante, o Centro é uma parte preservada em que não há mais novas construções. O Brasil é um regime parlamentarista onde predomina a coalizão entre sociais democratas e verdes. O Programa Nuclear Brasileiro - grande questão de época - foi desativado por plebiscito em 2005, e comunidades alternativas longe dos grandes centros urbanos prosperam, social e economicamente, mantendo autonomia graças à energia solar, e uma própria diversidade ideológica e religiosa, quando aplicado, em respeito umas com as outras.

As preocupações de Sirkis com o meio ambiente não podiam deixar de estar presentes: o início do livro se dá no Olympus Aerotel, uma edificação encravada no meio do Morro Dois Irmãos, cartão postal da zona sul do Rio de Janeiro e, desde 1992, reserva ambiental. O cenário evoca um certo espanto tanto pelo conceito arrojado de um prédio localizado em tal localidade, acessível somente por aeronaves; quanto pelo desplante facilmente acreditável por estar nesse lugar: dá a impressão que o Rio de Janeiro é uma cidade em que leis de urbanismo, paisagismo e preservação ambiental parecem apenas prorrogar o que é inevitável na melhor das hipóteses, e na pior delas ser apenas outro nome para "taxa de suborno".

Tais preocupações talvez sejam a única coisa sem realmente envelhecer de 1985 para cá, infelizmente.

Mas quem poderia se opor a tudo isso, senão elementos reacionários de contornos positivistas, assim como oriundos de radicais das Forças Armadas - no texto, cabe salientar, perfeitamente ajustadas na atual sociedade - que, bêbados na crença de seus delírios e discursos grandiloquentes, vale tudo para impedir o avanço do socialismo e homossexualização programada, até mesmo um atentado à adutora do Guandu: extremismo confesso e desavergonhado que, divulgado pela mídia interessada em ibope, ganha imenso apoio popular...

... familiar?

Em outra inesperada atualidade, um alvo das forças reacionárias é a "comunidade andrógina", abordando a questão atual de pessoas transgêneras e a transfobia, encontrando apoio de parte da sociedade a este discurso doentio.

Concluindo: Silicone XXI é um bom registro de época, abordando questões de então e projeções dentro do credo do autor, com erros que nos fazem sorrir, e acertos nos fazem refletir e mesmo nos preocupar. É, também, uma aventura policial, e pode - e deve - ser lido desta maneira, para quando se preferir. Aliás, na batida de ser uma obra pop, a edição providencia capa e ilustrações de miolo seguindo a estética dos quadrinhos sendo feitas por Al Voss, artista franco-alemão que morou no Brasil, projetou capas para os Mutantes e chegou a trabalhar para a Métal Hurlant, sendo conhecedor da linguagem das HQs: o aerógrafo de capa envelheceu mal particularmente bem.

Silicone XXI
200 p.
Editora Record

sábado, 15 de agosto de 2020

Metanfetaedro



Metanfetaedro – Ficção Científica Brasileira
Vizinhanças do estranho: Metanfetaedro, de Vic Vieira/Alliah (Tarja Editorial, 2012)

Metanfetaedro é uma coletânea de Vic Vieira, então assinando como Alliah. Saiu pela extinta editora Tarja, dedicada à publicação de literatura fantástica. O livro tem oito contos independentes, dois deles interligados no sentido de terem as mesmas protagonistas. Acompanham os contos ilustrações de capa e miolo de sua própria autoria.

Os escritos se propõem a seguir a corrente do New Weird, tornando-se até então uma das poucas publicações assim aqui no Brasil.

Pessoalmente, eu tenho a impressão que, do New Weird, há a tentação de cair em um rococó de adjetivos e nonsense que pode facilmente suplantar a própria história sendo contada: o que, conforme se apresenta, não é o caso aqui. Eu e Gerson Lodi-Ribeiro chegamos a receber um conto do autor em 2012 para a antologia que coordenamos, Super-Heróis (Draco, 2013), mas que infelizmente não pudemos aproveitar, e era completamente da mesma safra.

A Tarja, aliás, publicou obras dentro do subgênero até então inéditas no Brasil, como Alquimia da Pedra, de Ekaterina Sedia e a primeira tradução de China Miéville no Brasil de Rei Rato, ao contrário do que erroneamente já se pôde ler por aí.

O autor é ativista trans, havendo sido um dos proponentes do Manifesto Irradiativo, destinado à promoção da visibilidade das identidades não-mainstream étnicas, religiosas ou de gênero. Junte isso com sua formação inicial em oceanografia e posterior em artes plásticas, pensamento político mais puro tesão de quem então estava em seus 20 anos e obtemos um mosaico cinético de ações e referências explodindo de si mesmo por todo o livro.

E porque só se tem 20 anos uma vez, temos um dos meus dois contos favoritos do livro, por destoar de um discurso de ação espetaculosa de descrições ao usar o estranho para basear para uma história de cunho pessoal e de perda. Em O Jardim de Nenúfares Suspensos, a situação envolve a perda de alguém marcante ainda na fase universitária, daquela sensação de vida interrompida testemunhada bem antes do que "deveria ser", isto é, somente no devido tempo e idade de nossos avós: esperança revelada falsa, por motivo súbito e irracional, e a prontificação da saudade que muito provavelmente não irá embora... impressões que só aumentam com a narração em primeira pessoa.

Contemplafantasiação é um dos poucos escritos que li na vida que eu gostaria de ver animados. Não filmados: animados. Elementos e paletas diferentes voam, sucedem-se e se mesclam, em uma história trágica de um amor proibido, como são essas histórias. Tabus sociais e culturais impedem a felicidade das protagonistas de povos distintos, onde a homoafetividade do relacionamento é o de menos - não obstante uma oposição masculina, brutal e predominante.

Morgana Memphis contra a Irmandade Gravibramânica e Morgana Memphis Dividindo por Zero estrelam o mesmo par de personagens amorais, a citada Morgana Memphis e Amadahy, protagonistas de ação contra o excesso de desmandos do mundo em que se vive. O primeiro conto ganhou nos dias que passam uma pequena e perturbadora atualidade, com um populista de extrema direita no poder com vias de ser reeleito, além de religiões organizadas reacionárias que se acham detentoras de todos os motivos para oprimir o outro: sim, se as personagens são amorais como eu disse acima, podendo provocar a morte e acidente de passantes ocasionais sem sequer piscar o olho, quem elas enfrentam são coisas muito piores.

O outro, no caso, são uma população marginalizada de alienígenas assexuados que culturalmente adotaram para si a biologia mainstream, procurando se integrar e para isso buscando cirurgias de modificação corporal. Mas tudo o que conseguem é brutalidade e repulsa: "Grupos conservadores radicais, que havia pouco tempo habituarem-se a tolerar ciberorganiformes e animorfos, ficaram entusiasmados com o surgimento de uma nova identidade na praça e puseram-se imediatamente a protestar contra os novos translienígenas." (p. 91)

Mas isso é uma coisa em comum pelos mundos apresentados nos contos: a crueldade, extrapolação das injustiças do mundo real elevadas à enésima potência. Isso fica especialmente claro em Tupac Amarú III, onde o massacre do que seriam povos nativos andinos não encontra limites, macerando sua carne e espírito através de gerações, e Escolhidos ou deuses manifestados terão que cortar um dobrado para salvar ou vingar seu povo, com baixas chances de sucesso.

Tema recorrente é a cidade, a paisagem urbana, não apenas decadente mas futurista, arruinada porém não por isso menos viva e, se bobear, com intenções próprias. Do chão que absorve o sangue e o resto dos tombados para gerar energia para si a planos de fuga interdimensionais, a cidade está lá, um deus onipresente que se acostuma a não pensar nele, embora nos seja inescapável vê-lo ao nosso redor, a cidade tem seus próprios planos - e, à maneira dos deuses, planos insondáveis: em Uma Cidade Sonhando Seus Metais, a cidade é praticamente a personagem principal, ou assim pode ser lido. O tipo de conto que poderia facilmente constar na antologia Cidades Indizíveis (Llyr Editorial, 2011), por exemplo - e que, certamente, enriqueceria o livro.

O descaso pela vida do outro tornado mau hábito corriqueiro é fotografado especialmente nos contos envolvendo crianças. Como na vida real, são as que mais sofrem, nos escritos, não há porque ser diferente. Não há quem as salve, nem quem vele por elas. Suas vidas são breves, abandonadas e com fins violentos. Moleque é o conto que abre o livro, descrevendo dois irmãos separados por um oceano e unidas por tudo o que há contra sua existência. Uma delas ainda tem o conforto da companhia gentil de uma Iara, Mãe D'Água, porém em fim de carreira quando os mares e rios estão completamente poluídos. Mas é uma exceção.

Por último, Metanfetaedro, o conto que deu nome ao livro. Este foi reeditado na Fractais Tropicais (SESI-SP Editora, 2018), importante antologia coordenada por Nelson de Oliveira que caracteriza autores das ditas três diferentes ondas da ficção científica brasileira. Seu texto foi reescrito, em uma nova versão, no caso, beneficiando-se de um polimento. A história trata - se entendi - a respeito de bloqueio criativo, envolvendo ainda hipergeometria e drogas transcendentais - bem, metanfetaedro já está no título, afinal: e mais é tentar explicar o que deve ser curtido, sentido e viajado.

Espero que essa coletânea, algum dia, possa ser republicada, e que o autor possa ter o destaque que, definitivamente, merece.

Metanfetaedro
232 p
Tarja Editorial

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Mestres do Terror



A antologia Mestres do Terror está em financiamento coletivo. Será lançada pela Skript Editora, e tem à frente do projeto meu estimadíssimo Daniel Gárgula.




 A ideia é juntar os autores estrangeiros e mesmo nacionais em um só volume. A seleção de contos:  Os contos selecionados para a obra:

• O Convidado do Drácula
Bram Stoker

• O Estranho Caso do Sr. Valdemar
Edgar Allan Poe

• Dagon
H. P. Lovecraft

• O Corpo Roubado
H. G. Wells

• Transformação
Mary Shelley

• Os Porcos
Júlia Lopes de Almeida

• A Casa sem sono
Coelho Neto

• O Estranho
Ambrose Bierce

• Madrugada Negra
Viriato Corrêa

 Boa sorte com o projeto!