segunda-feira, 13 de maio de 2019

Bartolomeu

Bartolomeu, de Victor Moura. Editora Caligari (2018)

Bartolomeu é a graphic novel do quadrinista Victor Moura, e conta uma história de gente normal, gente que queria ser normal, gente nada normal e o fim do mundo - senão, quase.

O personagem-título é assombrado desde criança por coisas assustadoras que só ele vê, e dá um jeito de viver bem com isso, na medida do possível. Depois de crescido, sabe sobre o que tudo se passa com ele, e reluta trilhar o caminho que dele se espera, preferindo a simples e limitada existência meramente humana. Obviamente que isso não pode ser possível.

Já vimos essa história? Já, e algumas vezes. Assim como das melhores vezes, Bartolomeu é muito bem feito. Em resumo, é como John Constantine fosse desenhado por Mike Mignola (Hellboy), vivesse na Lapa, Rio de Janeiro, entre bares de segunda onde toca violão e uma oficina de carros onde tira seu sustento - e tomando corrida de Coisas Que o Homem Não Deve Conhecer entre uma viela sombria e outra.

A afirmação de que "todos têm demônios interiores" ganha novos contornos aqui, gostosamente literais. Os demônios de Bartolomeu não apenas torturam e assombram, mas por vezes são torturados por aquilo que um dia foram e agora são, assombrados por uma realidade que não dominam nem nunca dominaram, estando a mercê de forças maiores do que eles - tem sempre um tubarão maior nessa praia.

A arte, em preto-e-branco, expressa e impressiona, pintando uma cena urbana insegura, onde nunca se sabe o que vai se encontrar após a próxima esquina. A escolha do autor de deliberadamente desenhar olhos de íris ou pupila novamente acerta o alvo, trazendo uma pequena dose de inquietude ao se ler.

Outro gol da pequena editora Caligari, que também acertou muito bem com Teocrasília, já resenhada. Não foi à toa que, no último 9 de Maio, quinta-feira, Bartolomeu ganhou o Prêmio LeBlanc de Melhor HQ Nacional Publicada por Editora. Devidamente merecido, e espero que venha mais.

Faixa-bônus: eis o canal de Bartolomeu no youtube, com trilhas compostas para o personagem e a HQ.

Bartolomeu
116 p.
Editora Caligari

domingo, 7 de abril de 2019

Best Science Fiction Books

Muito bacana o Best Science Fiction Books. Não só elenca listas legais de recomendação mas dá uma geral sobre temas e subgêneros da FC. Vale à pena fuçar.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Prêmio LeBlanc 2019

Divulgação. E aquele zumbido no primeiro dia de circo na rua. Votem, divulguem, participem.

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O PRÊMIO LE BLANC ESTÁ DE VOLTA

É chegada a hora de votar no II Prêmio Le Blanc. E este ano, além de premiarmos os expoentes nos campos de Histórias em Quadrinhos, Animação e Literatura Fantástica, temos uma novidade: GAMES.

Mais uma vez, a Universidade Veiga de Almeida uniu esforços à Escola de Comunicação da UFRJ para organizar e realizar o prêmio, que terá troféus para os ganhadores, distribuídos no dia 9 de Maio na Semana Internacional de Quadrinhos.

A votação será inicialmente por critério de voto popular, encerrando-se no dia 14 de Abril. Qualquer um poderá indicar suas obras favoritas do ano passado! Depois, um júri especializado analisará os finalistas e escolherá os grandes vencedores.

A #SIQ deste ano vai do dia 7 a 10 de Maio de 2019. Aguardamos vocês!

Seguem os links para votação nos comentários. Votem. Indiquem. Compartilhem.

CÉDULAS

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Voto para Ficção especulativa/literatura fantástica: tinyurl.com/yy6v2dj9

Voto para Animação: tinyurl.com/y58y8wha

Voto para História em Quadrinhos tinyurl.com/y6tntlx5

Voto para Games: tinyurl.com/yxljdbwh

segunda-feira, 4 de março de 2019

O jornalista, o escritor e o aviador

O jornalista, o escritor e o aviador, de Aluízio Falcão Filho (2007)

Spoilers abaixo.

Essas pesquisas em prol do Fevereiro Verniano têm a vantagem - como toda a pesquisa - de nos revelar coisas legais tangentes ao objeto de estudo - por vezes, mesmo desvirtuando um pouco da pesquisa em si... e, claro, haja foco.

Juntando com outro interesse meu, vim a descobrir este livro, O jornalista, o escritor e o aviador, de Aluizio Falcão Filho. Não é a primeira vez que esbarro em um livro tendo Santos-Dumont como personagem: a autora (diretora, atriz e dramaturga) Karen Accioly escreveu "Os Meus Balões" (título de um livro de Dumont) como opereta infantil e a recontou em forma de livro, sobre encontros de Verne e Dumont (que uma sinopse diz não terem ocorrido). "Santos-Dumont Número 8 - Um grande mistério será revelado...", de Claudio Soares (Universo dos Livros, 2008) assume o tom 'segredo revelado do passado', à maneira deste de agora, para explorar o ano de 1908 em reclusão de Dumont, em que ele nunca executou nenhum de seus projetos, por crer que '8' dava azar.

Em "O jornalista...", temos um protagonista jornalista (qual o autor) que, após um inesperado enriquecimento, resolve se dedicar a um projeto próprio, investigando o provável relacionamento entre Santos-Dumont e Júlio Verne. Na vida real, é incerto se os dois se conheceram pessoalmente: mas tanto Dumont era apaixonado por seus livros quando jovem quanto Verne ao morrer já admirava os esforços de Dumont - pelo que conta Paul Hoffman em seu excelente Asas da Loucura e que é parte da bibliografia da obra, conforme correlação ao final.

E o que ele descobre é motivo de conspirações, experimentos proibidos, envolvimento com terroristas e algumas reviravoltas. O livro se dá de maneira ágil e divertida, e recomendo como bom passa-tempo, ainda levando em conta questões da vida pessoal do protagonista, praticamente o único personagem desenvolvido na história. Tudo isto é desenvolvido em três "vozes": duas no presente, com o ponto de vista do protagonista quanto narrador onisciente; e o p.d.v. que realmente achei interessante no livro: narrativas passadas durante a vida de Dumont e seu envolvimento com Verne, as ideias que tiveram, e o que se passa por trás de seu suicídio em 1932. Figuras históricas dão o ar da graça aqui e ali nesses trechos, além de um misterioso personagem que, aparentemente, surge em ambos os períodos - e está bom de spoilers por aqui.

Pessoalmente, preferia ter visto os vilões desenvolvidos de uma maneira melhor. Achei que algumas reviravoltas e motivações não exatamente funcionam, e sendo de 2007, ainda pegou o mote do terror islâmico radical. Talvez na época fosse o bastante para impulsionar a história, mas passado já certo tempo, talvez se precise mais hoje em dia.

O jornalista, o escritor e o aviador
368 p.
Editora Clio

domingo, 3 de março de 2019

História de sua vida e outros contos

História de sua vida e outros contos, por Ted Chiang (2002)

História de sua vida e outros contos é a coletânea do autor norte-americano Ted Chiang lançada no Brasil em 2016 pela ed. Intrínseca, acompanhando o lançamento 14 dias depois nos cinemas do ótimo A Chegada, filme que se inspira no conto título do livro.

Não conhecia o autor, até esta coletânea, cujo interesse, claro, veio do filme. Achei a prosa não raro analítica e fria, mesmo no uso da primeira pessoa, como em Entenda! (claro, vemos que aqui é totalmente justificável), o que curiosamente não quer dizer que suas histórias não envolvam.

A Torre da Babilônia nos leva a uma versão mágica da mesma, seguindo uma premissa do Antigo Testamento sobre a Torre de Babel: e se ela alcançasse o céu, em desafio a Javé? Sabe-se que os babilônios nunca pretenderam isto, na verdade a torre - o zigurate do templo dedicado ao deus-mor Marduk - erguia-se para que os deuses descessem do céu à terra, mas, como indica o destino da torre no Livro do Gênese, algo se perdeu na tradução.

O resultado é uma viagem com imagens poderosas, de uma construção que passa séculos sendo construída, até que efetivamente toca a abóbada celeste, após passar por um céu ptolomaico e a ordem de suas esferas celestes, e com um final... revelador, por assim dizer.

Entenda! é uma história sobre super-inteligência em que acompanhamos, em primeira pessoa, o desenvolvimento galopante do intelecto de um homem para níveis bem acima da norma. Achei muitíssimo semelhante a Sem Limites, filme de 2011 (que gerou uma série em 2015, infelizmente já cancelada), embora haja aqui um senso de Transcendência e Revelação - não no sentido espiritual - que o filme não se aproxima (coisa que o filme Lucy, de Luc-Besson, trabalha), especialmente no trecho final. A inteligência na ficção-científica já rendeu ótimas histórias, e essa é uma delas.

Divisão por Zero é um conto curto, desenvolvendo uma questão teórica de matemática e apresentando os princípios por trás, o que não é para todos os públicos, em paralelo ocorrendo o relacionamento da cientista que chega a conclusões que lhe soam pessoalmente apocalípticas. É um conto curto, com uma conclusão em aberto, e a sombra de que não será agradável para os envolvidos.

A história de sua vida rendeu, como já dito, o filme A Chegada, e vemos que como adaptação funciona muito bem, por mais liberdades que o roteiro tome: o conto consegue ainda ser mais críptico do que o filme, debulhando detalhes sobre como uma raça realmente alienígena poderia se comunicar. Como um conto de FC que explana em detalhes como funciona a propulsão hiperespacial ou a máquina de viajar no Tempo, aqui ele se desdobra sobre como a lógica de uma linguagem alienígena pode acontecer, e o que fazer para compreendê-la.

O filme ainda mantém a ideia original: se, como é dito, idiomas reprogramam o cérebro de maneira particular, como um idioma alienígena influenciaria o cérebro humano em sua forma de pensar e perceber?

72 Letras propõe uma Inglaterra Vitoriana onde a magia é conhecida amplamente,  e o sistema mágico é derivado da lenda do Golem, onde um ser de barro era animado após se inscrever uma palavra em hebraico em um papel e inseri-la na boca do ser. Revolução Industrial, política e classismo ingleses se juntam a uma trama de uma proposta riquíssima onde, novamente, a construção de linguagem é a peça-chave por trás de tudo.

A Evolução da Ciência Humana tem o tom de um artigo, e é um take sutil no tema do transhumanismo. É o mais curto do livro.

O Inferno é a ausência de Deus fala sobre o que aconteceria se a fé não dependesse mais do mistério, sendo manifestações de Céu e Inferno atestáveis, e como ficaria a devoção mediante ao que se passa a experimentar.

Gostando do que vê: um documentário lembra uma narrativa epistolar, mas em vez de cartas, sendo em depoimentos colhidos para o documentário do título. A história se passa durante um engajamento universitário americano sobre um método reversão de indução de "caliagnose", uma lesão cerebral que corta nossa capacidade de apreciar um rosto por sua beleza física, escapando assim à ditadura dos padrões comerciais da moda e possibilitando pessoas a apreciarem umas às outras pela dita beleza interior, conteúdo, etc. Os depoimentos variam entre pós, contras e nem tanto um como no outro, interesses comerciais por parte da indústria de cosméticos, e etc. Propõe mais encontrar pontos de vista a respeito da questão do que declará-la assim ou assado, então a encerrando. Tal qual como no conto anterior, a ideia de uma solução direta para um problema não necessariamente é algo simples e benéfico.

Depois dos contos, há um posfácio com a palavra do autor contando um pouco da origem dos contos e suas ideias ao leitor.

Achei curioso como a necessidade de uma nova linguagem, ou o reimaginar da linguagem, é tema em quase todos os contos da coletânea. Sem dúvida Ficção-Científica excelente, daquelas que põem para pensar. Bola muito dentro da editora Intrínseca. Recomendadíssimo.

História de sua vida e outros contos
368 p.
Ed. Intrínseca

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Certamente, Talvez

Certamente, Talvez, por Arkady e Boris Strugatsky (1980)

Sabem quando você precisa se concentrar para terminar um trabalho, e você apenas não consegue? Não consegue, percebam, não por ansiedade, dispersão ou a última treta imperdível no facebook ou twitter: não, você está lá, sério, compenetradão, se bobear até gostando do que tá fazendo -- não, do que quer fazer, seja  para a faculdade, para o trabalho, para alguém ou para si mesmo... e simplesmente não consegue? Não consegue porque o telefone insiste em tocar o dia inteiro por qualquer motivo ou motivo nenhum, porque a campainha da porta toca como nunca, porque alguém aparece "só pra dizer uma coisinha", e assim, sucessivamente? Sabem esses dias?

Que parece até que o universo conspira contra?

Os irmãos Strutagtsky certamente sabiam, e transformaram um dia assim em um livro.

Certamente, Talvez foca nos esforços do cientista Dimitri Malianov em terminar o que pode ser sua obra máxima, no terreno da Física, e em um grande avanço para ciência mundial - se ao menos o deixassem trabalhar em paz.

Nos dois dias da trama, um desfile de estranhas ocorrências e personagens excêntricas passam pelo apartamento do protagonista, trazendo sempre consigo algo um ar de quem sabe mais do que está disposto a revelar, deixando o pobre Malianov cada vez mais perdido e confuso.

Entre os tipos excêntricos também estão seus amigos cientistas, percebendo que, cada um em sua área, estão com alguma espécie de contribuição extremamente importante prestes a concluir, mas que em suas vidas se deparam com sequências de interrupções inexplicáveis. Tudo isso sob alguma vodca, patês ou chá, com o clima de paranoia casando com a descrição de um calor de verão inclemente, apartamentos bagunçados e um princípio de decadência urbana cotidiana. Paranoia esta crescente junto do sentimento, assim como as sucessivas hipóteses sobre quem está contra os próximos e vitais passos do desenvolvimento científico da sociedade.



Dias de Eclipse (1988), adaptação para o cinema.

Não é das leituras mais convencionais. É um livro sobre análises sobre uma situação incomprovável e indescomprovável  de um problema, que fica à mercê de hipóteses favoritas de cada um (ou não), o que significa que é um livro baseado em diálogos.

Mais do que diálogos, fragmentos, conforme quando começa cada capítulo, uma sutil mudança de câmera desde a última situação se desenrolando, pegando um diálogo pelo meio, embora isso não trunque a compreensão do texto. Apenas apresenta ao leitor o ponto de vista dos personagens, em que há especulação demais e certezas de menos.



Certamente, Talvez
120 p.
Civilização Brasileira

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Planetário...

Estreando como colunista semanal de FC no blog do Planetário da Gávea. :) Primeiro texto, sobre o aniversário de Júlio Verne, sexta dia 8 agora.

Vai ser divertido. :)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Zigurate - Uma Fábula Babélica

Outra resenha resgatada, tb de um livro do Max. Segue texto na íntegra.
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Zigurate - Uma Fábula Babélica

Max Mallmann. Editora Rocco. Rio de Janeiro, 2003. 220 págs.



Ok, ele conseguiu novamente.

Comprei ontem o livro, 27 de Outubro de 2003, dia do lançamento carioca, evento no qual reuniram-se bons companheiros da Ficção-Científica, e li ainda antes de ir dormir, umas trinta páginas - e hoje mesmo o terminei, à espera de um professor que não apareceu na faculdade, somando um total de umas quatro, quatro horas e meia para liquidar suas cerca de 220 páginas.

Falo isto não para me gabar, mas para dizer que, quem gostou de Síndrome de Quimera, de uns três anos antes, do mesmo Max Mallmann, vai encontrar em Zigurate a mesma prosa fluída e enxuta que pega o leitor pela mão e vai conduzido em um rápido deslizar, num só fôlego, até o final do livro.

Zigurate é sobre dois imortais, um homem e uma mulher, Lugal e Nin, que estão entre nós pelo menos desde a época dos Sumérios; e duas pessoas normais que tem suas vidas mudadas ao cruzarem seu caminho. Duas tramas, uma para cada um, desenrolam-se no livro: entre Paris e Edimburgo, Sophie Brassier, uma jovem antropóloga com pouco tempo de vida - sofrendo uma enfermidade sem cura além de uma condição cardíaca - acha pistas através de registros históricos que a levam cada vez mais obsessivamente em busca dos imortais, acabando por encontrar Lugal. No Rio, temos a história paralela que se passa com Ray Stern, consultor de marketing americano, contratado para organizar a campanha de um político corrupto, que acaba encontrando - e se apaixonando - por Nin. A história de Sophie, e depois de Lugal e Sophie, é pontuada de uma certa melancolia, refletindo a imagem que se tem das cidades onde ocorre a trama. A história de Ray e Nin, refletindo a imagem que se tem do Rio de Janeiro, é agitada, apimentada e violenta, virando um thriller de ação muito bem desenvolvido - e este reflexo também se dá nos comportamentos respectivos de Lugal e Nin, como peixes em seus respectivos aquários, por assim dizer. As cidades são muito bem caracterizadas - nunca estive em Paris ou Edimburgo para constatar isto, mas ao menos me convence; e o Rio de Janeiro me saiu inconfundível.

Sophie e Lugal terão uma história curta cheia de perguntas, respostas, e poucas certezas no final - apenas aquelas que realmente importam. Ray e Nin terão uma história rápida e violenta, sem tempo para perguntas, porém repleto de respostas, e com um súbito final revelando uma certeza que possa valer à pena. O fim, como não podia deixar de ser, acaba sendo tomado pela melancolia - e a engraçada sensação do que é apresentado não deixar de ser o mais feliz possível dos fins.

Uma comparação com outras obras do autor acaba sendo inevitável - e como só de Mallmann conheço Síndrome de Quimera... de cara, não deixa nada a dever ao primeiro. Achei graça de Zigurate ter, assim como Síndrome de Quimera (que vai ganhar uma edição francesa!), um protagonista com uma condição cardíaca, além de uma brincadeira com a idéia da imortalidade. Claro, em Síndrome, o absurdo reina, enquanto que o fora do comum é representado apenas pelos imortais - e não apenas por isso, é uma história totalmente própria.

Alguns dos personagens secundários chegam a um nível quase cartunesco, no estereótipo, e para a levada de humor interno de Zigurate, todos eles com um charme pessoal, característico - detalhe para Neném da Candonga.

A citações sumérias permeiam o livro todo, com direito à escrita cuneiforme para numerar os capítulos. Versos do poema épico mais antigo que se tem, sobre mítico rei Gilgamesh, abrem as partes diferentes do livro, além de ficar revelado qual sua importância na história própria de Lugal e Nin. Impressionam também certas recriações históricas de Mallmann, por onde Sophie vai tirando suas conclusões. Uma ambientação extremamente competente, sem incorrer em excessos de descrição desnecessários, sem comprometer o ritmo da história.

Ritmo este ágil; Mallmann é extremamente hábil em fazer suas mudanças de cena, do que obviamente lhe faz valer sua experiência como roteirista profissional, dando a impressão que Zigurate seria facilmente adaptável para as telas do cinema. Nós aqui platéia estamos torcendo bastante para que isto, algum dia, ocorra. (Luiz Felipe Vasques)

Sítio do livro: www.zigurate.com

Síndrome de Quimera

Resgatei, de um endereço que não tem mais, uma antiga resenha minha sobre Síndrome de Quimera, do meu saudosíssimo Max Mallmann. Esta e a de Zigurate devem estar entre as minhas primeiras, e por mais do que isso eu tenho um certo carinho por esses texto. Na íntegra, segue como publicado originalmente em 29 de Janeiro de 2006:
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Síndrome de Quimera

Max Mallmann. Editora Rocco. Rio de Janeiro, 2001. 100 págs.

    Síndrome de Quimera, o terceiro livro do gaúcho Max Mallmann, atualmente roteirista da Rede Globo, é, no mínimo, insólito.

   Uma história na melhor tradição do realismo fantástico latino-americano, Mallmann nos conta uma história repleta de surrealismo sem perder de vista o quotidiano, com tons de tragédia sem entretanto nunca perder o bom-humor. Os personagens são a princípio tipos comuns, com suas vidas normais, do pano de fundo da cidade - a não ser por detalhes estranhos: uma personagem tem os olhos brilhantes como os de um vampiro; outro, de vez em quando, para relaxar do dia a dia, põe o cérebro de molho - literalmente -; e o próprio protagonista tem seus problemas, com uma pequena serpente que lhe envolve o coração... falar mais é começar a estragar a surpresa.

   Mas basta dizer que, pessoalmente, o tratamento dado ao caso tem um quê de Neil Gaiman, autor da série de quadrinhos Sandman: as coisas são surreais apenas porquê são, sem nenhuma fanfarra ou pseudoexplicação esotérica-mística - e isso não impede que o surreal seja um ótimo vizinho, ou companheiro de mesa de bar.

   São cem páginas de texto que vão nos levando como se fosse uma agradável conversa de bar regada com muita cerveja, onde aliás a história começa - após uma apresentação no capítulo 1 -, desenrolando-se com uma fluidez que convida o leitor a simplesmente devorar o livro: começou, não tem muito como largar. (Luiz Felipe Vasques)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

As Canções da Terra Distante

 As Canções da Terra Distante, por Arthur C. Clarke (1986)

Ler um romance de Arthur C. Clarke que me seja inédito é prazer cada vez mais raro. As Canções da Terra Distante foi lançado no Brasil em 86 pela Nova Fronteira, mas só agora consegui ler. Havia já lido o conto original, de mesmo nome, que saiu na coletânea O Outro Lado do Céu (NF, 1984).

De saída, antes de engrossar com os spoilers, há de notar uma agradável melancolia das saudades de tudo que um dia já foi, e daquilo e daqueles que se passa a conhecer, amar, mas que terão que ser deixados para trás. Sendo ainda uma história de navegação, a perda sentida embala também nas canções apresentadas da Terra distante. Ouço um distante eco com sotaque lusitano?

No Quarto Milênio, na expectativa do fim do sistema solar com a explosão do Sol em nova, a Humanidade monta grandes naves-arca com milhares de refugiados e parte para as estrelas, em busca de, como chamam hoje em dia, exoplanetas de ambiente compatíveis com o organismo humano.

A última dessas naves, por questões técnicas, para em uma colônia já estabelecida séculos antes, batizada com o nome de nome da antiga deusa do mar grega, Thalassa, um mundo primariamente oceânico com pouca superfície de terra firme onde a pequena colônia humana prospera.

Os visitantes passarão dois anos nos reparos (a reconstrução de um escudo de gelo, destruído, para absorver o impacto de matéria interestelar), antes de seguir viagem: e o choque cultural entre ambos os grupos, por mais diminuto que fosse a tripulação desperta do longo sono para a missão, é inevitável - isso, em um grande resumo.

Os thalassianos são de uma geração de naves semeadoras anteriores a recém-chegada Magalhães, quando material embrionário era despachado para as estrelas, em vez de refugiados congelados por criogenia como com a Magalhães: a ideia era um processo de desenvolvimento levado primariamente por máquinas, antes que pudessem ter os thalassianos seus próprios filhos e seguir adiante com a civilização humana. Foram duas gerações de naves semeadoras, a segunda passando a levar gente viva congelada, depois que o processo de criogenia se provou viável.

Entretanto, a colônias como a de Thalassa eram fruto de uma experiência social, com a História e Literatura da Terra severamente editadas, extirpando o conceito de religião, Deus e quetais: dos livros que conheço de Clarke, assim como sua opinião a respeito do assunto, este é o mais severo com religião - a despeito de uma generosidade talvez excessiva com o budismo, que também está presente aqui.

Havendo então uma colônia de seres criados ao mesmo tempo com as exatas mesmas condições de educação - e, intui-se, sociais/financeiras -, além de um vasto e pelo novo mundo, o sistema político que segue vem como um futuro desdobramento de uma república democrática, criando uma sociedade quase perfeita, jovial, com gosto pela vida, embora nem tão engajada em uma certa pressa com avanços tecnológicos. Quase como se fossem uma espécie de nobres selvagens do espaço, embora explicitamente tenham uma sociedade tecnológica. Mas são um povo amistoso e feliz com o que tem, e, como tal: sem pressa. Como resultado, um certo grau de pureza e ingenuidade emana dos thalassianos, Adões e Evas em seu Éden caribenho do espaço.

Thalassa - ou Scarif, se preferirem...

O contraste é com o recém-chegado: seres humanos completos, adultos, que viram o Sol explodir, após um último meio milênio conturbado, com sociedades em crise, levando consigo traumas e amarguras em geral dos últimos dias do sistema solar. Foram expostos a guerras, religião, levantes e decisões terríveis.

Infelizmente, o conflito, como em boa parte da obra de Clarke, não chega a realmente acontecer. Seu otimismo frequentemente vence o drama. A primeira metade do livro, mais ou menos, é para apresentar o cenário, a tecnologia e a situação, os personagens, os laços entre si, assim como as novas amizades e novos amores, e alguma rivalidade. Só para a segunda metade é que a promessa de conflito surge, mas mesmo assim, ela não desenvolve. Clarke simplesmente não consegue. Havendo ainda que desenvolver a descoberta de uma espécie própria thalassiana que, pelo jeito, demonstra sinais de inteligência.

E o que resta de um livro assim? O que parece restar sempre dos livros do Clarke: tudo. Todas as possibilidades. Todas as descrições acachapantes. Todas as ideias inovadoras e poderosas. Todas as promessas.

Só para ficar no que já foi descrito: é lícito uma sociedade tecnologicamente superior - os viajantes da Magalhães, no caso - interferir, ainda que da maneira mais gentil que encontrasse, em outra menos avançada? Sim? Não? Caso não, isso valeria a vida de um milhão de futuros colonos a bordo da nave, em uma expedição que ainda duraria 300 anos e 98% de chances de sucesso em um planeta descrito como similar a Marte, em vez de uma aposta garantida ali mesmo?

Obviamente que um livro bem maior seria necessário para explorar todas as implicações sugeridas aqui. A minha favorita é encontrar um subtexto que remete ao que chamo de "a geração de Moisés": no relato do Êxodo, nenhum dos escravos libertos do Egito viveu para entrar na Terra Prometida, devido ao pecado do Bezerro de Ouro - mas seus filhos não carregariam a mácula de seus pais, assim podendo entrar em Canaã.

Tal é o contraste entre thalassianos e viajantes. Os primeiros foram ideológica e biologicamente formados para ser uma Humanidade melhor. Os segundos são a promessa dos velhos maus hábitos retornando de um passado deixado para trás de todas as formas possíveis, e mesmo alguns dentre os viajantes têm ciência disso.

Em tempos de pré-ida a Marte, torna-se um questionamento atual: quem irá para outros corpos do sistema solar? E como pretendemos nos comportar lá fora?


As Canções da Terra Distante
336 p.
Editora Nova Fronteira

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A Mão Que Pune - 1890

A Mão Que Pune - 1890, por Octávio Aragão (2018)

A Mão Que Pune - 1890 é a sequência de A Mão Que Cria, que tive a oportunidade de ler e resenhar aqui. Terminei a resenha falando sobre esta sequência, desde então em desenvolvimento, com "Resta aguardar". Pois eis.

Vou me repetir um pouco, da resenha antiga: acompanho a carreira literária do amigo Octavio Aragão desde os tempos da Intempol e, como na resenha de 2011, cabe o alerta ao leitor de que isenção não é exatamente o caso aqui. Tive, ainda, o prazer de ser um dos 'leitores beta' do romance, ao longo de 2018. Ver a obra acabada foi uma grande alegria.

Ficção-Científica, ambos os livros são ainda o que se chama "Ficção Alternativa", em que personagens existentes são recontextualizados em uma nova história, nunca pretendida por seus autores originais. O grande expoente do gênero ainda são as HQs de A Liga dos Cavalheiros Extraordinários, por Alan Moore, e mais recentemente a excelente Penny Dreadful (HBO, 2014-2016) apresentou o conceito para muita gente. Na literatura, recomendo novamente Anno Dracula, cujas continuações no Brasil pelo visto vão ficar devendo. Inevitavelmente, cabe ainda localizar aqui a obra no subgênero steampunk.

AMQP é uma "prequel" de AMQC, passando-se no final do Século XIX, semeando as situações que vimos se desenrolarem no segundo livro. Assim como nele, aqui temos também um desfile de personagens históricos e fictícios interagindo entre si e protagonizando uma história de aventura e ação, intrigas e planos para dominação global.

Começa em Paris, 1890, com a narrativa pela voz do protagonista Angelo Agostini, chargista político brasileiro da vida real que foi a dor de cabeça de Dom Pedro II e dos políticos do Império, agora vivendo a tragédia pessoal da morte recente da amante e tendo seu filho recém-nascido sequestrado por partes inesperadas e terríveis.

Mas isso é tão somente o começo: são 210 páginas de aventuras aéreas, vinganças, truculências e cientistas loucos com suas versões do que é melhor para a Humanidade; um desfile histórico e fictício  de personagens em situações que, como leitores, poderíamos pensar como ficaria com mais detalhes e desenvolvimento alguns trechos, explorá-los por outros vieses e com ainda mais personagens. Sob o certo aspecto, o livro funciona como um celeiro de ideias que, espero, possamos vir a ler algum dia demais desenvolvimentos.

A obra conclui com um gentil posfácio contando a gênese da obra, assim como detalhes sobre os personagens apresentados: pesquisa foi feita, em pelo menos um caso, acadêmica - Agostini foi tema de Mestrado do autor. Boa parte ali, advinda de uma extensa e prazerosa vida de leituras.

De brinde, ainda prefácio por Christopher Kastensmidt, autor do projeto A Bandeira do Elefante e da Arara, projeto lúdico envolvendo o Brasil Colônia.

Foram 12 anos entre um livro e o outro. Tempo demais, mas às vezes assim vai a vida. Cabe agora torcer para que a Caligari adote e lance A Mão Que Cria, dispondo mais essa obra de Octavio Aragão para o leitor que está chegando agora ou que perdeu a oportunidade na época.

(Esta resenha está na íntegra no jornal BrasilBest, sediado em Miami, para a colônia brasileira.)

A Mão Que Pune - 1890
210 p.
Editora Caligari

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Teocrasília

Teocrasília, 2018


Obra nacional, de autoria - texto e desenhos - de Denis Mello; em tempos deste nosso cristofascismo distrópico é obra mais do que necessária.

Uma obra de Ficção-Científica dentro do subgênero das Distopias, Teocrasília nos fala um Brasil de um futuro próximo, evangélico e intolerante com tudo o que derive dessa forma de pensamento. Sem dourar qualquer pílula, é o Brasil de uma ditadura religiosa, uma teonomia ao melhor estilo O Conto da Aia, e que nesse nosso momento não soa algo tão improvável de ocorrer.

Os personagens são pessoais normais que a normalidade oficial os proíbe de sê-los como são, e como são levados a adotar posições de resistência e rebeldia contra essa oficialidade truculenta e abusiva. História que mostram que, para ter que sobreviver em uma sociedade pretensamente civilizada, não precisa ter que ser tachado como criminoso perante a lei: o passivo cada vez mais agressivo do geral é razão o suficiente para se viver em medo.

E é o que talvez seja mais assustador na história, que explora bem o clima de paranoia em sociedades assim, esse misto de omissão e coadunação das massas, da dita "gente de bem", com o terror que se instala, mediante então não somente seu voto, mas como seu aval.

A história salta aqui e ali no tempo, mostrando como se desceu rapidamente ao ponto em que está, não poupando críticas a figuras políticas e religiosas infelizmente conhecidas nossas, apenas mudando o nome.

Familiar? Pois é...

A arte, em preto e branco, cabe corretamente com o clima gerado, o de um futuro cinzento como um dia nublado, sem perspectiva de melhoras à vista, desenrolando-se em Niterói (cidade do autor) e seus arredores. Há medo, paranoia, e a coragem maior de se crer em esperança: mas não virá fácil. Afinal, este é o primeiro de 6 livros em quadrinhos. As tramas e dores ainda vão se alongar por muito tempo: o primeiro já é repleto de medo, tensão e violência, bem amparados pela arte de Denis.

O projeto foi financiado pelo Catarse (por onde Denis tem uma obra anterior de sucesso, o quadrinho de terror Beladona), e no link dá para conhecer um pouco mais desse ambiente e como pensa o autor.

Foram publicados, também pelo financiamento, Teocrasília - Edição Histórica e Teocrasília - Extra #1. O primeiro é como se fosse uma publicação alternativa contra o regime, e aproveita e mostra o desenrolar dos acontecimentos desde as Jornadas de Junho de 2013 que levaram à situação atual, notando um desenvolvimento cronológico desse universo pelo autor, para no final apresentar um refúgio comunitário livre e clandestino do regime teonômico onde parte da ação se desenrola.

O segundo, uma edição de formato menor, foi produzido durante um desafio de se fazer uma HQ em 24h, e conta uma história entre os capítulos 3 e 4 do álbum principal. A arte reflete um certo aspecto visceral de uma história de vingança, se puder assim descrever sem dar spoilers. :)

Teocrasília marca muito nosso tempo, o que talvez, a futuro, a deixe datada, mas não necessariamente: a exemplo de um grande clássico da distopia, 1984 de Orwell começa como uma crítica ao stalinismo, mas passou para o repertório mundial ao se tornar um alerta contra um regime opressor que vigie completamente a vida de seus cidadãos, tenha origem pela esquerda ou pela direita, sendo relido como um alerta ao totalitarismo. Acho que Teocrasília seguirá por aí.

Ainda cabe notar o êxito de O Doutrinador, HQ de Luciano Cunha, que recentemente ganhou as telas. Tanto esta quanto Teocrasília têm em comum a influência de eventos políticos que começam com a insatisfação da população contra a corrupção, desaguando nas já mencionadas Jornadas de Junho. Mas enquanto o Doutrinador segue a linha de anti-heróis ao estilo do Justiceiro, caçando corruptos um a um, Teocrasília é sobre não somente a corrupção política, mas todo um ambiente político repressor.

Lembro de ter visto, mas fui incapaz de guardar link ou nomes, de um projeto brasileiro de graphic novel sobre um transsexual também vivendo em um Brasil de ditadura religiosa há coisa de dois ou três anos atrás, mas não fui capaz de reencontrar a peça. Ou seja... o temor não é somente nosso: não é à toa que O Conto da Aia, fazendo sucesso agora em sua versão no Netflix, é um livro de 1985.

No Catarse, Teocrasília: Extra 2 está ainda em financiamento, havendo nascido do mesmo desafio do primeiro, só que este ano.

Inauguro, feliz, o marcador de quadrinhos com Teocrasília.

UPDATE Agosto de 2020: Teocrasília está com nova casa, a editora Guará.

Teocrasília
144 p.
Editora Caligari

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

O Homem Demolido




O Homem Demolido, (c) 1953

Acabei de ler por esses dias, achei muito interessante.

A ideia é uma sociedade pelo Século XXIV, com aquele otimismo de só quem escrevia FC nos anos 50 pra descrever um sistema solar colonizado. O grande diferencial aqui são os telepatas, membros produtivos da sociedade, que ajudam em vários campos, como psicologia e segurança e que, graças a isso, haviam evitado um assassinato de ocorrer havia bastante tempo -- e, para a trama, é quando um finalmente ocorre.

Não há mistérios: desde o início sabe-se quem são assassino, vítima e policial. O livro acaba sendo sobre a construção da caçada ao assassino, homem de vastos recursos financeiros, e a personalidade dos dois.

Babylon 5, a série, bebe abertamente desse livro, ao ponto que sua "Psi Corp" tem, no elenco de oponentes regulares, um personagem telepata chamado Alfred Bester, interpretado por Walter "Sr. Chekov" Koenig. Passage Through Gethsemane, o episódio, é sobre os efeitos posteriores da "demolição" de um homem.

O que me leva a pensar como ficaria uma sequência: o assassino é, além de multibilionário, dono de uma personalidade tida como mover and shaker do momento histórico. Como ficaria alguém assim após a Demolição, posto exatamente que aquela não era uma sociedade de carneirinhos obedientes, logo ao final? Até que ponto um excesso de "solaridade" em alguém de tal vontade cuja sombra foi derrotada poderia ser prejudicial?

O livro brinca com conceitos adiante de seu tempo, porém previsíveis até um certo ponto: machine learning aqui é aplicado para a solução de um caso criminoso com probabilidade calculada de veredito final, e na conversa telepática surge o que poderíamos hoje em dia ver como memes e emoticons, para os mesmos fins.

Recomendo.

O Homem Demolido
180 p.
Colecção Argonauta.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Blog Colecção Argonauta

A Colecção Argonauta é um empreendimento editorial português que, a preços módicos e publicações bem baratinhas, publicou em idioma luso centenas de obras de ficção-científica. A resenha que publiquei ainda hoje, Areias de Marte, logo abaixo desta postagem, é duma edição dessa coleção. Há um blog feito e mantido pelo fã João Vagos que é uma pequena obra de amor.

Areias de Marte

Coleccção Argonauta, (c) 1970.

Aviso: spoilers a rodo.

Areias de Marte/The Sands of Mars (1951) é o primeiro romance de FC por Arthur C. Clarke. Como (quase?) toda ficção-científica, é mais um caso em que uma história envelhece rápido e envelhece mal: e isso é ótimo, pois ganha todo um charme retrô.

Temos, no distante futuro dos anos 90, ou mesmo de agora, um personagem principal que vai para Marte a bordo de uma nave de propulsão atômica, a Ares, ao mesmo tempo que saca para anotar suas impressões de viagem uma fiel máquina de escrever mecânica; antes de embarcar sobe até uma estação orbital de transferência e usa ondas de rádio sem imagem para se comunicar com a Terra ou quem quer que seja.

Chega em Marte após alguns meses em queda livre e encontra o planeta, já habitado, com uma colônia estabelecida anos antes espalhada em alguns assentamentos. Precisando de proteção contra a tênue atmosfera de Marte, as cidades nascentes montam domos transparentes para conter a pressão atmosférica necessária e se protegerem do frio glacial típico do planeta: o que não impede que haja formas de vida, especialmente vegetais.

São visões que, se ultrapassadas, denotam hipóteses de um mundo futuro carregadas de otimismo que sempre foi uma das marcas registradas de Clarke, e um parâmetro para se pensar como se acreditava que poderia ser o futuro, mesmo o razoavelmente próximo.

O que mais me surpreendeu, entretanto, é a atualidade - justamente - inesperada da história, pois a colônia de Marte tem um grande problema: ela dá retorno financeiro ou material zero, apenas consumindo recursos. E, passado o deslumbre público de ter se chegado a um outro mundo, o homem comum se pergunta para que gastar impostos em algo tão exótico? E os políticos, é claro, começam a pender para este lado.

Familiar? Pois é. Não deixou de ser assim com o Homem na Lua - ibope caindo a cada nova missão Apollo, a Guerra do Vietnã consumindo outros bilhões - e há todo um questionamento sobre o investimento de se ir a Marte, ou mesmo retornar à Lua.

Entra em cena o diretor do projeto da colônia marciana, Warren Hadfield, disposto a muita coisa para manter a auto-suficiência da colônia, inclusive um gesto "apocalíptico" tremendamente familiar ao leitor, caso ele tenha lido (ou assistido) a 2010 - Uma Odisseia no Espaço II. A chegada em Marte do protagonista, o jornalista Martin Gibson, é tida com um certo receio, pois toda a propaganda positiva é necessária, e qualquer uma negativa pode ser desastrosa - e há planos em andamento...

No final das contas, o livro poderia ser mais um travelogue de Gibson, mas julgo que a gênese do que seria outra marca registrada - talvez a grande marca - do mestre, o sense of wonder, está lá, ao nos apresentar uma versão futurista da viagem ao local exótico, pois há um peso extra em tudo aquilo que Gibson testemunha: não apenas por ser um jornalista, ele é um escritor de ficção-científica, escrevendo sobre Marte no que parece ser os anos 60 e 70 (não há datas precisas no livro) e agora tendo a oportunidade de ver com os próprios olhos o futuro pretendido por ele, e o quanto errou. Há alguns tantos detalhes técnicos, pela boca de personagens ou pelo narrador onisciente, e devido à profissão do protagonista, até mesmo uma discussão sobre a atualização de histórias de FC, e, quando é assim, o valor que elas têm ou deixam de ter.

Como história paralela, e ainda com a comparação das viagens para o longínquo e o exótico para apenas encontrar a si mesmo; há uma trama sobre o envolvimento de Gibson com um dos tripulantes da Ares, a nave que o leva, uma vez que ele percebe que o jovem um filho que não sabia ter. Infelizmente, é Clarke, e esse desenvolvimento de personagem, o que é bem mais do que em obras suas posteriores, fica apenas no vai-da-valsa.

O tema da auto-suficiência da colônia marciana, cabe notar, aparece em um conto de Isaac Asimov, Nós, os Marcianos (1952, aqui no Brasil publicado pela Hemus), com a opinião pública manipulada por um perigoso populista chegando ao poder na Terra. Essa resenha aqui detalha mais.

O livro nos apresenta algumas ideias que nos ficaram mais conhecidas por obras posteriores: a estação orbital de transferência para uma nave interplanetária, acima citada, gira para obter gravidade artificial, assim como a noção de se chegar a Saturno antes de se alcançar Júpiter, estão em 2001 - Uma Odisseia no Espaço; mas o que chama muito a atenção é a incineração nuclear da lua Fobos, para que forneça o equivalente a "10% da luz solar" assim ajudando na terraformação marciana, lembrando bem a explosão de Júpiter em 2010 em um sol para aquecer e ajudar a desenvolver a vida na lua Europa.

O que me fez até lembrar que Frank Herbert torna a brincar com alguns tantos elementos de Duna em The Godmakers, levando-me a crer que, para um autor, às vezes um livro somente não basta.

Faixa-bônus: e o motivo de se ir a Saturno é por sua lua Titã, em que já se sabia desde 1944 haver metano em vastas quantidades, assim providenciando o combustível para o retorno para casa, nem tão diferente do que pretende o plano de Robert Zubrin para se ir a Marte - e ainda, com direito a se utilizar da gravidade de Júpiter como ponto de manobra para se alcançar Saturno, o que de fato é feito com missões interplanetárias hoje em dia. Nada mal para um livro de 1951, mas estamos também falando do cara que publicou um artigo acadêmico sobre a elaboração de uma rede de satélites artificiais para retransmissão de ondas de rádio mundo afora, ainda nos anos 40.

Até por uma maturidade como escritor, não é o melhor livro que eu li dele. Areias de Marte está muito aquém se compararmos com o que deve ser a fase áurea dele, nos anos 60 e 70. Mas fica pela curiosidade de ter sido seu primeiro romance, divertindo-se com detalhes técnicos mais do que com pessoas e, pelo seu protagonista, tendo a curiosa consciência de que FC pode envelhecer rápido e pode envelhecer mal... :)


Arthur C. Clarke - Areias de Marte
190 p.
Colecção Argonauta.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Canal do CLFC no Youtube

O CLFC agora tem um canal. O FDS CLFC (ver último post), constituído da palestra pelo centenário de Arthur C. Clarke e depois da entrega do Argos, pode ser visto aqui em seus dois eventos.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

FDS CLFC

Retomando o blog... ainda tem alguém por perto? :)

Enfim. 

Dias 15 e 16 de Dezembro agora teremos o que informalmente chamo de FDS CLFC: um fim de semana de atividades do Clube de Leitores de Ficção-Científica.

No sábado, 16 teremos a cerimônia de entrega do Prêmio Argos 2017 de Literatura Fantástica, para os mais bem votados nas categorias Romance, Antologia/Coletânea e Conto, que foram publicados em 2016 e sido escritos originalmente em Português. Ano passado tive a graça e honra de ganhar nas categorias Melhor Antologia (junto com Daniel Russel Ribas por Monstros Gigantes - Kaiju, da editora Draco) e Melhor Conto (na mesma obra, "O Último Caçador Branco").

A entrega do Argos se dará na Universidade Veiga de Almeida campus Tijuca às 16h, inserindo-se no evento Tarde Animada, que contará com a exibição de curtas animados de profissionais e estudantes do curso de Design e Animação da casa, iniciando-se às 13h. Mais detalhes aqui

Vem sendo uma experiência interessante organizar o Argos.

Já no dia 15, sexta-feira das 17h às 19h, teremos uma palestra pelos 100 anos de Arthur C. Clarke, com um dos concorrentes ao Argos de Melhor Romance, Alexey Dodsworth, que verte uma palestra internacional sua chamada "Todos Estes Mundos São Seus: A Ética da Terraformação". Haverá mesa redonda e participação do público. 

A entrada para ambos os eventos é franca.


O Segredo do Kelpie


O Segredo do Kelpie é o romance de estreia de Aya Imaelda, creio que seja um Young Adult. Acabei de ler, bem competente, fluido, apresenta estilo sem se perder.

A pesquisa sobre folclore celta como base para uma improvável história de amor é aplicada de modo competente. Os personagens são tipos básicos, mas bem trabalhados, a coisa toda é apresentada e descrita de forma a facilmente visualizarmos. Acho que daria um ótimo longa de animação.

Achei curioso a alternância, lá pelas tantas, do ponto de vista narrativo entre os dois protagonistas, uma vez que havia sido tudo sempre sob o ponto de vista de um deles. Ainda que, pessoalmente, não tivesse sentido maior diferença no discurso entre ambas as personalidades, isso não interfere na compreensão do texto de forma alguma.

Aya Imaelda está de parabéns em sua estreia, e espero poder ler mais desdobramentos em uma cultura que sempre é bem-vinda nas histórias e na qual ela se desenvolve muito bem.
Mais um show de capa da ed. Draco.

Aya Imaelda, O Segredo do Kelpie
232 p.
Editora Draco

domingo, 16 de novembro de 2014

Interestelar


Não deveria se chamar Intergalactic? 

Interestelar tem o grande mérito de ser uma produção hollywoodiana de FC que não é space opera pew-pew-pew: nada contra, mas muito a favor de variedade. Com Gravidade, de Cuarón, talvez aponte para uma saída ocasional dentro do gênero.

Visualmente é estarrecedor, com imagens do sistema solar e além na beleza e quietude de hard science-fiction, desde Saturno com seus anéis até o voo através do wormhole próximo e a tal simulação gráfica de como um buraco negro pode ser que seja aos nossos olhos, realizada inclusive para o propósito do filme. Que o filme bebe diretamente de 2001 – Uma Odisseia no Espaço, é óbvio: aliens transcendentes tentam se comunicar com seres Humanos para fins ou por intenções não exatamente claros. Sendo a comparação inevitável, não me furtarei à ela.

Outro tema que pode ser ligado a 2001 é o da viagem ao desconhecido, e todos os riscos envolvidos. Viagem e solidão estas que em 2001 não usam de um componente importante como sendo o de quem você deixa para trás. A saudade que aperta e não pode ser recuperada, esse fator humano é posto de lado na obra de Kubrick/Clarke. Entretanto, a solidão do viajante é perturbada pela presença de mais de duas pessoas (Frank Poole estava com Dave Bowman até o famigerado “acidente” com a unidade na antena AE-35) e, principalmente, pela fala. No que 2001 é um dos filmes mais silenciosos da era do cinema falado, fala-se pelos cotovelos em Interestelar.

Percebam: o filme começa bem, com um discurso – é meio cheio deles… – sobre a necessidade do voo espacial enquanto fomentador de sonhos e inspirações das gerações futuras. Isso é MUITO bem-vindo nos dias que passam, extremamente feliz ao ser aventado, pena que tão pouco aproveitado, e não mais citado – explicitamente – mais tarde.

Agora, quando leis da física e do que não é física nem aqui, nem na China, começam a ser elaborados e elucubrados, a coisa fica rocambolesca e o que é pior, com ares de seriedade desnecessários. Mas já com seus “Batmans” (ok, não gosto deles), o diretor Christopher Nolan me parece que sofre deste mal.

O roteiro de 2001 é de Arthur C. Fucking Clarke: não somente escritor de ficção-científica extraordinaire, mas também matemático, sempre antenado com as mais recentes descobertas científicas das quais usava para montar suas tramas, sendo conhecido como um expoente da ficção-científica hard.

O de Interestelar é por Kip Thorne, físico teórico de mão cheia, cuja obra inspirou o filme também atuando como consultor científico e produtor-executivo. Também escreveu "A física de Interestelar", e um amigo físico disse que a parte da astrofísica está ok, até onde ele viu: abaixo dessa esfera é que estão os probleminhas de concessão em prol do plot.

Bem, não vou me estender aqui, para não bancar o chato: mas se você vai propor uma história de hard s. f., então não sugira planetas habitáveis em órbita de buracos negros. Não me parece que façam bem à existência – at all, inclusive – de cadeias de hidrocarbonetos e outros etcs.

O resultado é que Nolan mira no Kubrick, mas acerta no Spielberg.

A pecha para filmes grandiosos está lá, mas não a liberdade de algum “family magic” em que finais felizes e valores familiares acima de tudo devem imperar, mesmo que destoem do que parece ser o filme, originalmente: no caso, a premissa do abandono de quem se ama. O trecho final do filme parece servir à “ditadura da felicidade”, lembrando-me de Inteligência Artificial, não por acaso um filme de Kubrick assumido por Spielberg, sendo uma montagem meio rápida, sem maiores explicações, para garantir o final feliz, o reencontro e o amor acima das dimensões – até O Quinto Elemento resolve isto melhor... –; ficando apenas sugerido a concretização do discurso inicial do filme: uma civilização como a nossa, que desistiu oficialmente do espaço, volta triunfante a este caminho. "A Humanidade nasceu na Terra, nunca foi dito que deveria morrer nela."

São quase três horas de projeção, realmente, não bebam muito antes da sessão.

EDIT: Uma atualização em 20/03/15

De fato, a ditadura da felicidade arruinou este que poderia ser um grande filme, mesmo, segundo matéria do io9.com:

Jonathan Nolan's much more straight-forward ending "had the Einstien-Rosen bridge [colloquially, a wormhole] collapse when Cooper tries to send the data back."

So no tesseract (that was Christopher's idea), no time manipulation, and no return home. Nolan didn't elaborate on this point, but we might speculate that the original end to the movie was as dark and unforgiving as space.

So it sounds like that would have been the end for Cooper. He would have sent the data without knowing if it had reached Earth or if the people back home would be able to use it. There would have been no reunion with Murphy and no raising babies with Dr. Brand. Cooper would try to be the hero, but he wouldn't get to see if he succeeded — none of this "love transcends dimensions of time and space" mumbo-jumbo.

sábado, 16 de novembro de 2013

A Ilha dos Dissidentes


A Ilha dos Dissidentes, ed. Gutenberg

A Ilha dos Dissidentes é o romance de estreia da brasiliense Barbara Morais, e segue pelo nicho de mercado do young adult, lugar este que ultimamente tem rendido populares acertos juntos com a Ficção-Científica.

Nele, em uma sociedade séculos à frente, transformada por guerras, divide-se em dois grandes blocos mundiais em oposição um ao outro, enquanto mutações levam à geração das aberrações, indivíduos com os genes alterados o suficiente por radiação, armas químicas e mesmo tempestades solares que acabam nascendo com superpoderes.

Como o nome indica, as aberrações são tratadas como cidadãos de segunda categoria, ferramentas e mesmo armas no conflito das duas nações, obrigadas a se vestirem de forma que as distinguam como tal e, a qualquer momento, podendo ser enviadas a missões mortais pelo regime. Vivem em cidades para elas somente, não sendo necessariamente desconfortáveis (Pandora parecia um ótimo lugar para se viver, aliás).

Narrado do ponto de vista da protagonista Sybil, uma órfã sobrevivente de um naufrágio (onde descobriu ter poderes) que chega a Pandora, cidade de aberrações, e cai em uma família adotiva amorosa, faz amigos e coisas do tipo - quando acaba sendo convocada pelo Estado...

O livro é uma boa aventura - e a isso se propõe - e ótima estreia da autora, terminando com bons ganchos para as sequências: é o primeiro duma trilogia, conforme na capa.

Contudo, cabia um melhor tratamento na revisão do texto.

A autora contou que teve a história inspirada após uma aula de Ciências Políticas, o que faz bastante sentido. FC tem sempre a chance de questionar a condição humana ao oferecer-se como metáfora da mesma, extrapolando em um cenário extremo ou simplesmente estranho. Cenário que, no caso, encontra eco nos quadrinhos, impossível não se lembrar, face a condição das aberrações, a Irmandade dos Mutantes da Marvel e seu líder, Magneto - embora esta não seja a condição aqui. Bem, não nesse primeiro livro... :)

Bom começo. Que venham as sequências.


Barbara Morais - A Ilha dos Dissidentes
304 p.
Editora Gutenberg.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A espada e o autógrafo...

A belíssima capa da nossa antologia.

E ontem foi o lançamento oficial - o livro já está à venda faz um tempinho - da coletânea Excalibur, da qual participo com meu prezadíssimo Daniel Bezerra com um conto, Momento Decisivo. É um conto baseado na lenda do encontro de Lancelot com o cavaleiro Turquine, transportado séculos e séculos à frente, em um contexto de space opera.

Foi um prazer à parte, pois fiz com um amigo meu e grande entendedor de all things arthurian. É bom quando um sócio em uma empreitada também é seu amigo pessoal, e de anos. Espero haver mais oportunidades assim.

E aí, ontem, como eu disse, foi o lançamento - e, claro, pra que um blog, não é mesmo, se você se esquece de avisar sobre isto aqui? Sentei-me com outros autores presentes da antologia, assim como Ana Lúcia Merege, a organizadora, em uma mesa, para... dar autógrafos.

Mês passado Mr. Draco, o editor Eric Santos, esteve no Rio e brevemente nos encontramos. Outro autor também estava lá, e um exemplar lhe foi dado diretamente. Eric pediu: "Assina pra ele".

Eric me pediu. Eu. Dando autógrafo.

Levei um tempo olhando para as páginas de abertura do nosso conto, com meu nome e de Daniel, babando um pouco. De ver algo assim publicado (prazeres aliás que Daniel teve ao rachar os créditos de Pura Picaretagem, com Carlos Orsi, um pouco mais cedo ainda neste ano), nome ali e tudo o mais.

E aí, ontem. Na incrível livraria Blooks, que sempre acolhe os eventos dos malucos de FC e afins. Ontem eram duas coletâneas, a nossa e Solarpunk, organizada pelo Gerson (da qual infelizmente não participei). Amigos, conhecidos e desconhecidos presentes... e eu dei autógrafos.

O primeiro foi dado a outro colega de antologia. Pensei em algo mais ha-ha-há, e assim fiz. O problema foi a noite inteira. Colei dos coleguinhas, mais safos e vividos do que eu, desejando uma boa leitura. Sim, isso era bom, sincero e enxuto. Podia repetir quantas vezes fosse. Erro de principiante, decerto. Mas assinei, assim mesmo. :)

Bobagem, claro. Mas uma bobagem de um sabor legal, se me dão licença.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Cavalo-Marinho do Céu

Cavalo-Marinho do Céu, ed. Hemus

Este livro foi escrito por Edmund Cooper em 1969, e conta a inusitada história já familiar hoje em dia de um grupo de desconhecidos que desperta em uma paisagem estranha, com elementos familiares que somente aumentam o grau de estranheza (uma rua com somente um hotel vazio, super-mercado logo à frente, também vazio), após terem sido abduzidos do voo em que viajavam.

Juntos, eles aprendem a unir esforços para descobrir onde estão e quem são seus misteriosos sequestradores, entrando em contato com dois outros grupos de seres humanos de origem adversa e nível tecnológico diferentes.

Se por um acácio você está pensando em "Lost", não deixa de ter razão. Posso garantir, entretanto, que o final não somente é surpreendente como faz sentido.

Nunca li nada do autor, mas gostei das ideias apresentadas. Talvez sob certos aspectos a história esteja um pouco defasada, com poucos conflitos dos membros do grupo principal da história, e menos ainda com os dois outros grupos. Os personagens centrais, apesar de serem simpáticos, não me pareceram bastante desenvolvidos, mas isso pode ser gosto pessoal meu.

Edmund Cooper - Cavalo-Marinho do Céu
221 p.
Hemus - Livraria Editôra Ltda.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

The Europa Report



SPOILERS!!!!!

Um bom filme de FC com tendências hard, sendo mais focado nas reações humanas do que qquer outra coisa, The Europa Report é um filme realmente de exploração espacial: o questionamento sobre sacrifícios em prol do conhecimento é algo que faz muito tempo que não vejo por aí.

Algumas coisas que eu achei meio "em prol do drama", que acaba sendo sempre mais importante do que verossimilhança: achei as duas primeiras mortes desnecessárias, no sentido de deveria haver melhores protocolos de segurança: e cadê uma boa mochilinha atividade independente, que já existe desde os anos 90? E atividades lá fora com apenas uma pessoa? Nego não pôs astronautas em dupla pra andar na Lua no programa Apolo à toa.



Ocorreu-me que - e isso não é demérito - o filme é como se fosse um trecho curto do livro 2010-Uma Odisseia no Espaço II expandido para um filme inteiro: o desastre da Tsien, em Europa, por formas de vida que dependem de luz para sobreviver.

O filme tem a estética de câmera de segurança, meio reality-show, como coisa de uma dúzia de filmes e séries dos últimos dez anos têm apresentado. Recomendo.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Edgar Alan Poe - Contos do Terror


Edgar Allan Poe - Contos do Terror  - Newton Compton Brasil (1995)

Pela Coleção Econômicos Newton, adquiri esta coletânea daquele que é considerado como mestre por H. P. Lovecraft. Um dos autores mais influentes no gênero terror-gótico, também foi menosprezado em sua época, somente depois de sua morte sendo descoberto primeiro na Europa (por Baudellaire) para depois, nos EUA, ter o reconhecimento tardio: Edgar Alan Poe (1809 - 1949).

Só o conhecia mais de fama e de que tanto falam do que, realmente, por obra. E da obra, só conhecia O Corvo, talvez seu escrito mais famoso - e que sempre muito gostei, apesar de uma certa resistência interna à poesia.

A intenção deste volume foi, do que entendo, reunir os textos de Poe mais "explícitos" em relação ao sobrenatural. São eles O gato preto, A queda da Casa de Usher, O enterro prematuro, O coração denunciador, Uma descida no Maelstrom, O manuscrito encontrado em uma garrafa e O poço e o pêndulo.

Narrados em primeira pessoa, o personagem - sem nome - sempre está sob uma ameaça constante, real ou imaginária, de alguma força que, percebe logo ou não, está além de seu controle. São as descrições de cada momento, do oprimir de cada batida do coração, da respiração que vai pesando, dos passos cada vez mais pesados, até o final. São narrativas claustrofóbicas, antes de mais nada - O enterro prematuro que o diga.

Eu não sou crítico literário, sou apenas prolixo. Vou então me alongar naquilo que me fez sentir, como de hábito.

Eu achei que O gato preto talvez seja a melhor história de terror/horror. Não só pela questão do gato em si, mas da maldade inerente do personagem, que se diz bom quando mais jovem, mas que agora cometia maldades pelo bel-prazer da coisa, não obstante ainda reconhecer que o mal feito ao outro era o mal feito a si mesmo:

"Quem não se viu centenas de vezes realizando uma ação vil ou estúpida por nenhum motivo, exceto o de que não deveria realizá-lo? Não somos dominados por uma eterna tendência a violar, apesar das nossas melhores intenções, aquela que é a LEI, somente porque sabemos que é essa que estamos infringindo? Este espírito de perversidade foi a causa de minha completa desgraça. Foi essa insondável propensão da alma a torturar a si mesma - a violentar a própria natureza - a fazer o mal somente pelo prazer de fazê-lo - que me induziu a continuar e a levar até o fim a ofensa que tinha infringido ao inocente bichinho. Uma manhã, a sangue frio, deslizei um laço no pescoço dele e enforquei-o no galho de uma árvore; enforquei-o enquanto lágrimas caíam dos meus olhos e o remorso mais atroz torturava o meu coração. Enforquei-o porque sabia que ele me amara e porque não me dera nenhum motivo para sentir-me ofendido - enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado - um pecado mortal que colocaria minha alma imortal de maneira a pô-la, se isto fosse possível, fora até do alcance da infinita misericórdia do Deus Mais Misericordioso e Terrível." 

Cheerful, hm?

Essas considerações me fazem lembrar alguns escritos na coletânea da Novo Século Eu Sou A Lenda, de Richard Matheson, que já comentei aqui no blog, que também versa muito bem sobre a bestialidade humana... é o conto que mais me impactou.

Time's up.

De resto, pareceu a mim que Poe - com o risco de estar "descobrindo" alguma pólvora - às vezes torce por finais felizes. Exigências de mercado? Em O gato preto e O coração denunciador, seus personagens assassinos agem de forma a estragar seus crimes perfeitos: a Justiça é servida. Enterro prematuro e O poço e o pêndulo trazem a salvação no último segundo. Em Descida ao Maelstrom, bem ou mal o protagonista sobrevive, ainda que sorte semelhante não pareça ter ocorrido ao de O manuscrito encontrado em uma garrafa - dois contos onde o mar é o grande inimigo. A queda da casa de Usher também não termina exatamente bem, e nos apresenta a noção da decadência espiritual dos habitantes de uma mansarda se misturando com a decadência física da moradia.

O estilo de época, para o filisteu que infelizmente também posso ser, cansa-me um pouco, com seus excessos e minúcias sobre estados emocionais - sim, Romantismo, eu sei. Mas é claro que há momentos. Os ratos fazendo a festa sobre o corpo do protagonista em O poço e o pêndulo não me deixarão dormir mais cedo - contos do torror? Missão cumprida.

Edgar Allan Poe - Contos do Terror
94 p.
Newton Compton Brasil

John Carter - Entre Dois Mundos



Ok, o que deu de errado?

No elenco, um trio parada-dura diretamente da magistral Roma, da HBO: Ciarán Hinds (o imortal Júlio César), James Purefoy (Marco Antônio) e Polly Walker (Atia dos Julii, Evil Matriarch por excelência), esta emprestando a voz para uma personagem feminina vilanesca (outra...) digital mas que, apesar de alguma relevância no livro, no filme fica completamente em segundo plano. Sob maquiagem digital estão ainda William Daefoe como Tars Tarkas e Samantha Northon como Sola, mostrando o rosto temos os vilões Dominic West (cuja carreira já valeu pelo McNulty de The Wire, outro gol de placa da HBO) e Marc Strong (Lord Blackwood do primeiro Sherlock Holmes, e ótimo vilão full-time).

Sério, um elenco desses... e tudo o que se consegue fazer é John Carter - Entre Dois Mundos? Nada contra um filme baseado neste personagem que vem da proto-ficção-científica, da mesma pena que nos deu Tarzan dos Macacos: mas algo contra este filme.

Talvez parte do prejuízo de bilheteria que a Disney amargou seja exatamente por apostarem no rosto bonito dos protagonistas, do que no talento ao redor escolhido para servir de escada para eles (coisa que dá incrivelmente certo em O Homem da Máscara de Ferro, com Gerárd Depardievski, Gabriel Byrne, John Malkovich e Jeremy Irons subalternos a... Leonardo diCaprio: mas o tempo de participação de tela é bem mais presente aqui do que os acima, isto qdo não sob maquiagem digital...).

Talvez parte seja porque, como todos os filmes acima de uma escala orçamentária, os produtores ficam nervosos e empurram fórmulas e rostos/nomes de sucesso, independente de talento ou o melhor nome para a melhor função.

Talvez parte tenha sido o fato de ser um filme da Disney, com piadinhas e bichinhos inevitáveis.

Não acho que tenha sido por qualquer purismo: a história de John Carter, e sua personalidade, estão bem modificadas, envolvendo os três primeiros livros e mais o que veio dos roteiristas. Ninguém mais sabe o que foram esses livros, não ao ponto de formar uma base de fãs irritante ou algo assim.

Eu só consigo lamentar neste filme o grande desperdício de senhores atores. Sempre ouvi falar que um diretor de animação pode dirigir um filme live action. Depois de assistir isto, tenho dúvidas. Não lembro de ter visto o desperdício de nomes assim. Não sei se porque Andrew Stanton (Wall-E) ignorou o potencial, ou o roteiro foi futucado a não mais poder, ou o quê...

No final das contas, é apenas um filme mediano. Que custou um quarto de bilhão de dólares e, mundo, arrecadou somente pouco abaixo de 283 milhões.

(Por último: de bomba em bomba, os protagonistas Taylor Kitsch e Lynn Collins também participaram de X-Men Origins: Wolverine, como Gambit e Silverfox: alguém precisa de um agente melhor).

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Frankenstein ou o Prometeu Moderno


Frankenstein ou o Prometeu Moderno - Editora Nova Fronteira (2011)

Já foi dito que, se Julio Verne e H. G. Wells foram os pais da Ficção-Científica, Mary Shelley foi a mãe.

A moça em questão escreveu Frankenstein ou o Prometeu Moderno, que acabei de ler pela primeira vez. Mil coisas na cabeça... a primeira sendo: esqueçam os filmes, a viagem do livro é uma própria. Como bem me disseram, talvez seja a diferença entre "baseado em" e "inspirado por". Os elementos que se associaram ao imaginário popular se deve aos filmes da Universal, onde em um castelo isolado um cientista desprezado pelos seus pares, tendo como único assistente um corcunda abrutalhado, desafia o que ele chama de convenções engessadas contra o progresso da Ciência e, em uma noite tempestuosa usa os relâmpagos para reanimar um corpo composto de diferentes cadáveres, em uma das mais antológicas cenas do cinema. Seu sucesso acaba se tornando sua ruína.

A ruína e a eletricidade estão presentes. Mas, salvo a solidão, esqueçam o resto. Pode ser um pouco decepcionante: anos atrás eu lera O Diário de Frankenstein (1980), que se baseia mais no universo composto do cinema do que na obra de Shelley. Todas as referências vão pelo cinema, onde quer se vire - mesmo o filme com Robert deNiro toma suas liberdades.

Young Frankenstein' and Gene Wilder's Neighing Legacy - PopMatters
Não este Frankenstein.

Então, privado do histrionismo eletrodinâmico, castelos decrépitos e turba enfurecida, o que nós temos?

Uma história sensacional, com diversas possibilidades de leitura e interpretação.

Existe um fascínio todo próprio, ao meu ver, na figura de Frankenstein - Victor, não a Criatura, esta nunca teve um nome, na verdade - enquanto homem de Ciência. É contado como ele, jovem, deixa-se inspirar pelos livros de filosofia natural de Cornellius Agripa, Paracelsus e Albertus Magnus: sábios medievais que, apesar da falta de tecnologia da época, nunca deixaram de investigar fenômenos naturais, ponderando sobre o que causava, recheando as explicações que davam com uma boa dose de observação, intuição e tremenda imaginação.

Ao prosseguir para a Academia, Victor se vê despojado de seus heróis do conhecimento, ao ser ridicularizado por um dos professores, enquanto que outro, mais atento às sensibilidades e sede por conhecimento, orientou-lhe mais gentilmente no Bom Caminho. Já havia tido uma certa perda de fé anterior, quando um relâmpago destrói um grande carvalho próximo de onde morava, e o fenômeno foi-lhe devidamente explicado por um naturalista mais atualizado em como o mundo funcionava; Victor mergulhou em seus estudos, fascinado pela ideia da relação entre tecidos animados e galvanização. Dado o tempo e obsessão no que acaba se envolvendo, ele acaba criando sua forma de vida particular.

É essa transição entre o mago e o cientista, para mim, um dos aspectos mais fascinantes do livro. No Século XVIII, a Ciência mais e mais se calcava em fatos obtidos através de experimentações, ao invés de observação e especulação dos períodos anteriores: a tecnologia havia progredido, para tal. E eu acho que Victor Frankenstein desempenha estes dois papeis.

Victor, o cientista, aprende a instrumentação e inteira-se sobre o mundo da Química qual havia na época, em que sua educação superior podia ter acesso. Em nenhum momento ele discute teorias radicais - como, nos filmes, é dado a crer - com seus pares, nem é expulso da Academia. Entretanto, Victor, o mago, o discípulo dos filósofos naturalistas do passado, que em sua adolescência chegou a tentar evocar espíritos e realizar rituais, consegue o impossível.

Boris Karloff: icônico, se por mais nada.

Uma coisa que notei foi a presença de diversos cenários naturais ao longo da história. Penso se não há  outra dualidade presente aqui: a Natureza é retratada como eco do estado de espírito dos personagens, tanto na alegria quanto na tristeza, e sobretudo, na solidão (há uma ótima passagem assim logo antes de Victor reencontrar Criatura em Genebra, onde a majestosa vastidão ao seu redor ecoa em sua solidão, elevando seu espírito).

Da mesma forma, ela é retratada tanto em sua beleza (os lagos e montanhas suíços) quanto em sua fúria (as vastidões geladas e traiçoeiras do Pólo Norte), mas mesmo na pior tempestade, de alguma forma ela pode vir a ser fonte de inspiração: mas quando se cruza certos limites, e força-se o controle das leis Naturais a um tal ponto, as coisas realmente ficam feias.

Futurama nails it again.

Em um terceiro ponto, parece notar que a vida natural, sob um certo ponto, é mais saudável, mais feliz. Conhecimento obtido gera angústias, dor e inquietações: Frankenstein era feliz com seu pseudo-aprendizado científico, e a Criatura não sabia o quão miserável realmente era até se ilustrar, e as interações fracassadas com a Humanidade minam-lhe a índole e a boa vontade. Está aí, vejo eu, o debate nature x nurture, ou: o Homem é bom, por natureza? A vivência o corrompe? Ou a medida está entre algo instalado na ROM de cada um e as escolhas que se faz, dia a dia?

Apesar de um tom sombrio que o romance lança sobre a Ciência, é dito que Mary Shelley era bastante otimista sobre o assunto, ainda que desaprovasse o que ela via como excessos de cientistas, isoladamente. Dentro da alusão mitológica de Prometeu, o titã que deu o fogo à Humanidade, há ainda relacionado a ele Pandora, a primeira mulher, que em uma caixa trazia todos os males do mundo: havendo sido aberta, os males escaparam, mas a tampa foi fechada a tempo de conter a esperança, ou ainda, a providência, a capacidade de raciocinar sobre o futuro, causas e consequências. Omitir-se ou renegar, qual o que Frankenstein fez com sua paternidade, não é opção.

E isso vale em qualquer época.

Frankenstein ou o Prometeu Moderno
248 p.
Editora Nova Fronteira - Coleção Saraiva de Bolso.